Reis Magos
De mago e de rei, todos temos um pouco
Assim como de sábio, de juiz e de louco
Adiantados, atrasados, parados ou sem alento
Guardamos sonhos maiores que o movimento (AG).

Adoração dos magos. Sarcófago romano do séc. IV, proveniente do cemitério de Santa Inês. Museu Pio Christiano. Roma.
Journey of the Magi, álbum Barry & Beth Hall, A Feast of Songs: Holiday Music from the Middle Ages, 2002.
No friso de um sarcófago romano do séc. IV, figuram os três reis magos e respectivos camelos. Parecem clones. A estrela paira sobre a cabeça de Maria. Não há sinal do burro nem da vaquinha. O menino nasceu crescido. A música medieval, Journey of the Magi, é pequena mas encantadora.
Dois dedos acima da lama
Tenho-me distraído à procura de documentação sobre a música e as danças mouriscas. Encontrei no livro Trachtenbuch (c. 1530), de Christoph Weiditz, uma série de gravuras, retratando mouriscos (ver Figuras 1 e 2). Mas o que cativou o olhar foram os socos (patten), partes de calçado relativamente elevadas sobre as quais se colocavam os sapatos. Lembram os patins. Os socos protegiam os sapatos, frágeis e caros, da lama e dos detritos das ruas. Outro uso fazia a nobreza, mais estético e estatutário. Em casos extremos, os socos eram tão altos que a pessoa não conseguia andar sem apoio (ver Figuras 4). Conhecia o uso medieval dos socos. Desconhecia estas ilustrações.

Fig 02. Mourisco transportando pão. Trachtenbuch, de Christoph Weidiz. 1530s.
Os socos (patten) subsistiram pelo menos até ao século XIX. Vários pintores os incluíram nas suas obras. Por exemplo, Albrecht Durer, Hans Memling e Hieronymus Bosch. No quadro O Casal Arnolfini, de Jan Van Eick, aparecem, nítidos, no canto inferior esquerdo (ver imagem do quadro em alta resolução: 3087×4226) .
Galeria de Imagens
As mui ricas horas
O Tendências do Imaginário dedicou dois artigos ao modo como a vida no campo é retratada na arte: a obra de Jean-François Millet (Pintar o Campesinato: Jean-François Millet) e o Luttrel Psalter
(Pintar o Campesinato: O Luttrell Psalter). Chegou a vez das Très Riches Heures du duc de Berry. “Um expoente dos livros iluminados”, que levou 77 anos a concretizar. Os autores foram os Irmãos Limbourg, entre 1412 e 1416; Barthélemy van Eyck (?), na década de 1440, e Jean Colombe, entre 1485 e 1489. O livro contempla, entre outras iluminuras, os doze meses do ano com as respectivas actividades típicas.
Sobreviveram milhares de livros de horas. Provenientes, principalmente, das oficinas de Paris e de Flandres, a sua produção resultava cara e demorada. Acontecia, como no caso do Très Riches Heures, o destinatário falecer antes da conclusão do livro. A obsessão pela salvação da alma convivia, nesses tempos, com o “amor pela imagem”. Mas não vivemos nós na era da imagem? Somos, graças a Deus, a era de tudo. Olhar para trás é capaz de fazer bem ao pescoço e à cabeça!
Durante a Idade Média e o Renascimento, o valor dos livros de horas era de tal ordem que as pessoas faziam questão de os colocar nos retratos. Um símbolo de piedade, mas também de estatuto. No célebre quadro O banqueiro e sua esposa (1514), de Quentin Massys, a esposa tem um livro de horas nas mãos.
Galeria de imagens. Les Très Riches Heures du duc de Berry. Meses do ano.
Prazer
“O homem nasceu para o prazer: sente-o, dispensa mais provas. Segue assim a razão ao entregar-se ao prazer. Mas sente amiúde a paixão no seu coração sem saber como começou.
Um prazer verdadeiro ou falso pode igualmente satisfazer o espírito. Que importa que esse prazer seja falso, desde que estejamos persuadidos que é verdadeiro?
À força de falar de amor, ficamos apaixonados. Nada mais fácil. É a paixão mais natural no homem.
O amor não tem idade; está sempre a nascer”
(Blaise Pascal, Discours sur les Passions Amoureuses, 1ª ed. 1652-1653).
