Máquinas de sonhos

O sonho é de todos os tempos. Nosso é o “admirável mundo novo” das máquinas oníricas. A Samsung e a Wieder + Kennedy resgatam o sonho do inconsciente para o tornar refém de uma extensão do corpo: a realidade virtual propiciada pelo Smartphone Galazy S7 Edge: “Dreams are awesome. And if you could experience anything in a dream just by putting a phone on your face, why wouldn’t you get that phone?” Outrora, sonhávamos com máquinas, hoje, sonhamo-nos em máquinas. Nos sonhos, voa-se e levita-se. Este anúncio não é excepção. “Quando um homem sonha” é uma quimera; quando muitos homens partilham o mesmo sonho é uma realidade, uma realidade colectiva.
O sonho é tema de inúmeras canções. Retenho duas: All I Have To do Is Dream (1958), dos Everly Brothers; e Dreamer (1974), dos Supertramp.
Marca: Samsung. Título: Dreams. Agência: Wieden + Kennedy (Portlland). Direcção: Adam Berg. USA, Abril 2016.
Everly Brothers. All I Have To Do Is Dream. 1958.
Supertramp. Dreamer. 1974.
Cabecinha pensadora
“Procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade” (Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, 1984)
Os pensamentos têm peso. Existem pensamentos elevados e leves, mas no nosso imaginário gravitam, sobretudo, pensamentos sólidos e profundos. Quando alguém pensa arrisca-se a ficar com a cabeça pesada. E para sustentar a cabeça não basta o pescoço, é necessária a ajuda das mãos, bem apoiadas. Com o olhar fixo, entre o umbigo e o infinito, esta é a imagem predominante do pensador. Desde há milénios! Ilustra-o a seguinte amostra de esculturas e pinturas.
Um conselho: não pense enquanto salta, chocalha as ideias; nem enquanto nada, o pensamento mete água; não pense na cama, as ideias tornam-se soporíferas; nem na montanha russa, as ideias ficam para trás…
Afortunadamente, um consórcio internacional envolvendo 89 centros de investigação, entre os quais um português com sede em Boston, está a trabalhar num dispositivo capaz de maximizar a posição da cabeça enquanto saltamos, nadamos, dormimos e nos divertimos.
Brincadeira à parte, devo este artigo ao Fernando Sousa Ribeiro que me chamou a atenção para os pensadores de Angola, estatuetas que são um ícone nacional.
Galeria de imagens
Voar em Aveiro
C’è un nuovo mondo solare e fantasioso, fatto di buonumore,
colori e soprattutto leggerezza: il Pavesini Village.
Basta un morso e via che si spicca il volo…
Este anúncio foi filmado em Aveiro e na Costa Nova, coloridos ao jeito da Rua Sésamo. O anúncio irradia luz, fantasia, “bom humor, cor e, sobretudo, leveza”. Sem esquecer o movimento e a juventude. A leveza, potencialmente libertadora, é uma tentação do homem contemporâneo. Volare (1959) é a primeira palavra da canção O Marenariello (Serenata Napoletana) de Dean Martin. Vamos ouvir, enquanto se voa no ecrã!
Marca: Pavesi. Título: Pavesini Village. Produção: BRW Filmland. Direcção: Eli Sverdlof. Itália, Maio 2014.
Dean Martin / Nicoli Lucchesi, O Marenariello (Serenata Napoletana), 1959.
Chá dançante
Quando cismo com uma ideia, sou maçador. Será que o chá também pode inspirar anúncios marcados pela leveza e pela turbulência? Repare-se na máquina de chá Lipton, com a participação do Cirque du Soleil! E o chá Kusmi! Nada, porém, que a Água das Pedras ou a Expo 98 não tenham borbulhado…
Carregar nas imagens para aceder aos respectivos vídeos.
Marca: T.O Lipton. Título: Cirque du Soleil / Revolution des saveurs. Agência: Adam&Eve DDB London. Direcção: Saam Farahmand. Reino Unido, Novembro 2015.
Marca: Kusmi Tea. Título: La Beauté des Mélanges. Agência : Quai des Orfèvres. Direcção: Robert Cohen. Janeiro 2014.
Marca: Água das Pedras. Título: Mergulha. Agência: Euro RSCG. Direcção: Augusto Fraga. Portugal, 2012.
Surf motorizado
Misturar alhos com bugalhos em caldeirão grotesco e revolver com uma colher formista, eis a minha tentação, inspirada, por sinal, em Heinrich Wolfflin, Erwin Panofsky, Georg Simmel e Mikhail Bakhtin.

