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As novas máscaras

“Que a força (sémè) que estava na máscara antiga entre na nova!” (Kono, Guiné, in Balandier, Georges, Afrique Ambigue, 1957).

“A máscara traduz a alegria das alternâncias e das reencarnações,· a alegre relatividade, a alegre negação da identidade e do sentido único, a negação da coincidência estúpida consigo mesmo; a máscara é a expressão das transferências, das metamorfoses, das violações das fronteiras naturais, da ridicularização, dos apelidos [alcunhas]; a máscara encarna o princípio de jogo da vida, está baseada numa peculiar inter-relação da realidade e da imagem, característica das formas mais antigas dos ritos e espetáculos. O complexo simbolismo das máscaras é inesgotável. Basta lembrar que manifestações como a paródia, a caricatura, a careta, as contorções e as “macaquices” são derivadas da máscara. É na máscara que se revela com clareza a essência profunda do grotesco.” (Bakhtin, Mikhail, 1987, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, S. Paulo, Editora Hucitec, p. 35).

James Ensor. Squelette Arrêtant Masques. 1891. Leiloado, em 2016, por 7,4 milhões de euros.

“Fala-se muito em identidades líquidas (Zygmunt Bauman) e polifónicas (Mikhail Bakhtin). Em máscaras, também (Anselm Strauss). Pelos vistos, habituámo-nos a trocar ou a retocar as máscaras consoante transitamos de arena ou de palco. Máscaras que se fazem corpo, que ora se entranham, ora se desprendem (Constantin Stanislavski). Mas o mais intrigante não é que a máscara faça corpo, mas a tendência de o corpo funcionar, ele próprio, como máscara, a máscara que mais bem se ajusta às nossas identidades múltiplas e que, provavelmente, mais bem as costura” (Gonçalves, Albertino: https://tendimag.com/2012/06/10/ave-corpo/).

A máscara tem vida e poderes próprios. Adere, por vezes, ao corpo. A máscara encobre, subverte e exprime. Também protege. Protege o portador e protege os outros. Um professor de antropologia referia, há cerca de quarenta anos, que em África havia réis que nunca tiravam a máscara em público para proteger os súbditos. Alfred Adler não descreve outra realidade: entre os Mundang, dos Camarões, o rosto do rei inspira um receio reverencioso. “O Mundang desvia-se o mais rápido possível de um face a face insuportável com esta figura singular do sagrado que lhe queimaria a pele” (Adler, Alfred, Des Rois et des Masques, Homme, Année 1998, 145. pp. 169-203, p. 169). Com uma máscara, talvez Medusa tivesse um final mais feliz.

Otto Dix. Shock Troops Advance under Gas. The War, 1924.

As novas máscaras, públicas, interpõem-se mais do que interagem. Conjugam vulnerabilidade e exorcismo. São máscaras sem segredo, apenas medo. São colectivas, mas sem potência carnavalesca e com alguns laivos de claustrofobia. Sem arte nem diversidade, lembram as máscaras dos médicos da peste negra e as máscaras de gás dos militares da Primeira Guerra Mundial. As novas máscaras protegem, pelo menos simbolicamente, o portador. Mas, à semelhança das máscaras dos réis africanos, também protegem o outro. Protegem-nos!

Carnaval brasileiro

O Carnaval é seu. Apple Brasil

Gostava de acompanhar estes dois anúncios da Apple brasileira com um texto antigo sobre o Carnaval. Mas… “És um palerma!”, costuma exclamar, afectuosamente, o meu amigo Moisés consternado com o meu desleixo proverbial. Escrevi vários textos sobre o Carnaval mas não encontro nenhum, exceptuando uma entrevista à Lusa (ver Carnaval é momento colectivo de esperança). Na verdade, aconteceu-me um percalço. Armazenei informação de vários anos num disco externo. Com o “pragmatismo” que me caracteriza, coloquei o disco no chão, à prova de quedas. Alguém, organizado, arrumou o disco sobre o computador; a gata recolocou-o no chão, com razão eterna: o computador era o seu divã ronronante. Dispensava tijolos! Ardeu, assim, ingloriamente, a maior parte do meu arquivo digital, incluindo os meus textos sobre o Carnaval.

Carnaval é cor, corpo e movimento. É deslumbramento, extravagância, irreverência e transfiguração. É pulsão, catarse, desejo, sexo e orgia. É o renascimento festivo da esperança. É a dança do tempo prenhe de futuro. Os dois anúncios da Apple brasileira captaram magistralmente o espírito do Carnaval.

Marca: Apple. Título: O Carnaval é seu. Agência: LewLara/TBWA Brazil. Brasil, Janeiro 2018.

Marca: Apple. Título: Meu bloco de rua. Agência: TBWA Brazil. Brasil, Fevereiro 2018.

