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A medida de tudo e a relevância de nada

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915.

Não se cria um investigador por decreto, nem se mede a investigação a metro. “Vem-nos à memória uma frase batida”: a escola como “fábrica de salsichas” (Karl Marx / Pink Floyd / Neil Smith), mais custosas do que gostosas. Desde a Idade Média que as universidades nunca voaram tão baixo. E não há volta a dar-lhe? As novas elites das redes não querem, as burocracias não podem e os sábios não sabem. Resta aos políticos desfazer aquilo que fizeram. Um hino à razão pérfido e grotesco, grotesco da pior espécie, da espécie que não tem graça. Talvez Moisés de Lemos Martins esteja certo: já não há palavras para tantos números. Com boa vontade, vamos conseguir “ter a medida de tudo e a relevância de nada” (Pitirim A. Sorokin). A minha memória é extremamente vadia. Perde-se de salto em salto sem ponto onde se firmar. Acabei de me lembrar de Gregor Samsa, o protagonista da novela A Metamorfose (1915) de Franz Kafka, que acorda um triste dia transformado em insecto. Deitado de costas na cama, nem se consegue levantar. Quer-me parecer que aquilo que acontece às pessoas nos livros acontece na realidade às organizações.

Tanto a Old Spice como a Chaindrite têm apostado no grotesco. O grotesco ocidental e o grotesco oriental não são semelhantes. Nestes dois casos, qual é o mais cerebral? O mais visceral? O mais delirante? Qual perturba mais?

Marca: Old Spice. Título: Nice and Tidey. Estados Unidos, Setembro 2018.

Marca: Chaindrite. Título: Insects. Agência: MullenLowe Thailand. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, Agosto 2018.

Língua e pensamento

Anchor Point. Jovem, hospedei-me vários anos na casa ao fundo com escadario exterior. No último Agosto, comecei um namoro que ainda dura.

Anchor Point. V.P. Âncora. Jovem, hospedei-me vários anos na casa ao fundo com escadas exteriores. Estava alojado nesta casa quando comecei um namoro que ainda dura.

Passou uma viatura com o letreiro: AnchorPoint. Pesquisei na Internet: trata-se de uma Surf School, Escola de Surf, sedeada em… Vila Praia de Âncora (“Anchor Beach City”). Nomes de empresas, associações e outras entidades portuguesas em inglês é uma prática que se repete como uma música do Philip Glass. Consta que o inglês cativa os clientes! Um País que engole a própria língua e se dobra perante o estrangeiro deve ser um país indisposto consigo próprio, com a sua identidade. Não há património imaterial da humanidade que compense. A indiferença face à língua, falada ou escrita, reflecte-se na língua com que se pensa, logo na qualidade do pensamento. “A minha pátria é a língua portuguesa” (Fernando Pessoa). E a nossa?

É possível pensar condignamente em todas as línguas. Sem hierarquias. Há quem domine e pense em várias línguas. Colhe, porventura, alguma vantagem. O que me preocupa é a leveza do linguajar das zonas francas. O estar entre duas línguas sem dominar nenhuma. Estranho que Portugal pareça apostar numa política linguística, científica e cultural de zona franca.

Philip Glass. Einstein on the beach – Knee Play 1. Einstein on the beach. Ópera. 1975.

Ignorância de estimação

Nietzsche

O PINTOR REALISTA
“A Natureza”; fiel e completa!” Como pode ele
chegar a isso?
Quando é que alguma vez se conseguiu liquidar a
natureza numa imagem?
A minha ínfima parcela do mundo é uma coisa infinita!
Dele só pinta aquilo que lhe agrada.
E o que é que lhe agrada? Aquilo que sabe pintar!
(Nietzsche, Frederico, 1882, A Gaia Ciência, Lisboa, Guimarães Editores, 1996, p. 31).

Abraham Kaplan (The conduct of inquiry: methodology for behavioral science, 1964) ilustra uma falácia habitual na Sociologia com a seguinte anedota:

Noite cerrada, um bêbado regressa, cambaleante, a casa. Chegado à porta, não encontra a chave. Começa a procurar. Passa um segundo bêbado que lhe pergunta:
– Que estás a fazer?
– A procurar uma chave.
– E perdeste-a junto ao candeeiro?
– Não sei! Mas aqui vê-se melhor.

