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A Bomba e a Cruz

Aproxima-se o dia da Crucificação. Vivemos tempos de muita religião e pouca religiosidade em que a espada [ou a bomba] ameaça obliterar a cruz rumo a uma nova idade da pedra. Oremos cantando!

I am the day, soon to be born
I am the light before the morning
I am the night that will be dawn
I am the end and the beginning
I am the Alpha and Omega
The night and day, the first and last

Libera – I Am The Day. Angel Voices: Libera in Concert, 2007. Live in the St Pieterskerk, Leiden, The Netherlands
Libera – Sanctus. Libera, 1999. live in the St Pieterskerk, Leiden, The Netherlands
Libera – Walking in the air (from The Snowman). Angel Voices 3, 1997. Live at St Johns Smith Square on 6th December 2020
Libera – Prayer. Visions, 2005. Live at the Basilica of the National Shrine of the Immaculate Conception in Washington DC

A Ausência de Deus

Missal Fouquet. 48r. Entre 1450 e 1470. Yale University Library

Em Cabeceiras de Basto, sexta feira, dia 13, falei muito, talvez demasiado, do diabo, pelos vistos uma espécie de “Absens Deus”. Hoje, lembrei-me deste anúncio. Coloquei-o no Tendências do Imaginário em agosto de 2015 com o seguinte comentário: “Este anúncio macedónio é uma espécie de catequese da ciência mitigada com religião: o jovem Einstein rebate a argumentação do professor com recurso à ciência e em nome da religião” (https://tendimag.com/2015/08/03/a-ciencia-a-bicicleta-a-cigarra-e-a-formiga/). Retomo-o como um lembrete esfíngico.

Anunciante: Ministry of Education and Science of the Republic of Macedonia. Título: Religion. Does god exist? Macedónia, 2008.

Impuro

Não sou religioso, pelo menos na aceção corrente da palavra. Não significa que não seja crente. Acredito em tanta coisa tão pouco óbvia. Prezo, aliás, a fé e quem a possui, em particular aqueles que, perante um deus que não se manifesta nem é demonstrável pela razão (o “Deus Oculto” de Blaise Pascal), apostam e vivem apostados na sua verdade e existência..

Imagens: Capela Imaculada. Seminário de Nossa Senhora da Conceição. Braga

Sinto a falta desse sentimento inspirador de obras cuja aura demando e deixo ressoar dentro de mim. Estou convencido que não há vocação mais honesta do que abrir-se ao outro e relativizar-se a si mesmo.

Johann Sebastian Bach. Adagio, BWV 974. Arranjo do concerto para oboé de Allessandro Marcello. 1715
Frédéric Chopin. Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11: II. Romance. Larghetto. 1830. Piano: Martha Argerich. Direção: Charles Dutoit. Orchestre Symphonique de Montréal, 1999.

Hórus e Nut

Estou a escrever coisas sérias sobre realidades pesadas. Quase mais números do que letras. Entretanto, o prazer joga às escondidas.

Aproveito os intervalos para espairecer. Sento-me num tapete voador. Na Galiza, colho uma música no ninho de uma meiga. Inspiro-me e parto para o Antigo Egipto ao encontro do olho do deus Hórus na escuridão da deusa Nut.

Imagem: Nut, deusa egípcia do céu no túmulo de Ramsés VI

Baiuca – Olvidame (feat. Aliboria). Misturas. 2019

A Ave, o casal e a lápide

Lançamento do livro Uma Paisagem Dita Casa, 1 de agosto de 2022. Fotografia: Conceição Gonçalves

Prometi, há dois meses, colocar o capítulo “A ave, o casal e a lápide: as esculturas da porta da igreja de São João Baptista de Lamas de Mouro” logo após o lançamento do livro Uma paisagem dita casa, de João Gigante, integrado no programa Quem somos os que aqui estamos?, do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Aconteceu ontem.

Lançamento do livro Uma Paisagem Dita Casa. Melgaço, 1 de agosto de 2022. Assistência. Fonte: Melgaço, Portugal começa aqui

Tenho vindo a afastar-me da nobre missão de facultar ciência. Contento-me com namorar o conhecimento. A autoridade da lição e do relatório cede à desenvoltura da poesia, do conto ou da comédia. Entrego-me ao gozo da descoberta e da escrita e aposto no prazer do eventual leitor. Sem lonjuras nem distâncias, próximo das realidades e dos públicos. “A ave, o casal e a lápide” presta-se a ser lido como um romance policial. Nem sequer foi preciso reordenar as etapas da pesquisa. O texto espelha o percurso efetivo. Constitui um exemplo de investigação tal como sucede. Confesso algum carinho por estas páginas: não pretendem desvendar a realidade, mas acrescentar e valorizar; não contabilizam, satisfazem.

