Deambulação

Raramente encontro o que procuro. Também não armazeno. Tenho as redes folgadas. Nada como parar de procurar. Deambular pelos labirintos. Andar sem destino com pés estrábicos. Ouvir música, por exemplo. Diferente, de preferência. Cativam-me duas músicas, Qui creavit coelum (anónimo) e Nesciens mater (Jean Mouton), do álbum Christmas Music From Medieval And Renaissance Europe. Para não fechar os olhos, escolho a Adoração dos Pastores, de Caravaggio. Sabe bem reencontrar o que já se tem.
Deus fez-se homem

Aquele que era Deus fez-se homem,
assumindo o que não era,
sem perder o que era;
e assim Deus fez-se homem.
(Santo Agostinho)
Sou um desencantado que não desiste de se reencantar. A minha escrita é, ao mesmo tempo, cáustica e vitalista. Uma ironia própria de quem não está dentro sem estar fora. Gosto de pirilampos a voar na noite escura. Acontece tentar rabiscar a sombra com temas luminosos. Por exemplo, o Natal, artigo para a revista Spot (https://www.facebook.com/187372124695983/photos/a.2194957460604096/2194960357270473/?type=3&theater), retomado pelo jornal nós da Universidade do Minho (http://www.nos.uminho.pt/Article.aspx?id=3444).
Carregar na imagem para amplear.

Verdura fora de época

Alguns anúncios de educação para a saúde exploram nichos do cérebro que me escapam. Oscilam entre o mórbido e o absurdo. O anúncio Bok Choy, da Thai Health Promotion Foundation, é categórico: se tem amor à vida não coma legumes fora de época! Tudo o resto é uma demanda grotesca de uma empregada incondicional. Afigura-se-me que quem fez este anúncio se divertiu.
O estendal

Há olhares que vêem e outros que cativam. Cativam o espanto, a vitalidade e a turbulência. A fotografia renova o olhar cansado. O fotógrafo é um alquimista, um pintor de verdades. Esta fotografia foi tirada para os lados de Almada. O Álvaro Domingues percorre todas as estradas do País, numa espécie de rota do presente insólito.
Um silo e um estendal: o pequeno e o grande, o infantil e o monstruoso, o afecto e o objecto. Em tempos de responsabilização e estetização empresarial, o silo ostenta uma pintura minimalista gigantesca. Lembra a Street Art. No estendal, três peluches. A fragilidade do mundo exposta ao ar livre. Uma alegoria do tempo: o passado, de pernas para o ar e de costas voltadas; o presente, pendurado pelas orelhas; e o futuro, a alucinação de olhos arregalados. Uma fotografia constrói um mundo, propõe um mapa mental. Em cima, à esquerda, vislumbra-se um aglomerado de prédios. Na margem, parece um apêndice do silo visitado por transportadoras. Convém não cortar as asas à imaginação para não cortar as pernas ao pensamento.
Lá vai uma, lá vão duas, três pombinhas a voar

A abundância e a diversidade das candidaturas a património da Humanidade não escapam ao aguilhão do humor. Não é de estranhar. A fazer fé no demónio do relativismo, tudo o que é humano é passível de ser património da humanidade. Anormal, seria haver poucas candidaturas, todas semelhantes. Se tudo é patrimoniável, tudo é, também, risível, incluindo a UNESCO e as candidaturas a património.
A Empresa de Transporte de Berlin (Berliner Verkehrsbetriebe) não se fez rogada. No anúncio Nächster Halt: Weltculturerbe (Próxima Parada: Património cultural mundial) proclama a candidatura da empresa a património da humanidade. Trata-se, naturalmente, de uma paródia, que ri da UNESCO e dos candidatos, e de uma farsa, em que a empresa se ri de si própria. Não desperdiça a mínima oportunidade para ridicularizar e fazer humor. Uma empresa que se ri de si própria é uma raridade reparadora. O riso é o mais precioso e o mais característico património da humanidade.
Equidade fiscal. Os filhos da nação

