Archive | Outubro 2015

Diabo de guarda

Halloween_Witch_2011

Decoração do Dia das Bruxas. 2011.

O anúncio neozelandês da Energy Online propõe um dispositivo contra vendedores porta a porta: uma aldraba grotesca mais uma espécie de gárgula gótica, ambas animadas e furibundas. Um susto a dobrar. Com esta parceria diabólica, não há vendedor que se atreva. Este anúncio é fruto da época: aproxima-se o Halloween, a festa do horror para todas as idades. Trick or treat.

Marca: Energy Online. Título: Door Knocking. Agência: Contagion, New Zealand. Direcção: James Anderson & Jess Griffin. Nova Zelândia, Setembro 2015.

Abóbora em chamas

The Nightmare Before Christmas. The Pumpkin King

A proximidade do Halloween faz-se sentir na publicidade. É o caso deste anúncio da Reese’s: The Perfect Combination. Técnica e esteticamente cuidado, lembra Tim Burton, nomeadamente o filme A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (1999) e o videojogo The Nightmare Before Christmas: The Pumpkin King (2005). Mas na ficha técnica, como realizador, consta Crobin. Um conteúdo na melhor tradição do Halloween: um cavaleiro sem cabeça a ajudar uma abóbora sem corpo.

Marca: Reese’s. Título: The Perfect Combination. Agência: Viacom Velocity – New York. Direcção: Crobin. Estados Unidos, Outubro 2015.

De monstro e de louco, todos temos um pouco

Sneagle

Gollum

    Existe um carácter específico na teratosfera moderna. Os novos monstros, longe de se adaptarem a quaisquer homologações das categorias de valor, suspendem-nas, anulam-nas, neutralizam-nas. Apresentam-se como formas que não se consolidam em qualquer ponto do esquema, que não se estabilizam. São, portanto, formas que não têm propriamente uma forma, andam antes à procura de uma” (Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, primeira edição: 1987).

O anormal fascina o normal. Quasimodo, Frankenstein e o Homem Elefante são exemplos de uma anormalidade cativante que remonta, aliás, às calendas gregas. Na actualidade, a relação homem máquina abre a porta a um “novo” bestiário (ver Albertino Gonçalves, O Delírio da Disformidade. O corpo no imaginário grotesco.pdf). Dantes, incomodava-me a exposição de aberrações nos encontros científicos, nos circos e nas feiras. Negócio, espectáculo e público deploráveis. Entretanto, reconsiderei: sem monstros, o mundo fica deserto. Todos abrigamos um Alien, um RoboCop, um Hulk, uma Fiona, um Yoda, uma Catwoman, um E.T., um Doctor Mabuse, uma feiticeira, um Hynkel, um Gollum ou outra Coisa qualquer.

Ambuja Cement aposta no excesso para significar, com humor, a resistência do respectivo cimento. O protagonista do anúncio, Khali, é mais alto e mais forte do que seria de esperar. Vive inadaptado. Não há casa, parede ou soalho que o aguente. Um desastre! Um dia muda para uma casa construída com Ambuja Cement. A casa é agora mais forte do que o residente. E Khali passa a ter dores de cabeça. A publicidade indiana tem uma imaginação fértil.

Marca: Ambuja Cement. Título: Khali. Agência: Publicis Mumbai. Direcção: Ayappa. Índia, Outubro 2015.

Luta pelo direito das crianças

BRINQ

“A sobrestima do factor económico na sociedade e na mente humana era, em certo sentido, o fruto natural do racionalismo e do utilitarismo que mataram o mistério e proclamaram a libertação do homem da culpa e do pecado (…) Assim era o século XIX, sob o seu pior ângulo. As grandes correntes do seu pensamento alinharam-se contra o factor lúdico na vida social. Nem o liberalismo, nem o socialismo lhe proporcionaram alimento” (Johan Huizinga. Homo Ludens. 1ª ed: 1938).

Aceder a um anúncio na página da própria agência de publicidade e ser a 16ª visualização causa uma certa impressão. A fundação brasileira ABRINQ apela à luta pelo “direito das crianças”. Importa guardar uma cópia para os netos. Em 30 segundos, recebemos um inventário, compacto e ilustrado, das diversas formas de luta social. Parece uma brincadeira, mas, na realidade, como sustenta Johan Huizinga, as brincadeiras costumam lidar com coisas sérias.

Anunciante: ABRINQ. Título: Lute pelo direito das crianças. Agência: Neogama BBH, São Paulo. Direcção: Fridman Sisters. Brasil, Setembro 2015.

25 anos da licenciatura em Sociologia (UM)

Cartaz

Sociologia 25. Cartaz.

Comemoramos os 25 anos do curso de licenciatura em Sociologia na próxima terça, dia 20 de Outubro, pelas 17 horas, no Anfiteatro B1 da Universidade do Minho. Se és da Sociologia, contamos contigo. Fazes parte!  Se não és, contamos contigo também.
Segue material gráfico produzido para o evento: programa, cartaz e projectos de cartaz. As mãos, com cerca de 9 000 anos, estão na Cueva de las Manos (Patagónia, Argentina).
Até terça!

