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Não há machado que corte a raiz ao pensamento

Joan Miró. Sem título.

Joan Miró. Sem título.

How real is real (Paul Watzlawick)? Com a linguagem.  How to do things with words (J. L. Austin)? Com o poder.

A ciência tem poder e é uma linguagem. A ciência é polifónica. Fala com várias vozes. É dialógica e polémica. Confrontam-se vários discursos. Por enquanto, não é totalitária.

A ciência mede-se  e hierarquiza-se. Observa-se uma tendência para confundir o que é medido com a medida, o indicador, com o indicado. Em jargão académico, chama-se a esta falácia “reificação”. No meu dialecto, chama-se parvoíce e embuste. A avaliação da ciência recorre à arte rupestre de contar. Um cientista que se preze passa a vida a contar os seus próprios indicadores, bem como os indicadores dos outros. Um conto desgraçado. Trata-se de uma realidade de 3º ou 4º grau, uma nova forma de alquimia. A avaliação substantiva e a avaliação qualitativa vão ficando pelo caminho.

Speedy Gonzalez

Speedy Gonzalez

Na ciência, embora não se aceleram partículas, como no CERN, acelera-se a  investigação e a divulgação. A velocidade é uma dimensão importante do cientista moderno. É o efeito Speedy Gonzalez. À semelhança dos electrões, um cientista não deve estar parado. O cientista é a formiga do milénio. Só lhe falta ser ubíquo. Talvez com a ajuda de um sucessor da videoconferência. Por este andar, o cientista ainda se vai dedicar mais à divulgação do que à produção de resultados.

Aprecio pouco a noção de “indústria cultural” de Theodor Adorno e Max Horkheimer, mas utilizo-a e, até, a extrapolo: a ciência parece, cada vez mais, uma “indústria científica”. Se aos olhos da Escola de Frankfurt, a industria cultural é nefasta, a meus olhos, a indústria científica também não é grande maná.

Quando preencho os relatórios de actividade científica tenho propensão para o desabafo. É mais avisado ouvir música. Por exemplo, Livre, de Manuel Freire, com letra de Carlos Oliveira, ou o Coro dos Escravos Hebreus, de Giuseppe Verdi. Uma brisa de liberdade refresca o espírito.

 

Manuel Freire. Livre. 1968

Giuseppe Verdi. Coro dos escravos hebreus. Nabucco. 1841

Manuel Freire / Carlos Oliveira: Livre

(Não há machado que corte
a raíz ao pensamento) [bis]
(não há morte para o vento
não há morte) [bis]

Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida
sem razão seria a vida
sem razão

Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre

Por ora, ainda nos deixam morrer

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Os novos sábios sabem tudo; eu nem sequer sei o que sei.

Os fumadores podem respirar: aguardam mais imposto mas menos publicidade. Na roda dos inimigos públicos, é a vez do açúcar e dos refrigerantes. Tudo indica que os impostos sobre o tabaco e os refrigerantes se fundamentam na ciência. A velha máxima de Henri Poincaré, “de julgamentos de facto não se pode derivar julgamentos de valor”, é suplantada pela máxima “contra factos não há argumentos”. Retocando Habermas, estamos confrontados com a “política como ciência e técnica”.

Caricatura de Celeste Semanas

Caricatura de Celeste Semanas.

O Artigo 104º.4 da Constituição da República Portuguesa afirma o seguinte: “A tributação do consumo visa adaptar a estrutura do consumo à evolução das necessidades do desenvolvimento económico e da justiça social, devendo onerar os consumos de luxo”. O Artigo 104º.1 menciona “a diminuição das desigualdades” e o princípio da “progressividade” dos impostos. Em Portugal, as classes baixas consomem tantos refrigerantes e mais tabaco do que as classes altas. Nestes dois impostos, não se vislumbra nem progressividade fiscal, nem sobrecarga dos consumos de luxo, apenas necessidade de Estado. Num país com uma elevada desigualdade de rendimentos, o imposto sobre o tabaco e sobre os refrigerantes penaliza, ao contrário do IVA, do IUC ou do IMI, as classes baixas. Meio século após o “imposto do isqueiro”, adivinha-se um imposto sobre a pastilha elástica (tem açúcar e provoca aerofagia). Sem desconversar, há impostos piores. Com tamanha sabedoria política, técnica e científica a cuidar da nossa saúde, a eternidade está por um fio. Por ora, ainda nos deixam morrer.

Anunciante: Center for Science in the Public Interest. Título: The Real Bears. Agência: Colorado. Direcção: Lucas Zanotto. USA, 2012.

A ruína da alma

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“A ciência sem consciência é apenas ruína da alma” (François Rabelais, Carta de Gargântua a Pantagruel, Pantagruel, 1532).

