Carnaval é momento coletivo de esperança

Uma passagem pela comunicação social a partir de uma entrevista à Lusa:

Carnaval é momento coletivo de esperança e encenação da força de um povo | Jornal da Madeira.

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Carnaval é momento coletivo de esperança e encenação da força de um povo

ARTIGO | SÁB, 18/02/2012 – 10:17

O Carnaval é historicamente um “momento coletivo de esperança” e também “a encenação da força de um povo” e “um período de transgressão simbólica contra os poderes instituídos”, segundo os sociólogos Albertino Gonçalves e Moisés Espírito Santo.
“Uma festa puramente pagã” que antecede a quarta-feira de cinzas, o dia que marca o início da Quaresma, a Igreja Católica nunca se lhe associou, explicou à Lusa o sociólogo Moisés Espírito Santo, professor catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa doutorado em Sociologia das Religiões.
Depois de o Governo ter anunciado, pela primeira vez nos últimos 19 anos, que não haverá tolerância de ponto para os funcionários públicos na próxima terça-feira de Carnaval, 21 de fevereiro, o sociólogo Albertino Gonçalves, professor de Sociologia da Cultura, dos Estilos de Vida e da Arte na Universidade do Minho, defendeu que o Carnaval tem, historicamente, tal importância para as pessoas que “é justificativo de ações às vezes extraordinárias”.
“Mexer no Carnaval simbolicamente tem custos, porque o Carnaval não é um evento qualquer para as pessoas, é um evento estruturante do seu calendário e revitalizador das suas energias”, disse à Lusa o académico.
Estrutura o calendário das pessoas, porque é uma festa que “se situa normalmente perto do fim do inverno, portanto, perto do fim de um período de muitas dificuldades económicas”, explicou.
“Digo tradicionalmente, porque nós agora quase já não temos estações… O Carnaval aparecia, antes da primavera, como um momento coletivo de esperança, era uma espécie de prenúncio da fartura que estava para vir, a fartura das colheitas. Era um momento mágico, no sentido de que as pessoas encenavam no Carnaval aquilo que esperavam que acontecesse dali a uns meses”, descreveu.
“Enterravam o velho, como se faz em vários sítios, que é o inverno, a fome, as dificuldades, e encenavam a fartura. O Carnaval é o tempo dos banquetes, das comezainas, é aquele tempo em que, embora haja muito pouco, se consegue juntar quase tudo para fazer uma grande festa”.
Por exemplo, a ideia da Terça-feira Gorda, prosseguiu, é que “não há Carnaval sem fartura e abundância de comida e de bebida – e partilhada, não é cada um sozinho em sua casa; faz-se um grande banquete coletivo, da mesma maneira que se faziam os banquetes no fim dos livros do ‘Astérix’”.
Era também uma época de revitalização de energias, esperando-se que “a comunidade ressurgisse forte, porque durante o inverno ela enfraquecia, cada um na sua casa, poucos acontecimentos públicos, poucas partilhas… Então, o Carnaval é também uma encenação do que é a força de um povo – eu diria mesmo a sua potência”, sustentou Albertino Gonçalves.
“E engraçado é que a ideia com que se fica dos Carnavais é a de muita gente a fervilhar, que faz um barulho de ensurdecer… É uma espécie de corpo coletivo exuberante. Os corsos carnavalescos são elementos disso, mas não são os únicos. O Carnaval encena, de algum modo, a potência [de um povo], aquilo que ele é capaz de fazer acontecer, aquilo que é capaz de realizar”, frisou.
Com a passagem do tempo – e a passagem de uma sociedade eminentemente rural para uma sociedade mais urbana, marcada pelo consumismo –, “a celebração do Carnaval não faz o mesmo sentido, porque há muita coisa que mudou”, admitiu o sociólogo.
“O Carnaval também tem essa faceta de crítica e de pressão social e de libertação em relação aos poderes. E depois, os carnavais que existem ganham outros sentidos: o sentido do turismo, o sentido da festa…. Em alguns casos é até um carnaval muito profissional, as pessoas estão meses e meses a preparar-se”, observou.
Segundo Albertino Gonçalves, apesar de se terem alterado as condições iniciais, o Carnaval continua a ser um fenómeno muito forte, e essa força, “que ele reganha agora um pouco”, advém-lhe de uma coisa nova.
Por seu lado, Moisés Espírito Santo sublinhou o aspeto de o Carnaval ser historicamente uma festa de “libertação simbólica de todos os constrangimentos, de toda a autoridade”, em que “as pessoas mudavam de papéis sociais, se disfarçavam daquilo que não eram” e criticavam abertamente as instituições, a começar pelo Estado e pela Igreja Católica.
Mas vincou igualmente que, com a ausência de tolerância de ponto na terça-feira “não se vai perder nada”.
“O que se vai perder talvez sejam esses Carnavais espetaculares, turísticos. Mas o Carnaval popular não perde nada com isso. O povo já não tinha a terça-feira como feriado e o Carnaval não desaparece por isso. É possível até que regrida para esse estatuto anterior, da diversão pós-laboral”.
Inquirido sobre se pensa que, devido ao período de austeridade que se vive em Portugal, o Carnaval poderá “transvazar”, Albertino Gonçalves disse que “poderá haver um ou outro percalço” que, neste contexto, “poderá ganhar uma visibilidade muito grande”.
“Agora, há é uma outra coisa que não vai acontecer: o Carnaval de que eu falei é um momento de esperança e este nosso Carnaval de terça-feira não vai ser lá grande momento de esperança”, concluiu.

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