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As asas do desejo e a sombra redentora

Quando o novelo da beleza nos cai nas mãos, nos surpreende, importa desfiar o desejo em busca de outras flores da mesma planta. Deixar a sombra perseguir a borboleta, numa espécie de “empreendedorismo estético” focado no prazer. Fascinados com a curta-metragem LILA, de Carlos Lascano, importa sondar o resto da obra do autor. A curiosidade costuma compensar. Confirma-o a animação A Shadow of Blue, que, sublinhe-se, pede visualização até ao desenlace final.

Salvador Dalí. Flor Dalí. 1969

A Shadow of Blue. Written and Directed by Carlos Lascano. A co-production: Les Films du Cygne and DreamLife Studio in Association with Eallin Motion Art. 2012

Festival Awards :
. 3rd Festival of Marvellous and imaginary Film (2012) / Best Animation Award
. 23rd « Meetings days Youth Cinema of Tarn » (2012) / Best Direction Award
. Kimera International Film Festival (Italy, 2012) / Preselection 1rst Award, Audience Award, Jury Award
. Tabor Film Festival – Competition Kiki (children) (Croatia, 2012) / Special Mention
. Festival of Nations – Ebensee (Austria, 2012) / Golden Bear Award
. Malta Short Film Festival 2012 (Malta, 2012) / Best Foreign Animation Award
. Cinemadamare (Italy, 2012) / Best Screenplayer
. 30th International Festival of Youth Cinema or Rimousky (Canada, 2012) / Camerio Award – Best Animation Short
. Jahorina Film Festival (Bosnia and Herzgovina, 2012) / Golden Gentian Award
. Banjaluka Festival 2012 (Ex-Yugoslavia, 2012) / Special Mention
. Picture This… International Film Festival (Canada, 2013) / Special Mention
. Grand Bayou Short Film Showcase (USA, 2013) / Most Artistic Award

Fios de aranha e voos de borboleta

Por Mohanad Shuraideh

Que força é essa? Que força é essa?
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer?
Que só te manda obedecer?
(Sérgio Godinho, Que Força É Essa. Os Sobreviventes, 1972).

Pouco ou muito coloridas, as nossas sociedades toleram cada vez menos o voo das borboletas. Imprevisível, importa discipliná-lo, dar-lhe moldura geométrica, à semelhança, por exemplo, do alinhamento das formigas ou da formação dos gansos.

Na justiça, palaciana ou popular, a presunção de inocência conheceu melhores dias. A corrente incontinência de regras, procedimentos e controlos parece assentar no primado do mal e na bênção exorcista. Para prevenir qualquer hipótese de falhas ou desvios, as leis e os procedimentos desconfiam de tudo e de todos. Tentam acautelar, em particular, os “efeitos borboleta”, os pequenos nadas aleatórios suscetíveis de subverter a arquitetura impecável do conjunto, porventura uma gaiola dourada.

As regras e as normas visam menos a orientação ou a coordenação e mais a restrição e a filtragem. Multiplicam-se e complicam-se os postigos e as chaves. Não obstante, com tamanha urdidura, profilaxia e purga, há cada vez menos notícia de pessoas, gestos e obras decentes. Sem um mínimo de confiança, as relações humanas resultam perversas e penosas. Enquistam, definham e degradam-se.

Entretanto, as borboletas continuam a voar como se não existissem teias de aranha.

Willie Nelson. Butterfly. God’s Problem Child. 2017
Bénabar. L’effet papillon. Infréquentable. 2008
Sérgio Godinho. Que Força É Essa? Os Sobrevivente, 1972

Remédio santo. Anúncio tailandês incrível

Salvador Dali. Galatea de las Esferas. 1952. Museu Nacional d’Art de Catalunya.

Entrei nos cinquenta e treze preguiçoso. Satisfaço-me com escutar música, ler, ver documentários e, principalmente, conviver, arte que estava em vias de esquecer. Que prazer ter o vício de escrever e não o fazer! Segue o anúncio tailandês The Wisdom of the East que conquistou um Leão de Ouro no festival de publicidade de Cannes. Sem comentários.

Marca: 5 Takabb. Título: The Wisdom of the East. Agência: PHENOMENA CO. Tailândia, junho 2022.