Estou em crer que a falácia denunciada por Nietzsche e Kaplan é um vírus ainda activo. Investiga-se o investigado e comunica-se o comunicado. O que “se sabe pintar”. O resto pode inexistir à vontade. Estatisticamente falando, a distribuição da investigação científica por temas aproxima-se mais de uma distribuição de Student do que de uma distribuição normal. A ciência apraz-se a “chover no molhado”. Segundo Vilfredo Pareto, existem elites em todo o lado. Em todo o lado, existem membros que se destacam. Sobre as elites, produziram-se muitos estudos. Em todas as categorias sociais, existem parasitas. Um fenómeno da maior relevância. E, no entanto, pouca obra sobre o assunto. Para encontrar uma obra dedicada ao parasitismo social, convém pedir a Diógenes de Sínope a lanterna com que procura o homem. Trata-se, porventura, de uma “douta ignorância” (Pierre Bourdieu).

O mundo da ciência é uma caricatura. Quanto mais saturado está um domínio, mais rende. Mais encontros, mais parceiros, mais citações, mais revistas e, sobretudo, mais afinidades nos concursos e nos financiamentos. Se insiste em ser parvo, seja original!

Distribuição t de Student

Distribuição de t de Student

Distribuição normal

Distribuição normal

Pac-Man, o Papa Pontos

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Georges Seurat. Un Dimanche à La Grande Jatte. 1884.

Tenho pesadelos. Deve ser de pensar de mais. Escorregam as margens para o subconsciente. Sonho, por exemplo, que a minha proeminência abdominal é tão grande que preciso de estacas para a segurar. Outras vezes, sonho que faço parte de um processo: o processo de Kafka. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Logo, nada vale a pena. Nem a obra, nem a “governança”, nem a tripulação, nem o farol. Trata-se de um jogo de croquete à maneira da Rainha de Copas. A sabedoria exibe-se coxa, como o Perna de Pau: hipertrofia da investigação; hipotrofia do ensino. Investe-se na ciência como quem aposta no totoloto. Resultados? Encontros, papers, citações, corredores, rácios, concursos e pontos. Muitos pontos! Parece um quadro de Georges Seurat. Melhor, um Tetris, para encaixe, associado a um Pac-Man, para comer pontos. O pesadelo torna-se insuportável. Faço força para acordar. Estremunhado, oiço: “faltam pontos, faltam pontos, faltam pontos, para mudar de nível”. Esqueci-me de desligar a consola. É um alívio acordar para a realidade deste “admirável mundo novo”: Ciência Portugal 2018 – Star Trek.

Para conciliar realidades (hoje, costuma dizer-se plataformas) nada como a música. Clássica, tocada por dois virtuosos de outra época: Narciso Yepes e Andrés Segovia.

Fantasía para un Gentilhombre de J.Rodrigo. Homenaje de Narciso Yepes a Andrés Segovia. Madrid, 1987.

Andrés Segovia

Andrés Segovia at El Prado , Albéniz’s “Asturias-Leyenda”. 1967.

A Academia

del álbum, Gente en su sitio - De todas las razones que me dan. Gente en su sitio. 1986

Fig 1. Quino. Gente en su sítio.

Gulliver convidou-me a visitar à Academia de Lagado. Os sábios são competentes em tudo. Todos sabem demais, todos são capazes de colocar o ovo em qualquer lugar. Investigam muito, ensinam pouco e aprendem menos. Nesta orgia da inteligência, proliferam concursos e escasseiam obras. Na primeira visita de Gulliver à Academia de Lagado, nem todas as aberrações se manifestam inconsequentes. Visionárias e pioneiras, esperam, por vezes, séculos para atingir os resultados. Um exemplo:

“O primeiro mecânico que avistei pareceu-me um homem magríssimo: tinha a cara e as mãos cheias de gordura, a barba e o cabelo crescidos, com uma roupa e uma camisa cor da pele; entregava-se, havia oito anos, a um curioso projecto, que consistia, segundo ele, em recolher os raios do sol, a fim de os encerrar em frascos hermeticamente fechados, os quais podiam servir para aquecer o ar quando os estios fossem pouco quentes; declarou-me que outros oito anos seriam suficientes para fornecer aos jardins dos ricos proprietários raios de sol por preço módico” (Jonathan Swift, Gulliver, 1726).

Reconhecemos nestes “frascos hermeticamente fechados” cheios de raios de sol os painéis e as baterias solares. Assim os concebeu, antes do tempo, o académico Jonathan Swift, doutorado pela Universidade de Oxford.

Quino visitou, possivelmente, a Academia de Lagado. Atestam-no as seguintes gravuras:

Não há machado que corte a raiz ao pensamento

Joan Miró. Sem título.

