Nos telhados de Paris

Para acompanhar a preparação da próxima aula imaterial, música que vitamina a mente: Jacky Terrasson.
Pintores de casas vermelhas

Foi você quem pediu Red House Painters? Não! Apeteceu-me acordar com esta música. Há algum tempo que não a ouvia. Espero acertar um dia com os seus gostos. Vai ser uma festa!
Intervalo

Chegaram as flores, como de costume. Está um belo dia para teletrabalhar. Numa redoma, como aconselha a saúde. O lazer faz falta. Tempera o espírito. Rachmaninoff pode ajudar.
Chegaram as flores, como de costume. Está um belo dia para teletrabalhar. Numa redoma sanitária. O lazer faz falta. Quando é obrigatório deixa de ser lazer. Uma boa dose de lazer tempera o espírito. Rachmaninoff pode ajudar.
Aula imaterial 3. Carta a um estudante com dúvidas

“Quando se lê demasiado rápido ou demasiado suavemente não se percebe nada” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670).
Mais uma pedrada no lago do ensino à distância. Os alunos do mestrado em Sociologia querem saber o que é pedido para o trabalho de Práticas de Investigação Social.
Foi acordado um projeto de investigação ou de intervenção, à escolha e responsabilidade de cada aluno.
Como deve ser o projeto? Furto-me a dizê-lo. Cada caso é um caso, com formas e conteúdos próprios. A burocracia do formato único não tem cabimento nesta disciplina.
Um projeto de investigação ou intervenção suscita, mesmo assim, alguns apontamentos.
Vou investigar o quê?
O que quero saber ao certo? Importa definir e delimitar o que se vai estudar.
De que ponto de vista? Com que perspetivas e suporte teórico? Como me vou servir da teoria?
Sabe-se o suficiente acerca do universo para avançar? O projecto é viável? Convém explorar documentos, observar, promover entrevistas. A quem? Especialistas? Testemunhos privilegiados? Pessoas da população? A investigação empírica pode iniciar ainda a problemática não floresceu.
Como vou escolher, definir e, eventualmente, operacionalizar os conceitos e as hipóteses, ferramentas básicas da investigação? Como vou construir a problemática? Justifica-se desenhar um modelo de análise?
Com que interesse?
Qual o contributo estimado para a disciplina, para a sociedade e para o investigador? A motivação é decisiva, destaca-se como a principal alavanca da investigação. Muitas investigações tropeçam mais na falta de motivação do que nas insuficiências da problemática.
Vou investigar a quem?
Numa investigação empírica, importa saber quem se vai, em concreto, observar. Como delimitar o universo de pesquisa? Que tipos de amostragem são exequíveis? Como vai ser a comunicação e o contato? Como garantir a viabilização do projeto? Que condições e desafios urge resolver e prever?
Vou investigar como?
Que métodos e técnicas pretendo mobilizar? Com que fundamento e objetivo? Vou combinar várias técnicas? Com que articulação? Como vou programar o método, o caminho a percorrer? Em sociologia, as técnicas de investigação não são prefabricadas mas construídas: plano de amostragem, questionário, guião de entrevista, escala de atitudes…
Pressupõe-se que um sociólogo domina as ferramentas da sua profissão. Um pressuposto, por vezes, errado. Escolha e construa as técnicas em vez de ser construído e escolhido por elas. Quem às poucas técnicas que conhece não escolhe. Qualitativas ou quantitativas, antropológicas ou sociológicas, nomotéticas ou ideográficas… Dualismos como estes são o “pecado infantil da sociologia”. Recorra às técnicas que o projeto requer. Caso não domine alguma, é uma boa altura para começar a aprender. O caminho ainda vai a meio.
