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Morrer só uma vez. Humor negro

Campanha anti tabaco.

Pega num cigarro tranquilo. “Fumar provoca ataques cardíacos”. Qual era a frase de ontem? “Fumar causa o cancro do pelo”? Ou algo parecido. Estava a viciar-se em mensagens anti tabaco. Sentou-se na varanda. Alinhou umas letras. Pousou o cinzeiro e os cigarros sobre o papel. E saltou.

O delegado afastou o cinzeiro e o maço de cigarros. No papel, uma frase singela: “é preferível uma única morte a tantas quantas nos prometem”. O bafo do Estado não engana: “o Homem é um ser para a morte”. Escusava, talvez, ser uma vanitas tão briosa. Existem anúncios anti tabaco que se resumem a espantalhos mórbidos.

Anunciante: Cnct – comité national contre la tabagisme. Título: Antitabac, The Costo f Living. Agência: Euro RSCG 360. França, Setembro 2011.

Saco de batatas

A jornalista Paula Telo Alves cita o Tendências do Imaginário no editorial de O Contacto, Jornal do Luxemburgo, intitulado Sinais de Fumo, a propósito do projecto do governo luxemburguês no sentido de tornar obrigatória a instalação de detectores de fumo em todas as casas, incluindo as privadas. Para aceder ao artigo de Paula Telo Alves, carregar na seguinte imagem.

Esqueleto fumador.

No ano 2018, 18,8% das visitas ao Tendências do Imaginário provêm de Portugal; menos de metade do Brasil, 44,4%, e o mesmo que os Estados-Unidos, 18,6%. Relativizando, em Portugal, 26 visitas por 10 000 habitantes, e no Brasil, 3 por 10 000 habitantes. Confesso que já não sei para quem escrevo.

Cabe aos fumadores uma pesada sobrecarga fiscal. Não é segredo. No entanto, entre os fumadores não predominam as classes médias nem as classes altas. As classes populares estão sobre-representadas. O imposto sobre o tabaco é tudo menos solidário. Configura um imposto focado, por que só atinge um segmento da população, e um “imposto cego e injusto porque afecta os contribuintes de igual forma, apesar das disparidades dos rendimentos disponíveis”. É uma solução de recurso que colide com o princípio da progressividade fiscal. Pagam os mais pobres para todos. Duvido que esta equação seja constitucional. Mas deve ser. Os grandes textos como a constituição costumam ser poliglotas. Uma pessoa faz uma pergunta numa língua e a resposta vem noutra.

Em muitos países, a legislação e a propaganda anti-tabaco parecem desafiar as liberdades e garantias constitucionais. Sustenta-se que é para proteger os não-fumadores, vítimas do fumo intrusivo. Este argumento da discriminação de alguns para proteger os outros é antigo. Há noventa anos, protegia-se a raça. Durante a Idade Média e a Idade Moderna, a Inquisição “salvou” muitos heréticos de si mesmos. O homem permanece feito da mesma massa. Os nichos da intolerância e do totalitarismo são fáceis de construir. A privacidade tem-se manifestado, historicamente, a principal presa do totalitarismo. Totalitarismo e privacidade são antagónicos. 

Creio nos interpretes da constituição mais do que o turista inglês acredita na limpeza das ruas do Porto. 

 

“Um inglês descia a avenida dos Aliados. Depara-se com um imprevisto no passeio. Observa e pensa:

  • Isto parece cocó, mas cocó no Porto não pode ser.
  • Com a ponta do guarda-chuva toca na anomalia.
  • Isto é mole como cocó, mas cocó no Porto não pode ser.
  • Com a ponta do guarda-chuva extrai uma amostra que aproxima do nariz:
  • Isto cheira a cocó, mas cocó no Porto não pode ser
  • Aproxima a ponta do guarda-chuva e prova.
  • É mesmo cocó, ainda bem que não pisei.

Aflige-me que tantas organizações governamentais, para-governamentais e não-governamentais se empenhem sistemática e ostensivamente em associar o fumador, acima de dois milhões de pessoas em Portugal, à morte, ao morrer e ao morto. Além de mórbido é macabro. Se esta propensão não é uma afronta à dignidade dos cidadãos, então qual é o significado constitucional de dignidade? Como é possível que um Estado democrático divulgue “ameaças de morte” aos seus cidadãos por “crime de fumo”? Como é possível que as campanhas anti-tabaco se resumam, essencialmente, a ameaças de morte? Será que existem responsáveis que acreditam que o mundo é um videojogo?

