A leveza do macho contemporâneo
O macho contemporâneo é “hiperpósmoderno”? Lembra os movimentos de contracultura dos anos sessenta sob a bandeira de uma grande e generosa narrativa: “Make love not war”. Atente-se em alguns detalhes do público do concerto dos Focus (Holanda, 1972). São os primeiros passos do machismo pós-macho? “Actitud Ligera” é o lema da campanha mexicana da Coca-Cola Light. Mais uma aposta na leveza.
Marca: Coca-Cola Light. Título: Actitud Ligera. Agência: Santo. Direcção: Monse Arreola. México, 2013.
Focus. Hocus Pocus. Live. Holanda. 1972.
A civilização da leveza

Luis Ricardo Falero. Faust’s dream. 1880.
Ontem decidi começar a escrever um artigo, desses que dão pontos, sobre a leveza. À semelhança daqueles que escrevi sobre o grotesco, a dobra, o fragmento e a ilusão. Há anos que debico o tema. Desde Outubro de 2011, o blogue Tendências do Imaginário dedicou, pelo menos, 31 artigos aos tópicos da leveza e da levitação (ver lista no fim do artigo). Antes de iniciar um artigo, costumo proceder ao levantamento das publicações mais recentes. Como primeira referência, calhou-me um farol do pensamento contemporâneo: Gilles Lipovetsky, De la légèreté, Grasset, 2015. Nem mais, nem menos. Eis um autor que escreve rápido: 10 livros em 13 anos.
“Nous vivons une immense révolution qui agence pour la première fois une civilisation du léger.Le culte de la minceur triomphe ; les sports de glisse sont en plein essor ; le virtuel, les objets nomades, les nanomatériaux changent nos vies. La culture médiatique, l’art, le design, l’architecture expriment également le culte contemporain de la légèreté. Partout il s’agit de connecter, miniaturiser, dématérialiser. Le léger a envahi nos pratiques ordinaires et remodelé notre imaginaire : il est devenu une valeur, un idéal, un impératif majeur. Jamais nous n’avons eu autant de possibilités de vivre léger, pourtant la vie quotidienne semble de plus en plus lourde à porter. Et, ironie des choses, c’est maintenant la légèreté qui nourrit l’esprit de pesanteur. Car l’idéal nouveau s’accompagne de normes exigeantes aux effets épuisants, parfois déprimants. C’est pourquoi, de tous côtés, montent des demandes d’allègement de l’existence : détox, régime, ralentissement, relaxation, zen… Aux utopies du désir ont succédé les attentes de légèreté, celle du corps et de l’esprit, celle d’un présent moins lourd à porter. Voici venu le temps des utopies light.” (pode ler online o livro de Lipovetsky no seguinte endereço: https://play.google.com/books/reader?id=RmGjBQAAQBAJ&printsec=frontcover&output=reader&hl=pt_PT&pg=GBS.PP1.
“Este anúncio encaixa-se que nem uma luva no que tenho andado a estudar: a suspensão da gravidade como levitação e libertação, ou seja, como desprendimento das amarras da vida e do mundo” (AG:http://tendimag.com/2011/11/12/a-insustentavel-leveza-da-compra/).

Michelangelo. La tentazione di Sant’Antonio. 1488. Tempera su tavola, Kimbell Art Museum,
“Estou convencido que a leveza atrai mais as pessoas do que a liquidez, a velocidade, a imaterialidade ou a fragmentação. Consumimos comidas e bebidas leves. Deslizamos em desportos leves tais como o surf e o asa delta. Os corpos e os gestos querem-se elegantes e graciosos. A leveza anda associada à liberdade. Os pássaros não voam em gaiolas. Pelo menos à vontade. Devem, vadios, acabado o voo, vir ter connosco, decididos. Tive duas aves assim, soltas. Uma era uma pega que, tendo todo o mundo à disposição, vinha pousar no meu ombro ou na minha mão. A leveza é uma aspiração, raramente uma realidade. As nossas vidas têm conta, peso e medida. A sociedade emprega-nos e desemprega-nos, mas não nos larga. A leveza pede desgravitação e desprendimento. Normalmente, arrastamo-nos. Arrastamos os passos, arrastamos os dias, arrastamos a alma, arrastamos a vontade. Eis o nosso valor de uso (AG http://tendimag.com/2013/11/20/so-sobe-o-que-tem-peso/)”.