Pascal escreve sobre o prazer e o amor. A tapeçaria do Museu de Cluny exibe um breviário de prazeres: o banho, a nudez, a música, as jóias, as iguarias… A iluminura do Codex Manesse versa sobre o prazer que Pascal mais enaltece: o amor. Jacques Brel canta um paradoxo: “Quando só nos restar o amor, teremos o mundo inteiro nas mãos”.
Gosto de Pascal, da arte medieval e de Jacques Brel. E tu?

Tapeçaria. Finais do séc. XV. Museu Nacional da Idade Média. Cluny, Paris.

Codex Manesse, Herr Conrad von Altstetten, c1340, Zurich.
Carregar na imagem para aceder ao vídeo.
Jacques Brel. Quand on a que l’amour. Jacques Brel 2 (estreia em 1957).
O parto na Idade Média
Há 25 anos, numa praia alentejana, um amigo brincou com o teste de gravidez: “Que vais fazer a Odemira? Urina em água com camarões; se morrerem, estás grávida!” Assim se arremedavam as artes de divinação do Antigo Egipto, cujo teste consistia “em urinar durante alguns dias para cima de sementes de trigo ou de cevada, se a cevada crescesse nasceria um rapaz, se crescesse o trigo, seria uma rapariga. Se não crescesse nada era porque a mulher não estava grávida” (http://apontamentoshistoriamedieval.blogspot.pt/2010/10/gravidez-na-idade-media.html).
Na Idade Média, também existiam “testes de gravidez”. Tão infalíveis como o dos camarões. A fecundidade era um valor prezado pela sociedade, sendo mais desejado um rapaz, um varão, do que uma rapariga. A ausência de filhos era uma falta próxima do pecado. A culpa era sempre da mulher. Não faltavam as mezinhas, mais ou menos mágicas, para engravidar. Por exemplo, deitar-se rodeada de bonecas.
A gravidez era encarada como uma situação excepcional, de ordem sagrada. Isentava a mulher grávida de obrigações, tais como assistir às cerimónias religiosas ou ser citada, ou castigada, em justiça.
Eram correntes os partos em posição sentada. Por vezes, a parturiente permanecia de joelhos ou, eventualmente, de pé. (http://www.racontemoilhistoire.com/2014/09/02/devenir-mere-au-moyen-age-croyances-rituels/). Havia cadeiras próprias para o efeito. Durante a gravidez era habitual a devoção a Nossa Senhora do Ó, a “Virgem barrigudinha” (http://silentstilllife.blogspot.pt/2010/05/o.html). Esta devoção justificava-se. Naquele tempo, era mais arriscado parir do que guerrear. A mortalidade era elevada, para a mãe e para o filho.
In Vino Veritas
No inverno, entre São Martinho e São Nicolau, castanhas e vinho! Num fresco de Pompeia, do século I, Baco aparece todo vestido com uvas (figuras 1 e 2). O vinho, apreciado pelos antigos egípcios, gregos e romanos (figuras 3 e 4), conhece na Idade Média um franco recrudescimento. Graças, sobretudo, aos monges e aos mosteiros (figura 5). Existem muitas iluminuras e tapeçarias medievais alusivas ao vinho. Selecionei uma pequena mão cheia.
Nas Très Riches Heures du Duc de Berry (1400), uma vindima ilustra o mês de Setembro (figura 6). Nas Grandes Heures de Rohan (1415), uma iluminura contempla o ciclo do vinho: vindima; transporte; pisar das uvas; introdução do vinho nas pipas (figura 7). A tapeçaria exposta no museu de Cluny, do início do séc. XVI, acrescenta a imagem de uma prensa mecânica, a lembrar uma lagareta (figura 8). Dá o cacho de uvas tantas voltas para um dia transbordar das taças, bebido em companhia (figura 9), e, por vezes, em demasia (figura 10).
- 01 Baco e o Vesúvio. Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Fresco. Séc. I.
- 02 Baco e o Vesúvio. Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Fresco. Pormenor. Séc. I.
- 03 Vindima e prensa das uvas. Mosaico. Igreja de Santa Constanza. Roma. Séc. IV.
- 04 Mosaico alusivo à vinha e a vinificação. Igreja dos Santos Mártires Lot & Procopius. Khirbet Mukhayyat, Jordânia. Séc. VI.