Sociologia 25. Programa frente.

Sociologia 25. Programa frente.

Sociologia 25. Programa verso.

Sociologia 25. Versão do cartaz

Sociologia 25. Versão do cartaz.

Sociologia 25. Versão do cartaz.

Sociologia 25. Versão do cartaz.

Contos de fadas

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Contos de fadas, quem os não leu? São chaves do imaginário, e da experiência humana. Atente-se na moral das fábulas de La Fontaine ou do Capuchinho Vermelho.

“Vê-se aqui que crianças jovens, sobretudo moças belas, bem feitas e gentis, fazem muito mal em escutar todo o tipo de gente; e que não é coisa estranha que o lobo tantas delas coma. Digo o lobo, porque nem todos os lobos são do mesmo tipo. Há-os de um humor gracioso, subtis, sem fel e sem cólera, que — familiares, complacentes e doces — seguem as jovens até às suas casas, até mesmo aos seus quartos; mas ai! Quem não sabe que estes lobos delicodoces são de todos os lobos os mais perigosos” (Charles Perrault, O Capuchinho Vermelho, Moralidade, 1697).

Contos de fadas sem fadas? Pouco importa, é pão que cozeu no mesmo forno. Neste anúncio, as fadas são generosas, divertidas e, claro, bonitas e vaidosas: voam sem vassoura, distribuem prendas, transformam roupas, encontram gatos, apagam os media, chamam a neve e aquecem corações. Mais, só na Marks & Spencer.

Marca: Marks & Spencer. Título: Christmas Fairies. Agência: RKCR /Y&R. Direcção: Philippe Andre. Reino Unido, 2014.

Empreendedorismo anal

Medical Journal in German, c. XV century.

Medical Journal in German, c. XV century.

A escatologia ocupa-se dos últimos dias. Mas a escatologia comporta outros sentidos. Por exemplo, “ciência” dos excrementos, também conhecida por coprologia. O anúncio This Unicorn Changed the Way I Poop, da Squatty Potty, usa e abusa da escatologia. Três minutos de excrementos incontinentes. Uma exorbitância grotesca em embalagem feérica. Um unicórnio não para de evacuar sorvetes ostensivamente apetitosos! Em termos de contos de fadas, as botas do gato e os sapatos da Cinderela são substituídos por um suplemento de sanita: o Squatty Potty toilet stool. Conseguem imaginar crianças a lamber sorvetes de excremento de unicórnio e a limpar a boca com papel higiénico? Não? Imaginação curta! Este anúncio é mais um caso de shrekização do mundo. Viral, já ultrapassou, no site da marca, 2 milhões de visualizações.

Marca: Squatty Potty. Título:This Unicorn Changed the Way I Poop. Direcção: Daniel Harmon & Dave Vance. Estados Unidos, Outubro 2015.

Esta arte de bem defecar só tem paralelo nas experiências de Gargântua sobre “o melhor meio de limpar o cú”. Analidade por analidade, segue um excerto do capítulo XIII do livro Gargântua (François Rabelais,1534):

“-Eu, respondeu Gargântua, por longa e curiosa experiência, inventei um meio de me limpar o cu, o mais senhorial, o mais excelente, o mais expediente que jamais foi visto. -Qual? disse Grandgousier. -Vou contar como foi, disse Gargântua. Limpei-me uma vez com uma meia máscara de veludo de uma moça, e achei bom, pois a maciez de sua seda me causou uma voluptuosidade bem grande no traseiro. Uma outra vez com um véu, e foi a mesma coisa. (…) Com um gorro de pajem, bem emplumado à suíça. Depois, andando atrás de uma moita, encontrei uma marta e me limpei com ela, mas as suas unhas me feriram todo o períneo. Logo que me curei, no dia seguinte, limpei-me com as luvas de minha mãe, bem perfumadas de benjoim. Depois me limpei com feno, aneto, manjerona, rosas, folhas de abóbora, de couve, de beterraba, de parreira, de alface e de espinafre. (…) Depois, limpei-me com os lençóis, as cobertas, a cortina, uma almofada, um tapete, um outro tapete verde, uma toalha de mesa, um guardanapo, um lenço e um penhoar. Em tudo achei prazer, mais do que em coçar uma sarna. (…) Limpei-me com feno, palha, crina, lã, papel, mas ‘sempre os culhões arranha, com certeza/ quem com papel do cu faz a limpeza’. (…) Depois, disse Gargântua, eu me limpei com um gorro, um chinelo, uma bolsa, um cesto, mas que limpa-cu desagradável! Depois com um chapéu. Mas vê que os chapéus são uns lisos, outros peludos, outros aveludados, outros de tafetá, outros de cetim. O melhor de todos é o peludo, pois faz boa absorção da matéria fecal. Depois, eu me limpei com uma galinha, um galo, um frango, um couro de boi, uma lebre, um pombo, um alcatraz, uma pasta de advogado, uma touca.

