As gavetas da autofagia. Fabio Zanon

Viver em casa quase sem contacto exterior resume, há anos, o meu quotidiano. O coronavírus veio transformar um reflexo anti-social lamentável num gesto cívico louvável. Trata-se de uma ressignificação. Exploro, com renovada energia, os nichos domésticos. Os LP estão em prateleiras, os CD em gavetas. Quanto mais baixa a gaveta, menos uso tem. Abri a última gaveta e retirei um disco do brasileiro Fabio Zanon (violão), dedicado, quase todo, a Francisco Tárrega (1852-1909). Encalhei na faixa 14. Não é de Tárrega mas de Alexandre de Faria, compositor brasileiro contemporâneo: Prelude for Guitar. Eyes of Recollection (1997). Nestas “descobertas”, sinto-me parasita de mim mesmo, entregue a uma espécie de autofagia tardia. Tanto vivi que cansei. Mas empenho-me a abrir e a fechar gavetas.
Para amaciar o gosto, começa-se com a Balada para Martin Fierro (Aire Sueño), composta por Ariel Ramirez (Argentina) e interpretada por Fabio Zanon (2018).
Videojogos. Viagem ao coração da emoção

A quarentena justificada pelo coronavírus aumenta o uso e o download de videojogos. O caso da China é ilustrativo:
“Um recém-publicado relatório da consultora App Annie demonstra que o número de downloads de aplicações móveis tem vindo a crescer exponencialmente na China. Ao todo, desde 2 de fevereiro, foram registados mais de 222 milhões de instalações através da App Store, em especial de aplicações de jogos. / De acordo com os dados a que o Financial Times teve acesso, o número médio de downloads registado durante as duas primeiras semanas de fevereiro na China representa um aumento de 40% em comparação com os valores verificados na totalidade de 2019”. (https://tek.sapo.pt/mobile/apps/artigos/coronavirus-quarentena-faz-aumentar-o-download-de-aplicacoes-de-videojogos-na-china).
Vem a propósito o anúncio Feel the power of PlayStation. Abismal, mergulha-nos na angústia, no medo e no choque, provocando uma emoção desconcertante. O importante é o coração, mais precisamente, o aperto do coração. Desagradável mas fascinante, lembra o filme Alien e os biomecanóides de HR Giger. Os anúncios da PlayStation têm vindo a apostar nesta estética da emoção tensa e opressiva (ver o anúncio Head, de 2006: https://tendimag.com/2014/09/18/segredos-da-mente/.
Não desistas!

As horas e as obras repetem-se. Coloquei este anúncio da Movistar há 10 anos no facebook. Inspirado, encoraja e anima. Sugere que existe um suplemento que nos demove de desistir. Esse suplemento é o Outro! Este anúncio ajuda a subir a corrente. Recoloco-o e volto a recolocá-lo. A repetição não é forçosamente estéril. Na música como na vida.
Nestes dias de recolhimento, aconselho o Dom Quixote de la Mancha. Juntos, Dom Quixote e Sancho Pança configuram um paradigma da humanidade. Separados, duvido!
O contacto, a conexão, entre pessoas capacita, gera sinergia. Torna possível o improvável. Neste anúncio, brilhante, o mundo aproxima-se da figura de um mosaico ou de um puzzle em que as diferentes peças apenas se sobrepõem sem se confundir, mesmo assim o suficiente para completar a acção. As situações e as pessoas interagem de um modo inacabado e imperfeito, mas eficaz. Namoram-se sem se anular, como um beijo de Gustav Klimt. O anúncio multiplica os sinais desta reserva e incompletude. Somos com os outros, conseguimos com os outros, mas não somos os outros, para o bem todos. O ruído preserva a identidade. A unicidade ameaça-a (https://tendimag.com/2017/03/14/com-o-mundo-nas-maos/).
Caracóis

Os novos monstros “apresentam-se como formas que não se consolidam em qualquer ponto do esquema, que não se estabilizam. São, portanto, formas que não têm propriamente uma forma, andam antes à procura de uma” (Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, primeira edição: 1987). Os novos monstros pressentem-se apenas quando já nos habitam. Face ao coronavírus, a sociedade retrai-se como um caracol ameaçado. Cancelei três iniciativas que me traziam entusiasmado: a exposição de fotografias de Álvaro Domingues e Duarte Belo, prevista para Maio; a Escola da Primavera, nos dias 9 e 10 de Maio, em Melgaço; e a visita ao Mosteiro de Tibães, no dia 31 de Março.
Encontrei uma música para embalar esta contenção impotente: o Adagio Molto da Sinfonia “Al Santo Sepolcro” in B Minor RV169, de Antonio Vivaldi. Subtraindo os Allegro aos concertos para flauta de Vivaldi, sobram, mais vagarosos e mais despojados, os Largo. Acrescento o Largo do Concerto nº 5 in F, RV 434 e o Largo do Concerto nº 6 in G, RV 437.
Frida Kahlo. Fotografias.

No dia 8 de Março, lembrei-me de Frida Kahlo, uma mulher sofrida e uma artista notável. Na última anotação no diário, escreve: “Espero que la salida sea gozosa y espero nunca más volver” (Espero que a partida seja feliz e espero nunca mais voltar). Uma forma radical de despedida do mundo. A Internet contém muitas fotografias de Frida Kahlo. Partilho algumas.
Convém ter algum cuidado com as fotografias que a Internet disponibiliza. As seguintes fotografias são ambas verdadeiras? Existe uma montagem? Em qual delas?


Encapar a realidade

Quando ocorre uma efeméride, costumo recolher os anúncios alusivos. No Dia Internacional da Mulher, não fui bem sucedido. Provavelmente, por vício do olhar ou erro de lugar. Retive o poster da Time, comemorativo dos 100 anos do direito a voto das mulheres. Acompanho o meu reconhecimento com a canção Four Women (1966), da Nina Simone, num vídeo relativamente raro e antigo, que não consegui datar.
Duo das flores

Há músicas que todos conhecem e que quase todos desconhecem o autor. É o caso de Duo des Fleurs (da ópera Lakmé) e Pizzicato (do bailado Sylvia), de Léo Delibes (1836-1891). Delibes compôs outras obras dignas de atenção. Por exemplo, Où va la jeune Hindoue (ópera Lakmé) e Fantasia sobre Jean de Nivelle (ópera Jean de Nivelle).
Estilo de Vida Tampax

Sem inspiração, em abençoada parvalheira, converto-me à burrocracia.
A publicidade é uma promessa. Uma promessa de uma vida melhor, quase de salvação. É sobrinha da religiosidade. O consumo gratifica. Os anúncios, desde o mais banal até ao mais incrível, reconfortam o ego. A Tampax é profeta de uma nova vida quotidiana, ao nível do trabalho, da estética, do lazer e do desporto, rumo à libertação pessoal e social. Parafraseando Robert K. Merton, trata-se de um milagre de médio alcance.
Circula, na rede, um cartoon da DelireBrut dedicado à publicidade da Tampax. Amor com humor se paga. A Tampax, a par da higiene íntima, convida-nos a sonhar a vida.
Blind Faith

Ando com a inspiração submersa. Quando se deixa adormecer a razão é muito difícil acordá-la. E quando o corpo não tem juízo, a cabeça é que paga. Vou cingir-me a cinco dedos de música.
Ver o Eric Clapton e o Steve Winwood, membros dos Blind Faifh, “superbanda” dos anos sessenta (1968-1969), a interpretar Presence of the Lord tange o revivalismo. Acrescento três músicas dos Blind Faith.













