Saúde e Pobreza – Seminário dia 28 de maio
Segue o convite, com a respetiva apresentação, para o seminário organizado pela EAPN dedicado ao tema “O binómio saúde e pobreza: uma análise de causalidade “, previsto para o próximo dia 28 de maio, no auditório Zulmira Simões da Escola de Medicina da Universidade do Minho.
Aproveito para acrescentar uma notícia do Diário Minho, do dia 17 de maio, a apresentar o recentemente criado Fórum de Cidadania pela Erradicação da Pobreza, parceiro da EAPN.
Press Release
CONGRESSO NACIONAL – DIÁLOGOS SOBRE POBREZA
Desta vez, em Braga, debate-se “O binómio saúde e pobreza”
“O binómio Saúde e pobreza: uma análise de causalidade” é o tema do terceiro seminário organizado pela EAPN Portugal, promotora do Congresso Nacional – Diálogos sobre Pobreza que já abordou “A Luta contra a pobreza em Portugal: desafios e oportunidades” e “Pobreza, Trabalho e Desigualdades”.
Desta vez Braga é a cidade escolhida para o encontro que reúne alguns especialistas, dia 28 de maio, no auditório Zulmira Simões da Escola de Medicina da Universidade do Minho. Este congresso nacional – Diálogos sobre Pobreza – composto por 4 seminários realizados em 4 cidades (Porto, Aveiro, Braga, Lisboa) visa comemorar o 30º aniversário da EAPN Portugal, celebrado no passado mês de dezembro, cujas iniciativas se estendem ao corrente ano, contando com o Alto Patrocínio do Senhor Presidente da República.
O direito a um nível de vida adequado para assegurar a saúde e bem-estar de cada pessoa e da sua família, constitui um dos direitos fundamentais inscritos no artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em 1948.
A saúde possibilita o desenvolvimento social, económico e pessoal das pessoas, sendo por isso um componente essencial para a qualidade de vida de cada indivíduo. Não obstante, as desigualdades sociais e económicas contribuem frequentemente para diminuir a acessibilidade das pessoas em situação de maior vulnerabilidade a cuidados de saúde que lhes permitam a manutenção de um nível de saúde adequado.
A saúde individual de cada pessoa é, por isso, determinada por um conjunto de fatores políticos, socioeconómicos, culturais, biológicos e comportamentais que podem tanto favorecer como prejudicá-la.
Num país fortemente marcado por desigualdades, o Sistema Nacional de Saúde (SNS) tem sido um poderoso instrumento de coesão social. A criação do SNS em 1979 veio assegurar o acesso universal, geral e tendencialmente gratuito de todos os cidadãos de Portugal a cuidados de saúde. Volvidos mais de 40 anos desde a sua criação e apesar das conquistas alcançadas pelo SNS – desde as melhorias ao nível da saúde materno-infantil à cobertura e alcance dos cuidados médicos hospitalares em todo o território -,existem ainda diversas lacunas que carecem de solução e que, à luz da atual crise despoletada pela pandemia da COVID-19, foram intensificadas.
Segundo os últimos dados do INE[1], em 2021, 50.2% da população autoavaliou o seu estado de saúde como bom ou muito bom (uma descida de 1.1 p.p. face ao ano anterior). Essa autoavaliação positiva foi mais elevada entre os homens (54.2%) por comparação às mulheres (46.6%); entre a população empregada (65.2%) por comparação à desempregada (50.5%) e entre as pessoas com ensino superior (74.1%) e ensino secundário e pós-secundário (66.2%) por comparação às que detêm apenas o ensino básico (34.1%). Em todos estes grupos verificou-se uma descida relativamente ao ano 2020.
Os dados do INE indicam ainda que se verificou em 2021 um aumento na percentagem de pessoas com 16 ou mais anos que tinham necessidade de consultas médicas não satisfeitas (5.7%), sendo a disponibilidade financeira o principal motivo apresentado para 30% das pessoas que referiram estar nessa situação. Ainda segundo este inquérito, 60% das pessoas inquiridas apontaram “outras razões” como motivo para as necessidades de consulta médica não satisfeitas, com destaque para os motivos relacionados com a crise pandémica COVID-19.
