Nas Nuvens
O anúncio Le Monolith, da Mercedes, é todo ele um corpo a corpo com um monólito bruto, erecto como uma provocação divina. Embates humanos esculpem-no a um ritmo endiabrado, sincopado pela música dos Boys Noise remisturada pelos Chemical Brothers. A cinzelagem inicial do skater culmina com o polimento carnal por um casal de dançarinos. Homens e bestas revezam-se num desgaste cósmico, estético, erótico e agonístico. Para criar um ícone : a nova série da Mercedes. “Le film, réalisé par Wilfrid Brimo et Wanda Productions, montre une succession de scènes à la fois brutales, élégantes, énergiques, où des personnages vont progressivement façonner, sculpter un bloc d’une matière indéfinissable qui se révèlera être le Concept GLA. Un skateur va ciseler le bloc, un cerf va l’érafler, un couple de danseurs le polir… Quatre-vingt dix secondes d’un spectacle haletant, émotionnel et neuf en rupture avec les discours tristes, rationnels ou prudents que la catégorie automobile propose aujourd’hui en communication ».
Filho do luxo, brilhante e criativo, este anúncio exala um certo ar de família. Com as devidas precauções, advinha-se a origem francesa. A missão é homérica: renovar a imagem de uma marca consolidada. A ênfase na razão, na confiança e na sobriedade pertence ao passado. Doravante, a “estrela” será desportiva, sensorial e hedonista, na vanguarda da técnica e da arte. Uma rotação de quase 180º. Um último reparo: como diria Carlos Nascimento, profissional de publicidade experiente e meu parceiro de investigação, este é um bom exemplo de um anúncio que vai correr o mundo, inundar os ecrãs, mas que, de facto, se dirige a um target, além de preciso, extremamente reduzido: “les social climbers, ces hommes et femmes dans les plus belles années de leur réalisation”. Em português abreviado, os alpinistas sociais nas nuvens do sucesso.
Marca: Mercedes-Benz. Título: Le Monolith. Agência: BBDO France / Proximity. Direção: Wilfried Brimo. França, Setembro 2013-09-23
Existe uma versão interactiva muito bem conseguida desta campanha. Pode aceder no seguinte endereço: http://www.youtube.com/user/MercedesBenzFrance/Sensations.
Desfragmentação
Tim Richardson é um fotógrafo e realizador australiano com uma carreira notável. Trabalhou com Spike Lee, os LCD Soundsystem, os Radiohead, Lady Gaga… Dirigiu anúncios publicitários para as seguintes marcas: Van Heusen, Nars Cosmetics, Mugler e Givenchy. O vídeo 6 Breaths resultou de uma encomenda do coreógrafo Rafael Bonachela. Foi exibido durante a Bienal de Dança de Veneza. Decanta uma fragmentação que raia a pulverização, ora decomposta, ora recomposta, com elevado primor técnico e estético.
Para aceder ao vídeo, pode carregar na imagem ou utilizar o seguinte link: http://timrichardson.tv/six-breaths.
Tim Richardson. 6 Breaths. 2010.
Epidemia de Dança
A dança era uma actividade importante na Idade Média, omnipresente nas iluminuras e nos frescos. Até os mortos dançavam (danças macabras). As danças ditas de São Guido eram particularmente insólitas, devido ao seu carácter excessivo, histérico e epidémico. Algumas pessoas começavam a dançar de forma ininterrupta. Logo outras aderiam até chegar aos milhares. Homens, mulheres e crianças dançavam até à exaustão. Sem forças para se aguentar em pé, contorciam-se no chão. Uma testemunha da época descreve: “uma estranha doença invadiu neste tempo o povo. Muitas pessoas, por loucura, puseram-se a dançar todo o dia e toda a noite sem descanso até cair desmaiados. Alguns faleceram” (Stoeber, Auguste, Légendes d’Alsace, Ouest-France, 2010). Trata-se de uma adição (coreomania), acompanhada, frequentemente, por visões. O fenómeno podia prolongar-se por mais de um mês. Do séc. XIV ao século XVII, verificaram-se “excessos de dança” em várias cidades europeias, tais como Aix-la-Chapelle, Colónia ou Metz. Um dos casos mais célebres ocorreu em Julho de 1518 na cidade de Estrasburgo (para uma descrição, ver http://sometimes-interesting.com/2011/07/02/dancing-mania/). Pieter Brueghel O Velho, retrata este fenómeno numa gravura, que o filho, Pieter Brueghel, o Jovem, transpôs para a tela. Em suma, a originalidade não é fácil, mesmo nos novos tempos ditos pós-modernos.