Gatos trajados

Gaston Lagaffe. Gato

O gato é esfíngico, não é? E tem botas para acelerar, não tem? Neste anúncio da Temptations, assistimos a um carnaval de gatos contrafeitos. É mais fácil empanturrar um gato com guloseimas do que “vesti-lo” a rigor. O gato do Gastão da Bronca confirma. A namorada fez as pantufas e o Gastão calçou o gato. O resultado foi um desastre.

Marca: Temptations. Título: Say Sorry for the Holidays. Agência: Adam & Eve DDB (London). Direcção: Austen Humphries. Reino Unido, Novembro 2015.

Caretas, um mundo de mistério e encanto

BahiaPalavra puxa palavra. Vídeo puxa vídeo. Amizade puxa amizade. Uma viajem do Entrudo de Gondar, em Amarante, para as caretas e o Sambiapunga da Bahia, no Brasil. Ana Rita Ferraz, professora na Universidade Estadual de Feira de Santana, enviou-me esta pérola: Caretas e Zambiapunga – Bahia Singular e Plural, um documentário da TVE Bahia, exibido em 2012, com um texto excelente e um ritmo de imagem estonteante.

Obrigado, Ana Rita!

Caretas e Zambiapunga – Bahia Singular e Plural, TVE Bahia, Brasil, 2012.

Cabeçudos

Kayak. Carnival 2Este anúncio é carnavalesco; mas o Carnaval é todos os dias. Tem cabeçudos; é, todavia, espécie que não falta. Tem belas cores vivas; está, pelo contrário, tudo tão cinzento!… Em suma, cabeçudos carnavalescos colorido;  um bom anúncio para uma agência de viagens.

Marca: Kayak. Título: Carnival. Agência: Barton F. Graf 9000. Direção: Harold Einstein. EUA, Maio 2013.

 

Comédia da carne

Contos HopeOs anúncios de lingerie apresentam-se cada vez mais longos e mais loucos. A Commedia del’arte espicaçou, com a sua irreverência, os séculos XVI, XVII e XVIII. O carnaval está à porta. Na Antiguidade representava uma despedida da carne (carne vale) alvo de uma profusão de festejos de índole dionisíaca. Este conto da Hope não releva nem da commedia del’arte, nem de uma despedida da carne, assemelha-se, antes, a uma comédia da carne, e remete para outro género de comédia: as histórias sem palavras do cinema mudo.

Marca: Hope. Título: Contos Hope. Agência: Giovanni+Draftfcb. Direção: Marcelo Galvão Brasil, Fevereiro 2013.

 

Quem quer uma máscara mordaz?

Se ainda não escolheu a sua máscara para este Carnaval, que nos seja permitido sugerir este modelo património carrancudo, com três estilos a opção: gótico, clássico e Ilha da Páscoa. A prótese dentária, garantida contra a corrosão da austeridade, tem dupla função: tanto ri como morde.

Carnaval é momento coletivo de esperança

Uma passagem pela comunicação social a partir de uma entrevista à Lusa:

Carnaval é momento coletivo de esperança e encenação da força de um povo | Jornal da Madeira.

