Archive | Texto RSS for this section

Folia Portuguesa

Hoje, vou falar da folia, um produto criativo de sucesso, mas pouco conhecido, de origem nacional. Ando há meses para publicar este artigo mas tive que aguardar pelas férias para o conseguir.

“A história da folia reparte-se por dois períodos. A primeira folia, de origem portuguesa, caracterizada por Salinas em 1577, adquire popularidade em Espanha, e é exportada para Itália por volta de 1600” (Hudson, Richard, The Folia Melodies, Acta Musicologica, Vol. 45, Fasc. 1 (Jan. – Jun., 1973), pp. 98-119, p. 98).

A folia, “um dos fenómenos mais notáveis da história da música” (La Folia- A Musical Cathedral: http://www.folias.nl/html1.html), remonta a finais do século XV. Com raízes campestres ligadas a rituais de fertilidade, a folia, música e dança, estende-se a outros públicos: tanto ocorre nos ajuntamentos populares como nas festas da corte. Garcia de Resende, na Crónica do Rei D. João II, de 1545, refere várias vezes a folia:

“E toda a gente da cidade foi posta com muita brevidade em danças e folias, com infindas tochas na praça e no Terreiro dos Paços, e por todas as ruas principaes, e tanta gente honrada e nobre, e assi a do povo, que não cabia, nem se viu nunca tanto alvoroço e alegria, e muitos velhos e velhas honradas com sobejo prazer foram juntos cantar e bailar diante de El-Rei e a Rainha, cousa de que suas edades os bem escusavam” (Chronica de ‘L Rei D. João II, Bibliotheca de Classicos Portuguezes, Lisboa, 1902, p. 64).

Gil Vicente foi o primeiro escritor a mencionar a folia. O Auto da Sibila Cassandra, de 1511, inclui a letra de uma folia cantada por quatro figuras bíblicas:

“Traz Salomão Esaias e Moyses e Abrahão , cantando todos quatro de folia a cantiga seguinte:

Que sañosa está la niña!
Ay Dios, quien le hablaria!
En la sierra anda la niña
Su ganado á repastar;
Hermosa como las flores,
Sañosa como la mar.
Sañosa como la mar
Está la niña;
Ay Dios, quien le hablaria!”

(Gil Vicente, Auto de Sibila Cassandra, Obras de Gil Vicente, Tomo I, Officina Typográphica de Langhoff, Hamburgo, 1834, p. 46).

Manuel Machado. La Folia Dos Estrellas le Siguen. Séc. XVII.

Em pleno reinado dos Filipes, Sebastián de Covarrubias define, no Tesoro de la lengua castellana (Madrid, 1611), a folia nos seguintes termos:

“é uma certa dança portuguesa, muito barulhenta; porque comporta muitas figuras a pé com chocalhos e outros instrumentos, homens mascarados carregam aos ombros rapazes vestidos de mulher, que com as manlgas de ponta se contorcem e, às vezes, dançam. E também tocam pandeiros: e é tão grande o ruído e o som tão apressado, que parecem estar uns e outros sem juízo. E assim deram à dança o nome de folia, da palavra toscana ‘folle’, que significa oco, louco, insano, aquele que tem a cabeça vazia”.

No livro De Musica libri septem (Salamanca, 1577), Francisco de Salinas, cego desde os dez anos, organista e catedrático da Universidade de Salamanca, caracteriza a composição das “canções populares que os portugueses chamam Folias”. Apesar do amplo reconhecimento da origem portuguesa das folias, em vários países, são conhecidas por folias de Espanha. Por exemplo, em França e, pelos vistos, no Brasil. Uma tese de doutoramento em música, defendida por Flávio Apro, em 2009, na Universidade de São Paulo, tem o seguinte título: Folias de Espanha: O Eterno Retorno. Para esta deslocação da “patente” contribuiu, porventura, a contingência de a expansão das folias na Europa ter coincidido com o eclipse da nossa independência nacional entre 1580 e 1640.