Segue o capítulo “A ave, o casal e a lápide: as esculturas da porta da igreja de São João Baptista de Lamas de Mouro”, in Gigante, João, Uma paisagem dita casa, Ao Norte, 2022, pp. 124-139. Acresce a reportagem da visita, em 2021, do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ao MDOC.

Cerimónia de encerramento e entrega de prémios do MDOC – Festival Internacional de Documentários. Melgaço, 08 de agosto de 2021. © Mário Ramalho/Presidência da República.

Horae ad usum Parisiensem. Antecipação medieval do surrealismo

Grandes Heures de Jean de Berry Fol. 12v

Há muito que andava à pesca do livro Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry], concluído em 1409. Acabo de o encontrar na Biblioteca Nacional de França. Reservados às elites, luxuosamente ilustrados com gravuras fabulosas, os livros de horas multiplicam-se durante a Baixa Idade Média. Correspondem a uma viragem da relação dos cristãos com o divino: a oração, retomada várias vezes, a horas certas, ao dia, é assumida em ambiente privado com recurso à mediação de imagens. Sobreviveram milhares de livros de horas. Em Portugal, o mais célebre é o Livro de Horas de D. Manuel (entre c. 1517 e c. 1538), publicado pela Imprensa Nacional e Casa da Moeda (1983).

Com capa original de veludo violeta, com dois fechos de ouro, rubi, safira e seis pérolas, o manuscrito das Grandes Heures de Jean de Berry (300X400 mm) é composto por 126 folios (252 páginas) com calendário (f. 1-6), horas de Nossa Senhora (f. 8-42), sete salmos da penitência e litania dos santos (f. 45-52), pequenas horas da cruz (f. 53-55) e do Espírito Santo (f. 56-58), grandes horas da Paixão (f. 61-85) e do Espírito Santo (f. 86-101) e ofícios dos mortos (f. 106-123). O livro está disponível, para consulta e descarga, no seguinte endereço https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Segue uma montagem de uma das primeiras Horas de Nossa Senhora, acompanhada por uma galeria com iluminuras provenientes das margens, uma autêntica “antecipação” medieval do surrealismo do século XX (ver outros casos de “antecipação” histórica do surrealismo nos artigos: https://tendimag.com/2020/03/24/aula-imaterial-4-maneirismo-e-surrealismo-sonhar-o-pesadelo/; https://tendimag.com/2020/04/04/aula-imaterial-5-maneirismo-e-surrealismo-2-humanoides/; https://tendimag.com/2012/05/05/braccelli-a-maneira-surrealista/).

Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry]. Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Galeria: Gravuras nas margens das Grandes Heures de Jean de Berry (carregar para aumentar). Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510.

Solar. Sensibilização e envolvimento comunitário

Com Beatriz

Acordei solar, com um brilhozinho nos olhos. Tanta imagem de Cristo acaba por me iluminar.

Existem momentos em que me sinto compensado pela atenção que devoto à publicidade, independentemente do país, da fonte, do conteúdo e do propósito. A campanha indiana, Divine Voice, para promoção da vacinação contra a Covid-19, é notável, audaz, inspiradora e eficiente. Um caso digno de reflexão. O anúncio sabe combinar expressividade e sobriedade. Com ou sem gostos, partilhar este vídeo é um privilégio.

“A Concern India Foundation, uma organização sem fins lucrativos, lançou recentemente uma campanha única em zonas de Bangalore caracterizadas por uma elevada resistência à vacinação. Com o apoio de líderes comunitários, adotaram uma iniciativa, com recurso à comunicação oral, chamada Voz Divina.

Os templos e as mesquitas na Índia têm alto-falantes, que transmitem orações e mensagens sagradas. A Concern India introduziu mensagens favoráveis à vacinação nessas orações, que foram, assim, transmitidas e partilhadas ao vivo pelos próprios religiosos e leaders locais. Foram escolhidas passagens das escrituras sagradas como o Bhagwad Gita ou o Alcorão que ensinam a superação do medo, a bondade humana e a salvação de vidas. Assentar a promoção da vacinação numa base cultural tão relevante despoletou um enorme impacto nas pessoas. Ousando ir além da razão, apelou diretamente à identidade e ao coração. A campanha tem-se revelado um sucesso. Os dados recentes sobre a mobilização em Hajee Sir Ismail Sait Masjid em Frazer Town e no Templo Sri Gayathri Devi comprovam-no: “antes, apenas cerca de 30 pessoas compareciam para vacinação. Após a campanha, mais de 200 pessoas foram vacinadas por dia” (Concern India Foundation).