Ai estes são os filhos da nação / Adultos para sempre / Ansiosos por saber / Se a cruz é salvação (Quinta do Bill. Filhos da nação. 1994).
Surpresa! Os fumadores são os ricos da nação. O imposto sobre o tabaco volta a aumentar. Para bem da equidade. Existe alguma razão específica? Invocar a prevenção avizinha-se de uma fraude. Há décadas que, ano após ano, o imposto sobre o tabaco aumenta e a prevalência do tabaco não desce:
“Entre 2005/06 e 2014, a proporção de fumadores de ambos os sexos diminuiu 1 ponto percentual (…) sendo de 20% em 2014” (Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo 2017).
Aprecio relatórios. São informativos. O Relatório da Direcção-Geral da Saúde é parcimonioso:
“As prevalências de consumo mais elevadas observaram-se no grupo com a escolaridade secundária: mais de um quarto das pessoas com ensino secundário fumava (26,0%)”. Nada a acrescentar sobre os outros grupos de escolaridade… Não existem dados? Nada sobre os níveis de rendimento, tão pouco sobre as categorias socioprofissionais. Mas fica-se a saber que “na população desempregada, mais de um terço fumava (35,9%)”. Assim esclarecido, arrisco conjecturar: a maior prevalência do tabaco incide sobre as classes populares e as categorias sociais mais pobres.

Às vezes, as vias da misericórdia são insondáveis. Desenha-se uma nova teoria da prevenção sanitária: quanto menos dinheiro tiver uma população, mais saudável é. Com esta arte, se trata da saúde dos outros. Convém desfazer o nó do encantamento profilático: o governo precisa deste dinheiro e não tem coragem de taxar outros segmentos da população. Um em cada três desempregados é contemplado por este sapatinho de Natal. Louvado sejas!
Terra

Há ideias que são como relâmpagos. Vêm e vão, mal as conseguimos agarrar. Estava a limpar o computador, quando me deparo com a fotografia de João Gigante. Acudiu-me a soturna canção Pon tu cuerpo a tierra, dos Aguaviva. Da terra não vimos, porque não somos carvalhos, mas para a terra vamos. Vamos apanhar batatas.
O Pai Natal. Questões de género

Falta visionar dois dos dezasseis anúncios de Natal seleccionados. Ambos evidenciam a sensibilidade de género. No primeiro, da Macy’s, uma rapariga quer ser pai Natal e, no segundo, da Virgin Media, a protagonista é uma drag queen. Esta sensibilidade representa, porventura, a maior ameaça à figura do Pai Natal. Promove a desconsensualização de uma hegemonia.
Nos anos setenta, Alain Touraine e Pierre Bourdieu, entre outros, vaticinaram um futuro auspicioso aos movimentos feministas, ecologistas e regionalistas, alternativos aos movimentos tradicionais, designadamente de classe. Não se enganaram. Estes “novos” movimentos conquistaram poder e influência. Censuram palavras, gestos e símbolos, entre os quais o Pai Natal. Numa crónica do Expresso, Nelson Marques ilustra claramente aquilo que me transcende. Segue um excerto.
“Querido Pai Natal, / Espero que não te importes que te trate assim. Afinal, para mim continuas a ser o velho barrigudo de barbas bancas que não cabe nas chaminés e que se multiplica pelos centros comerciais de todo o mundo, ouvindo os pedidos das crianças que se sentam no teu colo. Não sei durante quanto mais tempo te poderei tratar assim. Parece que a tua existência é uma coisa muito heteronormativa. O futuro, defendem alguns, pertence à Mãe Natal. Ou, melhor ainda, à Pessoa Natal, porque se queremos ser politicamente corretos o melhor mesmo é que o género seja neutro. / Não é coisa que me apoquente, devo confessar. Por mim, até acabávamos com esta tradição, que enganarmos as crianças desde pequenas não é um grande ensinamento para a vida. E talvez não fosse má ideia acabar também com as religiões, que estão na base de tantos males no mundo. É possível que milhões de pessoas se ofendam com a ideia, mas se não quisermos ser tão radicais podemos ao menos discutir o género do Menino Jesus? Porque é que não pode ser uma menina? Porque é que tem sequer de ter um género? E porque é que Deus há de ser um homem? E o Papa? Não está na altura de ser uma mulher?” (Nelson Marques, #género Está na hora de nos despedirmos do Pai Natal?, Expresso, 16.12.2018, excerto; https://expresso.pt/sociedade/2018-12-16-genero.-Esta-na-hora-de-nos-despedirmos-do-Pai-Natal-).

