E deixa-me sonhar a vida inteira

O purgatório existe. Segundo Jacques Le Goff (La Naissance du Purgatoire, 1982), a Igreja inventou-o no século XII. Mas, quanto a mim, o purgatório sempre existiu. Subvertendo Jean-Paul Sartre (“o inferno são os outros”, Huis Clos (1944), o purgatório somos nós. Não acredito no céu nem no inferno, mas no purgatório deste mundo não faltam anjos e demónios à solta. Nos últimos anos de vida, Antero de Quental foi um poeta trágico. O soneto À Virgem Santíssima testemunha a vontade de recolhimento, “de sonhar a vida inteira”, sob o olhar da Virgem, “na mão de Deus eternamente” (soneto Na Mão de Deus).

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