A avaliação e o financiamento da ciência adoptam a linguagem das dimensões, dos indicadores e dos índices. Assombra-me a dúvida de que da proposta metodológica de Paul F. Lazarsfeld (Boudon, Raymon & Lazarsfeld, Paul, 1965. Le vocabulaire des sciences sociales. Des concepts aux indices, Paris, Mouton) tenhamos sido contemplados com a majestosa parte anal. Molda, retalha, conta e apura, frisando o mais absurdo dos formalismos! Segue uma reacção em cadeia “científica”, segundo a Google.

Marca: Google. Título: A Google Science Fair Experiment Extended. Agência: Syyn Labs. Direcção: Jonathan Zames. USA, 2011.

Repetição

Quino. Ratos.

Quino. Ratos.

“Si la publicité des journaux constitue un moyen de persuasion très efficace, c’est que peu d’esprits se trouvent assez forts pour résister au pouvoir de la répétition. Chez la plupart des hommes elle crée bientôt la certitude” (Gustave Le Bon, Les incertitudes de l’heure presente, 1923).

“Jadis l’esprit se manifestait en toute chose. A présent nous ne voyons plus qu’une répétition sans vie que nous ne comprenons pas. La signification du hiéroglyphe nous fait défaut” (Novalis (1772-1803). Semences. Trad. Francesa: Paris, Allia, 2004).

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (Joseph Goebbels).

Quino. No vazio da onda.Dizem os filósofos que o repetido é diferente do geral. A repetição requer uma singularidade, um original a copiar. Posto isto, é possível, pela repetição, fazer de um anão um gigante. Repete-se até frisar a monstruosidade. Mecânicas expeditas não faltam. Um cantor que se preze deve atingir milhões de visualizações na Internet, de preferência de um dia para o outro. É bom? Eis uma questão despropositada. O IMDb ordena os filmes segundo as receitas recolhidas. A comunidade científica pesa os investigadores em função das citações e das referências.

Quino. Plantando ideias

Quino. Plantando ideias.

Um cientista que recicla uma ideia há mais de dez anos tem, provavelmente, mais notoriedade do que um colega que desenvolve, todos os anos, ideias geniais, mas que, por qualquer motivo, as não mobiliza no circo da repetição. No circo da repetição, há círculos de repetição. Sabe-se muito destes e pouco daqueles. Acode-me, em noites sonâmbulas, que a ciência avançada assenta numa burocracia sofisticada, capaz de tudo e todos classificar, comparar e contabilizar. Presta-se, porém, a enxertos tribais de longo alcance, glocais e globais. Cerca de quatrocentos anos após a morte de Galileu, a ciência depara-se com um novo dogma: a repetição virtuosa.

Whiskey sábio

Conferência  de Solvay - 1927.

Conferência de Solvay – 1927.

Auguste Piccard

Auguste Piccard

Nada escapa à voracidade da publicidade. Nem sequer a ciência. O anúncio ao whiskey Hennessy reconstitui a primeira ascensão estratosférica em balão. Proeza de Auguste Piccard, físico, inventor e explorador suíço, fonte de inspiração para a personagem do Professor Tournesol, de Hergé. Cientista reputado, “cujas experiências não cabiam nos laboratórios”, consta, em cima à esquerda, da fotografia da Conferência de Solvay, em 1927, na companhia de, entre outros, Werner Heisenberg, Niels Bohr, Max Planck, Marie Curie e Albert Einstein.
Pergunto-me como, naquele tempo, sem rankings, nem factores de impacto, estes sábios conseguiram conhecer-se e encontrar-se.

Conferência  de Solvay - 1927. Com identificação.

Conferência de Solvay – 1927. Com identificação.

Se Auguste Piccard subiu mais alto, o filho, Jacques Piccard desceu mais baixo! Foi o primeiro a atingir, em 1960, o ponto mais profundo do planeta: a fossa das Marianas (11 034 metros). O neto de Auguste Piccard , Bertrand Piccard, empreendeu, em 1999, o primeiro voo de balão à volta do mundo sem escalas (ver documentário sobre a família Piccard).
O que tem o whiskey Hennessy a ver com os Piccard? Nada, logo tudo! A publicidade é espantosa, não é?

Marca: Hennessy V.S.. Título: The Piccards. Agência:

Contudo, ela move-se

Science-can-change-the-world-these-unsung-heroes-prove-2Este tipo de anúncio sobre a actividade científica está a tornar-se raro. Um imagem da ciência quixotesca, perseverante e, proporcionando-se, gratificante. Não convoca fundações, nem agências certificadoras, nem fundos, nem feiras de ideias, nem rankings, nem indexações. Apenas a ciência que se faz enquanto se faz. Sem os píncaros da ciência da ciência, nem derivados tóxicos. Há cientistas que formulam e resolvem problemas, longe do carnaval do poder.

A handful of inspirational people – that you’ve probably never heard of – are proving that science doesn’t just change the game. It can change the world for the better. They have devoted their time and energy to solve challenges such as Malaria outbreaks in Tanzania or how to provide food for 9 billion people in 2050. Thanks to their commitment it is possible to turn harmful methane gas into biodegradable plastics and for disabled people to walk again . Meet our unsung heroes of science.