Viver em situação de pobreza tem claramente um impacto na saúde das pessoas. A autoavaliação que as pessoas que vivem numa situação de pobreza fazem da sua saúde é claramente menos positiva quando comparada com a população que não está nessa situação. Em 2021, 50.2% da população total avaliava o seu estado de saúde como muito bom ou bom. Já quando se considerava a população em risco de pobreza, este valor descia para 37,2%. No caso das avaliações do estado de saúde como razoável estas são superiores na população em situação de pobreza (41.4%) quando comparado com a população total (36.6%). O mesmo se verifica quando existem limitações na realização de atividades devido a problemas de saúde prolongados: em 2021, 44.5% da população em situação de pobreza referia ter limitações na realização de atividades devido a problemas de saúde e 14.1% apontavam limitações severas.
A saúde mental é outra dimensão central à vida das pessoas. Segundo os dados apontados pelo Inquérito Europeu da Saúde (EHIS) de 2014 do Eurostat, cerca de 31% da população admitia ter necessidades de cuidados médicos não-satisfeitas ao nível da saúde mental por motivos financeiros. Mais recentemente, o relatório da OCDE “A New Benchmark for Mental Health Systems” estimava que cerca de 64% da população em idade laboral em Portugal apresentava[2] necessidades de cuidados médicos não-satisfeitas ao nível da saúde mental por motivos de transporte, financeiros e de tempo de espera[3]. Estes dados não surpreendem e são um claro reflexo do sub-investimento que existe ao nível dos cuidados de saúde mental no SNS e que se manifestam sobretudo numa carência de recursos humanos especializados.
Se tivermos em conta o impacto da COVID-19 na saúde mental verificamos que, em 2021, 26.6% da população com 16 ou mais anos referiu o efeito negativo da pandemia na sua saúde mental. Um efeito mais gravoso para as mulheres (30.2%) do que para os homens (22.4%); com pouca diferença entre a população com idades entre os 16 e os 64 anos (26.8%) por comparação à população com 65+anos (25.9%); um impacto significativamente elevado para a população em situação de desemprego (33.7%) por comparação à empregada (25.5%).
Também nesta dimensão viver em situação de pobreza é um fator de maior vulnerabilidade: só em 2021, devido à pandemia, 29,6% da população com 16 anos ou mais em risco de pobreza referiram um impacto negativo da pandemia de COVID-19 na sua saúde mental, menos 3 p.p. quando comparado com a população total (26,6%)[4].
A acessibilidade à saúde é afetada também pelas desigualdades geográficas em termos de cobertura dos serviços. Existem um conjunto de assimetrias regionais em termos de cobertura da rede hospitalar e especialidades médicas que impactam o acesso à saúde da população, em particular a mais vulnerável.
Se as fragilidades apontadas no acesso e cobertura do SNS nas diferentes dimensões analisadas eram um facto incontornável pré-pandemia, à luz da atual crise despoletada pela paralisação do SNS causada pela pandemia da COVID-19 e a intensificação de patologias do foro mental, é de prever que estas fragilidades se acentuem e tragam efeitos na saúde dos portugueses ainda difíceis de quantificar. É, igualmente, previsível que estas fragilidades continuem a afetar de forma desproporcional as pessoas em situação de maior vulnerabilidade económica e social. É, por isso, imprescindível colocar a dimensão da saúde e da saúde mental na agenda de discussão do combate à pobreza.
O documento que servirá de ponto de partida para o debate apontará algumas recomendações para o futuro.
No sítio dedicado à iniciativa em https://congresso2022.eapn.pt encontrará o programa do evento, com todos os intervenientes e temas a abordar.
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EAPN Portugal
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[1] INE, Estado de Saúde, Rendimento e Condições de Vida 2021, 25 de fevereiro de 2022. Disponível em : https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=544264379&DESTAQUESmodo=2
[2] Os dados apresentados pela OCDE neste relatório, publicados em 2021, são relativos ao período entre 2012 e 2016, não sendo possível discriminar com precisão a que ano os mesmos se referem.
[3] OECD. A New Benchmark for Mental Health Systems. (2021). https://doi.org/https://doi.org/10.1787/4ed890f6-en
[4] INE, Estado de Saúde, Rendimento e Condições de Vida 2021, 25 de fevereiro de 2022. Disponível em : https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=544264379&DESTAQUESmodo=2
Apolo e Dionísio


