Tag Archive | livro de horas

Relevos. Moscas e flores

A mosca na touca. Artista alemão desconhecido – Portrait of a Woman of the Hofer Family, 1470
A ilusão: Da iluminura ao postal ilustrado
A mosca na moldura. Petrus Christus – Retrato de um Cartuxo, 1446

Vade retro! Atribulações das almas

Morte de São Bento. Capela de São Bento. Mosteiro de de São Martinho de Tibães

Em 29 de dezembro de 2014, publiquei o artigo A caminho do inferno. Retoquei-o várias vezes: em 3 de janeiro de 2015, com o título O último suspiro, aumentei-o. Em 23 de agosto de 2017, procedi a uma nova revisão, optando pelo título inicial A caminho do inferno; por último, em 15 de janeiro de 2023, retomei-o, no blogue Margens, com o título Atribulações das almas, acrescentando um vídeo com gravuras do Livro Horas de Taymouth e um excerto do álbum Heaven and Hell, do Vangelis. Recoloco esta versão mais recente e mais completa.

Atribulações das almas. Margens, 15.01.2023

Uma perdição!

À Minda

Ano após ano, reuni centenas de imagens de livros de oração medievais. Constituem um dos principais repositórios fantásticos da humanidade. Não foi fácil seleccioná-las. Quanto às músicas, ainda foi mais complicado: destacaram-se duas cantigas de Santa Maria, de Afonso X, o Sábio, interpretadas pelo Clemencic Consort. A meu ver, a música é a parte mais preciosa do vídeo. 

Há treze anos, no dia 23 de agosto de 2013, coloquei o vídeo “Imagens de Salvação”, com iluminuras e músicas medievais. Uma montagem que me deixou duplamente satisfeito: pelo resultado e pelo prazer. Mais palavras para quê?

Imagens de Salvação. Tendências do Imaginário, 23.08.2013

So fucking special: maravilhas e aberrações

A vida é composta por pequenos rituais. Ao acordar, um comprimido para a tiróide, a medição da tensão e da glicémia e o compasso de um cigarro. Ao trigésimo minuto, o pequeno almoço: café com leite, pão com queijo e uma tangerina. Enquanto a descasco, encanta-me a maravilha que tenho nas mãos. Tanta riqueza que a natureza, recatada, produz!

Livro de Horas, França, séc. XV. Amiens, Biblioteca Municipal, ms. 107)

Resultam, por exemplo, únicos, imensos e fantásticos os sabores, as formas, as texturas e as cores dos frutos. Após cinco comprimidos e outras tantas gotas, novo cigarro, refrescado com água mineral natural gasocarbónica, de preferência de Melgaço.

Aproveito para escutar música: Hoje, uma versão da canção Creep, dos Radiohead. E volto a cismar no excesso, na complexidade e na diversidade do mundo e da vida. Agora, insinuam-se outras criaturas, os monstrinhos, essa outra maravilha que Deus nos deu. Principia deste modo, quase religiosamente, um novo dia.

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. Final séc. XV. Flandres

Seguem duas versões da canção Creep: o cover pelos Postmodern Jukebox (2015) e, naturalmente, o original, o primeiro single dos Radiohead (1992). Um pequeno apontamento: na letra original, em vez de “So very special“, constava “So fucking special“. Foi censurado à nascença.

Postmodern Jukebox (com Haley Reinhart) – Creep. Emoji Antique. 2015. Ao vivo em 2015
Radiohead – Creep. Single, 1992. Álbum Pablo Honey, 1993.

Horae ad usum Parisiensem. Antecipação medieval do surrealismo

Grandes Heures de Jean de Berry Fol. 12v

Há muito que andava à pesca do livro Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry], concluído em 1409. Acabo de o encontrar na Biblioteca Nacional de França. Reservados às elites, luxuosamente ilustrados com gravuras fabulosas, os livros de horas multiplicam-se durante a Baixa Idade Média. Correspondem a uma viragem da relação dos cristãos com o divino: a oração, retomada várias vezes, a horas certas, ao dia, é assumida em ambiente privado com recurso à mediação de imagens. Sobreviveram milhares de livros de horas. Em Portugal, o mais célebre é o Livro de Horas de D. Manuel (entre c. 1517 e c. 1538), publicado pela Imprensa Nacional e Casa da Moeda (1983).