A campanha Voz Divina é um excelente exemplo de publicidade de sensibilização e envolvimento comunitário.

Anunciante: Concern India Foundation. Agência: Ogilvy India. Índia, março 2022.

Gárgulas Impúdicas (para o livro A Morte na Arte)

Estou a proceder à última revisão do livro A Morte na Arte. O texto Gárgulas Impúdicas, já corrigido, alterado e aumentado, aparece como o primeiro “capítulo” da obra. Segue, como aperitivo, já revisto. Empenhado na revisão do livro, anunciam-se poucas e piores publicações no Tendências do Imaginário.

Gárgulas Impúdicas

Observamos como elementos essenciais na mentalidade deste período [medieval] a formação e divinização de locais empíricos como palácios e catedrais góticas (com sua arquitetura repleta de representações religiosas como as torres altas, “tocando” nos céus; os vitrais, deixando penetrar a “luz de Deus” no interior da igreja; as gárgulas junto às torres, simbolizando a não-penetração do demônio a das forças maléficas dentro dos templos sagrados etc.) (Prado, Daniel Porciuncula, 2000, Uma breve introdução acerca das estruturas mentais no período medieval, Biblos, Rio Grande, 12, 115-121, p. 118).

1. Gárgula da Igreja Matriz de Caminha. Foto de Manuel Passos.

Olhar para cima e deparar-se com um rabo prestes a defecar representa uma experiência insólita mas possível. Em Portugal, existem, por exemplo, gárgulas impúdicas na Sé da Guarda, na Sé de Braga, na Matriz de Caminha, e na Igreja de Nossa S.ª da Oliveira, em Guimarães. Para orgulho local, as gárgulas de Caminha (figura 1) e Guimarães (figura 2) estão de costas viradas para Espanha:

“Em Portugal, prestam-lhes as devidas honras as já aludidas gárgulas, como o famoso “Cu da Guarda” e os seus congéneres da Sé de Braga, da Matriz de Caminha e da Matriz de Escalhão (…), do Castelo de Pinhel ou, ainda, da quimera da torre do relógio de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães (…), muitas delas ainda hoje popularmente aclamadas enquanto expressão de um certo sentimento nacional historicamente ressentido dos acometimentos dos reinos vizinhos. Voltados para Espanha (…) estes exibicionistas (termo importado da historiografia anglo-saxónica para este tipo preciso de figuras (…) seriam então uma provocação além-fronteira” (“Sem medo nem vergonha. Imagens insólitas à margem da escultura medieval”, de Joana Antunes ( Universidade de Coimbra | FLUC |CEAACP | MNMC: https://doi.org/10.14195/2184-7193_10_1).

2. Gárgula da Sé de Braga.

Vigiam-nos um pouco por toda Europa: Espanha, França, Inglaterra, Alemanha… Com o “rabo-ao-léu”, as gárgulas de Braga, Guimarães e Caminha distinguem-se das demais. Estão invertidas, a olhar para baixo, com a cabeça encostada ao contraforte e com o rabo do lado de fora, por onde, em vez de pela boca, a água escorre. Encenam, deste modo, um mundo-às-avessas. Estas três gárgulas entram “no vasto círculo dos motivos e imagens que evocam a substituição do rosto pelo traseiro, do alto pelo baixo. 0 traseiro é o “inverso do rosto”, a “rosto as avessas”” (Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, 1.ª ed. 1965, São Paulo/Brasília: Hucitec/Editora Universidade de Brasília, 2008, p. 327). Além do rabo, estas gárgulas minhotas exibem os genitais, cometendo sexo oral.

“Na torre da igreja de Nossa Sr.ª da Oliveira, Guimarães (séc. XVI), podemos observar uma gárgula, posicionada à esquina (…) que representa uma figura masculina a protagonizar uma cena de felatio a si própria, numa estranha posição, de rabo virado para o exterior. E a sua representação é bem explícita, pois é bastante visível para o observador o falo erecto, que o artífice enfatizou exagerando a sua escala” (Catarina Fernandes Barreira, “Contributos para o estudo das gárgulas medievais em Portugal: desvios e transgressões discursivas?”, Lusitania Sacra. 22 (2010) 169-199, p. 190).