Aula imaterial 4. Maneirismo e Surrealismo. Sonhar o pesadelo

Luttrell Psalter

Esta aula é polivalente. Destina-se aos alunos de Sociologia e Semiótica da Arte, do mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, mas também, como exemplo de uma pesquisa documental extensiva, aos alunos de Práticas de Investigação Social, do mestrado em Sociologia.

A aula é conversada. O que não agrada. As aulas conversadas desconversam muito. Não têm coluna vertebral. Em suma, não têm ponta por onde se lhe pegue. Só dá para tocar, ponto aqui, ponto ali. Ouvi dizer que o próprio mundo não tem nem coluna vertebral, nem ponta por onde se lhe pegue. Esta aula está saturada de informação, designadamente, visual. Gosto destas aulas; os alunos não.

Na aula precedente, visitámos o barroco: nos séculos XVII e XVIII e na atualidade. Resulta legítimo falar em barroco nos nossos dias? Não se confina a um período histórico preciso? Para Eugenio d’Ors, o barroco  é um eon (palavra grega), uma forma que percorre a humanidade, atualizando-se em cada contexto particular. “Uma certa constante humana”, com vida ora secreta, ora discreta, ora ostensiva. Reconhece-se o barroco no período helenístico, na Contra-Reforma e no mundo contemporâneo (D’Ors, Eugenio, Du Baroque, Paris, Gallimard, 1935). A sugestão de Eugenio d’Ors estende-se, logicamente, ao grotesco, ao trágico e ao clássico.

Assinalei, na última aula, Michel Maffesoli como especialista da “barroquinização actual do mundo”. Cumpre acrescentar Omar Calabrese: A Idade Neobarroca. Pode descarregar.

Vamos comparar duas correntes de arte separadas por mais de três séculos: o maneirismo (1520-1600) e o surrealismo (desde inícios dos anos 1920).

Sou admirador de François Rabelais. Também de Mikhail Bakhtin, que estudou François Rabelais. Um par admirável. Aproveito para disponibilizar o pdf do livro de Mikhail Bakhtin, Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (1968;  redigido em 1940), e o livro de Wolgang Kayser, O grotesco (1957), duas sumidades da teoria do grotesco: o primeiro encara-o como rebaixamento e o segundo, como estranhamento. Ambos os livros são úteis para esta aula.

Antes de prosseguir,  importa uma breve introdução ao maneirismo. Recomendo o artigo Maneirismo, da página História das Artes (https://www.historiadasartes.com/nomundo/arte-renascentista/maneirismo/).

Às voltas com François Rabelais, deparei com o livro Les Songes Drolatiques de Pantagruel. Publicado em 1565, contém 120 gravuras, da autoria de François Desprez (1530-1587). Como o título indica, as gravuras inspiram-se nas personagens fantásticas do livro Pantagruel. Convido-vos a descarregar esta relíquia. Merece ser folheada. Descarregar!

São excêntricas as figuras disformes e híbridas concebidas por Desprez. Mas não são completamente originais. Deixando de lado os grotescos (ver Desgravitar- Sem Conta, Peso e Medida: https://tendimag.com/2012/02/12/desgravitar-sem-conta-peso-e-medida/), sessenta anos antes, Hieronymus Bosch pintou os quadros Juízo Final (1482), São João Evangelista na Ilha de Patmos (1485), As Tentações de Santo Antão (cerca de 1500), o Jardim das Delícias (1503-1504) e O Carro de Feno (1500-1516). São pinturas que albergam uma turbulência de monstros e híbridos, ilustrada pela galeria de imagens Pesadelos de Bosch. Por acréscimo, pode ver o documentário Genios de la Pintura Hieronymus Bosch El Bosco (Lara Lowe, 2000).

Os pesadelos de Bosch

Documentário Genios de la Pintura. Hieronymus Bosch El Bosco. 2000.

Genios de la Pintura. Hieronymus Bosch El Bosco, Produção: Lara Lowe. Cromwell. 2000.