Two scotsmen and a witch flying on a broomstick. Etching by Paul Sandby with text by Hopkins.
“Não há paciência para tanta levitação. Mas a publicidade insiste. Nos anúncios a bebidas gaseificadas, as borbulhas refrescam, tonificam e, sobretudo, libertam. A não ser mais pela recorrência, convém registar o ato, o modo e a missão: bebe, descola e voa! O homem contemporâneo sonha! Sonha em desprender-se. Sonha que é líquido num vaporizador. Sonha que é múltiplo, com plataformas ambulantes. Sonha que é mais arcaico do que as árvores do Paraíso. O homem sonha como nunca sonhou. Sonha com os prodígios do ecrã, com a circum-navegação, com galerias de espelhos, pós-narrativas e guerras de Titãs. Joga às escondidas na floresta da vida, líquido, plural, arcaico e sonâmbulo. Com os pés no ar!” (AG: http://tendimag.com/2015/03/03/borbulhas/).

Luís Ricardo Falero. L’étoile double: ca. 1881.
Ando ultrapassado porque sou lento. Leio devagar, “publico” pouco… Apraz-me comunicar, de perto ou de longe, com quem dialogo e interajo. Devia escrever mais e com outra urgência, mas, para mim, o pensamento é alambicado. Pede evaporação e condensação. Está pronto quando está pronto, se algum dia o estiver. Sou assim, atrasado. Com este ritmo, não vou chegar a tempo ao caixão. Apresentei uma comunicação na Sorbonne, no mês de Junho de 2011, sobre “La suspension de la gravité dans l’enluminure médiévale et dans la publicité actuelle” (Socialité Postmoderne, Journées du CEAQ). Entretanto, “não escrevi” sobre o tema. Não escrevi? Escrevi textos para dezenas de milhares de leitores espalhados pelo mundo. Mas, não escrevi. Neste mundo que é o meu, escrever significa submeter um paper a um júri de pressupostos pares. Como sustentam Lipovetsky, Maffesoli, Eco e outros cientistas sociais, a sociedade contemporânea tem muito de medieval. Parece uma roleta: pós-moderna, moderna, clássica, medieval… Não sou apóstolo das minhas próprias ideias. Ainda menos, candidato a vitrinas em que não encontro reflexo. Prefiro a proximidade e o interconhecimento. A edição do livro do Lipovetsky, mais do que terra queimada, oferece-se como um balsamo. Acompanhado, sinto-me menos excêntrico: “não sou o único a olhar o céu!”

Stefano di Giovanni.The Blessed Ranieri Frees the Poor from a Prison in Florence. Between 1437 and 1444. Louvre.

Luis Ricardo Falero. The Butterfly. 1893.
Sinto-me ultrapassado. O mundo fugiu-me. Lembro-me de algumas revistas: Revue Française de Sociologie, Année Sociologique, Cahiers Internacionaux de Sociologie, Communications, L’Homme et la Société, Actes de la Recherche en Sciences Sociales, Populations, L’Homme… Revistas sem indexação, mas com identidade. Agora, os meus olhos perdem-se no meio de tanto apelo global. Naquele tempo, as revistas ainda não se pautavam por métricas de rankings e apelos internacionais. A burocracia não era a carroça da ciência.
E pronto! O Gilles Lipovetsky escreveu um livro sobre a leveza. Quanto a mim, nem um artigo submeti. Não basta plantar ideias, convém colher também as letras.
Artigos do Tendências do Imaginário sobre a leveza:
– Levitação: 01 de Outubro de 2011.
– Asas para quê: 07 de Outubro de 2011.
– Libertação: 29 de Outubro de 2011.
– A insustentável leveza da compra: 12 de Dezembro de 2011.
– A insofismável leveza do tacto: 28 de Janeiro de2012.
– Celebridades aos saltos: 09 de Fevereiro de 2012.