“O padrão musical da Folia ibérica consistia numa linha de baixo ostinato (ou ground), sobre a qual se escreviam discantus e improvisavam-se variações, chamadas na época de diminuições (…) A moldura harmónica (…) costuma ser apresentada no tom de Ré menor: Dm | A7 | Dm | C | F | C | Dm | A7 | Dm | A7 | Dm | C | F | C | Dm A7 | Dm (Flávio Apro, pp. 15 e 32). A figura 1 apresenta uma das partituras mais antigas de uma folia.

Anónimo, partitura de folia, copiada por Valderrábamo, Silva de Sirenas, Valladolid, 1547, reproduzida em Giuseppe Fiorentino, Música Española del Renacimiento entre Tradición Oral y Transmisón Escrita, tese de doutoramento em História e Ciências da Música, Universidade de Granada, 2009, p. 390.
Anónimo, partitura de folia, copiada por Valderrábamo, Silva de Sirenas, Valladolid, 1547, reproduzida em Giuseppe Fiorentino, Música Española del Renacimiento entre Tradición Oral y Transmisón Escrita, tese de doutoramento em História e Ciências da Música, Universidade de Granada, 2009, p. 390.

“A melodia fácil e as possibilidades que oferecia à improvisação foram qualidades que não passaram desapercebidas entre os músicos instrumentistas do barroco” (Juan Luis de la Montaña Conchina, Apuntes sobre “las folias de España”: http://filomusica.com/filo7/cdm.html). A folia distingue-se como uma composição que, embora de raiz popular, conseguiu conquistar a corte. Estes dois traços, a adopção pela corte e a abertura ao improviso e a variações, concorreram tanto para o seu sucesso como para a sua longevidade.

Arcangelo Corelli. Violin Sonata in d minor La Follia Opus 5 no.12 (1700): theme and 23 variations.

A folia não se resume à música e à dança, comporta texto e animação. Estes quatro  elementos dotam a folia de uma carga envolvente vertiginosa que raia a loucura. É uma prática típica do grotesco carnavalesco de raiz medieval (Mikhail Bakhtin, A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, São Paulo/Brasília, Hucitec/Editora Universidade de Brasília, 2008).

A popularidade da folia era tal que o próprio Dom Quixote bailou esta dança em Barcelona, em casa de D. António Moreno (Miguel Guerol Galvadá, La música en la obra de Cervantes, Madrid, Ediciones del Centro de Estudios Cervantinos, Madrid, 2005, p. 140). Em Portugal, a folia mantém-se, séculos a fio, como uma das principais atracções da procissão do Corpo de Deus. Não é raro uma procissão incorporar várias folias (Francisco Marques de Sousa Viterbo, Artes e Artistas em Portugal, Lisboa, Livraria Ferin, 2ª  ed., 1920).

A partir do séc. XVI, muitos músicos compuseram folias, ou as inseriram nas suas obras: Arcangelo Corelli (vídeo 2), Jean Baptiste Lully, Marin Marais, Antonio Vivaldi, Domenico Scarlatti, Antonio Salieri, Niccolò Paganini, Hector Berlioz, Franz Liszt, Sergei Rachmaninov… Trata-se apenas de uma pequena amostra. A página La Folia – A Musical Cathedral (http://www.folia.tk/), que procede a um inventário de folias, estima que “mais de 150 compositores em mais de 330 anos conceberam inúmeras variações brilhantes”.

Jan Johansson. Sinclairvisan. Musik Genom Fyra Sekle. 2008.

