Patas de caranguejo

Tinha içado a vela, navegava à deriva obliquamente, como um caranguejo; depois, ao chegar ao fim do seu percurso, corrigia a deriva a baixa velocidade, posicionava-se de lado a três quartos do vento e a sua proa robusta abria-lhe caminho. (Roger Vercel, Remorques, 1935).
Apesar de estar com pouco tempo livre, assoberbado a escrever um capítulo intitulado A Senhora da Cabeça, São Bartolomeu e o sagrado em Penso, dei-me ao luxo, com imenso prazer, de revisitar o artigo A canção da morte a passo de caranguejo, colocado em 11 de setembro de 2017. A primeira parte retoma o artigo A passo de caranguejo. A canção da morte, publicado em 24 de abril de 2015. Versa sobre postais ilustrados, embora o mais interessante não seja o conteúdo, mas a indagação e a digressão, ao jeito de um crustáceo. O resultado não é pequeno. As coisas com que me entretinha em tempos adversos! Quando tiver uma folga, recomendo uma espreitadela. Já agora, o meu signo é o caranguejo.
É possível
Recordar apenas uma canção (La Luna) de Angelo Branduardi sabe a pouco. Compositor e intérprete de eleição, tenho publicado muitas canções suas. Por exemplo, Ballo in Fa diesis Minore (Sono Io la Morte) e Nelle Palludi di Venezia (com Teresa Salgueiro), ambas no artigo A passo de caranguejo. Canção da morte (24.04.2015), que recoloco. Acrescento quatro canções: Confessioni di un malandrino (1975); Alla Fiera Dell’Est (1976); La pulce d’acqua (1977); e Si può fare (1992). Um consolo…
Lua, Estrela, Vénus, Gaivotas e Teslas

A lua
La LunaUm dia, ao improviso
Un giorno all’improvisoA lua se cansou
la luna si stancòDe olhar para o mundo, la de cima
di guardare il mondo di lassùEla pegou um cometa,
prese una cometa,Seu rosto, escondeu
il volto si velòE até o fim do céu, caminhou.
e fino in fondo al cielo camminò(Angelo Branduardi, La Luna, 1975)
Um satélite, uma estrela e um planeta, três luzinhas solitárias e quase alinhadas. Falta um cometa, mas esses parecem estar do outro lado do mar. Curiosamente, nas recentes dezenas de vezes que tenho ido à varanda, afigura-se-me ver, nesta praia minhota, poucas gaivotas e muitos Teslas.
Continuo, obstinadamente, a escutar música italiana, hoje, La Luna de Angelo Branduardi
De Maria em Maria
Da Virgem Maria, com o filho no colo, à Maria Carta, com a Sardenha na voz, insinua-se um pequeno atalho irresistível.
Maria Carta (Sardenha, 1934; Roma, 1994), foi uma cantora, atriz e poetisa italiana que explorou as múltiplas facetas da música tradicional da Sardenha, em especial o cantu a chiterra (um tipo de canção folclórica). Soube atualizar a tradição, acrescentando um toque pessoal.
Seu belo rosto, o orgulho e a graça de sua postura, mais do que um símbolo, são a personificação da Sardenha intangível e selvagem que sempre amei. Quando a sua voz calorosa e poderosa se eleva e preenche o espaço, horizontes infinitos se abrem, mergulhando na história. Tendo conhecido Maria Carta, afirmo mais uma vez que os únicos grandes homens da Sardenha foram mulheres” (Giuseppe Dessi, Apresentação do LP Delirio, 1974).
O Cântico das Criaturas

Em tempos conturbados de obscurantismos e cegueiras mil, nada como se compenetrar e contemplar com olhos enxutos a imensa mas vulnerável dádiva da natureza. Pequenos, simples e humildes, como franciscos! Seguem duas músicas de Angelo Branduardi: “Il Cantico delle Creature” e, com Teresa Salgueiro, “Nelle Palludi di Venezia”, ambas publicadas originalmente no álbum L’Infinitamente Piccolo (2000).
Imagem: Noite estrelada do Principezinho (poster)
Tempestade

