Dilema castrejo
Esta escultura em baixo-relevo pertence ao Museu da Cultura Castreja, junto à Citânia de Briteiros. Encerra um dilema:
“A interpretação deste baixo-relevo não é consensual, divergindo entre um episódio de combate e uma cena sexual / Representa duas figuras humanas, parecendo a figura da direita em posição de fuga e a da esquerda em perseguição da primeira. A figura da esquerda parece atacar a figura da direita, agarrando-a pelo cabelo. Esta leva um objecto na mão (que pode ser uma arma)” (excerto da notícia do museu).
A cena retrata um assédio. Uma figura persegue a outra. Assédio bélico ou sexual? Aquela coisa entre as duas figuras é uma arma ou um falo? O sexo e a guerra, o amor e a violência, sempre se cotejaram. Afrodite, deusa do amor, foi amante de Ares, deus da guerra. Afrodite e Dionísio tiveram um filho, Priapo, deus da fertilidade, condenado por Hera a ter um órgão genital disforme. Estaremos perante um Priapo de Briteiros? Talvez não. O que parece nem sempre é.
Sexo angelical

Mostra pouco e vê-se muito! Há tentações a que nem os anjos de pedra resistem. O anúncio Little Angel, da Cachemir, é subtil. Conta uma quase não história e incentiva o público a co-construí-la.
Marca: Cachemir. Título: Little Angel. Agência: Tapsa Y & R Madrid. Espanha, 1999.
A configuração do anúncio The Nuns, da Rubbert Cement, é semelhante, mas propõe uma história e apela menos à co-construção por parte do público. Ambos os anúncios, espanhóis, são atrevidos e ternurentos.
Marca: Rubber Cement. Título: The Nuns. Agência: Casadevall. Direcção: Eduardo MacLean. Espanha, 1992.
Sexualidades 3. O amor no além
Como são as relações sexuais após a morte? A Perrier convida-nos a espreitar o mundo das múmias. Pela mão do francês Jean-Jacques Annaud, realizador de A Guerra do Fogo (1981), O Nome da Rosa (1986), O Urso (1988) e o Amante (1991), com um Óscar (1977) e quatro Césares, incluindo o César de Melhor Filme Publicitário (1985). O anúncio As Múmias é estranho e assombroso, mas é um nada frustrante. Tanto sexo cópia do que se faz no mundo de aqui. Nenhuma originalidade. Apenas um detalhe: os protagonistas, em vez de se despir, desenrolam-se. Quanto à garrafa da Perrier, insiste em ser o termómetro do desejo. Mesmo servidos por Tutankamon,vale a pena morrer? Recorde-se, enfim, que os valores fundamentais da marca Perrier eram, na altura: “naturalité, pétillance et provocation”. Acrescente-se que o anúncio se destinava, principalmente, ao público mais jovem (entre os 25 e os 34 anos).
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Marca: Perrier. Título: Les momies. Agência: Ogilvy & Mather. Direcção: Jean-Jacques Annaud. France, 2000.
Embalagem fálica
A Perrier tem marcado a história da publicidade. Recorde-se, por exemplo, La Femme et le Lyon (1990), La Fête (1997), Le Train (2003), Melting (2009) e The Drop (2012). Bouteille Phallique, de 1976, tornou-se um clássico. O conceito é simples: uma garrafa e uma mão feminina; a garrafa cresce à medida que é acariciada, culminando a acção num jorro da água mineral. A garrafa é, naturalmente, associada a um falo e o jorro de água, a um orgasmo (ver A mulher, o homem e o objecto). A Perrier recorreu, várias vezes, a este conceito. No anúncio Une Nouvelle Forme de Plaisir, de 2014, a marca retoma, volvidos quarenta anos, a associação entre recipiente e falo, água e satisfação, jorro e orgasmo. Algumas imagens são, aliás, citações do anúncio de 1976. Mas os dois anúncios são distintos. A simplicidade deu lugar à exuberância. A câmara, inquieta, salta de personagem em personagem, captando confissões, subentendidos e mal-entendidos alusivos ao sexo, ao falo e ao prazer.
Este anúncio foi muito criticado. Porquê? Problema de conteúdo ou de forma? Uma questão de estética? A estética pode funcionar como bálsamo e cosmético? A mudança de focagem do sentido da visão para o ouvido é tão decisiva quanto se estima? Uma série de falas curtas compõem uma variação ou uma cacofonia? Quarenta anos é muito tempo, mudou a nossa tolerância face à expressão da sexualidade? Ou será que a expressão da sexualidade se vulgarizou até aborrecer?
Marca: Perrier. Título: Une nouvelle forme de plaisir. Agência: Ogilvy. França, 2014.
Sexismo na publicidade
We are #Women not objects é um anúncio de denúncia da objectivação das mulheres. Anúncio bem concebido, criativo e com impacto. A figura da mulher objecto persiste na publicidade actual. Fala-se, há mais de meio século, da presença inaceitável da mulher objecto na publicidade. Fica-se, agora, a saber de um novo jeito e com a devida ironia.
Muito apreciava que alguém, uma ONG ou um movimento, se dedicasse a investigar a figura do homem objecto na publicidade. Existe cada vez mais. Um grupo de alunas do curso de licenciatura em Sociologia, da Universidade do Minho, fez um estudo sobre a publicidade de roupa interior masculina e feminina e conclui: “Tal como o corpo feminino, o corpo masculino aparece como um objecto de desejo” (Existem diferenças entre a publicidade de roupa interior masculina e feminina?, Universidade do Minho, Departamento de Sociologia, 2016, pág. 70). Seria, de facto, bem-vindo um projecto de investigação sobre o homem objecto na publicidade. Lograria, com certeza, resultados surpreendentes.
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Anunciante. #WomenNotObjects. Título: We are #WomenNotObjects. Agência: Badger & Winters. USA, Janeiro 2016.
Kama Sutra
Muitos anúncios encenam anedotas seguindo um formato próximo do cartoon. Incidem sobre os tópicos do costume: o sexo, a religião, o poder, a desgraça e a estupidez. O anúncio Kama Sutra, da Fiat, convoca o sexo e a desgraça. Num ambiente de voyeurismo de bairro, a desgraça é pública. O percurso do casal lembra uma passerelle.
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Marca: Fiat. Título: Kamasutra. Agência: Leo Burnett Milan. Itália, 2002.
Fetichismo
Moledo presta-se à asneira. Sobra tempo. A asneira requer mais dedicação do que a conveniência.
Um grupo de alunos está a fazer um trabalho sobre a roupa interior na publicidade. Duvido que abordem o tema do fetichismo. O fetichismo sexual é abordado, desde Freud, pela psicanálise. O marxismo romântico também desenvolve, desde Georg Lukacs, um conceito próximo: a reificação. Em que consiste o fetichismo ou a reificação? Em sobrevalorizar a mediação face à entidade mediada, por exemplo, o soutien, ou o detalhe, por exemplo, o pé ou o cabelo, face ao todo que é o corpo. A lingerie é propícia a estes “desvios”.
Marca: Nearly Naked. Título: Hold Up. Agência: Parmer Jarvis DDB. Canadá 2000.
Marca: Agent provocateur. Título: La Vitrine. Agência: Bst/BDDP. Direcção: Eugene MC KING. Reino Unido, 1996.
A desorientação sexual das tartarugas
As tartarugas são dadas ao desvio sexual. O parceiro pode ser uma bota, um discman, um telemóvel ou um cão sem duas pernas (ver tendimag.com/2013/05/31/a-tartaruga-carochinha/). Retive dois anúncios, ambos de 1999, com tartarugas oportunistas: o primeiro a um discman da Sony; o segundo a um telemóvel da Motorola.
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Marca: Sony. Título: La tortue mélomane. 1999.