- 05 Iluminura. Monge a provar o vinho. Aldobrandino of Siena. Li livres dou santé. British Library. Séc. XIII.
- 06 Très Riches Heures du Duc de Berry. Mês Setembro. C. 1400.
- 07 IGrandes heures de Rohan. Mês de Outubro. Maître de Rohan, Anjou. 1415.
- 08 Vinificação. Início do séx. XVI. Museu de Cluny.
- 09 Tapeçaria de Bayeux. Séc. XI
- 10. L’ébriété. Ibn Butlan, Tacuinum sanitatis, ca. 1395, Paris.
Violência e desporto
“Um dia, hei-de produzir uma curta-metragem sobre dois amigos, os maiores amigos, que começam a lutar a brincar e acabam a lutar até à morte” (AG).
O ser humano não é imune à violência. E não há vacinas. Tem que lidar com ela. Se o souber fazer, tanto melhor. E quando alguém garante que quer acabar com a violência, isso significa que pretende, de facto, deter, segundo a expressão de Max Weber, o monopólio da violência legítima.
“ É preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências nos salvam das grandes. Quem sabe, se não comêssemos os bichos, comeríamos gente com o seu sangue.” (Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, 1969)
O confronto desportivo violento retratado no magnífico anúncio Come and See, da Canon, é uma réplica do “calcio” medieval, uma prática disseminada em vários países da Europa. Em Inglaterra tinha várias designações: football, camp ball, hurling…
“Nestes jogos, a bola era carregada, lançada e golpeada com pauladas e chutes. As partidas eram jogadas da mesma forma pelas ruas da cidade e nos campos. O número de jogadores variava, não estava formalmente restringido, e algumas vezes superava os milhares. Não havia igualdade no número de participantes de cada grupo. As regras eram oral e localmente definidas – em oposição às escritas, padronizadas e sancionadas por um órgão de governo, central” (Dunning, Eric, citado em Boschilia, Bruno, Futebol e Violência em Campo, dissertação de mestrado em Educação Física, Universidade Federal do Paramá, Curitiba, 2008, pp. 65-66).
“Durante séculos este jogo foi em muitas regiões do país o passatempo favorito das pessoas, uma forma de se divertirem com uma bola de futebol, quer se verificassem ou não ossos partidos e narizes ensanguentados, embora para as autoridades isso fosse considerado um comportamento anti-social (…) Algumas pessoas eram multadas ou enviadas para a prisão por participarem nestes jogos desenfreados. Talvez o costume tivesse desaparecido aqui ou acolá durante um certo tempo. Se assim era, continuava noutros lugares. O próprio jogo excitante não morrera” (Elias, Norbert & Dunning, Eric, A busca da excitação, Lisboa, Difel, 1992, p. 260).
Marca: Canon. Título: Come and See. Gladiatorfootball. Agência: JWT. Direção: Jonathan Glazer. UK, Setembro 2014.
Apetece-me terminar com uma provocação. Quando quero alfinetar os colegas ou os alunos, confidencio que tenho aprendido mais sociologia com alguns romances do que com a maioria dos livros da especialidade que me foi dado ler. E agravo a situação, dando alguns exemplos: a Educação Sentimental (1869), de Gustave Flaubert; Em busca do tempo perdido (1913-1927), de Marcel Proust; A Montanha Mágica (1924), de Thomas Mann… Pois, agora, encontrei uma nova provocação. Sinto-me mais induzido a sondar os fenómenos sociais graças aos anúncios publicitários do que graças aos artigos da especialidade, com ou sem factor de impacto. Dir-me-ão que o que conta não é a embalagem mas a cabeça que a molda e que a preenche. Também me parece.
Esqueletos vampiros
Na Polónia, na Bulgária, na Irlanda e na Itália foram descobertos túmulos medievais com esqueletos de corpos brutalizados: pedras e tijolos enfiados na boca, cabeça entre as pernas, corpos cravados com estacas… São “esqueletos de vampiros”. Pertenciam a cadáveres passíveis de se tornar vampiros. Impunha-se evitar a saída do túmulo. Macabro? Sem dúvida, mas “somos homens: nada do que é humano nos é estranho” (Terêncio). Aliás, esqueletos vampiros soa-me algo familiar, soa-me a vampiros sem esqueleto. Seguem o documentário Vampire Skeletons Mystery, da National Geographic, mais os “Vampiros” de José Afonso.