Nas sociedades ditas pós-modernas ou líquidas, ainda há lugar para a folia? “No presente, as Folias continuam a assombrar o nosso imaginário musical” (Lutin d’Ecouves: http://fr.wikipedia.org/wiki/Discussion:Folia). O cruzamento de géneros tem sido uma propensão das últimas décadas. E a folia alinha. No cinema, consta da banda sonora de filmes tais como Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick, ou 1492 A Conquista do Paraíso (1992), de Ridley Scott. Karl Jenkins (Adiemus) compôs uma La Folia (http://www.youtube.com/watch?v=UIHHT0NXdsw). O jazz, a seu jeito, também se deixou tentar. Vários grupos e artistas tocam folias. Permito-me relevar Jan Johansson, pianista expoente do jazz sueco, falecido em 1968 (ver vídeo 3; Sinclairvisan – La Folia). Inesperada é porventura a presença da folia no mundo dos videojogos. Final Fantasy, distinta referência no género, inclui, na banda sonora do Final Fantasy IX, uma folia, composta por Nobuo Uematsu (Vamo’ Alla Flamenco, vídeo 4).

Final Fantasy IX OST. Vamo’ Alla Flamenco. Compositor: Nobuo Uematsu.

Os espanhóis prestam atenção e dão valor à folia. O mundo, também. E nós, os portugueses seus criadores? Deparei-me com uma obra notável: um cd intitulado O Lusitano – Portuguese Vilancetes, Cantigas e Romances, pelo ensemble Circa 1500 e Gérard Lesne, com direção de Nancy Hadden, impresso na Alemanha pela Virgin Classics,em 1992. Tudo nomes aparentemente estrangeiros… Tropecei com o seguinte comentário sobre este cd no blogue Assédio: “Se nós não investimos e não investigamos a nossa música, há quem o faça e lhe dê o real valor que tem, e que é muito! Aqui está a prova: a nossa música do século XVI” (http://assedio.blogspot.pt/2006/04/portugal-circa-1500.html). Foi, contudo, neste cd, O Lusitano, que ouvi pela primeira vez a folia de minha eleição: La Folia Dos Estrellas le Siguen, do português Manuel Machado (c. 1590-1646), compositor que se formou em Lisboa, mas que migrou, como muitos conterrâneos, em 1610, para Madrid, onde foi músico, primeiro, da Capela Real e, em seguida, no palácio de Filipe IV de Espanha. Quase  todas as partituras que compôs foram destruídas pelo terramoto de 1755.

Nós, portugueses, sabemos o que valemos?

Pós

Sissy Boy JeansEste anúncio da Sissy Boy Jeans acaba de inventar a figura da Pigmaleoa Narcisa? Pelos vistos, a identidade não se fragmenta, duplica-se. Na fragmentação, a aritmética é feita de divisão e subtracção. Esta aritmética é diferente, é feita de multiplicação e adição. Não produz retalhos, antes réplicas. Uma mitose. Fragmentação ou clonagem? Caberá a Pigmaleoa Narcisa na pós-modernidade? E na pós-humanidade? Há conceitos felizes. Albergam tudo. Ocos como os fantasmas. Quase tudo por fora e quase nada por dentro. Como diria o meu avô paterno, se calhar, é tudo uma questão de escala. E o meu avô materno acrescentava: e de perspectiva. Está tudo dito! Apesar da liquidez em que navegamos, continuo a preocupar-me com a réplica, com a mesmidade arregimentada, com as identidades sedimentadas em moldes comuns. Não se afoitem a arquivar a primeira metade do séc. XX como período historicamente extraordinário. Extraordinários somos nós! Brinquemos, pois! Com coisas sérias.

Marca: Sissy Boy Jeans. Título: Unwrapped. Agência: M&C Saatchi. Direção: Ian Gabriel. África do Sul, Julho 2013.