3. Gárgula da Igreja de Nossa S.ª da Oliveira, em Guimarães.

Não é apenas na igreja de Nossa Srª da Oliveira que nos oferece esta acrobacia sexual. Encontramo-la, também, na Matriz de Caminha, embora com um falo menos imponente. Na gárgula da Sé de Braga, a mais antiga, o falo não é visível, o que constitui uma exceção estranha nesta série de gárgulas de rabo-ao-léu, no país e no estrangeiro (figura 5). Se não se vê, ou o amputaram ou não está à vista. Não aparenta marcas de intervenção. Evidenciam-se, em contrapartida, duas bolas junto ao queixo, que mais lembram dois testículos do que outras bolas quaisquer, por exemplo, um colar de guizos. Nas gárgulas, o que parece grotesco costuma ser.

“[Na Sé de Braga], “uma gárgula peculiar (…) exibe um par de cornos, olhos muito esbugalhados e um sorriso rasgado, mas irónico e parece ter no sítio do queixo duas bolas penduradas (parecem testículos). Tem as pernas colocadas ao longo do tronco e com a ajuda das mãos, que parecem estar amarradas na zona dos pulsos, abre despudoradamente o ânus para o observador: é a primeira gárgula rabo-ao-léu do panorama nacional” ( Catarina Alexandra Martins Fernandes Barreira, Gárgulas: representações do feio e do grotesco no contexto português. Séculos XIII a XVI, Volume I, Dissertação de doutoramento em Belas Artes, Universidade Nova de Lisboa, 2010, p. 341).

4. Cachorros da Igreja de São Pedro de Cervatos. Cantábria. Espanha.

Nesta perspetiva, o pénis não aparece porque está abocanhado, indiciando, portanto, uma cena de felácio. Em suma, a igreja de N.ª Senhora da Oliveira alberga uma gárgula com um falo ostensivo, a Matriz de Caminha, uma gárgula com um falo discreto, e a Sé de Braga, uma gárgula com um falo pressuposto.

Estas gárgulas de rabo ao léu têm ar de se esborrifar para o comum dos mortais. A fazer fé na alquimia grotesca, fertilizam-nos. A cartografia simbólica do corpo humano desvaloriza o baixo (os pés), o posterior (as costas) e o interior (as entranhas). Estas gárgulas perfazem um cúmulo grotesco: baixeza traseira e incontinente.

“A orientação para baixo é própria de todas as formas da alegria popular e do realismo grotesco. Em baixo, do avesso, de trás para a frente, tal é o movimento que marca todas essas formas. Elas se precipitam todas para baixo, viram-se e colocam-se sobre a cabeça, pondo o alto no lugar do baixo, o traseiro na frente, tanto no plano do espaço real como no da metáfora” (Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, op. cit. p. 325).

5. Gárgula. Igreja de St Pierre de Dreux. França

O que significa tamanha vulgaridade? É costume precisar-se que estas provocações não entram nos mosteiros nem nas igrejas, permanecendo no seu exterior, que se destinam mais a quem vem do que a quem está dentro. Esta espécie de sobrecarga semiótica justifica três reparos. Primeiro, as gárgulas situam-se onde está a sua função básica: o escoamento das águas no topo das fachadas. Segundo, demoníacas e macabras, também se insinuam nos claustros, no coração dos mosteiros que o povo raramente visita em vida e nunca na morte. Terceiro, fantasmagorias congéneres, tais coma as danças macabras, com papas, imperadores, reis e bispos a dar a mão à morte, invadem as paredes, os capitéis e os órgãos dos templos e dos cemitérios dos séc. XV e XVI. Nos edifícios beneditinos, multiplicam-se os sátiros e as carrancas. O próprio diabo é presença habitual na casa do Senhor.

No desfile das gárgulas medievais, a desgraça sexual rivaliza com as ameaças escatológicas. Grotescas, as gárgulas incarnam o pecado, em ato ou em expiação. São exemplos a evitar, numa espécie de catequese pela imagem, que não hesita em convocar a credulidade, o medo e o horror. Idealizam fantasias muito reais nos seus efeitos. Há gárgulas com figuras humanas que representam frades ou freiras que caíram na tentação da carne, da luxúria e da gula. Algumas freiras vestem um manto, de tal modo subido ou aberto, que deixa a descoberto os peitos e as partes genitais. Umas juntam as mãos, em sinal de arrependimento, outras, tapam os seios, outras ainda comprazem-se a tocar e a destapar as partes impróprias.

