Archive | Novembro 2016

À Senhora da Boa Morte

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Fig 1. Demons and devotion. The Hours os Catherine of Cleves. 1440.

No artigo precedente, a canção Puestos están frente a frente dedicada a Don Sebastião acaba com uma citação de Petrarca (1304-1374): “Uma bela morte toda a vida honra”. Enquadrada nos livros e nas gravuras da Arte de Morrer do século XV (Ars Moriendi ), a citação de Petrarca adquire um cunho particular. O moribundo é submetido a várias tentações (ver https://tendimag.com/2016/10/19/o-galo-e-a-morte/). Do modo como reage assim é salvo ou condenado, não obstante as boas ou as más acções do livro da vida. Convinha apegar-se à Nossa Senhora da Boa Morte. Passo a citar Philippe Ariès:

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Fig 2. Alegoria da Música. 1350.

“Deus e a sua corte estão ali para constatar como o moribundo se vai comportar no momento da prova que lhe é proposta antes do seu último suspiro e que vai determinar a sua sorte na eternidade. A dita prova consiste numa última tentação. O moribundo verá a sua vida inteira tal como está contida no livro, e será tentado, tanto pelo desespero das suas faltas como pela vanglória das suas boas acções, bem como pelo amor apaixonado das coisas e dos seres. A sua atitude, no resplendor desse momento fugitivo, apagará de um só golpe todos os pecados da sua vida se afasta a tentação ou, pelo contrário, anulará todas as suas boas acções se não lhe resiste. A última prova tomou o lugar do Juízo Final” (Ariès, Philippe, Historia de la muerte en Occidente, Barcelon, Caderns Crema, 2000,  p. 49).

Uma “boa morte” pode salvar uma vida.

Aproveito esta nota para colocar um pequeno excerto do Lamento d’Arianna (Lasciatemi morire), composto por Monteverdi no início do sec. XVII. Acrescento um vídeo com um membro do Clemencic Consort a tocar saltério, instrumento musical típico da Idade Média (o instrumento que toca o rei na Alegoria da Música da Figura 2.

Clemencic Consort. Rencontrea de lutherie et musiques Médiévales, Largentiere, 3010.

Monteverdi. Lamento d’Arianna (Lasciatemi morire), Interpretado por Roberta Mameli. Excerto.

Que uma bela morte toda a vida honra!

circa-1500-o-lusitanoFelizes os tempos que ofuscam o passado; deles será o reino do espelho! Períodos houve, na idade média e no renascimento, em que a música portuguesa constava entre as melhores. Atente-se, por exemplo, na folia. Ironia à parte, Puestos están frente a frente canta a batalha de Alcácer-Quibir (1578), louva “Sebastião, o Lusitano”. Termina com uma citação de Petrarca: “Que uma bela morte toda a vida honra”. Aparece transcrita pela primeira vez na Miscelânia (1629) de Miguel Leitão de Andrada. Foi interpretada e gravada por vários grupos nacionais e estrangeiros.

O Lusitano: Portuguese Vilancetes, Cantigas And Romances. Gérard Lesne & Circa 1500. 1992.

Preguiça neuronal

the-beekeeperNão se excedam a ensinar
Quero aprender
Não desenrolem mapas
Quero perder-me
Tanta gravidade
Impede-me de saltar
O caminho é caminhada
E o destino ainda não é nada
Apetece-me dançar uma valsa
Abraçado à estupidez
Que bate leve, levemente
Como quem chama por mim (AG)

Eleni Karaindrou notabilizou-se com o disco Eternity and a Day (1998). To Vals Tou Gamou, do disco The Beekeeper / O Melissokomos, foi editado muito antes, em 1986.

Eleni Karaindrou. To Vals Tou Gamou. The Beekeeper / O Melissokomos. 1986.