Após quase dois anos de clausura, ontem tive a primeira saída noturna digna desse nome. Fui assistir ao concerto de Pascoela pela Sinfonieta de Braga na igreja do Seminário. Ainda não deu para ir a Melgaço à Festa do Alvarinho e do Fumeiro. Um momento dionisíaco, bacanal.
Para aceder ao vídeo, carregar na imagem seguinte e ligar o som.

A sombra da escuridão

Matt Elliott, compositor, guitarrista e cantor inglês, residente em França, atua, hoje, 12 de fevereiro, às 21:30, no Theatro Circo, em Braga. Segue uma amostra da música de Matt Elliott.
Festas, Culturas e Comunidades: Património e Sustentabilidade (Congresso)

Está aberta a chamada de resumos de comunicações para o Congresso Internacional Festas, Culturas e Comunidades: Património e Sustentabilidade, previsto para os dias 4 a 6 de maio de 2022, na Universidade do Minho. Para mais informação, carregar na imagem do cartaz ou no seguinte link: https://www.festivity.pt/congresso/
Mãos exiladas

Há mais de um ano que não dava um passeio. Hoje, visitei o Museu D. Diogo de Sousa, atraído pela valiosa Coleção Bühler-Brockhaus. Vale a pena! Creio que também vale a pena espreitar, pelo prazer visual, o vídeo Mãos Exiladas e a respetiva galeria de imagens, com desenhos de Albrecht Dürer e esculturas de Auguste Rodin.
Galeria de imagens: Mãos Exiladas – Dürer & Rodin

























Nem todos os dias são Natal

Coloquei três músicas dos The Silent Box no dia do Ano Novo (The Silent Box). Renovo o prazer, com votos de boas festas, com a canção “There’s No Day Like Christmas Day”, publicada hoje, mesmo a tempo, no You Tube (ver Antena Minho lança música de Natal criada pela banda ‘The Silent Box’). O grupo está a cumprir a promessa e a voz é um caso sério. Tem, ainda, o condão de me lembrar músicas de muito grata memória com as quais continuo a identificar-me.
Gárgulas Impúdicas (para o livro A Morte na Arte)
Estou a proceder à última revisão do livro A Morte na Arte. O texto Gárgulas Impúdicas, já corrigido, alterado e aumentado, aparece como o primeiro “capítulo” da obra. Segue, como aperitivo, já revisto. Empenhado na revisão do livro, anunciam-se poucas e piores publicações no Tendências do Imaginário.
Gárgulas Impúdicas
Observamos como elementos essenciais na mentalidade deste período [medieval] a formação e divinização de locais empíricos como palácios e catedrais góticas (com sua arquitetura repleta de representações religiosas como as torres altas, “tocando” nos céus; os vitrais, deixando penetrar a “luz de Deus” no interior da igreja; as gárgulas junto às torres, simbolizando a não-penetração do demônio a das forças maléficas dentro dos templos sagrados etc.) (Prado, Daniel Porciuncula, 2000, Uma breve introdução acerca das estruturas mentais no período medieval, Biblos, Rio Grande, 12, 115-121, p. 118).

Olhar para cima e deparar-se com um rabo prestes a defecar representa uma experiência insólita mas possível. Em Portugal, existem, por exemplo, gárgulas impúdicas na Sé da Guarda, na Sé de Braga, na Matriz de Caminha, e na Igreja de Nossa S.ª da Oliveira, em Guimarães. Para orgulho local, as gárgulas de Caminha (figura 1) e Guimarães (figura 2) estão de costas viradas para Espanha:
“Em Portugal, prestam-lhes as devidas honras as já aludidas gárgulas, como o famoso “Cu da Guarda” e os seus congéneres da Sé de Braga, da Matriz de Caminha e da Matriz de Escalhão (…), do Castelo de Pinhel ou, ainda, da quimera da torre do relógio de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães (…), muitas delas ainda hoje popularmente aclamadas enquanto expressão de um certo sentimento nacional historicamente ressentido dos acometimentos dos reinos vizinhos. Voltados para Espanha (…) estes exibicionistas (termo importado da historiografia anglo-saxónica para este tipo preciso de figuras (…) seriam então uma provocação além-fronteira” (“Sem medo nem vergonha. Imagens insólitas à margem da escultura medieval”, de Joana Antunes ( Universidade de Coimbra | FLUC |CEAACP | MNMC: https://doi.org/10.14195/2184-7193_10_1).

