O Segredo de Compostela
A pretexto do livro “O Segredo de Compostela”, publicado esta semana, vamos ter o prazer de conversar com o autor Alberto S. Santos, no dia 28 de Maio, às 18:30, no Museu Nogueira da Silva (Espaço Ondina Braga).
Venha conversar também!
Uma iniciativa do curso de mestrado em Comunicação, Arte e Cultura e do Museu Nogueira da Silva.
A Sociedade Calibrada
Quando se acorda mal disposto e com vontade de irritar os outros, não há nada como escrever uma crónica arrevesada.
O texto não está completo. Foi publicado numa página da Internet que, entretanto, desapareceu. Segue o texto original:
“Após a luta contra a intolerância religiosa, o racismo, a discriminação de género, a homofobia e a violência doméstica, o processo civilizacional envereda por uma nova fase: a calibragem. Tal como as maçãs nos hipermercados, as pessoas ganham em ter a medida certa, sem rugas nem defeitos. Nem grandes, nem pequenas, lisas por fora e homogéneas por dentro. Depiladas, desodorizadas e insípidas. Figuras de terracota de um exército chinês.
Em tempos de previdência e prospetiva hipermedicalizadas, cada um é responsabilizado pelas medidas do seu caixão. A calibragem, com a respetiva fotometria do ajustamento, tornou-se comezinha e vizinha da estigmatização.
Há casos progressivamente assumidos como desafios morais, entorses estéticos e fardos coletivos. Pelo que se constata e pelo que se antecipa. Alguns destes casos prendem-se com o consumo, mormente de tabaco, bebidas e alimentos… De um modo geral, ao contrário do sexo e da raça, uma pessoa não nasce fumador, alcoólico ou obeso, torna-se. Torna-se em algo que não é uma fatalidade. Pode corrigir-se e remediar-se. Estas particularidades têm o condão de abrir uma caixa de Pandora repleta de moralismos, estigmas e campanhas. O mal é evitável, importa combatê-lo. Empenham-se os dispositivos de Estado, as organizações não governamentais e os cidadãos numa massagem quotidiana crónica. De proximidade e à distância. Quem não esboçou um gesto, uma palavrinha que fosse, para a conversão de alguma ovelha tresmalhada? Uma iniciativa angelical de cuidado do outro, que é carrasco e vítima de si mesmo. Nasceu um novo mandamento: calibrai-vos uns aos outros. Trata-se de uma missão natural, clarividente. Previnem-se suicídios a prazo e homicídios por negligência frente ao espelho. Fumar mata! O álcool mata! A obesidade mata! A vida morre…
A promoção da calibragem em massa arrisca convocar a estigmatização e a discriminação. O estigma não é apenas uma marca negativa, é uma nódoa poluidora que contagia o resto. Assim como se observa a tendência para gritar quando se fala com um cego, também extrapolamos quando interagimos com um fumador, um alcoólico ou um obeso. Deduzimos, abusivamente, o todo a partir da parte.
Este tipo de estigmatização não nasceu hoje. Há séculos que se rebaixam os bêbados e os obesos. Observa-se, porém, uma diferença. Outrora, ridicularizavam-se os obesos, mas não se lhes receitava a magreza. Agora, até os magros têm que cuidar de o ser.
A propósito da notoriedade do estigma e da trama da discriminação, não vai um século que, na Europa, se estampavam identidades e se carimbavam corpos. Também se retalharam espaços públicos para segregação coletiva. Hoje, as práticas de sensibilização e de prevenção dos excessos, de consumo de tabaco, de bebidas e de alimentos, tão pouco pecam pela discrição. Ostensivas, ubíquas e chocantes, na comunicação social, na rua, em casa e nos bolsos. Sustenta-se que os fins justificam os meios, e os meios justificam tudo. Navegando entre Cila e Caribdis, as democracias mostram-se capazes de albergar equações típicas dos totalitarismos que a podem subverter. Nas narinas da democracia ainda se respira o cheiro da intolerância.