Sessenta anos, numa escala de longa duração, é pouco tempo. Pode-se recuar mais. Por exemplo, aos séculos XII e seguintes. Nesse tempo, multiplicaram-se os livros de horas e os livros de salmos para apoio à oração. Nas iluminuras das margens das páginas (marginália), exorbitavam os monstros e os híbridos (as droleries). Vamos espreitar dois livros de salmos: o Luttrell (1325-1340) e o Rutland (c. 1260).

A descoberta do livro de salmos de Luttrell aproximou-se de uma epifania. Pesquei as páginas uma a uma. Compilei-as como quem colecciona cromos. Procedi à montagem, respeitando a ordem original. Reconstitui o livro até à página 32. Apresento o conjunto na seguinte animação em PowerPoint. Pode descarregar e abrir. Não perca! A reconstituição do Luttrell Psalter exigiu mais tempo e perícia do que a escrita de um artigo intergaláctico.

As iluminuras do livro de salmos de Rutland também precedem as gravuras de Desprez.

Imagens do livro de salmos de Rutland

Nada nos impede de recuar mais no tempo. Sem nos atardar com os cachorros românicos (ver O triunfo sobre a morte: San Martin de Artaíz: https://tendimag.com/2017/10/05/o-triunfo-sobre-a-morte-san-martin-de-artaiz/), nem com as gárgulas góticas (ver Gárgulas impúdicas: https://tendimag.com/2014/08/10/gargulas-impudicas/), pode-se retroceder ao início da cristandade, ao século I d. C. Sobreviveram frescos fabulosos na Domus Aurea, palácio construído entre 64 e 68 d. C. pelo imperador Nero, e nas ruínas de Pompeia, cidade soterrada pelo Vesúvio em 79 d. C. Ver o artigo Domus Aurea: o sonho enterrado (https://tendimag.com/2017/11/20/domus-aurea-o-sonho-enterrado-revisto/).

É tempo de regressar a François Desprez e, desta vez, andar para a frente. A comparação das gravuras de Salvador Dali com as gravuras de François é surpreendente. Salvador Dali retoma as gravuras de François Desprez, retocando-as com figuras e símbolos sexuais.

Salvador Dali. Les Songes Drolatiques de Pantagruel. 1973.

Uma pergunta: não teria sido suficiente começar o artigo no início e acabá-lo no fim, sem tanto devaneio e interlúdio? Confinar-se, simplesmente, a Desprez e a Dali?

Poder, podia, mas não era a mesma coisa. Convoco quatro argumentos, aparentemente, falaciosos:

  1. Um bom romance policial brilha pelo enredo. Não começa com o crime e acaba logo com a solução.
  2. Informar é formar. Não se pode ter o esquema de tudo e a substância de nada.
  3. O livro L’Amour de l’art, de Pierre Bourdieu e Alain Darbel (1966), convenceu-me que a aprendizagem da arte releva mais da massagem do que da mensagem, para empregar os termos de McLuhan.
  4. A proliferação das obras gera a vertigem das imagens. Sem a vertigem das imagens, não vingaria o seguinte pensamento diabólico: o homem é infinitamente grande pelas suas obras e infinitamente pequeno nas suas possibilidades.

“Afinal que é o homem dentro da natureza? Nada, em relação ao infinito; tudo, em relação ao nada; um ponto intermediário entre o tudo e o nada. Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto o fim das coisas quanto o seu princípio permanecem ocultos num segredo impenetrável, e é-lhe igualmente impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670).

Continuamos na próxima aula: Maneirismo e surrealismo: O capricho da imagem.

Dali virtual

O Dali Museum de St. Petersburg, Florida (USA), reúne a maior colecção de obras de Salvador Dali fora da Europa. Para promover a exposição consagrada à relação entre Salvador Dali e Walt Disney, inaugurada em Janeiro de 2016, o museu produziu um vídeo, intitulado Dreams of Dali, dedicado à obra Reminiscência Arqueológica do Angelus de Millet (1935). O resultado é um vídeo de realidade virtual 360º, ao mesmo tempo onírico e imersivo. Desloque o rato do computador para mover o olhar na imagem. Segue o vídeo Dreams of Dali, acompanhado pelo vídeo de apresentação do Dali Museum de St Petersburg.

Carregar nas imagens para aceder aos vídeos.