Vou investigar quando?
Qual vai ser a duração do estudo? Quando começa e termina? Como calendarizar as atividades? Se se proporcionar, preveja um cronograma.
Como vou analisar os dados recolhidos?
Que ficheiros, pacotes estatísticos, processamentos e análises de conteúdo? Se a investigação for bem conduzida, a análise de dados aproxima-se de um prolongamento.
Vou investigar para quê?
O investimento e o esforço despendidos na investigação valem a pena? Quais são os resultados esperados? A quem podem servir? Promovem o conhecimento da realidade estudada? Contribuem para o desenvolvimento da teoria? Comportam inovação e experiência ao nível da metodologia? Vislumbra-se alguma utilidade para a sociedade. E, a título pessoal, que enriquecimento é esperado? Repeti. Não faz mal!
Que bibliografia?
Para qualquer tema, a bibliografia disponível é imensa. Não se deixem ofuscar pelos faróis de excelência. Iluminam o que se sabe e ocultam o que ignoramos e pode ser preciso. Uma bibliografia monopolizada por um autor, ou vários do mesmo clube, pode significar uma ausência efetiva de pesquisa bibliográfica. Um investigador não é um recurso despiciendo. As publicações e os fóruns académicos compõem um imenso oceano cheio de plástico. As pretensas “revisões da literatura” e os “estados da arte” tendem a extravasar as necessidades operativas dos projetos e das pesquisas. Convém limitar a “exploração” bibliográficas àquilo que é, de facto, útil e relevante.
Anexos
Anexos só os indispensáveis ao esclarecimento do projeto. Podem consistir em cronogramas, ferramentas de pesquisa, informações sobre o universo visado…
A investigação não tem que ser linear. A circularidade e a sinuosidade também existem. Espelham a realidade e alcançam resultados. Pierre Boudieu ressalva que os três momentos do conhecimento científico (conquista, construção, constatação) implicam uma ordem lógica mas não cronológica. Os passos da investigação são versáteis.
A escrita.
Diz Pascal que é quando se termina uma obra que se sabe como começar. Isto vale para o título do projeto. Pode esperar por momentos de maior preparação. O título é determinante. Pelo título se faz a primeira apreciação de uma obra. Deve apostar-se num título emblemático, atraente, original e conciso.
A escrita é pensamento. Com a escrita se pensa, com a escrita se faz pensar. A qualidade da escrita é um analisador da qualidade do pensamento.
Projetar para investigar
O vosso projeto deve concretizar-se numa investigação. “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo” (Karl Marx, Teses sobre Feuerbach). Não façam como o paciente de Freud que passava todo o tempo a limpar os óculos sem nunca os colocar. O vosso projeto é para fazer investigação com sucesso.
Orientação
A orientação também faz parte do vosso projeto e da vossa investigação. Enquanto for possível, não abdiquem da escolha do orientador. Empenhem-se numa boa escolha. Serão parceiros. É um passo demasiado importante para que sejam outros a decidir.
Haveria muito a acrescentar, mas esta conversa já ultrapassou a encomenda.
Fumo tóxico