Dança com fios: Nicolas & Guillemette
Esta curta-metragem de animação de Virginie Taravel (2008) é uma pequena obra de arte.
“Dans une boutique de personnages en fils de scoubidou, Nicolas le petit musicien est le seul personnage terminé. Il se réveille et décide de fabriquer Guillemette la petite danseuse. Malheureusement, il se trompe en assemblant les fils : elle danse de travers et se transforme en monstre à mille têtes.”
Quem envelhece criança dá muito valor à ternura. Para aceder, carregar na imagem.
Bailado de Silhuetas
Uma amiga brasileira enviou-me este vídeo. Não resisto a publicá-lo. Norman McLaren (1914-1917) foi um cineasta de animação particularmente criativo. Ganhou vários prémios, entre os quais o óscar pela curta-metragem Neighbours (1952). Nasceu na Escócia, mas o essencial da sua produção ocorreu no âmbito do National Film Board do Canadá. Pas de Deux (1968) é um vídeo animado por uma delicadeza sublime. Foi agraciado com vários prémios e nomeado para óscar em 1969.
Norman McLaren. Pas de Deux. 1968
O Sonho e a Multiplicidade

O Sonho
“Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela nos afectaria tanto quanto os objectos que vemos todos os dias; e, se um artesão estivesse certo de sonhar, todas as noites, durante doze horas, que é rei, creio que ele seria quase tão feliz quanto um rei que sonhasse, todas as noites, durante doze horas, que era um artesão. (…) a vida é um sonho um pouco menos inconstante” (Blaise Pascal, Pensamentos).
A Multiplicidade (sugestão de Álvaro Domingues)
“Alguém poderia objetar que quanto mais a obra tende para a multiplicidade dos possíveis mais se distancia daquele unicum que é o self de quem escreve, a sinceridade interior, a descoberta de sua própria verdade. Ao contrário, respondo, quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode sercontinuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis. Mas a resposta que mais me agradaria dar é outra: quem nos dera fosse possível uma obra concebida fora do self, uma obra que nos permitisse sair da perspectiva limitada do eu individual, não só para entrar em outros eus semelhantes ao nosso, mas para fazer falar o que não tem palavra, o pássaro que pousa no beiral, a árvore na primavera e a árvore no outono, a pedra, o cimento, o plástico” (Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milénio).
O Sonho e a Multiplicidade
É um privilégio aprender com os alunos. Este vídeo, Chorus, publicado no grupo de facebook do curso de mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, convoca o sonho e a multiplicidade: “A chorus of women are borne from the movements of a single dancer in this dreamlike pas de trente-deux. In the tradition of Marey and McLaren, Michael Langan and Terah Maher combine music, dance, and image multiplication to create a film that enhances our perception of motion. ‘Choros’ delivers a visually mesmerizing narrative in three movements, following a dancer’s (Maher) experience of discovery, euphoria, and rebirth through this surreal phenomenon. Featuring music from Steve Reich’s ‘Music for 18 Musicians’” (texto de presentação do vídeo).
Chorus, dirigido por Michael Langan e Terah Maher, com música de Steve Reich. 2011, 13 minutos.
Momentos de Dança: Fotografias de Lois Greenfield
Lois Greenfield é uma fotógrafa norte-americana, nascida em 1949, que possui um jeito único de captar o corpo em movimento, designadamente os momentos da dança, uma arte do efémero.
A música, Dead Things, versão piano, é de Philip Glass. Carregar em HD.
Galeria de Imagens: Fotografias de Lois Greenfield


