Dreams of DaliDreams of Dali. Dali Museum in St. Petersburg. Agência Goodby Silverstein & Partners (California). USA, Janeiro 2016.

dali-museum05Salvador Dali Museum: an Inside Look at the Art and Architecture of The Dali, por Seamus Payne (Thecoolist.com). USA, Janeiro 2016.

Flor&Cultura

“C’est le temps que tu as perdu pour ta rose qui rend ta rose importante” (Saint-Exupéry. Le Petit Prince.1943).

maxresdefaultFlower. ps3.

Com ou sem fumo, há sinais de criatividade no mundo digital. Os videojogos são a meca da originalidade. Há jogos para todos os gostos e para todos os sonhos. Por exemplo, o Flower, desenvolvido, em 2009, pela Thatgamecompany para a Playstation 3.

Rene Magritte (1838-1967) L'invitation au voyage, 1961

R. Magritte. L’invitation au voyage, 1961

Salvador Dali. Meditative Rose, 1958

S. Dali. Meditative Rose, 1958

O Davide elegeu este videojogo para o trabalho da disciplina de Sociologia e Semiótica da Arte, do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura:
“Para quem está familiarizado com videojogos, mesmo ao nível mais básico, este trailer pode parecer bastante confuso. Se neste momento pedisse a você leitor, para simplesmente pensar em qualquer videojogo, imaginaria você uma temática onde se utiliza o vento para colher pétalas de flores, e revitalizar espaços verdes? Pois essa é a proposta de Flower. Kellee Santiago, a presidente de Thatgamecompany, descreve o jogo como:

“…a videogame  version of a poem. I think asks something different of the player.” (Playstation, 2009)” (Davide Gravato, Flower – Uma poesia interactiva: https://comartecultura.wordpress.com/2015/04/23/flower-uma-poesia-interativa/)”.

O videojogo Flower é sweet, com aroma a flower power. A música (Catch the Wind, 1965), também. Nos antípodas do movimento Punk, Donovan é o compositor e cantor apropriado.

Playstation 3. Flower. Trailer. 2009.

Simples, seguro e sentado

Salvador Dali with Dalilips

Salvador Dali with Dalilips

O que mais gosto nos fluxos são os refluxos. Enquanto o coro alto entoa o refrão “exercício e dieta”, o coro baixo refastela-se, sedentário, no sofá, ao som de uma música que lembra o Bob Dylan. Os anúncios da América Latina são os mais dados à estética do refluxo.

Nunca registei na Comunidade Europeia tanta proibição como nos últimos anos. Tudo para nosso bem! Fluxo sem refluxo, eis o sonho do tecnocrata. Este Maio está longe, muito longe, do Maio de 1968.

Anunciante: Cámara de Comercio de Santiago. Título: Compra sentado, compra por Internet. Agência: 10:10. Chile, Maio 2015.

A Última Ceia

Andy Warhol. Last Supper.

Andy Warhol. Last Supper.

Vários autores espanhóis retocam A Última Ceia, de Leonardo da Vinci: Luís Buñuel (ver A ceia dos pobres ), Salvador Dali e, agora, Manuel Portillo, director do anúncio Amen, para os óculos Hawkers. A Última Ceia consta entre as obras de arte mais parodiadas de sempre. Rivaliza com A Gioconda e com O Juízo Final, de Michelangelo. A título de divertimento, seleccionei, de entre centenas, algumas versões de A Última Ceia, desde Andy Warhol até ao último restauro devoto artesanal. Um anúncio ousado e irreverente, com ambição estética, a condizer com a imagem da marca.

Marca: Hawkers. Título: Amen. Agência: Ontwice. Direcção: Manuel Portillo. Espanha, Dezembro 2014.

A Volkswagen vai ao museu

Uma campanha da Volkswagen promovida em 2008 pela agência BBD de Berlim publicita o baixo consumo do Polo Bluemotion através de prints inspirados em Hieronymus Bosch, René Magritte e Salvador Dali.

Volkswagen Bosch

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Pintar o campesinato: Jean-François Millet.

Jean-François Millet. As Respigadoras. 1857.

Jean-François Millet. As Respigadoras. 1857.