Joan Miró. Sem título.

How real is real (Paul Watzlawick)? Com a linguagem.  How to do things with words (J. L. Austin)? Com o poder.

A ciência tem poder e é uma linguagem. A ciência é polifónica. Fala com várias vozes. É dialógica e polémica. Confrontam-se vários discursos. Por enquanto, não é totalitária.

A ciência mede-se  e hierarquiza-se. Observa-se uma tendência para confundir o que é medido com a medida, o indicador, com o indicado. Em jargão académico, chama-se a esta falácia “reificação”. No meu dialecto, chama-se parvoíce e embuste. A avaliação da ciência recorre à arte rupestre de contar. Um cientista que se preze passa a vida a contar os seus próprios indicadores, bem como os indicadores dos outros. Um conto desgraçado. Trata-se de uma realidade de 3º ou 4º grau, uma nova forma de alquimia. A avaliação substantiva e a avaliação qualitativa vão ficando pelo caminho.

Speedy Gonzalez

Speedy Gonzalez

Na ciência, embora não se aceleram partículas, como no CERN, acelera-se a  investigação e a divulgação. A velocidade é uma dimensão importante do cientista moderno. É o efeito Speedy Gonzalez. À semelhança dos electrões, um cientista não deve estar parado. O cientista é a formiga do milénio. Só lhe falta ser ubíquo. Talvez com a ajuda de um sucessor da videoconferência. Por este andar, o cientista ainda se vai dedicar mais à divulgação do que à produção de resultados.

Aprecio pouco a noção de “indústria cultural” de Theodor Adorno e Max Horkheimer, mas utilizo-a e, até, a extrapolo: a ciência parece, cada vez mais, uma “indústria científica”. Se aos olhos da Escola de Frankfurt, a industria cultural é nefasta, a meus olhos, a indústria científica também não é grande maná.

Quando preencho os relatórios de actividade científica tenho propensão para o desabafo. É mais avisado ouvir música. Por exemplo, Livre, de Manuel Freire, com letra de Carlos Oliveira, ou o Coro dos Escravos Hebreus, de Giuseppe Verdi. Uma brisa de liberdade refresca o espírito.

 

Manuel Freire. Livre. 1968

Giuseppe Verdi. Coro dos escravos hebreus. Nabucco. 1841

Manuel Freire / Carlos Oliveira: Livre

(Não há machado que corte
a raíz ao pensamento) [bis]
(não há morte para o vento
não há morte) [bis]

Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida
sem razão seria a vida
sem razão

Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre

Por ora, ainda nos deixam morrer

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Os novos sábios sabem tudo; eu nem sequer sei o que sei.

Os fumadores podem respirar: aguardam mais imposto mas menos publicidade. Na roda dos inimigos públicos, é a vez do açúcar e dos refrigerantes. Tudo indica que os impostos sobre o tabaco e os refrigerantes se fundamentam na ciência. A velha máxima de Henri Poincaré, “de julgamentos de facto não se pode derivar julgamentos de valor”, é suplantada pela máxima “contra factos não há argumentos”. Retocando Habermas, estamos confrontados com a “política como ciência e técnica”.

Caricatura de Celeste Semanas

Caricatura de Celeste Semanas.

O Artigo 104º.4 da Constituição da República Portuguesa afirma o seguinte: “A tributação do consumo visa adaptar a estrutura do consumo à evolução das necessidades do desenvolvimento económico e da justiça social, devendo onerar os consumos de luxo”. O Artigo 104º.1 menciona “a diminuição das desigualdades” e o princípio da “progressividade” dos impostos. Em Portugal, as classes baixas consomem tantos refrigerantes e mais tabaco do que as classes altas. Nestes dois impostos, não se vislumbra nem progressividade fiscal, nem sobrecarga dos consumos de luxo, apenas necessidade de Estado. Num país com uma elevada desigualdade de rendimentos, o imposto sobre o tabaco e sobre os refrigerantes penaliza, ao contrário do IVA, do IUC ou do IMI, as classes baixas. Meio século após o “imposto do isqueiro”, adivinha-se um imposto sobre a pastilha elástica (tem açúcar e provoca aerofagia). Sem desconversar, há impostos piores. Com tamanha sabedoria política, técnica e científica a cuidar da nossa saúde, a eternidade está por um fio. Por ora, ainda nos deixam morrer.

Anunciante: Center for Science in the Public Interest. Título: The Real Bears. Agência: Colorado. Direcção: Lucas Zanotto. USA, 2012.

