Vade retro! Atribulações das almas

Em 29 de dezembro de 2014, publiquei o artigo A caminho do inferno. Retoquei-o várias vezes: em 3 de janeiro de 2015, com o título O último suspiro, aumentei-o. Em 23 de agosto de 2017, procedi a uma nova revisão, optando pelo título inicial A caminho do inferno; por último, em 15 de janeiro de 2023, retomei-o, no blogue Margens, com o título Atribulações das almas, acrescentando um vídeo com gravuras do Livro Horas de Taymouth e um excerto do álbum Heaven and Hell, do Vangelis. Recoloco esta versão mais recente e mais completa.
Uma perdição!
À Minda

Ano após ano, reuni centenas de imagens de livros de oração medievais. Constituem um dos principais repositórios fantásticos da humanidade. Não foi fácil seleccioná-las. Quanto às músicas, ainda foi mais complicado: destacaram-se duas cantigas de Santa Maria, de Afonso X, o Sábio, interpretadas pelo Clemencic Consort. A meu ver, a música é a parte mais preciosa do vídeo.
Há treze anos, no dia 23 de agosto de 2013, coloquei o vídeo “Imagens de Salvação”, com iluminuras e músicas medievais. Uma montagem que me deixou duplamente satisfeito: pelo resultado e pelo prazer. Mais palavras para quê?
So fucking special: maravilhas e aberrações

A vida é composta por pequenos rituais. Ao acordar, um comprimido para a tiróide, a medição da tensão e da glicémia e o compasso de um cigarro. Ao trigésimo minuto, o pequeno almoço: café com leite, pão com queijo e uma tangerina. Enquanto a descasco, encanta-me a maravilha que tenho nas mãos. Tanta riqueza que a natureza, recatada, produz!
Livro de Horas, França, séc. XV. Amiens, Biblioteca Municipal, ms. 107)
Resultam, por exemplo, únicos, imensos e fantásticos os sabores, as formas, as texturas e as cores dos frutos. Após cinco comprimidos e outras tantas gotas, novo cigarro, refrescado com água mineral natural gasocarbónica, de preferência de Melgaço.

Aproveito para escutar música: Hoje, uma versão da canção Creep, dos Radiohead. E volto a cismar no excesso, na complexidade e na diversidade do mundo e da vida. Agora, insinuam-se outras criaturas, os monstrinhos, essa outra maravilha que Deus nos deu. Principia deste modo, quase religiosamente, um novo dia.
Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. Final séc. XV. Flandres

Seguem duas versões da canção Creep: o cover pelos Postmodern Jukebox (2015) e, naturalmente, o original, o primeiro single dos Radiohead (1992). Um pequeno apontamento: na letra original, em vez de “So very special“, constava “So fucking special“. Foi censurado à nascença.
We are all monsters!
Os monstros sofrem. Não conseguem relaxar. Os media, a alcofa da inteligência contemporânea, estão atulhados de falhas. Quando chove é uma lástima. Nem o balouço soporífero do comboio consola a Múmia, a Morte, o Lobisomem e o Cientista Maluco, figuras emblemáticas do cinema dos anos vinte e trinta do século passado. Somos monstros num dia de chuva. Híbridos, variáveis, ocos por dentro e vazios por fora, mas absorventes. Anúncio original com caracterização apurada e humor hilariante.
Marca: Spectrum. Título: Monsters: Train. Agência: O Positive. Direcção: David Shane. USA, Abril 2017.
Post scriptum:
A frase “todos somos monstros” provocou alguma estranheza. Não é denotativa: nem tudo é literal no mundo da escrita. É verdade que peca por se embrulhar fluxo grotesco do texto. Mas é um pecado menor. Somos nós quem cria os monstros. São ficções, ou fantasmas, do nosso imaginário. Quando reais costumam ser humanos. Se não criamos os monstros à nossa imagem, enxertamos-lhes características que nos são próprias. Por exemplo, a hibridez e a volubilidade (ver Zygmunt Bauman e, cinquenta anos antes, Mikhail Bakhtin); o vazio e a sofreguidão, consubstanciados na tendência para a absorção omnívora. Acresce que os monstros do anúncio, extravagâncias imaginadas, se comportam como humanos. Para desanuviar as sombras, os monstros deixaram, entretanto, de se cingir ao susto e à exorbitância para se tornar adoráveis, no cinema, nos videojogos, na publicidade… São muitos os exemplos, assinalo apenas três: o E.T., o Yoda e o Shrek. A comunicação humana raramente é literal ou linear. Costuma ser polissémica, polifónica e orquestral. As frases mais marcantes da humanidade não são nem lineares, nem literais. Tão pouco são incongruentes ou caóticas. Há quem aspire a outras performances: “Fazer coisas com palavras”, diria J. L. Austin (1962). A frase “o inferno são os outros”, de Jean-Paul Sartre, não é literal, nem é abstrusa; destaca-se, porém, na história das ideias do século XX. “O inferno são os outros” é parecido com “nós somos monstros”, muda apenas o sujeito e a conjugação verbal.
A caminho do inferno
O Taymouth Hours é um livro de horas datado de 1325-40. Da profusão de iluminuras, retenho uma pequena amostra alusiva às coisas do inferno (ver galeria). Dedicados e despachados, os diabos conduzem os condenados (figuras 2 a 4) para a boca do inferno (figura 5). No interior, o ambiente é caloroso (figuras 6 a 8). Cada suplício, uma vez terminado, é recomeçado. A never ending pain!
- 01. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 02. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 03. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 04. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 05. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 06. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 07. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 08. Taymouth Hours, c. 1325-40.
Gatos Músicos
À minha gata, que tem quatro patas e um rabo.
Esfíngico, o gato é um misto de sabedoria, astúcia e mistério. A exemplo de Garfield, é um especialista em sonho e hedonismo. Mascote predilecta do poder, o gato é associado ao oculto, à bruxaria e à superstição. Maléfico, chega a ser temível (e.g. “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe). Do ponto de vista simbólico, o gato é complexo e ambivalente. Acrescente-se, para complicar, a figura do gato músico, tão comum e apreciada nas iluminuras medievais. Tendências do Imaginário já contemplou o burro músico (http://tendimag.com/2012/11/20/o-burro-e-a-harpa/). É a vez do gato!

