À minha maneira

Há anúncios que vêm aos pares. Por exemplo, os anúncios The Chase, apresentado no artigo precedente, e Leaving The Nest, em baixo, ambos produzidos para a marca Renault Zoe-E-Tech. Leaving The Nest manifesta-se particularmente feliz na escolha da música, de Tom Rosenthal:
I’m happy, nothing’s going to stop me
I’m making my way, i’m making my way
I go solo, oh go solo,
I’m making my way home
I’m making my way
(Tom Rosenthal – Go Solo. 2014)
Segue o anúncio Leaving The Nest, mais duas canções de Tom Rosenthal: Go Solo (do anúncio) e Leaving The Nest.
O império das mercadorias

A Coca-Cola oferece-se como uma poção mágica (vídeo 1). À semelhança da beberagem do Panoramix (vídeo 2). A primeira resulta numa dança acelerada e colorida, a segunda, numa pancadaria ciclópica. Os objetos, as mercadorias, apoderam-se de nós e transfiguram-nos. Atente-se nos sofás Snug (vídeo 3).
Terror na horta. O gato e os pepinos
Está fraca, este ano, a colheita de anúncios Halloween. Já os diospiros… Talvez não seja o o melhor momento para agitar o espantalho da morte. O anúncio Scaredy Cat, da Mars Temptations, é uma paródia. Um gato solitário persegue, impávido, uma bola de lã numa casa assombrada. O pior está para vir: os pepinos. Um anúncio com uma excelente animação.
Na Gruta do Rei da Montanha

Costumo pedir aos alunos trabalhos que confrontem dois géneros distintos. Dizem que é difícil…
O anúncio Ópera, da Nintendo, realizado por Bruno Aveillan, é extraordinário e a música fabulosa. De quem é a música? Será Na Gruta do Rei da Montanha, de Edvard Grieg (ver vídeo)? A gruta de Grieg está pejada de monstros (trolls). Será que existe alguma relação entre os monstros do anúncio e os “trolls” da música? O pop/rock é permeável a influências. Haverá músicas pop/rock inspiradas em Grieg? Com o mesmo nome? Por exemplo, os Deep Purple, os Rainbow e, entre outros, os Apocalyptica (ver vídeo). O que perfaz três géneros. Vários artistas retrataram a história de Peer na Gruta do Rei da Montanha. Por exemplo, Theodor Kittelsen (ver imagem). Multiplicaram-se os vídeos de animação. Por exemplo, o vídeo da TVP SA, de 1996 (ver vídeo). Acrescente-se que Edvard Grieg compôs esta música (1876) a partir da obra Peer Gynt, do escritor Henrik Ibsen (1867). Somamos seis géneros: publicidade, música clássica, música pop/rock, pintura, cinema de animação e literatura. Material suficiente para um trabalho? Se for do meu interesse e valorizar as minhas competências. Por exemplo, se estiver inclinado para a semiótica da monstruosidade, é um excelente cocktail. Mas, aqui chegados, o que me estimula é comparar Na Gruta do Rei da Montanha, de Edvard Grieg, com a Dança Macabra, de Camille Saint-Saens (1875). São do mesmo género, será possível? Nunca se sabe…
A medalha e a bolacha
Ontem, 26 de Outubro, foi dia de cerimónia.

A receber a medalha de cidadão de honra do concelho de Melgaço. O orgulho é um pecado capital. 
Duas cadeiras vazias: a do orador, Doutor José Marques, e a outra, quem adivinha?
Duas bolachas apaixonam-se num mundo sem salvação. O João bolacha é devorado pelo monstro horrível. Mas a Maria Bolacha vinga-se. É a história contada numa bela curta-metragem de animação da Magic.
Fernando e Albertino.
As flores do mal

Não procurem mais o meu coração, as bestas comeram-no (Charles Baudelaire. Les Fleurs du Mal. 1857).
Que besta devo adorar ? Que imagem santa atacar ? Que corações destroçarei? Que mentira devo sustentar? Em que sangue marchar ? (Arthur Rimbaud. Une Saison en enfer. 1873).
Somos filhos de Caim. O mal está arreigado na arqueologia do ser. Quem não pisou uma formiga? Quem não fez mal a uma mosca? Quem amou o próximo como a si mesmo? Não resistimos à maldade. Empolga-nos a crueldade nos cartoons, nos filmes, nos anime, nos videojogos e nas campanhas eleitorais. Os programas de informação mostram o mal e esquecem o bem. Cordeiros do demo, apascentamos a ruindade. Somos consumidores do mal.
O anúncio Ski, da Laca 5Star, brinda-nos com um cocktail do mal num cálice de expiação. “Uma explosão de sabores e texturas ». O mal sabe bem. À semelhança do anúncio ski, T-Rex, da Collective du Lait, faz parte de uma série de anúncios. Ensina que o mais fraco (tu e eu) resulta grotescamente vulnerável ao mal. Para concluir, o anúncio Dumb Ways to Die, da Metro Trains Melbourn, é uma ternura de dança macabra à moda do terceiro milénio.
O mal é uma tentação? Algo de bom deve ter! Recorrendo a línguagem suculenta de Thomas Müntzer, o monge revolucionário líder da Guerra dos Camponeses (1524-1525): o bem e o mal lembram “duas serpentes que fornicam em conjunto”. O bem e o mal dançam no mesmo baile. O mais avisado é aprender a « homeopatia do mal », a lidar com a “parte do diabo” (Michel Maffesoli). Até porque, a fazer fé na sabedoria popular, “há males que vêm por bem”.
Extremos
Uma centelha basta para aquecer o dia! Ouvir, por exemplo, a música Ask the mountains, do Vangelis (Voices, 1995). Engana a melancolia.Valoriza o anúncio Underwater World, da Ariston Aqualtis (2006) e desafia as montanhas no vídeo homónimo. É um sonho erguer o olhar e não tropeçar com burocratas, confrades e marialvas… Nem com o Zé Povinho a empurrar a encosta. Soltemos o olhar!
Marca: Ariston Aqualtis. Título: Underwater world. Agência: Buf Film Master. Direcção: Dario Piana. Itália, Março 2006.
A dança das deusas
Este artigo é uma prenda da São. Tantos prodígios tem este mundo e tão poucos nos divertem. A chave do humor, e do prazer, é como o ovo de Colombo: basta uma pitada de engenho. As 24 Free Goddess Gif de Nina Paley (http://blog.ninapaley.com/) desenferrujam, após milénios de imobilidade, o corpo. A partir das imagens de Nina Paley, alguém (Emely Hesse?) montou o seguinte vídeo:
Emily Hesse. Yes. Best thing I’ve seen this year and we’re only five days in.
Dúvidas íntimas
À primeira vista, o anúncio Gueule de Nain, da Media Markt, parece pós-moderno. À última vista, continua a parecer pós-moderno. Na recente mesa redonda Identidades & Territórios (Universidade do Minho, 06 de Dezembro de 2017), permiti-me uma provocação: duvidar da existência de um período histórico singular apelidado pós-modernidade. Mas como este anúncio é pós-moderno, a pós-modernidade existe.

