Antitabagismos. Uma nota histórica parcelar

Não é você que acaba com ele… Ele acaba com você.

01. Campanha anti-tabaco nazi: “Não é você que acaba com ele… Ele acaba com você”. 1941.

O blogue Tendências do Imaginário tem dedicado alguma atenção às campanhas antitabagistas. Por que não alargar os horizontes no espaço e no tempo. Existiram campanhas contra o tabagismo no passado? Com que contornos? As primeiras pesquisas proporcionaram duas surpresas.

A primeira surpresa prende-se com a antiguidade das medidas contra o tabagismo. O tabaco foi introduzido na Europa no séc. XVI. Em 1642, o Papa Urbano VIII emite uma bula segundo a qual “qualquer pessoa que use tabaco pela boca ou nariz, tanto em peças inteiras, desfiado, em pó, quanto fumado em um cachimbo, nas igrejas da Diocese de Sevilha, recebe a pena de excomunhão latae sententiae(http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/idade-media/moral/640-a-igreja-catolica-e-o-tabagismo-uma-revisao-historica).

O Par Capital Tabaco. 1941

02. Campanha anti-tabaco nazi: O Par Capital Tabaco. 1941

Em  1650, o Papa Inocêncio X estende a pena às igrejas de São João de Latrão e de São Pedro, em Roma. A razão revela-se prosaica: evitar que a decoração das igrejas fosse manchada com suco de tabaco e fumaça. Há santos e papas consumidores de tabaco. À luz da Igreja Católica, fumar pode ser nocivo e inconveniente e até condicionado, mas não é pecado. “Um jesuíta foi questionado se era lícito fumar um charuto enquanto orava, e sua resposta foi um inequívoco “não”. No entanto, o jesuíta sutil rapidamente acrescentou que, embora não fosse lícito fumar um charuto enquanto orava, era perfeitamente lícito rezar enquanto fumava um charuto” (http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/idade-media/moral/640-a-igreja-catolica-e-o-tabagismo-uma-revisao-historica).

2 milhões de carochas reduzidos a cinzas

03. Campanha anti-tabaco nazi: 2 milhões de carochas reduzidos a cinzas

No centro e no norte da Europa, sob influência do protestantismo, as reacções contra o tabaco são mais duras: várias cidades da Alemanha e da Áustria tomaram medidas drásticas contra o tabaco: “No final de 1600, a proibição do fumo foi instituída na Baviera, em Kursachsen e em certas partes da Áustria. O tabagismo foi proibido em Berlim, em 1723, em Königsberg, em 1742, e em Stettin, em 1744. As penalidades por violar tais proibições podiam ser severas. Em Luneberg, em 1691, a pessoa que fumasse o tabaco dentro dos muros da cidade poderia ser condenada à morte. Em outras regiões, a violação das leis do tabaco podia levar a multas (50 moedas de ouro ou “guldens” em Colônia, por exemplo), espancamentos, expulsão, recrutamento para trabalho forçado ou marcação do corpo com ferro em brasa” (http://estomatologista.blogspot.pt/2012/03/guerra-nazista-contra-o-tabaco-primeira.html).

O terreno já estava preparado quando eclodiu a campanha nazi contra o tabagismo no início dos anos trinta. Esta é a segunda surpresa! Foi a primeira campanha nacional contra o tabagismo promovida pelo Estado, de forma consistente e sustentada.

Germany had the world’s strongest antismoking movement in the 1930s and early 1940s, supported by Nazi medical and military leaders worried that tobacco might prove a hazard to the race“ (Proctor, Robert N., The anti-tobacco campaign of the Nazis: a little known aspect of public health in Germany, 1933–45; http://www.bmj.com/content/313/7070/1450).

Cartaz nazi de 1941

04. Cartaz nazi de 1941

O governo alemão fundou organizações específicas dedicadas à luta contra o tabagismo, tais como o Gabinete contra os Perigos do Álcool e do Tabaco e o Instituto para a Pesquisa dos Perigos do Tabaco.