06. Book of Hours, Cat beating cymbal, from a marginal cycle of images of the funeral of Renard the Fox, Walters Manuscript W.102, fol. 78v detail.
Galeria de Imagens de Salvação
Há semanas, no artigo com o vídeo Imagens de Salvação (http://tendimag.com/2013/08/23/imagens-de-salvacao/), não anexei a respectiva galeria de imagens. Faço-o agora.
- Horas de Catarina de Cleves, c. 1440. Pormenor
- Livro de Horas de Joana a Louca, Bruges, 1486-1506
- O Livro de Kells, c. 800.
- Arcanjo fecha a porta do inferno, Saltério de Winchester (St Swithun Psalter). Séc. XII.
- Horas de Catarina de Cleves, ca. 1440.
- Horas de Catarina de Cleves, c. 1440.
- Livre de la Vigne nostre Seigneur. França, c. 1450-1470.
- Saltério. Det kongelige bibliotek. Copenhaga, c. 1222
- Macclesfield Psalter. England, c. 1330
- Saltério de Luttrel, c. 1320-1340
- Saltério de Luttrel, c. 1320-1340
- Livro de Horas de Maastricht. c. 1300-1325.
- Saltério Bonne de Luxembourg. 1348-1349.
- Purificação das almas no Purgatório. Très Riches Heures, c. 1412.
- The Book of the Queen, França, c. 1410-14
- Horas de René d’Anjou, c. 1410
- Horae ad usum Parisiensem (Grandes Heures de Jean de Berry), c. 1400-1410
- Horas de Catarina de Cleves, c. 1440
- Horas de Catarina de Cleves, ca. 1440
- Horas de Catarina de Cleves, ca. 1440
- Horas de Catarina de Cleves, ca. 1440
- Chroniques sire Jehan Froissart. Bruges, c. 1470-75
- Livro de Horas. Provença. França, c. 1440-1450
- Livro de Horas. Provença. França, c. 1440-1450
- Livro de horas de Leonor de la Vega, c. 1465-70
- Le Livre de la Vigne nostre Seigneur, 1450-1470. Pormenor
- Livro de Horas de Dionara de Urbino. Itália, c. 1480. Pormenor
- Livro de Horas de Isabel, a Católica. 1499
- Black Hours, for Rome use. Bruges, c. 1470
- Criação. Livro de Horas, Biblioteca Nacional de França, séc. XV.
- Livro de Horas do Infante Don Alfonso de Castela). Finais do séc. XV.
- Livro de Horas do Infante Don Alfonso de Castela). Finais do séc. XV.
- Livro de Horas do Infante Don Alfonso de Castela). Finais do séc. XV.
- Livro de Horas do Rei Luís XII, França,1498-1499
- Livro de Horas de Bonaparte Ghislieri. c. 1500.
- Livro de Horas de D. Manuel. 1517-1538
- Alphonsus de Spina, La Forteresse de la foi. França, séc. XV
- Spinola Hours. 1510-1520.
- Falsos Profetas. ‘Queen Mary Apocalypse’, Londres, séc- XIV.
- Tübinger Hausbuch Iatromathematisches Kalenderbuch. die Kunst der Astronomie und Geomantie. Württemberg, séc. XV.
Imagens de Salvação
Um artigo com este perfil, só em férias, por vaidade e com vontade. Ano após ano, reuni centenas de imagens de livros de oração medievais. Constituem um dos principais repositórios fantásticos da humanidade. Não foi fácil seleccioná-las. Quanto às músicas, ainda foi mais complicado: destacaram-se duas cantigas de Santa Maria, de Afonso X, o Sábio, interpretadas pelo Clemencic Consort. A meu ver, a música é a parte mais preciosa do vídeo. Sobram músicas prodigiosas por todo o mundo e em todas as épocas. Com a devida vénia à pós-modernidade, a “conquista do presente” e o umbigo globalizado têm alguma propensão para nos focar o olhar e nos empobrecer. Este vídeo não propõe nada de especial, a não ser que se veja ao espelho com outra cara.
Ao iniciar o vídeo, carregue, por favor, em HD, no canto superior direito. A qualidade compensa.
Albertino Gonçalves. Imagens de Salvação. Agosto 2012.










































