Jornal da Madeira

Carnaval é momento coletivo de esperança e encenação da força de um povo

ARTIGO | SÁB, 18/02/2012 – 10:17

O Carnaval é historicamente um “momento coletivo de esperança” e também “a encenação da força de um povo” e “um período de transgressão simbólica contra os poderes instituídos”, segundo os sociólogos Albertino Gonçalves e Moisés Espírito Santo.
“Uma festa puramente pagã” que antecede a quarta-feira de cinzas, o dia que marca o início da Quaresma, a Igreja Católica nunca se lhe associou, explicou à Lusa o sociólogo Moisés Espírito Santo, professor catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa doutorado em Sociologia das Religiões.
Depois de o Governo ter anunciado, pela primeira vez nos últimos 19 anos, que não haverá tolerância de ponto para os funcionários públicos na próxima terça-feira de Carnaval, 21 de fevereiro, o sociólogo Albertino Gonçalves, professor de Sociologia da Cultura, dos Estilos de Vida e da Arte na Universidade do Minho, defendeu que o Carnaval tem, historicamente, tal importância para as pessoas que “é justificativo de ações às vezes extraordinárias”.
“Mexer no Carnaval simbolicamente tem custos, porque o Carnaval não é um evento qualquer para as pessoas, é um evento estruturante do seu calendário e revitalizador das suas energias”, disse à Lusa o académico.
Estrutura o calendário das pessoas, porque é uma festa que “se situa normalmente perto do fim do inverno, portanto, perto do fim de um período de muitas dificuldades económicas”, explicou.
“Digo tradicionalmente, porque nós agora quase já não temos estações… O Carnaval aparecia, antes da primavera, como um momento coletivo de esperança, era uma espécie de prenúncio da fartura que estava para vir, a fartura das colheitas. Era um momento mágico, no sentido de que as pessoas encenavam no Carnaval aquilo que esperavam que acontecesse dali a uns meses”, descreveu.
“Enterravam o velho, como se faz em vários sítios, que é o inverno, a fome, as dificuldades, e encenavam a fartura. O Carnaval é o tempo dos banquetes, das comezainas, é aquele tempo em que, embora haja muito pouco, se consegue juntar quase tudo para fazer uma grande festa”.
Por exemplo, a ideia da Terça-feira Gorda, prosseguiu, é que “não há Carnaval sem fartura e abundância de comida e de bebida – e partilhada, não é cada um sozinho em sua casa; faz-se um grande banquete coletivo, da mesma maneira que se faziam os banquetes no fim dos livros do ‘Astérix’”.
Era também uma época de revitalização de energias, esperando-se que “a comunidade ressurgisse forte, porque durante o inverno ela enfraquecia, cada um na sua casa, poucos acontecimentos públicos, poucas partilhas… Então, o Carnaval é também uma encenação do que é a força de um povo – eu diria mesmo a sua potência”, sustentou Albertino Gonçalves.
“E engraçado é que a ideia com que se fica dos Carnavais é a de muita gente a fervilhar, que faz um barulho de ensurdecer… É uma espécie de corpo coletivo exuberante. Os corsos carnavalescos são elementos disso, mas não são os únicos. O Carnaval encena, de algum modo, a potência [de um povo], aquilo que ele é capaz de fazer acontecer, aquilo que é capaz de realizar”, frisou.
Com a passagem do tempo – e a passagem de uma sociedade eminentemente rural para uma sociedade mais urbana, marcada pelo consumismo –, “a celebração do Carnaval não faz o mesmo sentido, porque há muita coisa que mudou”, admitiu o sociólogo.
“O Carnaval também tem essa faceta de crítica e de pressão social e de libertação em relação aos poderes. E depois, os carnavais que existem ganham outros sentidos: o sentido do turismo, o sentido da festa…. Em alguns casos é até um carnaval muito profissional, as pessoas estão meses e meses a preparar-se”, observou.
Segundo Albertino Gonçalves, apesar de se terem alterado as condições iniciais, o Carnaval continua a ser um fenómeno muito forte, e essa força, “que ele reganha agora um pouco”, advém-lhe de uma coisa nova.
Por seu lado, Moisés Espírito Santo sublinhou o aspeto de o Carnaval ser historicamente uma festa de “libertação simbólica de todos os constrangimentos, de toda a autoridade”, em que “as pessoas mudavam de papéis sociais, se disfarçavam daquilo que não eram” e criticavam abertamente as instituições, a começar pelo Estado e pela Igreja Católica.
Mas vincou igualmente que, com a ausência de tolerância de ponto na terça-feira “não se vai perder nada”.
“O que se vai perder talvez sejam esses Carnavais espetaculares, turísticos. Mas o Carnaval popular não perde nada com isso. O povo já não tinha a terça-feira como feriado e o Carnaval não desaparece por isso. É possível até que regrida para esse estatuto anterior, da diversão pós-laboral”.
Inquirido sobre se pensa que, devido ao período de austeridade que se vive em Portugal, o Carnaval poderá “transvazar”, Albertino Gonçalves disse que “poderá haver um ou outro percalço” que, neste contexto, “poderá ganhar uma visibilidade muito grande”.
“Agora, há é uma outra coisa que não vai acontecer: o Carnaval de que eu falei é um momento de esperança e este nosso Carnaval de terça-feira não vai ser lá grande momento de esperança”, concluiu.

Montra de prodígios

Um anúncio como o do iPad2 é cada vez mais uma raridade: a maravilha é o produto (Ipad2; Learn; TBWA\Media Arts Lab; Glenn Martin; EUA, Setembro, 2011) . Nem mais, nem menos. Sobram, quando muito, uns dedos. Não faz apelo ao patrocínio de nenhum prodígio adicional (top model, desportista, artista, paisagem, ser do outro mundo). Pois, dedos como aqueles, não há! Tão ágeis, tão precisos, um sonho! Quem não quer umas mãos assim…

Brincadeira à parte, a maioria dos anúncios publicitários mergulha os produtos em molhos de sedução. O maravilhamento acontece por osmose ou contágio. Parece ser o caso da recente campanha holandesa do Mini Coupé. Esta campanha tem várias versões: Carnival; Love is in the air; e Hitchhiker (Anunciante: Bayerische Motoren Werke AG; Agência: BSUR, Amsterdam; Directores criativos: Paulo Martins, Karl Dunn; Holanda, Setembro de 2011). Confinemo-nos à primeira: ao automóvel não basta o exuberante sambódromo de Rio de Janeiro, o Mini exibe a sua agilidade irreverente por toda a cidade. Percorre um mundo maravilhoso como um prodígio entre prodígios.

Um último reparo: o anúncio do iPad2 apresenta uma textura clássica, quase geométrica, que parece destinada ao(s) cérebro(s), enquanto que o anúncio do Mini Coupé envereda pelo grotesco e parece apostar mais no(s) corpo(s).