Vigiam-nos um pouco por toda Europa: Espanha, França, Inglaterra, Alemanha… Com o “rabo-ao-léu”, as gárgulas de Braga, Guimarães e Caminha distinguem-se das demais. Estão invertidas, a olhar para baixo, com a cabeça encostada ao contraforte e com o rabo do lado de fora, por onde, em vez de pela boca, a água escorre. Encenam, deste modo, um mundo-às-avessas. Estas três gárgulas entram “no vasto círculo dos motivos e imagens que evocam a substituição do rosto pelo traseiro, do alto pelo baixo. 0 traseiro é o “inverso do rosto”, a “rosto as avessas”” (Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, 1.ª ed. 1965, São Paulo/Brasília: Hucitec/Editora Universidade de Brasília, 2008, p. 327). Além do rabo, estas gárgulas minhotas exibem os genitais, cometendo sexo oral.
“Na torre da igreja de Nossa Sr.ª da Oliveira, Guimarães (séc. XVI), podemos observar uma gárgula, posicionada à esquina (…) que representa uma figura masculina a protagonizar uma cena de felatio a si própria, numa estranha posição, de rabo virado para o exterior. E a sua representação é bem explícita, pois é bastante visível para o observador o falo erecto, que o artífice enfatizou exagerando a sua escala” (Catarina Fernandes Barreira, “Contributos para o estudo das gárgulas medievais em Portugal: desvios e transgressões discursivas?”, Lusitania Sacra. 22 (2010) 169-199, p. 190).

Não é apenas na igreja de Nossa Srª da Oliveira que nos oferece esta acrobacia sexual. Encontramo-la, também, na Matriz de Caminha, embora com um falo menos imponente. Na gárgula da Sé de Braga, a mais antiga, o falo não é visível, o que constitui uma exceção estranha nesta série de gárgulas de rabo-ao-léu, no país e no estrangeiro (figura 5). Se não se vê, ou o amputaram ou não está à vista. Não aparenta marcas de intervenção. Evidenciam-se, em contrapartida, duas bolas junto ao queixo, que mais lembram dois testículos do que outras bolas quaisquer, por exemplo, um colar de guizos. Nas gárgulas, o que parece grotesco costuma ser.
“[Na Sé de Braga], “uma gárgula peculiar (…) exibe um par de cornos, olhos muito esbugalhados e um sorriso rasgado, mas irónico e parece ter no sítio do queixo duas bolas penduradas (parecem testículos). Tem as pernas colocadas ao longo do tronco e com a ajuda das mãos, que parecem estar amarradas na zona dos pulsos, abre despudoradamente o ânus para o observador: é a primeira gárgula rabo-ao-léu do panorama nacional” ( Catarina Alexandra Martins Fernandes Barreira, Gárgulas: representações do feio e do grotesco no contexto português. Séculos XIII a XVI, Volume I, Dissertação de doutoramento em Belas Artes, Universidade Nova de Lisboa, 2010, p. 341).

Nesta perspetiva, o pénis não aparece porque está abocanhado, indiciando, portanto, uma cena de felácio. Em suma, a igreja de N.ª Senhora da Oliveira alberga uma gárgula com um falo ostensivo, a Matriz de Caminha, uma gárgula com um falo discreto, e a Sé de Braga, uma gárgula com um falo pressuposto.
Estas gárgulas de rabo ao léu têm ar de se esborrifar para o comum dos mortais. A fazer fé na alquimia grotesca, fertilizam-nos. A cartografia simbólica do corpo humano desvaloriza o baixo (os pés), o posterior (as costas) e o interior (as entranhas). Estas gárgulas perfazem um cúmulo grotesco: baixeza traseira e incontinente.
“A orientação para baixo é própria de todas as formas da alegria popular e do realismo grotesco. Em baixo, do avesso, de trás para a frente, tal é o movimento que marca todas essas formas. Elas se precipitam todas para baixo, viram-se e colocam-se sobre a cabeça, pondo o alto no lugar do baixo, o traseiro na frente, tanto no plano do espaço real como no da metáfora” (Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, op. cit. p. 325).