Paraíso fiscal

verdades-y-mentiras-en-la-webRessalvando os períodos de campanha eleitoral, a esfera política está sub-representada na publicidade para televisão e cinema. A léguas, por exemplo, do desporto e, até, da religião. Por que será? Não vende? O risco não compensa?

Há excepções. O anúncio Adiós Perrito, do canal de televisão EITB incide sobre o escândalo dos Panama Papers. De um modo explícito e sem rodeios, a partir da suposta morte de um suposto cão. “La verdad aunque nos duela” é o mote do programa Sin Ir Más Lejos, da EITB. O vídeo é falado em espanhol. Se prefere o anúncio com legendas em francês, carregue no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/eitb-channel-siml-news-perrito/.

Marca: EITB. Título: Adiós Perrito. Agência: The Cyranos McCann. Direcção: Martin Kalina & Lluisa Kracht. Espanha, Outubro 2016.

Se conduzir, não beba!

chateau-margauxRegresso regularmente a Bruno Aveillan. É vício. Os onze minutos que dedica ao Château Margaux, um dos melhores vinhos do mundo, são onze minutos de arte. A curta-metragem “Prodigy of the Architect” acompanha a construção do Palácio no início do século XIX. Esta é a sua história, contada mais com imagens do que com palavras. Fica na memória a “Musa do Vinho” que inspira o arquitecto Louis Combes.

Marca: Château Margaux. Título: Prodigy of the Architect. Direcção: Bruno Aveillan. França, Outubro 2015.

Não há um sem dois. Mais um anúncio do Bruno Aveillan. Tudo é arte? Assim o defende Marcel Duchamp. “Tudo é arte” ou “tudo pode ser arte”? Nada, porém, sem a assinatura dos artistas, das galerias, dos críticos, das escolas, dos movimentos, dos museus e dos coleccionadores. Tudo pode ser arte! Ou, caso se ajuste, criatividade. Até numa estrada pode circular a arte ou a criatividade. Por exemplo, A Rua da Estrada, de Álvaro Domingues (https://tendimag.com/?s=rua+da+estrada) ou o anúncio Road Speak, de Bruno Aveillan para a Bridgestone.

Marca: Bridgestone. Título: Road Speak. Agência: The Richards Group Dallas. Direcção: Bruno Aveillan. Estados Unidos, 2009.

O sonho da modernidade

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Simplesmente fantástico este anúncio proveniente do Bahrain. Uma pérola adormecida na areia da memória. Vale a pena revisitar o sonho da modernidade.

Anunciante: Batelco. Título: Infinity. Agência: FP7, Bahrain. Directores: Steffen Hacker; Alexander Kiesl. Bahrain, Nov. 2010.

E deixa-me sonhar a vida inteira

O purgatório existe. Segundo Jacques Le Goff (La Naissance du Purgatoire, 1982), a Igreja inventou-o no século XII. Mas, quanto a mim, o purgatório sempre existiu. Subvertendo Jean-Paul Sartre (“o inferno são os outros”, Huis Clos (1944), o purgatório somos nós. Não acredito no céu nem no inferno, mas no purgatório deste mundo não faltam anjos e demónios à solta. Nos últimos anos de vida, Antero de Quental foi um poeta trágico. O soneto À Virgem Santíssima testemunha a vontade de recolhimento, “de sonhar a vida inteira”, sob o olhar da Virgem, “na mão de Deus eternamente” (soneto Na Mão de Deus).

Concerto aquático

Le livre des échecs amoureux moralisés (sec. XV), de Évrart de Conty (iluminuras de Robinet Testard), contém gravuras fantásticas, como esta com uma sereia encantadora. Pode consultar e descarregar o livro de Évrart de Conty no seguinte endereço: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b8426258c/f264.image.

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Concerto aquático. Le livre des échecs amoureux moralisés. Sec. XV

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Concerto aquático. Le livre des échecs amoureux moralisés. Sec. XV. Pormenor.