Anunciante: Royal DSM N.V. Título: Unsung Heroes of Science. Agência: 1Camera. Direcção: Hugo Keijzer. Holanda, Junho 2015.

A ciência, a bicicleta, a cigarra e a formiga

“Viver é como andar de bicicleta: É preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio”(Albert Einstein).

Albert Einstein

Albert Einstein

Como foi possível, em menos de uma geração, a ciência tornar-se tão pavloviana? Do lado canino, naturalmente. Balizas, estímulos, recompensas… A distribuição avassala a produção e a autonomia desfaz-se sem eufemismos. Pacotes financeiros, candidaturas, prémios, encontros, intercâmbios, publicações, burocracia, cargos, missões, júris, peritagens, deslocações…. E a investigação? A investigação é a folle du logis. Sobra para quem começa ou se demora na base. A actual divisão do trabalho científico presta-se a estas proezas. Uns investigam e os outros fazem ciência. Uma questão de autoridade. A este propósito, vale a pena consultar os apontamentos de Robert K. Merton sobre a oposição entre “locais” e “cosmopolitas” (Social Theory and Social Action,1949). Se calhar, a fábula da cigarra e da formiga carece revisão. Nos centros de investigação e no ensino superior, quem pedala melhor? A cigarra ou a formiga?

Este anúncio macedónio é uma espécie de catequese da ciência mitigada com religião : o jovem Einstein rebate a argumentação do professor com recurso à ciência e em nome da religião.

Anunciante: Ministry of Education and Science of the Republic of Macedonia. Título: Religion. Does god exist? Macedónia, 2008.

O papel dos videojogos

ChangyouQuando o senso comum se torna ciência e a ciência, senso comum, todos os argumentos são verosímeis. Estes anúncios chineses explicam, a pais e a filhos,que quando existem problemas comportamentais em casa, a razão pode não decorrer dos videojogos.

Marca: Changyou. Título: Mother. Agência: Saatchi & Saatchi Greater China. Direcção: Nico Perez Veiga. China, Maio 2015.

Marca: Changyou. Título: Little Girl. Agência: Saatchi & Saatchi Greater China. Direcção: Nici Perez Veiga. China, Maio 2015.

Gulliver na Academia

Grandeville. Gulliver's travels. Séc. XIX,

Grandeville. Gulliver’s travels. Séc. XIX,

Gosto de livros clássicos que conjugam humor e utopia. As viagens de Gulliver tem passagens de rara sabedoria. O episódio da visita à Academia de Lapúcia é um bom exemplo (Capítulos V e VI, da Terceira Parte do livro; junto o pdf do capítulo V: Gulliver Academia). Creio que faltam dois apontamentos da visita à Academia. Gulliver perdeu-os em Lisboa na viagem de regresso. Foram reencontrados na Feira da Ladra (mentira). Passo a transcrever:

“A seguir ao quarto da cura da cólica, entrei numa divisão cheia de membranas e tubos com fluídos. O responsável era um cientista de topo. A missão era proceder a uma diálise conceptual. A experiência mostra que os investigadores tendem a empregar certos conceitos na investigação empírica e outros na apresentação dos resultados. Uns, operatórios; outros, retóricos. Para maior leveza de espírito, a diálise conceptual visa separá-los. Assim, em vez de um dicionário de conceitos, haverá dois: um para os conceitos operatórios; outro, para os conceitos retóricos.

Capa Gulliver boa

O quarto seguinte, dedicado à pastelaria universitária, é o mais amplo e o mais iluminado. Todas as altas autoridades nele têm assento. Para a confecção do bolo, a cada especialidade corresponde uma medida: 1/21; 1/18, 1/13 e por aí adiante até 1/4. À semelhança dos carros: consoante o número de cavalos, assim o desempenho e o sustento. Misturada e batida, com o corpo docente pesado às postas, a massa vai ao forno. O bolo universitário costuma sair torto e esburacado. Nada a lamentar, o que importa é respeitar o quantum sufficit e a régia vontade”. Em suma, uma fantasia zelosa e repetidamente aplicada chega a parecer verdade.”

Criação e recriação

kia-optima-blake-griffin-fighter-pilotHá criação e recriação. Alguém disse que o que é bem pensado voltará a ser pensado. O anúncio Fighter Pilote, da Kia, retoma a papel químico o anúncio de Jacques Séguéla, Porte avion, para a Citroën (1985). Em suma, há recriação por todo o lado. Na publicidade, na ciência e na arte, expulsa-se a “folle du logis” (a imaginação). É substituída pela “follie ménagère” (a arrumação).

Marca: Kia. Título: Fighter Pilote. Agência: David&Goliath. Direção: Stacy Wall. USA, Fevereiro 2015.

Marca: Citroen. Título: Porte avion. Direcção: Jacques Séguéla. França, 1985.