O que significa tamanha vulgaridade? É costume precisar-se que estas provocações não entram nos mosteiros nem nas igrejas, permanecendo no seu exterior, que se destinam mais a quem vem do que a quem está dentro. Esta espécie de sobrecarga semiótica justifica três reparos. Primeiro, as gárgulas situam-se onde está a sua função básica: o escoamento das águas no topo das fachadas. Segundo, demoníacas e macabras, também se insinuam nos claustros, no coração dos mosteiros que o povo raramente visita em vida e nunca na morte. Terceiro, fantasmagorias congéneres, tais coma as danças macabras, com papas, imperadores, reis e bispos a dar a mão à morte, invadem as paredes, os capitéis e os órgãos dos templos e dos cemitérios dos séc. XV e XVI. Nos edifícios beneditinos, multiplicam-se os sátiros e as carrancas. O próprio diabo é presença habitual na casa do Senhor.
No desfile das gárgulas medievais, a desgraça sexual rivaliza com as ameaças escatológicas. Grotescas, as gárgulas incarnam o pecado, em ato ou em expiação. São exemplos a evitar, numa espécie de catequese pela imagem, que não hesita em convocar a credulidade, o medo e o horror. Idealizam fantasias muito reais nos seus efeitos. Há gárgulas com figuras humanas que representam frades ou freiras que caíram na tentação da carne, da luxúria e da gula. Algumas freiras vestem um manto, de tal modo subido ou aberto, que deixa a descoberto os peitos e as partes genitais. Umas juntam as mãos, em sinal de arrependimento, outras, tapam os seios, outras ainda comprazem-se a tocar e a destapar as partes impróprias.




No Mosteiro da Batalha, edifício português com maior número de gárgulas, destaca-se uma figura de mulher com manto, pé de cabra. os peitos destapados e uma criança na boca. Será uma freira que teve um filho de uma relação inaceitável, eventualmente, com uma autoridade eclesiástica? A mulher engole ou regurgita a criança? Por quê na boca? Os medievais eram imaginativos e exímios cuidadores de símbolos. O gigante Gargântua nasceu pela orelha da mãe, Gargamelle (ver https://tendimag.com/?s=partos+extravagantes). Nesses tempos, acreditava-se que as bruxas comiam crianças, incluindo os próprios filhos.
As bruxas também usavam mantos e cobriam a cabeça. Na Idade Média, as bruxas moravam na cabeça das pessoas. E se a gárgula do Mosteiro da Batalha fosse uma freira bruxa. Seria um excesso de novidade híbrida. Vale, no mínimo, o prazer poético da imagem. Que pretendia a Igreja com tamanhos desmandos no seu próprio seio? Há quem garanta que houve períodos em que a Igreja apostou no combate aos pecados internos. Suspeitava-se que os membros do clero não resistiam ao mal. As gárgulas recebiam e amedrontavam o povo, mas perturbavam também o olhar do clero.
Michel Maffesoli fala em homeopatia do mal, senão da morte, em “reconhecer ‘o que cabe ao diabo’, saber dar-lhe bom uso, para que não sufoque o corpo social”. (Michel Maffesoli, A Parte do Diabo, Rio de Janeiro, Record, 2004 , 2004, p.16). Mikhail Bakhtin releva os interstícios do lado sombrio da criação, o da potência dionisíaca. Entretanto, imunes a hermenêuticas, as gárgulas defecam chuva, a fonte da vida, a seiva do húmus. O bem assimila e assume o mal, a “parte maldita”.
Melancolia aveludada