Os cientistas alemães reconheceram a associação entre o consumo de tabaco e o cancro dos pulmões (ver figura 5). A história corrente diz que a descoberta foi feita por cientistas norte-americanos e britânicos nos anos cinquenta! Os cientistas alemães identificaram o impacto do tabaco nas doenças cardíacas, incluindo o enfarte do miocárdio. Assinalaram o risco de redução da fertilidade e a presença de nicotina na lactação. Foi avançada, nessa altura, a noção de fumo passivo (Passivrauchen).

Cartaz nazi comparando a incidência do cancro do pulmão no homem e na mulher

05. Cartaz nazi comparando a incidência do cancro do pulmão no homem e na mulher

Quais foram as principais medidas antitabaco adoptadas pelo governo nazi?

– Educação sanitária, relações públicas e propaganda;
– Imposição de restrições à publicidade do tabaco: foram proibidos os anúncios que advogassem o carácter inofensivo do tabaco ou que associassem o tabaco à virilidade.
– Proibição de fumar em transportes, escolas e instituições de saúde. Esta proibição estende-se, progressivamente, a vários organismos e espaços públicos;
– Proibição de fumar em público a menores de 18 anos;
– Focalização nas mulheres. Nos anos quarenta, as mulheres grávidas, bem como as mulheres com menos de 25 anos e mais de 55, não tinham direito a cartões de ração para tabaco. As mulheres assumiam um papel chave na reprodução da raça. Frigidez, infertilidade, quebra da fecundidade, poluição na amamentação e a exposição durante a gravidez representavam pontos sensíveis. A fixação na pureza da raça explica o leitmotiv do Presidente da Associação Médica da Alemanha: “as mulheres alemãs não fumam!”

“Mães, deveis evitar absolutamente o álcool e a nicotina durante a gravidez e a lactância de vossos filhos. Estes elementos dificultam, danificam e destroem o curso normal da gravidez. Beber suco de frutas”. 1942.

06. Campanha anti-tabaco nazi: “Mães, deveis evitar absolutamente o álcool e a nicotina durante a gravidez e a lactância de vossos filhos. Estes elementos dificultam, danificam e destroem o curso normal da gravidez. Beber suco de frutas”. 1942.

A campanha contra o tabagismo ganha em ser encarada à luz da ideologia e da política de raça. O tabaco é considerado como uma ameaça à pureza e à continuidade da raça. Um obstáculo à perfeição. Segundo a propaganda nazi, o vício do tabaco remonta aos africanos. Foi introduzido e é comercializado pelos judeus. Tem mão do capital internacional e do estilo de vida liberal decadente. O tabaco é um intruso que urge combater.

As campanhas contra o tabagismo não têm cor política cativa. Existem, naturalmente, diferenças, principalmente de foro civilizacional.

Imagem nazi. Cada cigarro é um tiro no coração.

07. Imagem nazi. Cada cigarro é um tiro no coração.

Para concluir, duas provocações desmioladas.

As campanhas contra o tabagismo convergem no que respeita aos resultados: costumam ser modestos. Meios e argumentos parecem bater em ventre mole. Na Alemanha nazi, o consumo subiu durante a década de 1930. Sem campanha comparável, os resultados foram melhores em França.

Segundo disparate, de cariz anedótico. Durante a Segunda Grande Guerra, dos três líderes da extrema-direita, Hitler, Mussolini e Franco, nenhum era fumador. Do outro lado, Churchill, Roosevelt, Estaline e Charles de Gaulle, todos fumavam.

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Sociólogo.

2 responses to “Antitabagismos. Uma nota histórica parcelar”

  1. beatrizmartins.artes@gmail.com says :

    Lia, as várias análises, e pensava na conclusão em que acabou o artigo.Surte efeitos contrários!Será propositado?Ou proíbe-se o que não nos afecta?

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  1. Corpos sólidos | Tendências do imaginário - Abril 22, 2015

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