Mas, concluindo, digo e sustento que não há limpa-cu igual a um ganso novinho, bem emplumado, contanto que se mantenha a cabeça dele entre as pernas. E pode acreditar, palavra de honra. Pois a gente sente no olho do cu uma volúpia mirífica, tanto pela maciez das penas como pelo calor temperado do ganso, a qual é facilmente comunicada ao cano de cagação e a outros intestinos, até chegar à região do coração e do cérebro. E não penses que a beatitude dos heróis e semideuses, que estão nos Campos Elísios, esteja no abrótano, na ambrosia ou no néctar, como dizem estas velhas. Está, segundo penso, em limparem o cu com um ganso novo. Esta é a opinião de Mestre Jehan da Escócia.”
(http://puragoiaba.blogspot.pt/2005/08/humor-anal-e-o-melhor-do-carnaval.html0)

A chiclete do amor

Extra Gum

“Acontece com o verdadeiro amor o mesmo que com a aparição dos espíritos: toda a gente fala dele, mas poucos o viram” (François de La Rochefoucauld, Réflexions ou Sentences et Maximes Morales, 1664. Maxime 78).

Que livro escolheria para ler na praia? A Morte em Veneza, de Thomas Mann, ou A Morgadinha dos Canaviais, de Júlio Dinis? O primeiro para intelectualizar, o segundo para espairecer. Este, pela leitura com sorriso na testa e sonho nos lábios, aquele pela arte de bem fechar o livro, exibindo a capa com ar de quem está a ver o Nietzsche a chapinhar no mar. Gosto dos romances de Júlio Dinis. Com tanto amor correspondido até o coração dá beijos aos pulmões e os cupidos rodopiam em loop.

Reciclar as embalagens das pastilhas elásticas para criar um “museu da pessoa” é ideia digna de candidatura a património mundial. Não é fácil conceber histórias de amor com final feliz. Lembro-me da minha tia a devorar fotonovelas e livros da Corin Tellado. Qualquer ínfimo pormenor lhe talhava o deleite: os protagonistas fotografados não eram os predilectos, a má era boa e a boa má, o desenlace era forçado… Eram raras as fotonovelas que estacionavam na mesinha de cabeceira. Pois, este anúncio, e não lhe consigo tecer maior elogio, é ao gosto da minha tia.

Marca: Extra Gum. Título: The Story of Sarah & Juan. Agência: Energy BBDO. Direcção: Pete Riski. Estados Unidos, Outubro 2015.

Quotidiano de risco

fia_twitter_cover_image“O silêncio é quando ninguém ouve” (Réjean Ducharme, L’Océantume, Gallimard, 1961). Não obstante, importa falar com os surdos funcionais. Este anúncio dá a ver, ouvir e sentir. Sem desconsiderar o pensamento de Blaise Pascal, há vozes que não ensurdecem.

O anúncio é admirável. Sem pontas soltas. A inserção da música é milimétrica. A imersão na sequência da autoestrada, com destaque para o som, é eficaz. O anúncio termina com um acidente no local menos expectável. Trata-se de um caso específico de definição da situação: o anúncio desconstrói em poucos segundos a evidência que construiu em perto de três minutos.

Luc Besson, que assume a direcção do anúncio, é um nome consagrado do cinema. Foi produtor de mais de cinquenta filmes e realizou perto de um vintena, entre os quais Nikita (1990), O Profissional (1994), O Quinto Elemento (1997), Joana d’Arc (1999) e Artur e os Minimeus (2006).

A FIA Foundation, registada no Reino Unido, intervém, sobretudo, no âmbito da segurança rodoviária, da mobilidade sustentável e da defesa do meio ambiente.

Enquanto escrevia este artigo, passou-me várias vezes pelo tecto a canção Sounds of Silence dos Simon & Garfunkel. Não é pecado, pois não?

Anunciante: FIA Foundation. Título: Save Kids Lives. Agência: L.M.Consulting&Creativity |L.M.C.C. Direcção: Luc Besson. Internacional, Outubro 2015.

Imagens e Clivagens

Imagens e ClivagensO livro Imagens e Clivagens – Os Residentes face aos Emigrantes foi publicado, pela Afrontamento, em 1996. Há quase vinte anos. Esqueço-me dele, como, aliás, dos outros, mas tenho-lhe profundo respeito. Foi um bico de obra, como mais nenhum. Empenhado em sustentar o seguinte pensamento de Jean-Paul Richter (1763-1825): “O homem não revela melhor o seu próprio carácter do que ao descrever o carácter do outro” (Jean-Paul Richter, 1763-1825).

Disponibilizo estes excertos,sobretudo, para acesso por parte dos alunos. A paginação do capítulo 8 deixa a desejar.

Imagens e clivagens. Índice
Imagens e clivagens. Introdução
Imagens e clivagens. Capítulo 8
Imagens e Clivagens. Quadro LXI