Anões de jardim adquirem vida na ausência dos donos da casa. O vómito de um gato, cujo nome deve ser Shrek, é o acto inaugural. Segue-se uma festa, com música, bebida, dança, sexo, objectos técnicos, desvarios e excessos. Como é costume, os anões de jardim têm atitudes e comportamentos estranhamente humanos. François Rabelais (1494-1553) poderia subscrever a orgia, E.T.A. Hoffman (1776-1822), a vitalização dos bonecos e Tex Avery (1908-1980), o humor absurdo. Em suma, um anúncio que convoca algumas perplexidades.
Se as pessoas são líquidas, fragmentadas, polifónicas e híbridas, por que é que, passados vinte ou trinta anos, quando encontro alguém ele me parece a mesma pessoa? Será que a sua identidade oscila como um boneco teimoso?
Marca: MediaMarkt. Título: ZIPFELRAUSCH. Alemanha, Novembro 2017.
Continua a nossa sociedade empenhada no futuro, eventualmente com menos projecto e mais balanço? Será a nossa sociedade mais pós ou mais pré? A maior parte das nossas preocupações não deixam de se debater com o futuro.
Por que rara alquimia a sociedade é órfão de narrativas quando às narrativas da modernidade se acrescentam as narrativas da pós-modernidade?
Como é que uma injunção, o carpe diem (Horácio, 65 a.C – 8 a.C.; ver poema) caracteriza uma sociedade quando o atributo é transversal à humanidade. Não há como fazer escala no após I Guerra Mundial.
E, em termos de hibridismo, são os biomecanóides e os pós-humanos assim tão distantes das metamorfoses de Ovídeo e dos sonhos cómicos (songes drolatiques) de François Desprez?
Acabei de ser convidado para participar num programa de televisão. Declinei. Uma pessoa que não sabe o que é não deve expor-se. E eu não sei se sou pré-moderno ou pós-moderno. Moderno consta que ninguém é. Toda esta confusão é muito grave. Entretanto, tive uma epifania. As epifanias servem para saber quem somos e para onde vamos. Que o diga São Paulo! Pois, finalmente, sei quem sou. Sou um pós-moderno à moda antiga, à moda dos maneiristas e dos barrocos. Parafraseando John F. Kennedy, na modernidade, sou pós-moderno!
Não sei que me diga! Ainda estou confuso. Mas, repito, o anúncio da Media Markt é excelente.
Tradução do poema de Horácio
Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.
Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses darão a mim ou a você,
Leuconoe, com os adivinhos da Babilônia não brinque.
É melhor apenas lidar com o que cruza o seu caminho.
Se muitos invernos Júpiter te dará ou se este é o último, que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar.
Tirreno: seja sábio, beba seu vinho e para o curto prazo reescale suas esperanças.
Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós.
Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.
Podemos sempre ser melhores. Basta pensarmos melhor.
(http://claudialins58.blogspot.pt/2009/08/carpe-diem-o-poema-completo-de-horacio.html).
Sexualidades alternativas
Associados à lua, as lebres e os coelhos ligam-se à velha divindade Terra-Mãe, ao simbolismo das águas fecundas e regeneradoras, da vegetação, da renovação perpétua da vida sob todas as suas formas (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles).
Uma relação heterobestial entre um coelho e uma galinha resulta num coegalinho hermafrodita, que põe ovos pascais sem pecado, para escárnio dos pacóvios e deleite dos citadinos. Como são bons os coelhos e os ovos de chocolate! São símbolos de fecundidade que se derretem na boca. Dizem que faz mal! Nada como se deixar tentar. Tudo, menos augar. O anúncio True easter bunny convida-nos, de uma forma criativa e agradável, à descoberta da origem do coelho da Páscoa.
Marca: Netto Marken-Discount.Título: True easter bunny. Agência: Jung von Matt. Alemanha, Março 2017.