Com capa original de veludo violeta, com dois fechos de ouro, rubi, safira e seis pérolas, o manuscrito das Grandes Heures de Jean de Berry (300X400 mm) é composto por 126 folios (252 páginas) com calendário (f. 1-6), horas de Nossa Senhora (f. 8-42), sete salmos da penitência e litania dos santos (f. 45-52), pequenas horas da cruz (f. 53-55) e do Espírito Santo (f. 56-58), grandes horas da Paixão (f. 61-85) e do Espírito Santo (f. 86-101) e ofícios dos mortos (f. 106-123). O livro está disponível, para consulta e descarga, no seguinte endereço https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Segue uma montagem de uma das primeiras Horas de Nossa Senhora, acompanhada por uma galeria com iluminuras provenientes das margens, uma autêntica “antecipação” medieval do surrealismo do século XX (ver outros casos de “antecipação” histórica do surrealismo nos artigos: https://tendimag.com/2020/03/24/aula-imaterial-4-maneirismo-e-surrealismo-sonhar-o-pesadelo/; https://tendimag.com/2020/04/04/aula-imaterial-5-maneirismo-e-surrealismo-2-humanoides/; https://tendimag.com/2012/05/05/braccelli-a-maneira-surrealista/).

Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry]. Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Galeria: Gravuras nas margens das Grandes Heures de Jean de Berry (carregar para aumentar). Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510.

We are all monsters!

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Os monstros sofrem. Não conseguem relaxar. Os media, a alcofa da inteligência contemporânea, estão atulhados de falhas. Quando chove é uma lástima. Nem o balouço soporífero do comboio consola a Múmia, a Morte, o Lobisomem e o Cientista Maluco, figuras emblemáticas do cinema dos anos vinte e trinta do século passado. Somos monstros num dia de chuva. Híbridos, variáveis, ocos por dentro e vazios por fora, mas absorventes. Anúncio original com caracterização apurada e  humor hilariante.

Marca: Spectrum. Título: Monsters: Train. Agência: O Positive. Direcção: David Shane. USA, Abril 2017.

Post scriptum:

A frase “todos somos monstros” provocou alguma estranheza. Não é denotativa: nem tudo é literal no mundo da escrita. É verdade que peca por se embrulhar fluxo grotesco do texto. Mas é um pecado menor. Somos nós quem cria os monstros. São ficções, ou fantasmas, do nosso imaginário. Quando reais costumam ser humanos. Se não criamos os monstros à nossa imagem, enxertamos-lhes características que nos são próprias. Por exemplo, a hibridez e a volubilidade (ver Zygmunt Bauman e, cinquenta anos antes, Mikhail Bakhtin); o vazio e a sofreguidão, consubstanciados na tendência para a absorção omnívora. Acresce que os monstros do anúncio, extravagâncias imaginadas, se comportam como humanos. Para desanuviar as sombras,  os monstros deixaram, entretanto, de se cingir ao susto e à exorbitância para se tornar adoráveis, no cinema, nos videojogos, na publicidade… São muitos os exemplos, assinalo apenas três: o E.T., o Yoda e o Shrek.  A comunicação humana raramente é literal ou linear. Costuma ser polissémica, polifónica e orquestral. As frases mais marcantes da humanidade não são nem lineares, nem literais. Tão pouco são incongruentes ou caóticas. Há quem aspire a outras performances: “Fazer coisas com palavras”, diria J. L. Austin (1962). A frase “o inferno são os outros”, de Jean-Paul Sartre, não é literal, nem é abstrusa; destaca-se, porém, na história das ideias do século XX. “O inferno são os outros” é parecido com “nós somos monstros”, muda apenas o sujeito e a conjugação verbal.