Estas considerações vêm a propósito de três iniciativas recentes respeitantes à obesidade. A primeira, um centro de fitness lança um anúncio intitulado Fat Kills! que termina com a frase: Kill Fat. É o mais recente de uma longa série que desconsidera aberta e grotescamente os obesos (http://tendimag.com/2013/05/15/a-linha-e-o-botao/). A segunda refere-se à declaração do Presidente da Abercrombie & Fitch: a empresa vai deixar de fabricar roupas em tamanhos grandes, porque não quer clientes gordos ou feios vestindo as peças da marca (http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/presidente_da_abercrombie__fitch_diz_que_as_suas_roupas_nao_sao_para_gordos_e_feios.html). A terceira iniciativa diz respeito ao concurso Peso Pesado, da SIC, um autêntico purgatório de corpos (http://sic.sapo.pt/online/sites+sic/peso-pesado/). Asseguram que é um programa didático e pedagógico. Mas intrusivo e calibrador. Os concorrentes, gladiadores que combatem contra o próprio corpo, entregam-se a uma longa e pública expiação da carne.
A obesidade comporta riscos e incómodos. Acarreta implicações ao nível da morbilidade e da esperança de vida. Acresce que o Estado se preocupa cada vez mais com a nossa morte. “Viver para a morte” emerge como um lema cada vez menos absurdo. A morte é calculada e a vida assistida. Sem rugas, sem protuberâncias, sem excessos e a custo mínimo. Tudo tende a ser assistido. Até a direção dos automóveis.
Esta política do corpo aproxima-nos dos fantasmas da ficção científica: do reino da assepsia, da repetição e da perfeição castradora. Mas a experiência da sociologia sugere que a diferença é tão importante para a sociedade quanto a rosa para o Principezinho.
Uma última nota. Com a informação disponível, é difícil ser a favor do tabagismo, do alcoolismo ou da obesidade. Mas não é essa a questão. A questão reside na forma como se lida com essas realidades, na calibragem social e na quimera de uma humanidade sem defeitos. A sociedade hipermedicalizada está a gerar anticorpos a mais.
Robert Castel faleceu no dia 12 de março de 2013. Aprendi com ele a arte da sociologia. Esta crónica inspira-se na sua obra, nomeadamente nos livros Le Psychanalysme (1972) e L’Ordre Psychiatrique (1977)” (Albertino Gonçalves, 20 de Maio de 2013).
Coração e desigualdades de género
Este anúncio parece visar as desigualdades de género, mas não! Trata-se de uma sensibilização para os riscos de morte por doença cardiovascular. Nada de novo! Muitos anúncios optam por falar de outras coisas que não o produto a promover. O discurso sobre as relações de género rende na publicidade. Não é das relações de género de que estou a falar, essas já rendem há muito, estou a falar do discurso sobre as relações de género. A agência de publicidade Publicis, de Paris, sabe o que faz. Inquieta-me, porém, um pequeno pormenor: na Comunidade Europeia, segundo a Eurostat, a taxa de mortalidade por doença isquémica cardíaca (uma das principais causas de morte) era, em 2010, nos homens o dobro das mulheres (105,5 contra 52,8, por 100 000 habitantes). No caso específico de Portugal, no mesmo ano, a proporção mantém-se: 52,8 nos homens contra 27,7 nas mulheres, por 100 000 habitantes (ver gráfico para 2009).
Anunciante: Cardiovascular Research Foundation. Título: Nathalie. Agência: Publicis. Direção: Hervé Plumet. França, Abril 2013.
Causes of death – standardised death rate, EU-27, 2009 (per 100 000 inhabitants) – Eurostat
A Pragmática e o Memorando
É mais difícil escrever e não dizer nada do que escrever e dizer alguma coisa. Carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.comumonline.com/opiniao/item/1770-a-pragmatica-e-o-memorando.
Ternura
É uma ternura este anúncio da Allan Gray, uma empresa de investimentos financeiros. O rapaz é um anjo da guarda incansável. Tamanha dedicação encerra, porém, um fundo especulativo: a filha sai à mãe. “Always look for potential, and than have the patience to wait for it!” Para aceder ao anúncio, carregar na imagem ou neste endereço: http://www.culturepub.fr/videos/allan-gray-patience?hd=1.
Marca: Allan Gray. Título: Patience. Agência: King James. Direção: Keith Rose. África do Sul, 2008.
A palavra ternura lembra algumas canções ditas francesas. Por exemplo, “la tendresse” de Bourvil (1963) ou de Jacques Brel (1959). É também o título de uma canção de Daniel Guichard (1972). Muito conhecida dos portugueses? Palpita-me que pouco. O que enternece… Portugal já foi o país da rosa-dos-ventos; agora, é um país cataventos, cada vez com mais urgências e cada vez com menos memória.