Gosto de escutar música. No trabalho e no lazer. Sou um melómano omnívoro. Aberto a quase todos os géneros e tendências, mas de cada apenas uma parte diminuta. A minha “discoteca” assemelha-se a um albergue espanhol com portas e janelas estreitas e filtradas. A maioria das músicas publicadas no Tendências do Imaginário tenho-as em casa. Escolho-as enquanto as escuto ou aleatoriamente enquanto percorro gavetas e prateleiras atolhadas com Cds e LPs. Tenho espírito de colecionador. Acumulo selos, moedas, pedras e minerais, picos paleolíticos, filmes, anúncios, vídeos musicais, imagens, ingratos e outras preciosidades que não vêm a propósito. Algumas relíquias e bastante desperdício.
Desta vez, o ponteiro da roleta deteve-se em Perry Blake, um cantor e compositor irlandês de culto. Uma voz e uma orquestração singulares, suaves, compassadas, melódicas e melancólicas. Seleciono quatro canções.
Sou viciado em música desde criança. Atrevo-me a resgatar mais um episódio de vida. Nos anos setenta, muitos jovens do Alto Minho e de Trás-os-Montes prosseguiram os seus estudos deslocando-se para Braga. O alojamento dispersava-se pela cidade, destacando-se, para os rapazes, o colégio D. Diogo de Sousa e, para as raparigas, o colégio, bem como o lar, Teresiano. Estava em voga a prática da boleia, um misto de poupança, aventura e bandeira ideológica. Por exemplo, nos regressos pendulares de fim-de-semana rumo às famílias do interior. Corríamos o risco de não chegar ao destino. Entre Braga e Melgaço, beneficiávamos de um último recurso: um autocarro, da Empresa Salvador Transportes, que circulava ao fim da tarde. Mas com a nossa gestão da mesada, faltava, amiúde, o dinheiro para o bilhete. O itinerário desdobrava-se por etapas (Vila Verde, Portela do Vade, Ponte da Barca, Arcos de Valdevez e Monção), comportava sítios de espera e possuía regras, por exemplo, o primeiro a chegar era o primeiro a embarcar.
Cruzo-me frequentemente, em Moledo do Minho, com colegas e amigos de águas passadas. Acordam episódios de vida. Zé Dias, meu conterrâneo, destila memórias:
“Um domingo à tarde, eu e o Abílio, íamos à boleia de Melgaço para Braga. Chegados a Ponte da Barca, caminhámos até ao melhor local para erguer o polegar. De longe, ficamos apreensivos porque já lá estava alguém. Mas logo nos alegrámos. Escarrapachado na erva, à sombra das videiras, com a tua inseparável grafonola [um aparelho portátil com gira-discos, leitor de cassetes e rádio, oferecido por um primo, proprietário de um comercio de eletrodomésticos]. Solitário, despreocupado, prazeroso, a ouvir música e a deixar passar os carros. Só podia ser o Tino, só podias ser tu!”
Quase nunca me recordo destas anedotas que me convocam. Desconfio: falácias da imaginação ou realidade partilhada? Não obstante, admito que podia ser eu, já naquele tempo, um devoto de Santa Cecília e um caso à parte, um cromo desaparafusado.
The Silent Box

Algo mudou na música pop no que respeita aos protagonistas? Terão as bandas perdido algum protagonismo em relação aos intérpretes individuais? No Billboard de 1968, nos 25 primeiros, constavam 14 bandas e 11 intérpretes individuais (inclui os duo). Cinquenta anos depois, em 2018, nos 25 primeiros, constam 6 bandas e 19 intérpretes individuais. Subsistem, porém, muitas bandas. Os The Silent Box é uma banda de Braga, com repertório original, consistente e promissora. O vocalista é um caso sério. Retenho três músicas. Acabam de publicar Hold On (2021). Acrescento Aftermath, do EP “I.N.T.R.O” (2019) e a atuação ao vivo no Braga Sounds Better 2018.
Hey ! We are a band from Portugal. The project goal is to create music with a wide spectrum of styles, with the majority of the influences being on the Indie, Alternative and Blues areas of Rock music (The Silent Box).
Cabras urbanas

„Não se aproxime de uma cabra pela frente, de um cavalo por trás ou de um idiota por qualquer dos lados“ (provérbio Judaico).
Cnsta que a natureza foi a mais beneficiada com a pandemia do coronavírus. Há mais cobras, lagartos, ratos e pássaros nas cidades. Jura-se a pés juntos que a erva nunca foi tão verde e as árvores tão altas. No quintal, os melros regalam-se com a comida dos gatos. Junto ao McDonald’s, entre a Universidade do Minho (Foto 1), o hotel Meliá (foto 2) e o INL (Instituto Ibérico Internacional de Nanotecnologia), pontifica um parque natural espontâneo, com dezenas de cabras e algumas vacas cachenas (fotos 3 e 4). As fotografias são de Conceição Gonçalves.

02. O monte das cabras, com vista para o Hotel Melià 
03. Vacas em repouso 
04..Vacas estremunhadas 
05. No cume do monte das cabras
As cabras apoderaram-se de um monte de areia sem uso. Conquistam o cume (foto 5), dispõem-se em presépio ou cascata de S. João e afiam os cornos nos galhos remanescentes. Por ironia, este fenómeno pecuário ocorre num terreno que pertenceu ao INIA (Instituto Nacional de Investigação Agrária). Invente-se um provérbio: as sementes acabam sempre por germinar. Se não for milho, contente-se a gente com as cabras.