Se emagrecer…

A comunicação é dialógica. Convoca vários interlocutores e respectivas reacções, fruto ou não da imaginação. Esta ideia é banal. A comunicação também é dialógica no sentido atribuído por Mikhail Bakhtin: cada qual é um coro dissonante em fuga. Um autor é uma reconstrução babélica com propensão para a autofagia. O autor não se dá, desfaz-se. Desfaz-se como uma pilha de seixos. Mal se desfaz, logo se alheia e desinteressa. Aquele naco de si transforma-se numa folha à deriva. Soltou-se. Não fossem os outros, os seus sinais, eventualmente fabulados, e tudo se resumiria a nada. Nem diálogo, nem naco, nem folha. O autor não se dá, desfaz-se. Desaparece, aguardando novas do desaparecido. Com o tempo, desfaz-se completamente. Vanitas! Pura ilusão e vaidade. Um discurso, como este, maneirista, é pior que nada, é um abuso, é um squatter da atenção alheia. Parafraseando Fernando Pessoa, um autor é um fingidor, um fingidor que finge que existe, e ninguém dá por isso.

Toda esta verborreia serve para acolchoar o laconismo do presente comentário. A globalização também existe na publicidade. Um anúncio russo aplica-se que nem uma luva a Portugal: se emagrecer, aperte o cinto. Por favor, não mostre o que não tem. Tudo o resto é lenta e duvidosa brejeirice.

Marca: 10FIT. Fitness Centre. Título: Exhibitionist. Agência: Red Pepper. Direção: Ivan Sosnin. Rússia, Julho 2013.

Caravelas do século XXI

René Magritte. The Pleasure Principle, Portrait of Edward James. 1937.

René Magritte. The Pleasure Principle, Portrait of Edward James. 1937.

Este país pondera pouco. A palavra parece um arcaísmo eclipsado por estrangeirismos garbosos como o benchmarking ou o empreendedorismo. Portugal espreita para cima e estatela-se em baixo, saltando abruptamente de arqueísmo em neologismo, e de neologismo em neologismo. Ora sai bem, ora sai mal, ora sai péssimo. Entalada entre a lentidão pasmada e a catástrofe inevitável, a mudança é mais esperada do que preparada. Existem, é certo, casos de espécie: a tartaruga da justiça em praia reservada; a lebre da educação em catástrofe permanente. “Se” é uma palavra intrínseca à ponderação. Com duas letras apenas, mas decisiva: “se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais pequeno, toda a face da Terra teria mudado” (Blaise Pascal). O “se” é o sal da ponderação. Tirando o bacalhau, o meu país anda insosso. Não basta atender às condições e mobilizar vontades, importa sondar possibilidades e probabilidades. O “se” não é obstáculo, é, antes, um ingrediente para seguir em frente. Num país onde os timoneiros nunca se enganam e raramente têm dúvidas, o se ou é um pária ou é um furúnculo. País que pouco conjectura e ainda menos pondera é um ramo de oliveira no mar da palha, atulhado em metas, directivas, milestones e ajustamentos. Qualquer pirata sabe que, pior do que navegar segundo uma cartilha, só navegar segundo uma cartilha estrangeira que se esqueceu das estrelas. “À barca, à barca, boa gente, que queremos dar à vela” (Gil Vicente). A melancolia é uma salada azeda, disjuntiva e labiríntica. Que tal reler Rudyard Kipling? Ou repetir um Pink Floyd bem velhinho (If, Atom Heart Mother, 1970)? À barca, à barca, que o inferno ainda não está cheio. Costumo estar cansado, hoje estou intragável.

Pink Floyd. If. Atom Heart Mother. 1970. Vídeo não oficial.

A evolução da espécie

Christie Potato Thins. Handsfree.Feliz por estar de volta! A intensidade da ergoterapia diminuiu. Por um tempo. Aguarda, impaciente, a mezinha do costume (candidaturas, defesas, avaliação, escrita e actos administrativos). As “férias”, sem subsídio, estão com vontade de ir a banhos. Mesmo disfarçado no sobe e desce das ondas, não há excesso sem ironia: será que todo este zelo ergoterapeutico  contribui, estupidamente, para a dispensabilidade paraconstitucional da função pública? Uma das principais mutações genéticas da sociedade portuguesa. Enquanto dou pontapés à água, pasmo! Não me lembro de jovens (portugueses) e velhos (europeus) se entenderem tão bem. Deve ser coisa da astrologia: uma constelação extraordinária sob influência de um astro luminoso (neoliberalismo, tecnocracia, neocurialização…). Nunca o saberei. Cegueta como sou, já não enxergo bem as estrelas.