Já sentia saudades da figura do fumador suicida homicida. O fumo do cigarro mata mais depressa e com maior alcance do que uma bala. Se bem me lembro, na minha infância havia cigarros a que chamavam mata-ratos (Kentucky). A reputação letal do tabaco vem de longe. Ressalvando os assassinos, os desastrados e os fumadores, ninguém é mortífero. Nem sequer na Tailândia. Mata-se, isso sim, simbolicamente. O fumador suicida homicida é uma presa fácil dessa caça simbólica. “A Bíblia separa as pessoas entre pecadores que sabem que são pecadores, e pecadores que pensam que são justos” (Ronaldo Bezerra: https://guiame.com.br/colunistas/ronaldo-bezerra/pecadores-que-sabem-que-sao-pecadores-x-pecadores-que-pensam-que-sao-justos.html). Livrai-nos, Senhor, dos pecadores que pensam que são justos! Acrescento apenas que uma das principais fontes de desigualdade radica na semiose social. Nem todos têm o mesmo acesso ao ceptro da palavra e da imagem.
Aula imaterial 2. A arte da sociologia

Para o teletrabalho, socorro-me do computador e do Tendências do Imaginário. Representa um desafio ensinar Práticas de Investigação Social, do mestrado em Sociologia, à distância. Para iniciar, sugiro alguma bibliografia com sabor a revisões. Quem refaz caminho anda de novo.
Existem muitos manuais panorâmicos de métodos e técnicas de investigação sociológica. Bastante parecidos. Cinjo-me a textos em versão digital (pdf).
A primeira edição do livro de Claire Selltiz et alii, Metodos de Investigación em las Relaciones Sociales, data de 1959. Os anos cinquenta foram pródigos em manuais de métodos em Sociologia, produzidos, frequentemente, por equipas de sociólogos e psicólogos sociais experientes. Passou meio século? A sociologia existe há mais de um século. Um livro que resiste ao tempo oferece–se como uma promessa. Segue a parte de que disponho: o pdf do capítulo III: Selección y formulación de un problema de investigación.
“Small is beautiful”. Existem dois livros pequenos, sucintos, de alta qualidade e interesse: Os Métodos em Sociologia, de Raymond Boudon, e O Método em Sociologia, de Jean-Claude Combessie (São Paulo, Edições Loyola, 2004). Para o segundo, só encontrei digitalizações parciais.
Acrescento o meu relatório para provas de Agregação: Métodos e Técnicas de Investigação Social I (2004). Ler a partir da página 28.
A sugestão de leituras é ingrata. Não existem textos inocentes. Convém assumi-lo. O livro Como se faz uma tese, de Umberto Eco, parece extemporâneo. Em 1977, data da primeira edição, não havia Internet, nem sequer computadores pessoais. O livro está tecnicamente datado? O essencial, o que é decisivo, não começou hoje. Desdenhado ou não, o livro do Umberto Eco perdura. Porventura, a contracorrente. Está no vento a ritualização burocrática da investigação. Projectar e investigar é andar passo a passo no canteiro das ideias normalizadas. A inspiração e a originalidade escondem-se à sombra de um carvalho. O investigador já não é um sábio. Neste cenário, importa ler o Umberto Eco.
C. Wight Mills destaca-se entre os autores que cultivaram a arte de ser sociólogo. A Imaginação Sociológica é uma obra de viragem. Advoga boas práticas descomplicadas (ver, por exemplo, o apêndice “Do artesanato intelectual”) e aponta vícios tais como a “suprema teoria” e o “empirismo abstracto”. Mas, já no seu tempo, os contrários se atraíam: Talcott Parsons (supremo teórico), Paul Lazarsfeld (empirista abstracto) e Robert K. Merton (teoria do médio alcance) formaram um triunvirato que dominou a sociologia americana durante décadas. O namoro da suprema teoria e do empirismo abstracto continuam actuais. Quantas teses não se retalham entre uma parte de teoria suprema e outra de empirismo abstracto? Algumas lembram o Dom Quixote e o Sancho Pança.
É possível que a maioria não tenha ouvido falar de C. Wright Mills. Nos meus tempos de estudante, era leitura obrigatória no 1º ano. Em 1997, a Associação Internacional de Sociologia administrou um questionário aos membros pedindo que indicassem os cinco sociólogos que mais marcaram a sua actividade (https://www.isa-sociology.org/en/about-isa/history-of-isa/books-of-the-xx-century). Seguem os resultados:

Não descuidem a elaboração dos projectos de investigação e intervenção. Na medida das circunstâncias, estou à vossa disposição no Tendências do Imaginário (utilizar “comentários”, em cima à esquerda), na Blackboard, no correio electrónico ou noutro meio que se proporcionar.

