Desgravitar: Sem Conta, Peso e Medida

Para quem se interesse pelo tópico da ausência de gravidade, os grotescos dos séculos XV e XVI oferecem uma extensa galeria de criaturas dispostas, fora de órbita, em todos os sentidos. Os grotescos não respeitam a gravidade, tal como não respeitam outros princípios do ordenamento do mundo, o que lhes valeu uma intolerância crescente por parte da Igreja. Francisco de Holanda foi um dos artistas que intercederam a favor dos grotescos. Tem, aliás, gravuras que namoram esta maneira fantástica de pintar (ver figura 13). Os grotescos treparam pelas paredes e pelos tectos dos séculos XV e XVI. Cobriram a Galleria degli Uffizi e o Palazzo Vechio, em Florença, assim como as loggie e a biblioteca do Vaticano em Roma.

Esta propensão para desgravitar não é apanágio de nenhum período histórico. A ausência de gravidade representa uma forma de relação do homem com o mundo e com a vida. E as formas de relação do homem com o mundo tendem a ser da idade da própria humanidade. A febre renascentista pelos grotescos foi desencadeada pela descoberta, em 1480, de figuras insólitas nas ruínas da Domus Aurea, o palácio que Nero mandou edificar após o célebre incêndio de Roma. Em suma, estas criaturas sem conta, nem peso, nem medida, remontam, pelo menos, ao primeiro século da era cristã. Eis uma história que fica para contar noutra ocasião. Nota: quase todas as fotografias constantes na galeria têm alta resolução, o que permite um bom visionamento dos pormenores.

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Sociólogo.

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