Na disciplina de Sociologia da Arte, estamos a dar os impressionistas, com recurso a um docudrama da BBC (The Impressionists, 2006). Conjugar o passado no “futuro anterior” é uma tentação. Apostar no que interessa é outra. Ambas constituem uma forma de cegueira. A abertura e a dispersão são mais do que uma distracção. A focagem apaga mais do que ilumina. E, no entanto, cada momento histórico encerra uma riqueza inesgotável.

Jean-François Millet. Hunting Birds at Night.  1874.

Jean-François Millet. Hunting Birds at Night. 1874.

Para Ernst Bloch, a investigação não se pode cingir ao que existiu, importa convocar também o que poderia ter acontecido, embora não se tivesse concretizado. Se a história está repleta de impossíveis realizados, ainda mais apinhada está de possíveis por realizar. A floresta não tem só caminhos e clareiras. Mas a bússola tende a reter do passado apenas aquilo que desagua no presente, resumindo-o, de preferência, em poucas palavras. E, no entanto, para aprender a humanidade toda a humanidade é pouca. Pelos vistos, acabaram as grandes narrativas… Sobram as grandes palavras: pós-modernidade; hiper modernidade, pós-humanidade, hiper realidade, hiper pós… Uma procissão que teima em não se aventurar por entre as árvores da floresta. Esta pedagogia do caminho batido e do olhar filtrado conforta a ilusão de que o presente é uma espécie de bacia da história da humanidade.

Jean-François Millet. Descanso ao meio dia. 1866.

Jean-François Millet. Descanso ao meio dia. 1866.

Van Gogh. A Sesta.  1890

Van Gogh. A Sesta. 1890

Em França, na segunda metade do século XIX, para além dos academistas e dos impressionistas, houve outros artistas envolvidos na disputa em torno do que devia ser a arte. Dentro e fora da Académie Royale de Peinture et de Sculpture. Fora, abriram caminho, entre outros, o realismo (e.g. Jean-François Millet e Gustave Courbet) e o simbolismo (e.g. Gustave Moreau e Odilon Redon).

Jean-François Millet. the gust of wind. 1871-73

Jean-François Millet. the gust of wind. 1871-73

Jean-François Millet (1814-1875), francês, filho de camponeses, precursor e referência do realismo, fundador da Escola de Barbizon, frequenta vários cursos de pintura graças a uma sucessão de bolsas. Ao dedicar-se, com estilo próprio, à pintura de camponeses humildes, afasta-se claramente do estilo académico: “Le style académique ne pousse pas tant les artistes à trouver leur propre style qu’à se rapprocher d’un idéal qui repose sur quelques principes; simplicité, grandeur, harmonie et pureté” (http://www.mutinerie.org/les-lieux-de-travail-qui-ont-change-lhistoire-3-les-ateliers-dartistes/#.Uwfb4fl_tih). No quadro As Espigadoras, 1857, retrata as camadas mais baixas da sociedade: três mulheres camponesas rebuscam grãos de trigo após a colheita.

Jean-François Millet. The Angelus, 1857-1859.

Jean-François Millet. The Angelus, 1857-1859.

Salvador Dali.The Angelus. 1935.

Salvador Dali.The Angelus. 1935.

Millet teve influência nos pintores impressionistas, nomeadamente Van Gogh, que retoma algumas cenas. Por outro lado, Salvador Dali não só retoma O Angelus (1857–59), como lhe dedica um livro: Le Mythe Tragique de l’Angélus de Millet, 1ª ed. 1938, Paris, Allia Editions, 2011.

Millet. Two Men Turning Over the Soil. 1866. Van Gogh. Two Peasants Digging. 1889.

Millet. Two Men Turning Over the Soil. 1866. Van Gogh. Two Peasants Digging. 1889.

Na sociologia, Pierre Bourdieu faz várias alusões a Millet e Jean-Claude Chamboredon, co-autor de Le Métier de Sociologue, escreveu um artigo sobre Millet: “Peinture des rapports sociaux et l’invention de l’éternel paysan: les deux manières de Jean-François Millet”, Actes de la Recherche en Sciences Sociales, nº17-18, 1977, pp. 6-29.