Os anos cinquenta existiram?
O inconveniente de uma pessoa se lembrar é a dificuldade de parar. Lembrar Jamaica, Bob Marley e o activismo social é lembrar Harry Belafonte. É curioso como antes dos anos sessenta existiram os anos cinquenta! Com estrelas tais como Elvis Priesley, Pat Boone, Diamonds, Everly Brothers, Debbie Reynolds, Chuck Berry, Paul Anka, Jerry Lee Lewis, Buddy Holly, Nat King Cole…
A música de Belafonte tem raízes jamaicanas. As canções escolhidas pertencem ao álbum Calypso, publicado em 1956. Foi o primeiro LP a ultrapassar o milhão de vendas nos Estados Unidos. No segundo vídeo, Belafonte interpreta Jamaica Farewell, ao vivo, em 1997, com setenta anos de idade.
Não teria recordado o Harry Belafonte se não tivesse visitado a última gaveta dos cds. As coisas constam entre os melhores guias de viajem ao passado. Devemos estimá-las. A propósito de gavetas e de memória, acode-me uma história.

Nos anos noventa, investiguei, com o Moisés de Lemos Martins e a Helena Pires, a romaria da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. O resultado foi o livro cuja capa se reproduz. Uma pessoa de idade, ensaísta e poetisa, destacava-se entre as pessoas que mais sabiam sobre as festas. Pela memória e pela documentação. Passava horas, na mesma mesa, na pastelaria da Praça da República. Um dia, convidou-me para me mostrar as suas coisas. Abriu o primeiro gavetão e fiquei desencantado: pouco de novo.
Mostrei-me agradado e agradecido. Sucedem-se os dias. Muitos dias. Volta a convidar-me para ver as suas coisas. E abre o último gavetão! Senti-me como um pioneiro que descobre um filão de ouro. Até bilhetes para a tourada de 1952 tinha guardado. Tive o privilégio de me cruzar com pessoas a quem muito devo e que muito admiro. Em termos de centelha da memória, a última gaveta é a primeira.
Nenúfares

Dedilhei os cds da última gaveta. Passei pelo Bob Marley e comentei: “O reggae é que foi um apagão! É difícil encontrar memória mais esquecida”. Respondem-me: “Mudaram as drogas. Agora são ácidos”. Fiquei a ruminar. A imagem veiculada pelo Woodstock (1969) foi a de uma descontração desvelada. Até os nus que deslizavam na água pareciam nenúfares. O mesmo no festival da ilha de Wight, em 1970. A imagem de Bob Marley respirava paz e amor (ver vídeo 2). A tendência era apolínea (Friedrich Nietzsche, O nascimento da tragédia, 1872; Ruth Benedict, Padrões de cultura, 1934). A aura dos festivais atuais parece mais dionisíaca. O meu rapaz envia-me um vídeo ilustrativo com a nova versão do Gollum numa tribo efervescente a chapinhar em trajes mínimos (vídeo 1).
Fernando e Albertino
Saint Germain

Em tempo de epidemia, arrumar a casa é uma tentação. A cave, com 180m2 de tralha, é uma prioridade. Graças ao meu sentido apurado de organização, uma quinzena de cds originais andava submersa no caos dos bens dispensados: Air, Enya, Kraftwerk, Serge Gainsbourg, Kate Bush, Goldfrapp, Luz Casal, Mozart e o único cd que possuo do Saint Germain. Saint Germain tem uma música muito própria entre o Acid Jazz, a Música Eletrónica e o Nu Jazz. Lembra alguns músicos nórdicos, nomeadamente o norueguês Nills Petter Molvaer. Pressinto que estou a acertar ao lado dos vossos gostos. A culpa é da arrumação.
Aprendizagem sem mestre

Cumprido o teletrabalho, entrego-me ao telelazer. O anúncio Physics, da Brontosaurus, regista as atribulações de uma aprendizagem sem mestre, uma fonte interminável de surpresas. Numa aldeia do Tibete, por causa de um livro de Física, até monstros aparecem. Os professores fazem falta. Este é, curiosamente, um anúncio para recrutamento de professores! Não em Portugal, mas na República Checa.