A evolução das espécies sempre gerou controvérsia: Lamarck, Darwin, Mendel… Hoje, em plena civilização do teclado, a hereditariedade joga-se nos polegares. Mas há quem contraponha os pés, para descanso das mãos. Tive ensejo de mencionar a subida da cotação dos pés no mercado simbólico: A emancipação dos pés (http://tendimag.com/wp-admin/post.php?post=6716&action=edit) e A redenção dos pés (http://tendimag.com/wp-admin/post.php?post=3018&action=edit). Há quem sustente que a grande mudança se prende com as próteses: os vindouros serão biomecanóides ou ciborgues. Vão nascer com implantes, silicones e outras proezas da salvação médica. Não sou biólogo, nem filósofo, mas também tenho uma pequena teoria. Todos aprendemos, com os nossos sábios responsáveis, que combater a dívida consiste em transferi-la de uns para outros. Não me perguntem de quem para quem, porque sabem a resposta. No limite, ao jeito de um processo markoviano, a dívida, esse pecado infernal, vai tocar a todos: até quem nos endividou vai ficar endividado. O legado da nossa geração será, portanto, o seguinte: todos nascerão endividados, uma nova espécie de pecado original. Depois do Homo habilis, do Homo erectus e do Homo sapiens, eis que nasce, na Lusitânia, o Homo pelintrus.

O calor mexe com os humores. Põe-nos de maus fígados. Mais agressivos do que o cão do vizinho. Há dois séculos, a panacéia seria uma sangria com sanguessugas. Olho para o mar, penso em Magritte, e vejo cérebros em forma de fralda a subir, subir, subir… Como balões de São João! Até que tocam ora numa epifania, ora numa santidade, ora numa misericórdia. Peca-se por pensamentos, palavras, actos e omissões. Também se peca por sonhos.

Marca: Christie Potato Thins. Título: Handsfree. Agência: UNION. Direção: Zach Math. Canadá, Julho 2013.

O Cabo dos Trabalhos

Tenho andado um pouco arredado do blogue. Sendo um vício, tem-me custado. Um dos responsáveis é este relatório sobre os impactos económicos e sociais de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura. Pode aceder e fazer download carregando na  imagem ou através do seguinte endereço: http://www.guimaraes2012-impactos.pt/.

Impactos Económicos e Sociais. Relatório Executivo. Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura. Universidade do Minho. Julho 2013.

Impactos Económicos e Sociais. Relatório Executivo. Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura. Universidade do Minho. Julho 2013.

Poder entalado

Entre o maço e a pedra situa-se o cinzel, que, à marretada, retalha a pedra. Há quem esteja assim entre o maço e a massa. Nos anos 1930, os engenheiros franceses queixavam-se, por exemplo, de se sentir entre “a bigorna da plutocracia e o martelo do proletariado” (Luc Boltanski, Les cadres, 1982). Num registo próximo, os peixes da gravura de Bruegel (http://tendimag.com/2012/05/27/a-presenca-de-portugal-num-mapa-do-sec-xvi/) comem-se uns aos outros: os maiores devoram os mais pequenos, como no anúncio da Food Chain Friends. Para os entalados da cadeia ou da escada, comer à frente e ser comido por trás pode ser um modo de vida. Outra solução consiste em ser fraco com os fortes e forte com os fracos, postura que se dá bem com os ares da nossa terra. Tanto ou mais do que a vinha. É escusado bater palmas!

Food Chain Friends. Eating Habits.