Marca: Motorola. Título: La tortue. Agência: McCann Erickson. Reino Unido, 1999.
Fecundidade
Calma, humor e inteligência. Este anúncio dinamarquês é uma delícia. A queda da taxa de fecundidade é, desde os anos 1960, um problema. Mas as mães que querem ser avós encontraram uma solução: apostar no lazer dos filhos “tão distraídos do futuro da humanidade”: viagens, calor e exercício. Com estas artes, a cegonha está a caminho. Se quer ser avó, a agência de viagens Spies Travel é uma boa opção.

Coca-cola: A garrafa, a guerra e o sexo

Shapeways. Printed Coca-cola Bottles. 2015.
A garrafa de coca-cola, não há mais famosa o mundo! Pelo conteúdo, pelas formas e pelas proezas. Quem consegue suspender uma batalha de que é o pomo da discórdia? Só um jovem e uma garrafa (vídeo 1)! Quem diz guerra, diz sexo. Tanatos e Eros. A garrafa é tão sensual! As curvas alongam-se, de fragmento em fragmento. Um toque a vidro fresco com gotículas de excitação (vídeo 2). Não sei se é isto o sex appeal do inorgânico de que fala Mario Perniola, mas é o sex appeal de que eu falo. A coca-cola não é, porém, um caso isolado. Com o devido respeito, é um caso retardado. Em 1976, a erecção de uma garrafa de Perrier culmina num simulacro de orgasmo (http://tendimag.com/2011/10/19/a-mulher-o-homem-e-o-objecto/). Em 2004, a Megapack excede-se com um strip tease frutado (http://tendimag.com/2014/09/10/pornografia-alimentar/). O mundo é garrafal!
Marca: Coca-cola. Título: Battlefield. Agência: McCann China. China, Julho 2015.
Marca: Coca-cola, Título: Curves. Agência: Wieden+Kennedy. USA, Fevereiro 2015.







