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O amor da morte pela vida

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A curta-metragem “The Life of Death”, de Marsha Onderstijn (Holanda), é vagarosa. Sossega. Convida-nos a manter o espírito em vigília. A morte lembra Midas. Tudo que tocava transformava-se em ouro. A morte tudo que toca perde a vida. Há séculos que se alude ao beijo, ao abraço, ao sopro ou ao toque da morte. Nesta curta-metragem, a morte toma-se de amores por um veado e, por extensão, pela vida. A recompensa de Midas revelou-se um pesadelo; a potência da morte, uma prisão. Não pode tocar sem matar, incluindo quem gosta. Como em todas as pequenas e boas histórias, os dados estão lançados: o veado abraça a morte e morre. Matar por impotência e morrer por amor. Esta relação entre a morte e o veado enquadra-se num intervalo da ordem do mundo, uma espécie de limbo para a morte. Para que conste, houve um tempo em que a morte amou a vida e a vida amou a morte.

Obrigado, Celeste! Este vídeo é uma pérola.

Marsha Onderstijn. The Life of Death. Holanda, 2012.

Ecrãs de sonho

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Afastemos o mal para demandar a antecâmara do paraíso: a publicidade. Os ecrãs, não sei se nos perseguem, se os perseguimos, mas não paramos de os encontrar. Os ecrãs Samsung levitam, à espera da menina dos sonhos, à espera do sonho. Os ecrãs são o lugar por onde passa o sonho, o lugar do sonho. O resto é animação, engenho e arte.

Marca: Samsung. Título: Holiday Dreams. Agência: R/GA. Direcção: Ben Steiger Levine & Martin Allais. USA, Dezembro 2014.

Hey!

 

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Não me apetece escrever!

Eatliz. Hey. Violently Delicate. Israel. 2007.

Sociologia sem palavras 12. Artes do poder

le roi et loiseau_01Sabe bem jejuar das superproduções globais. O Rei e o Pássaro é um magnífico filme de animação, de Paul Grimault, inspirado no conto A Pastora e o Limpa-chaminés, de Hans Christian Anderson. O texto, de Jacques Prévert, e a música, de Wojciech Kilar, são ambos excelentes. Vários realizadores japoneses se confessam influenciados por este filme. Iniciado nos anos cinquenta, este filme surrealista só foi concluído nos anos setenta. Este excerto contempla um inventário dos órgãos do Estado e o ritual do retrato do rei.

Sociologia sem palavras 12. Artes do poder. Excerto de Le Roi et l’Oiseau, de Paul Grimault. 1980

A revolta dos brinquedos

Quebra-nozesOs brinquedos e os contos alicerçam o nosso imaginário. O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos (1816), de E.T.A. Hoffmann, é um conto clássico: o soldado quebra-nozes, oferecido à menina Marie, adquire vida e luta contra os Camundongos. Volvidos escassos anos, Hans Christian Andersen escreve O Soldadinho de Chumbo (1838): um soldadinho sem uma perna, oferecido a um menino, apaixona-se por uma boneca bailarina, enfrentando vários desafios.

Neste anúncio da Nissan, o brinquedo fantástico não é um soldadinho, mas uma miniatura de super-herói. Mudam-se os tempos, mudam-se, mas pouco, os fantasmas. O protagonista também não é uma criança, mas um adulto. Não espanta. Os historiadores, os demógrafos e os sociólogos defendem que não só a esperança de vida tem aumentado como os seres humanos crescem mais devagar. Se os bonecos fossem de peluche, este anúncio seria o prenúncio do Gremlins 4.

Marca: Nissan. Título: Revenge. Agência: TBWA Toronto. Direção: Leigh Marling. Canadá, Outubro 2014.

Gente grande também precisa de carinho

CotonetesEis um lema capaz de rivalizar com boa parte da publicidade de sensibilização promovida por grandes instituições e paga por pequenas pessoas. Trata-se de um anúncio brasileiro para as cotonetes Johnson & Johnson estreado em 1978. Naquele tempo, havia duas categorias de música: os shakes e os slows. Este anúncio é um shake, um batido de nonsense.