– Perdido em movimento: 10 de Fevereiro de 2012.
– Um par de asas: 18 de Fevereiro 2012.
– We robots: 14 de Março de 2012.
– Levitação 2: 05 de Abril de 2012.
– Descolagens: 12 de Abril de 2012.
– Voar ou levitar?: 10 de lAgosto 2012.
– Hipnose: 12 de Outubro de 2012.
– Da necessidade de voar: 16 Setembro de 2012.
– A levitação do Professor Tournesol: 28 de Outubro de 2012.
– Da banalidade da levitação: 08 de Dezembro de 2012.
– Só sobe o que tem peso: 20 de Novembro de 2013.
– Balões: 28 de Novembro de 2013.
– Voo pesado: 29 de Novembro de 2013.
– Memórias com asas: 6 de Dezembro de 2013.
– A incomensurável leveza do beijo: 12 de Fevereiro de 2014.
– Deslizar: 09 de Março de 2014.
– Flutuar naturalmente: 15 de Maio de 2014.
– O milagre da queda: 26 de Junho de 2014.
– Cerveja debaixo de água: 27 de Outubro de 2014.
– Mercúrios: 22 de Fevereiro de 2015.
– Geração ultraleve: 03 de Março de 2015.
– Borbulhas: 03 de Março de 2015.
– Baloiços: 08 de Março de 2015.
– Vertigens a baixa altitude: 02 de Abril de 2015.
– Magnetismo: 27 de Abril de 2015.
Baloiços
Mais um anúncio assinado pela BETC para a Air France. Uma coreografia com baloiços, o mais universal e o mais infantil dos engenhos de voo, uma espécie de pêndulo suspenso com gente dentro. Ganhamos balanço, que perdemos ao pisar o chão. O anúncio contempla alguns símbolos da França: a moda, a gastronomia, o french kiss… Adivinha-se o esmero na escolha e adaptação da canção (Glass Candy). Na próxima, viajo com a Air France: inspiração, conforto e elegância. Recomendo estes três anúncios da BETC para a Air France: http://tendimag.com/2011/09/15/um-voo-sem-asas/.
Marca: Air France. Título: Air France is in the air. Agência: BETC. Direcção: We are from L.A. Internacional, Março 2015.
Geração ultraleve
A publicidade “bate leve, levemente, como quem chama por mim”. A leveza é o maná da travessia contemporânea. Até o calçado se quer mais leve do que as botas do gato do conto de Charles Perrault, que sugere que a mentira pode ser compensadora e a pequenez, fatal:
“O gato continuava a correr à frente da carruagem. Atravessando um espesso bosque, chegou à porta de um magnífico palácio, no qual vivia um ogro muito malvado que era o verdadeiro dono dos campos semeados. O gatinho bateu à porta e disse ao ogro, que a abriu:
– Meu querido ogro, tenho ouvido por aí umas histórias a teu respeito. Diz-me lá: é certo que te podes transformar no que quiseres?
– Certíssimo, respondeu o ogro, e transformou-se num leão.
– Isso não vale nada – disse o gatinho – Qualquer um pode inchar e aparecer maior do que realmente é. Toda a arte está em se tornar menor. Poderias, por exemplo, transformar-te em rato?
– É fácil, respondeu o ogro, e transformou-se num rato. O gatinho deitou-lhe logo as unhas, comeu-o” (http://www.arazao.net/razao0509/pagina011.pdf).
Palpita-me que vamos ficar na História como a geração ultraleve.
Marca: UGG. Título: A Lighter Way to go. Agência: M&C Saatchi Los Angeles. USA, Março 2015.
Borbulhas
Não há paciência para tanta levitação. Mas a publicidade insiste. Nos anúncios a bebidas gaseificadas, as borbulhas refrescam, tonificam e, sobretudo, libertam. A não ser mais pela recorrência, convém registar o ato, o modo e a missão: bebe, descola e voa!