 

A caminho do inferno

01. Taymouth Hours, c. 1325-40.

01. Taymouth Hours, c. 1325-40.

O Taymouth Hours é um livro de horas datado de 1325-40. Da profusão de iluminuras, retenho uma pequena amostra alusiva às coisas do inferno (ver galeria). Dedicados e despachados, os diabos conduzem os condenados (figuras 2 a 4) para a boca do inferno (figura 5). No interior, o ambiente é caloroso (figuras 6 a 8). Cada suplício, uma vez terminado, é recomeçado. A never ending pain!

Gatos Músicos

01 From a French Book of Hours, c. 1470.

01 From a French Book of Hours, c. 1470.

À minha gata, que tem quatro patas e um rabo.

Esfíngico, o gato é um misto de sabedoria, astúcia e mistério. A exemplo de Garfield, é um especialista em sonho e hedonismo. Mascote predilecta do poder, o gato é associado ao oculto, à bruxaria e à superstição. Maléfico, chega a ser temível  (e.g. “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe). Do ponto de vista simbólico, o gato é complexo e ambivalente. Acrescente-se, para complicar, a figura do gato músico, tão comum e apreciada nas iluminuras medievais. Tendências do Imaginário já contemplou o burro músico (http://tendimag.com/2012/11/20/o-burro-e-a-harpa/). É  a vez do gato!

02. MELANCHOLY CAT Book of Hours, France 15th century. Beinecke, MS 662, fol. 21r

02. MELANCHOLY CAT Book of Hours, France 15th century. Beinecke, MS 662, fol. 21r.

03. Bagpipes cat book of hours, Paris ca. 1460 (NY, Morgan Library & Museum, MS M.282, fol. 133v).

03. Bagpipes cat book of hours, Paris ca. 1460 (NY, Morgan Library & Museum, MS M.282, fol. 133v).

04 From a Belgian Book of Hours, c. 1470.

04 From a Belgian Book of Hours, c. 1470.

05. 'Queen Mary Psalter', London 1310-1320 (British Library, Royal 2 B VII, fol. 194r)

05. ‘Queen Mary Psalter’, London 1310-1320 (British Library, Royal 2 B VII, fol. 194r)

06. Book of Hours, Cat beating cymbal, from a marginal cycle of images of the funeral of Renard the Fox, Walters Manuscript W.102, fol. 78v detail.

06. Book of Hours, Cat beating cymbal, from a marginal cycle of images of the funeral of Renard the Fox, Walters Manuscript W.102, fol. 78v detail.

 

Galeria de Imagens de Salvação

Há semanas, no artigo com o vídeo Imagens de Salvação (http://tendimag.com/2013/08/23/imagens-de-salvacao/),  não anexei a respectiva galeria de imagens. Faço-o agora.

Imagens de Salvação

Um artigo com este perfil, só em férias, por vaidade e com vontade. Ano após ano, reuni centenas de imagens de livros de oração medievais. Constituem um dos principais repositórios fantásticos da humanidade. Não foi fácil seleccioná-las. Quanto às músicas, ainda foi mais complicado: destacaram-se duas cantigas de Santa Maria, de Afonso X, o Sábio, interpretadas pelo Clemencic Consort. A meu ver, a música é a parte mais preciosa do vídeo. Sobram músicas prodigiosas por todo o mundo e em todas as épocas. Com a devida vénia à pós-modernidade, a “conquista do presente” e o umbigo globalizado têm alguma propensão para nos focar o olhar e nos empobrecer. Este vídeo não propõe nada de especial, a não ser que se veja ao espelho com outra cara.
Ao iniciar o vídeo, carregue, por favor, em HD, no canto superior direito. A qualidade compensa.

 

Albertino Gonçalves. Imagens de Salvação. Agosto 2012.