Marca: Cotonetes Johnson & Johnson. Título: Banheira. Brasil, 1978.

Voto animado

Estes dois anúncios dinamarqueses não olham a meios para chamar os eleitores às urnas e lhes ensinar a arte de votar. Ambos servem um cocktail grotesco: sexo, violência, boçalidade e animação. O caminho das urnas é insondável. Promove-se, deste modo, a participação dos jovens? Com que efeito no sentido do voto? Retirado no dia seguinte ao lançamento no YouTube e no Facebook, o primeiro anúncio deixa um trago incómodo. A publicidade em torno das eleições europeias tem-se revelado uma autêntica caixa de surpresas. Carregar na imagem para aceder ao primeiro vídeo.

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Parlamento Dinamarquês. Voting Video, Danish Style. Dinamarca, Maio 2014.

Maneiras estúpidas de viver

Toast. Metro Trains

As trombetas soam a culpa e expiação. Revezam-se nos ginetes os sacerdotes. Alastra um puritanismo sem ética. E as elites não param de lavar as mãos. Não há ponto cardeal que escape ao novo ajustamento. Há semanas, falei da morte risonha e da morte com bebé ao colo; estes anúncios mostram mortes parvas. O primeiro, da Metro Trains, consta entre os mais premiados da história da publicidade; o segundo, é uma paródia produzida para a Miami Ad School/ESPM.
Sente-se a falta de um Guerra Junqueiro. Escondíamos em casa uma edição censurada de A Velhice do Padre Eterno. Abundam, sem dúvida, as maneiras estúpidas de morrer, preocupam-me mais as maneiras estúpidas de viver.

Marca: Metro trains. Título: Dumb ways to die. Agência: McCann-Erikson Melbourne. Austrália, 2012.

Marca: Miami Ad School/ESPM. Título: Dumb ways to die. Agência: Y & R Brasil. Brasil, Abril 2014.

Porcos, para sempre!

ormie3Pela mão de uma amiga, descobri a animação Ormie The Pig, de Rob Silvestri (2010). O porco tenta chegar às bolachas, mas não consegue. O povo também se esforça e fica com as favas. O “triunfo dos porcos” é uma quimera. Quem manda são os arganazes, os vampiros e os hipopótamos, as elites da política, da economia e das finanças. “Eles comem tudo, Eles comem tudo, Eles comem tudo e não deixam nada”. Deixam o respigo! Eles querem tudo, eles podem tudo, dispensam a responsabilidade. O povo não manda, soma culpas. A responsabilidade é uma feijoada à moda do povo. Este país inventou os inimputáveis de luxo. Mais o complemento:  o Zé Povinho, albardado e penitente. Haverá país onde as elites ousem sacudir as culpas para o povo? No país do fado, fatalmente! Noutro, circulariam as elites… A arte vem-nos, pelo menos, desde D. João V, o Rei-Sol Português, cuja pragmática de 1749 decreta austeridade, motivada pela “desordem dos gastos” e pelas “despesas dos povos”. O tempo ainda é de arganazes, vampiros e Hipopótamos; e de porcos, carneiros e mexilhões. Este rectângulo lembra-me Don Quixote e Sancho Pança: um Don Quixote que não presta e um Sancho Pança que não pode.

Rob Silvestri. Ormie The Pig. 2010R

Uma baleia na floresta

The WDC. Safe and free

Quando a inspiração e a arte se dão as mãos pode acontecer um anúncio de inesperado e belo efeito. À semelhança da coca-cola de Fernando Pessoa, uma baleia a nadar numa floresta é um conceito que “Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se”.

Marca: Whale and Dolphin Conservation (WDC/WDCS). Título: Safe and free. Agência: Gentleman Scholar. USA, Novembro 2013.