A ruína da alma

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“A ciência sem consciência é apenas ruína da alma” (François Rabelais, Carta de Gargântua a Pantagruel, Pantagruel, 1532).

A avaliação e o financiamento da ciência adoptam a linguagem das dimensões, dos indicadores e dos índices. Assombra-me a dúvida de que da proposta metodológica de Paul F. Lazarsfeld (Boudon, Raymon & Lazarsfeld, Paul, 1965. Le vocabulaire des sciences sociales. Des concepts aux indices, Paris, Mouton) tenhamos sido contemplados com a majestosa parte anal. Molda, retalha, conta e apura, frisando o mais absurdo dos formalismos! Segue uma reacção em cadeia “científica”, segundo a Google.

Marca: Google. Título: A Google Science Fair Experiment Extended. Agência: Syyn Labs. Direcção: Jonathan Zames. USA, 2011.

Repetição

Quino. Ratos.

Quino. Ratos.

“Si la publicité des journaux constitue un moyen de persuasion très efficace, c’est que peu d’esprits se trouvent assez forts pour résister au pouvoir de la répétition. Chez la plupart des hommes elle crée bientôt la certitude” (Gustave Le Bon, Les incertitudes de l’heure presente, 1923).

“Jadis l’esprit se manifestait en toute chose. A présent nous ne voyons plus qu’une répétition sans vie que nous ne comprenons pas. La signification du hiéroglyphe nous fait défaut” (Novalis (1772-1803). Semences. Trad. Francesa: Paris, Allia, 2004).

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (Joseph Goebbels).

Quino. No vazio da onda.Dizem os filósofos que o repetido é diferente do geral. A repetição requer uma singularidade, um original a copiar. Posto isto, é possível, pela repetição, fazer de um anão um gigante. Repete-se até frisar a monstruosidade. Mecânicas expeditas não faltam. Um cantor que se preze deve atingir milhões de visualizações na Internet, de preferência de um dia para o outro. É bom? Eis uma questão despropositada. O IMDb ordena os filmes segundo as receitas recolhidas. A comunidade científica pesa os investigadores em função das citações e das referências.

Quino. Plantando ideias

Quino. Plantando ideias.

Um cientista que recicla uma ideia há mais de dez anos tem, provavelmente, mais notoriedade do que um colega que desenvolve, todos os anos, ideias geniais, mas que, por qualquer motivo, as não mobiliza no circo da repetição. No circo da repetição, há círculos de repetição. Sabe-se muito destes e pouco daqueles. Acode-me, em noites sonâmbulas, que a ciência avançada assenta numa burocracia sofisticada, capaz de tudo e todos classificar, comparar e contabilizar. Presta-se, porém, a enxertos tribais de longo alcance, glocais e globais. Cerca de quatrocentos anos após a morte de Galileu, a ciência depara-se com um novo dogma: a repetição virtuosa.

Whiskey sábio

Conferência  de Solvay - 1927.

Conferência de Solvay – 1927.

Auguste Piccard

Auguste Piccard

Nada escapa à voracidade da publicidade. Nem sequer a ciência. O anúncio ao whiskey Hennessy reconstitui a primeira ascensão estratosférica em balão. Proeza de Auguste Piccard, físico, inventor e explorador suíço, fonte de inspiração para a personagem do Professor Tournesol, de Hergé. Cientista reputado, “cujas experiências não cabiam nos laboratórios”, consta, em cima à esquerda, da fotografia da Conferência de Solvay, em 1927, na companhia de, entre outros, Werner Heisenberg, Niels Bohr, Max Planck, Marie Curie e Albert Einstein.
Pergunto-me como, naquele tempo, sem rankings, nem factores de impacto, estes sábios conseguiram conhecer-se e encontrar-se.

Conferência  de Solvay - 1927. Com identificação.

Conferência de Solvay – 1927. Com identificação.

Se Auguste Piccard subiu mais alto, o filho, Jacques Piccard desceu mais baixo! Foi o primeiro a atingir, em 1960, o ponto mais profundo do planeta: a fossa das Marianas (11 034 metros). O neto de Auguste Piccard , Bertrand Piccard, empreendeu, em 1999, o primeiro voo de balão à volta do mundo sem escalas (ver documentário sobre a família Piccard).
O que tem o whiskey Hennessy a ver com os Piccard? Nada, logo tudo! A publicidade é espantosa, não é?

Marca: Hennessy V.S.. Título: The Piccards. Agência: