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Partos extravagantes

Embora o parto seja um dos atos humanos mais íntimos, não escapa ao humor da publicidade. Em 2002, num anúncio da X-box o nascimento de um bébé assemelha-se à abertura de uma garrafa de champanhe. Neste Birth, do álbum Pocket Symphonies de Sven Helbig, o trabalho de parto é acompanhado por uma orquestra.

Grandville. A alimentação do bébé Gargântua. Magasin Pittoresque, 1840.

Grandville. A alimentação do bébé Gargântua. Magasin Pittoresque, 1840.

Fantasiar a propósito do parto, parodiar o nascimento, não é apanágio do nosso tempo. François Rabelais, num livro escrito em 1534, descreve deste modo o nascimento do gigante Gargântua, pai de Pantaguel: Gargamelle, a mãe, grávida de onze meses, empanturra-se com tripas de boi. Tanto comeu que acaba por dar à luz as próprias tripas. Com as saídas de baixo obstruídas, a criança, Gargântua, “entra na veia cava e, trepando pelo diafragma até acima dos ombros (onde a dita veia se divide em duas), tomou caminho à esquerda e saiu pela orelha esquerda. Acabado de nascer, não gritou como as outras crianças: ‘Mies! Mies! Mies!’ , mas a alta voz: ‘A beber! A beber! A beber!’, como se estivesse a convidar todo o mundo a beber.” Mas há casos mais complicados do que o de Gargântua. Nascer, por exemplo, de uma costela ou de uma coxa masculina.

Marca: Sven Helbig’s Pocket Symphonies. Título: Birth. Agência: Kolle Rebbe, Hamburg. Direção: Kai Schonrath. Alemanha, Março 2013.

Marca: Xbox. Título: Champagne. Agência:  Bartle Bogle Hegarty.  Reino Unido, Janeiro 2002.

Paródia disparatada

kHá dias, fiz um apelo para a interpretação de uma gárgula do Mosteiro da Batalha. Apetece-me, agora, alinhar alguns disparates.

Grotescas, as gárgulas incarnam o pecado, em acto ou em expiação. Constituem exemplos a evitar. Muitas gárgulas com figuras humanas são frades ou freiras que caíram na tentação da carne, da luxúria e da gula. Várias freiras têm manto, mas subido ou aberto, exibindo os peitos e as partes genitais. Umas estão com as mãos juntas, em sinal de arrependimento, outras com as mãos em partes impróprias. Por vezes, aparece uma criança, de corpo inteiro ou só a cabeça (no peito, no ventre…). Há quem associe estas figuras de mulheres devassas com criança a freiras que tiveram filhos, nomeadamente com autoridades da comunidade eclesiástica. Que motiva a Igreja a esculpir estes desmandos? Há quem assegure que a Igreja estava mais empenhada em combater, do que em encobrir, os pecados internos.

Projecto Golum. Réplicas de gárgulas do Mosteiro da Batalha.

Projecto Golum. Réplicas de gárgulas do Mosteiro da Batalha.

A gárgula pode corresponder a uma freira que teve um filho através de uma relação inaceitável. E a criança? Por que está assim representada? A mulher engole, vomita ou engasga? Nada inibe o escultor grotesco de colocar uma cabeça nos locais mais inconcebíveis: no peito, na barriga, no rabo, na perna… E na boca. Mas não me parece que seja ao acaso.

Continuando a fabular, mas de outro jeito.

Gárgula do Mosteiro da Batalha. Geolocation.

Gárgula do Mosteiro da Batalha. Geolocation.

As bruxas também tinham mantos e cobriam a cabeça. Na Idade Média, havia muitas bruxas na cabeça das pessoas. No ranking da luxúria, estavam no topo. E constava que comiam crianças, incluindo os filhos. Figura próxima do diabo, a bruxa tinha lugar cativo na tribuna das gárgulas.

A figura desta gárgula com uma criança na boca traz à memória o parto do gigante Gargântua pela orelha da mãe, Gargamelle (ver https://tendimag.com/?s=partos+extravagantes). As letras francesas e a escultura portuguesa a aproximar-se! Era lindo, não era?

Complicando, mas estamos a lidar com reportórios simbólicos muito sensíveis, já tinha ouvido falar em espécies de rã que têm os filhos pela boca. Segundo o jornal ABC News, de 20 de Março de 2013, uma equipa de cientistas australianos recuperou uma estirpe de rã “que dá à luz pela boca” (http://abcnews.go.com/blogs/technology/2013/03/frog-that-gives-birth-through-mouth-to-be-brought-back-from-extinction/). Ora o sapo é dos animais mais ligados à bruxaria e ao próprio diabo.

CBA News. Rã que dá à luz pela boca

ABC News. Rã que dá à luz pela boca

Sabe bem fabular, delirar, parodiar a argumentação científica. Será que se esconde em cada um de nós um Jonathan Swift ou um Carlo Cippola?