Max Ernst. Pleiades. 1920.
O binómio leveza/turbulência não se confina à arte (junto, mesmo assim, algumas obras de Max Ernst). Hoje, proponho um atalho pelo desporto. As modalidades desportivas de equilíbrio e deslize constam entre aquelas que mais cresceram nas últimas décadas: surf, asa delta, parapente, bodyboard, esqui, skate, patinagem. Destacam-se como as mais características do nosso tempo. Atente-se, por exemplo, no surf e na asa delta. São actividades de movimento, equilíbrio, destreza, leveza e deslize; o surf, na turbulência das ondas, a asa delta, na turbulência do ar. Pertencem, segundo Roger Caillois, à categoria Ilinx (busca da vertigem).
Nada como os anúncios a automóveis para ilustrar estes atributos. Fui ao arquivo desencantar duas relíquias: um anúncio do Opel Astra, que creio ser de 2006, e um anúncio da Citroen, de 2007. Carregar em HD.
Marca: Citroen C3. Título: Dolphins. Agência: Euro RSCG London. Direcção criativa: Justin Hooper. Reino Unido, 2007.
Leveza e turbulência: obras de Max Ernst.
Francisco de Goya. Leveza e Turbulência
“A estupidez é um peso no espírito que carregamos connosco nas acções e nos discursos” (Blaise Pascal).
Leveza e turbulência, eis uma associação que sempre acompanhou a humanidade. Neste capítulo, a reivindicação de originalidade aproxima-se da sublimação da ignorância. Somos biliões de seres humanos e temos centenas de milhares de anos. Tanta gente criativa! Aspirar a uma ideia original é como procurar uma agulha num palheiro e enfiar-lhe, em seguida, um camelo pelo fundo. Como diria Pascal, demasiada inteligência estupidifica.

Goya. Bruxas no ar. 1797-8.
A leveza e a turbulência estão patentes nos frescos de Pompeia e da Domus Aurea, nas esculturas e nas iluminuras medievais, nos tormentos dos juízos finais, nas artes da bruxaria, nas pinturas de Hieronymus Bosch, Pieter Bruegel, Jacques Callot, Francisco Goya, Marc Chagall ou Max Ernst.

Goya. Folly of the Bulls, circa 1815.
A originalidade plagiada exalta pequenos e grandes “mestres pensadores”. Convém, no entanto, não invocar o nome da originalidade em vão! Nem sequer a tirada de Isaac Newton convence: “se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes”. Gigantes, só nos contos de fadas, nos filmes e nos videojogos. Só não somos anões porque nos fizeram aos saltos. Importa pagar tributo aos credores. Começo por Francisco de Goya.

Goya. Atropos o Las Parcas. 1820-1823.
É difícil encontrar autor que tão bem conjugue leveza e turbulência. Principalmente nos Caprichos e durante a “fase negra”. Leveza e turbulência no tema e no traço, testemunhos de uma vida e de uma obra conturbadas, senão trágicas. Figuras e pessoas erguem-se nos ares desassossegadas e ameaçadoras: bruxas, monstros, parcas, bestas e seres humanos, ou seja, “os fantasmas de Goya”, título de um filme de Milos Forman, de 2007, menos sobre o pintor e mais sobre a relação entre uma jovem vítima e o seu agressor, um inquisidor, um caso de síndrome de Estocolmo.
Francisco de Goya. Leveza e Turbulência. Uma selecção.
Leveza e Turbulência

“O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser” (Milan Kundera).
A leveza não se reduz à ausência de gravidade. Agradece turbulência. Exterior e, caso disso, interior. Turbulência interior dos santos levitantes, turbulência exterior nos anúncios de Pucho Mentasti. A leveza não emerge de águas pasmadas com rochedos sonolentos. Pendura-se nas asas do vento.
No anúncio “Hojas y viento”, para a Ford, o vento eleva as pessoas. No anúncio “viento”, também para a Ford, tudo se desprende graças ao vento. Predomina, em ambos os anúncios, a sensação de libertação.
Marca: Ford S-Max. Título: Hojas Y viento. Agência: J. Walter Tompson Buenos Aires. Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, 2009
Marca: Ford. Título: Wind. Argentina, 2007.
Roupa feliz

A leveza é tão leve e o peso, tão pesado. Há balanças assim. Neste anúncio, várias celebridades, de Elton John a Naomi Campbell, saltam rumo às nuvens. Respiram leveza, alegria e jovialidade; três graças “abensonhadas” (Mia Couto). O vídeo raia a paródia, em movimento musicado, das fotografias da série jumpology de Philippe Halsman (vale a pena ver: http://tendimag.com/2012/02/09/celebridades-aos-saltos/).
Marca: Burberry. Título: Celebrating 15 years of Billy Elliot. Direcção: Christopher Bailey. Reino Unido, Novembro 2015.
Calças de perder a cabeça
Ave Maria por Ave Maria, este anúncio optou por a de Franz Schubert, originalmente intitulada Ellens dritter Gesang (1825).
As calças Replay Hyperskin são tão flexíveis e tão leves que nem dá para sentir.
Se se cruzar com um par de calças Replay, olhe sem ver, imagine o nu e esqueça as calças, não vá perder, com o espanto, a cabeça, que tão mau aparafusada anda.
Permitam-me acrescentar um intérprete, eventualmente inesperado, da Ave Maria de Schubert: Nina Hagen, considerada por muitos a “Rainha do Punk”: Ave Maria, Nina Hagen (1989).
Marca: Replay Hyperskin. Título: A New Dimension in Denim Experience. Agência: 180 Amsterdam. Direcção: Tell no one. Holanda, Outubro 2015.
A leveza do macho contemporâneo
O macho contemporâneo é “hiperpósmoderno”? Lembra os movimentos de contracultura dos anos sessenta sob a bandeira de uma grande e generosa narrativa: “Make love not war”. Atente-se em alguns detalhes do público do concerto dos Focus (Holanda, 1972). São os primeiros passos do machismo pós-macho? “Actitud Ligera” é o lema da campanha mexicana da Coca-Cola Light. Mais uma aposta na leveza.
Marca: Coca-Cola Light. Título: Actitud Ligera. Agência: Santo. Direcção: Monse Arreola. México, 2013.
Focus. Hocus Pocus. Live. Holanda. 1972.

