A sereia na idade da técnica

Os contos e as lendas não nos largam. São educação pelo sonho e pela imaginação. Umas vezes os revisitamos, outras os distorcemos, como no anúncio La Syrène, dos Sauveteurs en Mer.

Passadas algumas horas, o vento começou a soprar forte. A lua e as estrelas sumiram do céu e começaram a surgir trovões e relâmpagos.
O mar estava revolto, ondas gigantescas atacavam o navio. Os marujos, assustados, retiraram as velas do navio. As pessoas gritavam assustadas. O navio balançava muito, até que uma onda gigantesca o tombou para o lado. A escuridão foi total.
Um raio iluminou o céu e a Pequena Sereia viu pessoas gritando e tentando se salvar nadando.
De repente, a pequena sereia viu o príncipe. Ele estava se afogando. Ela sentia que tinha que ajudá-lo. Ela nadou entre os destroços do navio e o alcançou.
O jovem príncipe estava desmaiado. Ela segurou firmemente, mantendo a cabeça dele para fora da água, e flutuou com ele até a tempestade passar.
Ao raiar do sol, a pequena sereia verificou que o príncipe respirava tranquilamente. Ela ficou aliviada em ver que ele estava bem, ficou tão contente que o beijou. Nadou com ele até uma praia, o deitou na areia e escondeu-se atrás das rochas (Hans Christian Anderson, A pequena Sereia. Excerto. 1837).

A pequena sereia do anúncio, um pouco mais vestida do que o habitual, não tem força para valer ao príncipe. Será preciso um objecto técnico, um colete salva-vidas, para o salvar. Como avaliaria Hans Chistian Anderson esta adaptação? E.T.A. Hoffmann (1776-1822) talvez lhe encontrasse algum interesse. À semelhança do filme Quem tramou Roger Rabbit? (1988), a parte final do anúncio combina live-action e animação, para vincar, porventura, um maior efeito de realidade.

pateta-e-ze-cariocaQuando era pequeno, devorava “revistas aos quadradinhos”. Identificava-me, sobretudo, com o Pateta, leal, voluntarioso, trabalhador, aplicado, mas sem resultados ou com resultados catastróficos, e com o Zé Carioca, preguiçoso, esperto, palrador e vadio, que consegue escapar aos problemas e alcançar o que deseja. Um é o contrário do outro, mas identificava-me com ambos. A identificação pode ser estrábica.

Amontoadas centenas de fotografias sobre a mesa, estranho aquelas onde figuro. Como é possível uma pessoa estranhar-se? Não é necessário ser Dorian Gray. A auto-identificação, aparentemente natural, pode revelar-se um labirinto sem fios. Fiódor Dostoievski sabia isso, tal como, cerca de trezentos anos antes, Panurgo, o amigo inseparável de Pantagruel. Como é bizarro este mundo: uma pessoa identifica-se com dois bonecos opostos e estranha-se a si mesmo.

Anunciante: Les Sauveteurs em mer. Título: La sirène. Agência: Publicis Conseil. Direcção: Flying V. França, Novembro 2016.

Respeito

Skeleton Party circa 1952-4 by Edward Burra 1905-1976

Esqueletos fumadores. Edward Burra. Skeleton Party, circa 1952.

A maioria dos anúncios antitabaco fere a dignidade humana. Existem, felizmente, excepções. O anúncio One Breath, da Nicorette, não convoca bestas nem cadáveres. Esteticamente cuidado, irradia confiança: a capacitação em vez da humilhação, a esperança em vez do medo, numa parábola de salvação. A exclusão não é caminho para o chamamento. Com anúncios como o da Nicorette, apetece deixar de fumar. Como explicar a diferença? Será por o anunciante ser uma empresa privada que precisa cativar clientes?

Marca: Nicorette. Título : One Breath. Agência : AMV/BBDO London. Direcção: Toby Dye. Reino Unido, Outubro 2016.