A campanha eleitoral pode não ter sido muito substantiva, foi mobilizadora. E a votação lembra uma tempestade: varreu à esquerda e dispersou à direita, mais ao jeito de Vivaldi do que de Branduardi.
Ecos medievais

Escutamos e estimamos pouco a música medieval, pelo menos, não tanto quanto vale, na sua originalidade e diversidade em várias áreas:
- Ancoragem social: religiosa, trovadoresca, popular, mourisca…;
- Géneros: cantigas, motetos, missas, conductus…
- Cantos: gregoriano, cantochão, polifónico…
- Espaços: igrejas, castelos, praças, banquetes, tabernas…
- Eventos: festas, feiras, procissões, desfiles, bailes, banquetes…
- Instrumentos: rebecas, cítolas, harpas, vielas, saltérios, alaúdes…
- Danças: carolas; tripudium, estampidas, saltarelos, folias…

É verdade que, nos nossos dias, réplicas e sucedâneos nos interpelam, intermitentes, nos eventos e simulacros (e.g. as feiras medievais), no cinema (e.g. os filmes de fantasia) ou na música (e.g. o folk power metal, como os Blind Garden, ou os trovadores contemporâneos, como o Angelo Branduardi). Sublinhe-se que a música medieval é precursora e inspiradora de muitas composições dos séculos seguintes. Atente-se, por exemplo, nas Cantigas de Santa Maria, do século XIII, da corte de Afonso X, escritas em galego-português.
A minha ignorância da música medieval é avassaladora. Felizmente, tem-se manifestado notável o estudo e a recuperação do legado medieval. A ignorância comporta uma virtude para quem prefere descobrir a confirmar: proporciona mais hipóteses de encontrar, com espanto e prazer, por acaso ou pesquisa, novidades, sejam contextos ou obras. Seguem cinco exemplos:
O trovador

Compositor, cantor, multi-instrumentista, “trovador”, Angelo Branduardi destaca-se como um dos artistas mais emblemáticos da Itália contemporânea. Nos anos setenta, obteve um franco sucesso em França. Algumas das suas canções são em língua francesa. É o caso de uma das canções selecionadas (La demoiselle). O intercâmbio entre a Itália e a França não é de menosprezar. A este propósito, Jean Cocteau graceja: “os italianos são franceses com bom humor”. Já coloquei várias músicas do Angelo Branduardi: La Luna; Alla Fiera Dell’ Est; La Pulce D’Acqua; Ballo in fa diesis minore; e Si può fare. Coloquei ainda a música Nelle Palludi di Venezia, com Teresa Salgueiro (ver https://tendimag.com/2015/04/24/a-passo-de-caranguejo-a-cancao-da-morte/). Seria estranho neste ciclo do Tendências do Imaginário dedicado à Itália ignorar Angelo Branduardi. Tem mais de vinte álbuns publicados. Dá para retirar mais três canções: Gli Alberi Sono Alti (1975); La Demoiselle (1979) e Confessioni di un malandrino (1980). É demasiado. A maior parte das pessoas não vai gostar. Mas os outros vão consolar-se.
Virar costas a Castela

Virar costas à latinidade não traz bom vento. Insensatez de Estado, cenoura do povo e oportunismo do resto.
Conhece Angelo Branduardi? Não? E a Billie Eilish? A cereja no bolo do terceiro milénio é a avaliação assente na ignorância electronicamente ruidosa. O Angelo Branduardi é uma espécie de José Afonso da Itália. Ao prestar-lhe atenção, paramos, por um momento, de coçar o mainstream. Boiar na corrente é cómodo, mas nada pessoal. Sem cabeça, coração e estômago, com raízes gastas, sob uma tempestade de gadgets e emblemas, arriscamos o excesso semiótico e o distúrbio gastro-identitário.
Viramos costas à latinidade com o freio nos dentes. Afigura-se estúpido desvalorizar o que somos.