National Geographic. Vampire Skeletons Mystery. Documentário. 2012.
José Afonso. Vampiros. Álbum República. 1975.
OVMI (Objecto Voador Mal Identificado)
À memória de Raphael Pividal
Por estranho que pareça, na Idade Média a sexualidade era mais liberta, menos inibida e menos censurada do que nos nossos dias.
“Entre a maneira de falar sobre relações sexuais representada por Erasmo e a representada aqui por Von Raumer, é visível uma curva de civilização semelhante à mostrada em mais detalhe na manifestação de outros impulsos. No processo civilizador, a sexualidade, também, é cada vez mais transferida para trás de cena da vida social e isolada em um enclave particular, a família nuclear. De maneira idêntica, as relações entre os sexos são segregadas, colocadas atrás de paredes da consciência. Uma aura de embaraço, a manifestação de um medo sociogenético, cerca essa esfera da vida. Mesmo entre adultos é referida apenas com cautela e circunlóquios” (Norbert Elias, O processo civilizador, vol. I, Rio de Janheiro, Zahard Ed., 1994, p. 180).
Os manuscritos e as imagens medievais evidenciam esta “curva civilizacional” ao nível do controlo e da expressão da sexualidade. As aventuras de Panurgo no Pantagruel, de François Rabelais, fornecem uma amostra. Nas iluminuras, multiplicam-se, explícitas, as cenas de sexualidade, ora realistas, ora caricatas: árvores que dão falos, coitos, exibicionismos, sodomia… Não as mostro porque estamos no século XXI e este blogue é para todas as idades. A maioria pertence a cópias do Romance da Rosa (1230-1280). Subsiste, no entanto, uma imagem que não resisto a partilhar. Considero-a a mais extraordinária. Pintada entre 1340 e 1345, representa um objeto voador mal identificado (OVMI).
Será um peixe voador como aqueles que Hieronymus Bosch pintou 150 anos mais tarde no tríptico de Lisboa (As Tentações de Santo Antão, entre 1495 e 1500)? Ambos transportam pessoas, mas ao OVMI, o que falta em barbatanas sobra em orelhas. Ressalve-se a existência de uma associação simbólica entre o peixe e o OVMI, por exemplo, na mitologia maia (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982).
Será o OVMI uma vassoura montada por uma bruxa? A nudez confere, mas o dispositivo voador pode ter cabo, mas não tem feixe para varrer. Ora, as bruxas eram muito ciosas das suas vassouras… Não varriam e ainda menos voavam em vassouras amputadas.
Será um pão, um cacete, como o “pão catalão” de Salvador Dali (1932)? Um pão voador? Nada de pasmar, há vários registos do fenómeno. Um restaurante em Singapura chama-se The Flying Bread. Tratar-se-ia, neste caso, de um OVMI pasteleiro surrealista.
O peixe, a vassoura e o pão constituem três hipóteses plausíveis. Acrescento uma quarta: o OVMI é o fruto de uma faleira que tem como propriedade levar o homem e a mulher a cavalgar um peixe voador.
Subsistem, contudo, muitas dúvidas e algumas insuficiências metodológicas. Quer-me parecer que tamanho enigma só pode ser resolvido mediante uma investigação sistemática e aprofundada, conduzida por uma equipa interdisciplinar internacional, com acesso a alta tecnologia, apoiada por uma ou várias fundações mecenas, com publicação dos resultados numa revista estrangeira com factor de impacto.
Gatos Músicos
À minha gata, que tem quatro patas e um rabo.
Esfíngico, o gato é um misto de sabedoria, astúcia e mistério. A exemplo de Garfield, é um especialista em sonho e hedonismo. Mascote predilecta do poder, o gato é associado ao oculto, à bruxaria e à superstição. Maléfico, chega a ser temível (e.g. “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe). Do ponto de vista simbólico, o gato é complexo e ambivalente. Acrescente-se, para complicar, a figura do gato músico, tão comum e apreciada nas iluminuras medievais. Tendências do Imaginário já contemplou o burro músico (http://tendimag.com/2012/11/20/o-burro-e-a-harpa/). É a vez do gato!

06. Book of Hours, Cat beating cymbal, from a marginal cycle of images of the funeral of Renard the Fox, Walters Manuscript W.102, fol. 78v detail.




