Daniel Guichard. La Tendresse. 1972.
Erros de bom aluno

Rafael Bordalo Pinheiro. Depois das eleições (O António Maria, 1880)
Portugal está a errar. De um modo sofrido, sustentado, consistente e autodestrutivo. Errar assim não é pecado, nem fado. É ser bom aluno. À europeia. Portugal merece a ajuda de quem o ajuda a errar. Somos um dos países mais envelhecidos da Europa, mas somos jovens. Nos quatro minutos do vídeo A Beleza da Simplicidade, promovido pelo Turismo de Portugal (2011; ver, no mínimo, em 720p), não aparece uma única pessoa de idade. Só jovens. É impressionante! Somos jovens bons alunos. Ainda temos muito para errar…
E pronto! Com 86 palavras e 428 caracteres, quase se escreve uma poesia.
Anunciante: Turismo de Portugal. Produção: Krypton. Direção: Rogério Boldt. Portugal, Maio 2011.
A Institucionalização da Felicidade
A Felicidade, eu conheci-a, era uma senhora de idade, de boas famílias, alta e magra, que morava junto à igreja da minha aldeia. Chamá-la pelo nome era um regalo. Hoje, é o Dia Internacional da Felicidade. É-se feliz? Para sempre, nos contos de fadas. Está-se feliz? Muitas vezes. Há quem meça a felicidade dos povos… Mais complicado do que abraçar as nuvens. Mas há quem acredite nestes ícaros da objectividade forçada… E quem devore os números e os regurgite. Hoje é o dia internacional da felicidade. Quem diria! Seguem:
– uma entrevista ao Jornal de Notícias sobre a “felicidade dos portugueses”, publicada hoje (para aceder ao artigo, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.jn.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=3118437&page=-1).
– um vídeo musical dos Fleetwood Mac (Don’t Stop. Rumours, 1977), não para proporcionar felicidade, mas um pouco de alegria. A resolução do vídeo deixa a desejar, mas a qualidade do conteúdo compensa.
O Ouro e a Mirra
A epifania dos três magos está consagrada no capítulo 2 do Evangelho segundo Mateus (transcrito, em baixo, na íntegra). Os magos, guiados por uma estrela, falaram com Herodes, adoraram o menino Jesus e “ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra”. São Mateus não diz quantos magos eram, nem sequer menciona os seus nomes. Muito menos atribui este ou aquele presente a este ou aquele mago. Com o tempo, viriam a chamar-se Gaspar, Belchior e Baltazar, oferecendo Gaspar o incenso, Belchior o ouro e Baltazar a mirra. Simbolicamente, o incenso representa a divindade, o ouro a realeza e a mirra, resina utilizada pelos egípcios no embalsamento dos corpos, a humanidade, a mortalidade e o sofrimento.
Bento XVI reinterpreta, no livro A Infância de Jesus (Principia Editora, 2012), o Evangelho segundo Mateus, nomeadamente no que respeita à Natividade. Não só questiona a presença da vaca e do burro no presépio, como afiança que os magos não partiram do Oriente, mas do extremo Ocidente, de Tartessos, uma região da península ibérica situada algures entre Huelva, Cádis e Sevilha. Regressemos aos presentes dos magos, ousando, também, reinterpretar. O presente de Gaspar não foi incenso. Ainda menos, ouro. O presente de Gaspar foi mirra. O que condiz com a profecia do eremita do Mar da Palha: dois milénios após o nascimento de Cristo, a ocidente de Tartessos, um vice-rei de nome Gaspar vai mirrar, mirrar, mirrar o povo até o embalsamar numa lata de sardinhas.
EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
Capítulo 2
1 Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.
2 Perguntaram eles: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo.
3 A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele.
4 Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo.
5 Disseram-lhe: Em Belém, na Judeia, porque assim foi escrito pelo profeta:
6 E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo (Miq 5,2).
7 Herodes, então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a época exacta em que o astro lhes tinha aparecido.
8 E, enviando-os a Belém, disse: Ide e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo.
9 Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.
10 A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria.
11 Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.
12 Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.
13 Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egipto; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar.
14 José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egipto.