E o diabo? É verdade que não faltam diabas. Tanto em Amarante (ver Crónica dos Diabos de Amarante; https://tendimag.com/2014/05/28/cronica-dos-diabos-de-amarante/ ), como no inferno (ver imagem do Museu Nacional de Arte Antiga). Em suma, somos pessoas, substantivo feminino neutro.
Isto corrói a imagem de um santo, quanto mais do Pai Natal. A influência da sensibilidade de género na comunicação social, mormente na publicidade, é indubitável. O Pai Natal está em apuros. E não há quem lhe acuda.
O cachimbo e o apagador de velas

O pessoal foi para Flandres. Detesto viajar. Fiquei como guardador de gatos e de sonhos. Tornou-se costume enviarem-me fotografias de obras de arte passíveis de me interessar. Por exemplo, esta pintura do neerlandês Jan Steen (1626-1679). À direita, um adulto coloca o cachimbo na boca de uma criança. Dados ao anacronismo, esta imagem choca-nos. Podemos, naturalmente, corrigir a arte e a realidade. Não era a primeira vez. Talvez, uma palhinha ou uma flauta fossem bons substitutos (ver Vestir os Nus: https://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/).
O tabaco, fumado com cachimbo, é um tema recorrente na obra de Jan Steen. Retive cinco quadros (ver galeria). Quem observa estas pinturas fica com a impressão de uma associação do consumo de tabaco à ostentação e ao conforto. Na mesma época, outros artistas pintaram fumadores. Por exemplo, O Fumador (1635-36), de Joos van Craesbeeck, ou Os Fumadores (1637), de Adriaen Brouwer (figuras 6 e 7). Naquela época, fumar nem sempre compensava. Havia cidades, por exemplo, na Áustria e na Alemanha, que proibiam o consumo de tabaco, administrando penas severas (ver Antitabagismos. Uma nota histórica parcelar: https://tendimag.com/page/6/?s=tabaco).
Imaginemos! Por esse tempo, eclodiu o barroco, o pintor teórico, a pintura de segredo, os efeitos de ilusão e as anamorfoses. Neste contexto, como diria René Magritte, os cachimbos não são cachimbos. Os cachimbos de Jan Steen, Joos van Craesbeeck e Adriaen Brouwer são apagadores de velas. Isso mesmo! Não há nada como imaginar a realidade, para sossegar as almas.
Comboios e caveiras

No cais nº 12, um comboio ultra-moderno: queixo para a frente, testa para trás. Dá jornais, auscultadores e não se sabe que mais. Só lhe falta “andar no ar” como os Maglev japoneses. Na via 13, um comboio ultrapassado que por pouco não deita fumo. Qual escolher? Venho de onde venho, vou para onde vou, na carruagem que me levar. Nos comboios antigos aconteceram-me coisas extraordinárias. Nos comboios avançados, não tenho história para contar.

Hoje, dei a última aula de sociologia da cultura, da licenciatura em Sociologia. Conversámos sobre o quadro Os Embaixadores, de Hans Holbein, e desembocámos, fatalmente, na anamorfose com a vanitas (ver o artigo Objectos que falam: https://tendimag.com/2015/03/21/objetos-que-falam/). Tudo me lembra alguma coisa. Tenho, por isso, a memória gasta. Lembrei-me de um anúncio romeno com comboios e caveiras. Uma anamorfose original.
Antes do vídeo, não resisto a contar uma das minhas histórias de comboios. Estudava em Paris e vim de comboio para Portugal. Na fronteira franco-espanhola, os passageiros para Portugal eram separados daqueles que iam para Vigo (o meu caso). Os dois comboios percorriam a mesma via até, creio, Burgos. Estacionado na gare de Irún, o comboio tardava a arrancar. Perguntei ao revisor, com o meu bom espanhol, o que acontecia. Confidenciou: “Um alerta de bomba na linha”. Para não dizer a ninguém. Passado algum tempo, o comboio começa a andar. Voltei a abordar o revisor:
– Encontraram a bomba?
– Não! Mas não te preocupes. O comboio dos portugueses vai à frente.