A emancipação dos pés

ShoeDazzleOs pés merecem bom calçado. Suportam tudo e andam de rastos. Pés e Povo começam pela mesma letra. Mera coincidência. Mas os pés estão em vias de emancipação. O povo, não! A estética é crucial em qualquer processo de emancipação: o feio torna-se bonito graças a uma reciclagem do gosto. E os pés estão mais bonitos! E mais inteligentes. O anúncio da ShoeDazzle confirma-o. Proliferam as cinderelas. Quanto à inteligência, nada como ler este excerto do poema “dans ma maison”, de Jacques Prévert  (Paroles, 1946). Em suma, não convém menosprezar os pés nem espezinhar o povo.

Marca: ShoeDazzle. Título: Hashtag. Agência : SelectNY. Direção : Maz Makhani. EUA, Junho 2013.

Jacques Prévert, excerto de “dans ma maison” (Paroles, 1946)

Eu não fazia nada
Isto é nada de importante
Às vezes de manhã
Lançava uns gritos animais
Zurrava como um burro
Com toda a força
E isso dava-me prazer
E depois brincava com os pés
São muito inteligentes os pés
Podem levar-nos longe
Quando queremos ir longe
E quando não queremos sair
Eles ficam a fazer-nos companhia
Quando há música dançam
Sem eles não se pode dançar
É preciso ser-se estúpido como o homem tantas vezes é
Para dizer coisas tão estúpidas
Como estúpido como um pé alegre como um tentilhão
O tentilhão não é alegre
Só é alegre quando está alegre
É triste quando está triste ou nem alegre nem triste
Aliás ele nem se chama assim
Foi o homem quem lhe deu esse nome
Tentilhão Tentilhão Tentilhão

Je ne faisais rien
C’est-à-dire rien de sérieux
Quelque fois le matin
Je poussais des cris d’animaux
Je gueulais comme un âne
De toute mes forces
Et cela me faisait plaisir
Et puis je jouais avec mes pieds
C’est très intelligent les pieds
Ils vous emmènent très loin
Quand vous voulez aller très loin
Et puis quand vous ne voulez pas sortir
Ils restent là ils vous tiennent compagnie
Et quand il y a de la musique ils dansent
On ne peut pas danser sans eux
Il faut être bête comme l’homme l’est souvent
Pour dire des choses aussi bêtes
Que bête comme ses pied gai comme un pinson
Le pinson n’est pas gai
Il est seulement gai quand il est gai
Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste
Est-ce qu’on sait ce que c’est un pinson
D’ailleurs il ne s’appelle pas réellement comme ça
C’est l’homme qui a appelé cet oiseau comme ça
Pinson pinson pinson pinson

Da frente para trás, de baixo para cima

Eis um anúncio engenhoso. Lembra Clarice Lispector.

Marca: Oui Marketing. Título: Mais qui s’en préoccupe vraiment ?. Agência : Oui Marketing. Direção : Thomas Vannieu. Canadá, 2013.

(Ler e recomeçar de baixo para cima)

Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais…
(Clarice Lispector)

Bullying de Estado

Adesf. Anti-smoking-one-thing-leads-to-another-lungs

Adesf. One Thing Leads to another – lungs. Neogama bbh. Brasil. 2012.

Há bons anúncios contra o tabaco. Também há boas razões para os promover. Não obsta que a maior parte configura práticas de bullying de Estado. Bullying legal de massas. Maltratam e assustam. O medo é a equação, e o medo é medonho.
Caro fumador, agradecia que respondesses a uma simples questão:
Depois de ver este anúncio do Department of Health do Reino Unido, o que te apeteceu fazer?

    1. Nada.
    2. Deixar de fumar.
    3. Uma ecografia torácica.

Se respondeste A, o anúncio foi, no teu caso, um desperdício. Para o Estado. Já para a agência de publicidade, foi um negócio e para a instituição anunciante, uma prova de desempenho.
Se respondeste B, o anúncio foi um sucesso, para ti e para o Estado.
Se respondeste C, o anúncio teve um efeito perverso. Aumentou a despesa do Estado.

Anunciante: Department of Health. Título: Mutation. Agência: Dare. Direção: Simon Ratigan. Reino Unido, Outubro 2012.