No Mosteiro da Batalha, edifício português com maior número de gárgulas, destaca-se uma figura de mulher com manto, pé de cabra. os peitos destapados e uma criança na boca. Será uma freira que teve um filho de uma relação inaceitável, eventualmente, com uma autoridade eclesiástica? A mulher engole ou regurgita a criança? Por quê na boca? Os medievais eram imaginativos e exímios cuidadores de símbolos. O gigante Gargântua nasceu pela orelha da mãe, Gargamelle (ver https://tendimag.com/?s=partos+extravagantes). Nesses tempos, acreditava-se que as bruxas comiam crianças, incluindo os próprios filhos.

10. Gárgula no Mosteiro da Batalha.

As bruxas também usavam mantos e cobriam a cabeça. Na Idade Média, as bruxas moravam na cabeça das pessoas. E se a gárgula do Mosteiro da Batalha fosse uma freira bruxa. Seria um excesso de novidade híbrida. Vale, no mínimo, o prazer poético da imagem. Que pretendia a Igreja com tamanhos desmandos no seu próprio seio? Há quem garanta que houve períodos em que a Igreja apostou no combate aos pecados internos. Suspeitava-se que os membros do clero não resistiam ao mal. As gárgulas recebiam e amedrontavam o povo, mas perturbavam também o olhar do clero.

Michel Maffesoli fala em homeopatia do mal, senão da morte, em “reconhecer ‘o que cabe ao diabo’, saber dar-lhe bom uso, para que não sufoque o corpo social”. (Michel Maffesoli, A Parte do Diabo, Rio de Janeiro, Record, 2004 , 2004, p.16). Mikhail Bakhtin releva os interstícios do lado sombrio da criação, o da potência dionisíaca. Entretanto, imunes a hermenêuticas, as gárgulas defecam chuva, a fonte da vida, a seiva do húmus. O bem assimila e assume o mal, a “parte maldita”.

Futebol. O santuário

Cristiano Ronaldo

O anúncio Football Is Calling, da Pepsi, consiste, essencialmente, num monólogo inflamado de apelo à devoção ao futebol: ““This is our sanctuary, where the only protocol is football. And the only thing we stand for is sitting.” Um discurso de conversão dos alheados. Um discurso eloquente que logra uma comunhão da audiência consubstanciada por uma lata da Pepsi. Refira-se que a Pepsi tem um acordo com a NFL (National Football League), a liga desportiva profissional de futebol americano dos Estados Unidos.

Marca: Pepsi. Título: Football is Calling. Agência: VaynerMedia. Estados-Unidos, Agosto 2021.

Há quem sustente que o futebol configura uma religião, uma religião laica. Congrega lugares de culto, rituais coletivos, panteão, credos, profetas, messias, exegetas, ídolos, imagens, hagiografias, epifanias, fiéis, procissões, irmandades, catarse, regeneração e pão nosso quotidiano. Metáforas e analogias à parte, trata-se de uma extrapolação que não me convence. Futebol é futebol, religião é religião. O que não obsta a que este anúncio me recorde um artigo de juventude de grata memória: “O desporto do nosso contentamento. Notas sobre a popularidade do futebol”, reproduzido em várias publicações: Boletim Cultural, do município de Melgaço; revista Economia e Sociologia, da Universidade de Évora; e livro Para uma sociologia da perversidade. Em maior número foram as comunicações que proporcionou. Hoje, neste contexto, elegeria este anúncio como ilustração. Junto o pdf da primeira versão do texto “Desporto do nosso contentamento” (carregar na seguinte imagem).

Transpiração

O olfato “é o sentido desagregador e anti-social por excelência” (Simmel, Georg. 1981. “Pour une sociologie des sens”, in Sociologie et épistémologie, Paris, PUF).

Jan Brueghel I &Peter Paul Rubens. Smell. Museu do Prado. Cerca de 1617-1618.

Pode um anúncio ser reflexivo? Funcionar como um espelho? É o objetivo da maior parte dos anúncios. A mais ínfima parte do corpo humano intervém na interação social. Um nada corporal, significativo, pode decidir a relação com o outro. E com o próprio. A transpiração é um excesso de comunicação, uma ameaça ao self, tal como, noutro registo, o ato incontrolado de corar. Bem sugeria Simmel que o odor separa e afasta. Quem não se revê nas inseguranças do protagonista, nos clichés dos seus receios e impasses? Gosto deste anúncio: consegue o que pretende. Aposta nas noções, religiosas, de condenação e de salvação. Entre ambas, uma epifania: o chamamento, a revelação e a graça do desodorizante Hidrofugal.

Marca: Hidrofugal. Título: Tommy. Alemanha, 2020.