O homem contemporâneo sonha! Sonha em desprender-se. Sonha que é líquido num vaporizador. Sonha que é múltiplo, com plataformas ambulantes. Sonha que é mais arcaico do que as árvores do Paraíso. O homem sonha como nunca sonhou. Sonha com os prodígios do ecrã, com a circum-navegação, com galerias de espelhos, pós-narrativas e guerras de Titãs. Joga às escondidas na floresta da vida, líquido, plural, arcaico e sonâmbulo. Com os pés no ar!
Marca: Lipton. Título: Tiny Bubbles. Agência: DDB New York. Direcção: Style War. USA, Fevereiro 2015.
A Beleza da Mistura
Eis um chá que desperta apetites. Com um textura leve e voluptuosa, entre o mergulho e o bailado aquático, lembra os anúncios da Água das Pedras, mas sem borbulhas.
« Depuis 1867, Kusmi Tea incarne le mélange sous toutes ses formes : origines, cultures, goûts et couleurs, pour le plus grand plaisir de tous. Pour la première fois, Kusmi Tea prend la parole à la télévision et présente sa campagne ‘La beauté des mélanges’, une chorégraphie féérique où l’eau sublime les corps et les saveurs ».
Marca: Kusmi Tea. Título: La Beauté des Mélanges. Agência : Quai des Orfèvres. Direção: Robert Cohen. Janeiro 2014.
Marca: Água das Pedras. Título: Mergulha. Agência: Euro RSCG. Direção: Augusto Fraga. Portugal, 2012.
Marca: Água das Pedras. Título: Com vida. Agência: Euro RSCG. Direção: José Pedro Sousa. Portugal, 2010.
Balões
Os balões vão fazendo o seu caminho na publicidade. Sobem, planam e pintalgam o horizonte, arredondados e apelativos.
O primeiro anúncio, Change your view, sul-africano, é digno de atenção. Convida a um percurso que conduz do sombrio ao luminoso, do noturno ao diurno, da terra aos céus. Os rostos são impressionantes. De um encanto tamanho, repousam nas nuvens e contam estrelas. Embalados pela música…
O segundo anúncio, cloud, israelita, com a sua esquadra de dirigíveis, é ingénuo, leve e colorido. Como as nuvens ao nascer o dia, como o amor quando se inflama…
Ambos os anúncios estão associados a empresas de telecomunições (a Star Sat e a Pelephone) que apostam no valor da leveza.
Só sobe o que tem peso
Estou convencido que a leveza atrai mais as pessoas do que a liquidez, a velocidade, a imaterialidade ou a fragmentação. Consumimos comidas e bebidas leves. Deslizamos em desportos leves tais como o surf e o asa delta. Os corpos e os gestos querem-se elegantes e graciosos.
A leveza anda associada à liberdade. Os pássaros não voam em gaiolas. Pelo menos à vontade. Devem, vadios, acabado o voo, vir ter connosco, decididos. Tive duas aves assim, soltas. Uma era uma pega que, tendo todo o mundo à disposição, vinha pousar no meu ombro ou na minha mão.
A leveza é uma aspiração, raramente uma realidade. As nossas vidas têm conta, peso e medida. A sociedade emprega-nos e desemprega-nos, mas não nos larga. A leveza pede desgravitação e desprendimento. Normalmente, arrastamo-nos. Arrastamos os passos, arrastamos os dias, arrastamos a alma, arrastamos a vontade. Eis o nosso valor de uso.
Santiago ‘Bou’ Grasso é um realizador argentino admirável. Não falta quem escreva poemas com imagens. Simultaneamente, sóbrios e generosos, são obra rara. A primeira curta-metragem é dedicada à leveza; a segunda, ao peso de chumbo da existência. As nossas vidas em poesia e em prosa.
Santiago ‘Bou’ Grasso. El Pájaro e el Hombre. Argentina, 2005
Santiago Bou Grasso. El Empleo. Argentina, 2011
Dentes de Leão
Tu dizes tu… e eu digo tu. E as palavras não dizem nada. Desprendem-se em onomatopeias. São corpos e sentimentos em voo livre. Como dentes de leão num sonho de diamantes.
Anunciante: Debeers. Título: Dandelion. Agência: Jwt. Direção: Chris Milk. 2006. Dusty Springfield canta What Are You Doing the Rest of your Life?