O cigarro e a morte
O cigarro, a cinza, o fumo e a morte.

Tantas organizações anti-tabaco e nenhuma pró-fumador! Este desequilíbrio desassossega-me: O que impede os fumadores de se mobilizar através de organizações e associações? A resposta mais sensata encontro-a num apontamento de Karl Marx acerca dos camponeses:

“Os pequenos camponeses constituem uma imensa massa, cujos membros vivem em condições semelhantes mas sem estabelecerem relações multiformes entre si. Seu modo de produção os isola uns dos outros em vez de criar entre eles um intercâmbio mútuo (…). Uma pequena propriedade, um camponês e sua família; ao lado deles, outra pequena propriedade, outro camponês e outra família. Algumas dezenas de elas constituem uma aldeia e algumas dezenas de aldeias constituem um Departamento. A grande massa da nação francesa é, assim, formada pela simples adição de grandezas homólogas, da mesma maneira que batatas em um saco constituem um saco de batatas.” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luis Bonaparte, 1852).

Pulverizados enquanto massa, os fumadores portugueses constituem, tal como os camponeses de Karl Marx, um saco de dois milhões de batatas. 

O fumador suicida ou o cigarro mortal

Fumaça ou a difícil arte de ser humano

league-against-cancer-smoke-eslovaquia-2010

League Against Cancer. Smoke. Eslováquia. 2010.

Não me lembro de campanha com a amplitude da luta anti-tabaco. Uma campanha orquestral, intrusiva e beata. Nunca tanta voz e tanto aparelho se juntaram em torno de uma causa. Por todos os ambientes e canais, desde os media até aos cidadãos. Esta polifonia pende para a cacofonia. Não existe privacidade ou intimidade que a demovam. Abrange tudo e todos, não há abrigo que lhe escape. É totalitária. Um expoente da fé no delírio da razão. Trata-se de propaganda, uma apropriação pela ciência e pela técnica das demais esferas da vida, designadamente moral e pessoal. Com tanta certeza e tantos recursos, a propaganda anti-tabaco patina ao nível dos resultados. Passa a caravana e a paisagem continua. Retocando Shakespeare. “muito barulho para nada”.

Não sou a favor do tabaco. Fumar é uma estupidez: uma iniciativa que só prejudica o autor. Visto assim, sou estúpido. Sou contra o tabaco, mas não sou contra os fumadores. Esmago um cigarro, não agrido um fumador. Aliás, a maioria dos fumadores entrou no inferno ainda o vício não era pecado. Foi o céu que, entretanto, mudou.

Tenho observado muitos anúncios anti-tabaco. Uns tendem a incluir, outros a excluir, o fumador. Estes três anúncios foram promovidos pela britânica NHS (National Health Service). O primeiro promete ajuda, o segundo anuncia a morte e o terceiro castiga até à morte. Recordando Hannah Arendt, é complicado entender o que motiva o ser humano, cordeiro ou carrasco.

Volta e meia regresso a esta birra desconversada. Que os infalíveis me perdoem! Nem com os olhos fechados, consigo ler outro roteiro. O roteiro das misérias históricas e do “admirável mundo novo”.

Anunciante: NHS. Título: Getting off cigarettes. Agência: Mcbd London. Direcção: Michael Geoghegan. Reino Unido, 2007.

“This is a viral created as (…)  final Masters project for the MA 3D Digital Animation program at the University of Hertfordshire. It is also being used by the NHS to promote their campaign on Anti Smoking”. Reino Unido, 2010.

Anunciante: NHS. Título: Fight Back. Agência: Doctor Foster United Kingdom. Direcção: Rankin and Chris Cottam. Reino Unido, 2010.

Sociologia sem palavras 9: Desporto e propaganda

Sou humano, nada do que é humano me é estranho.
(Terêncio, Heautontimorumenos, 163 d. C.)

Berlin 1936 OG, Shooting of "Olympia", documentary film by Leni RIEFENSTAHL - A cameraman on the diving board, filming a female diver.O nono episódio de Sociologia sem palavras não é cómico. Parte do mundo também não o é. Mas pode sempre ser filmada com humor. Não é o caso. Neste episódio, o assunto é sério e o filme também.  Leni Riefenstahl (1902-2003) realizou vários filmes encomendados pelo governo nazi, entre os quais O Triunfo da Vontade (1935), filme-documentário-espectáculo sobre o congresso do partido nazi de 1934 em Nuremberga, e Olympia (1938), sobre os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Ambos os filmes são propaganda nazi, o que não obsta a que Leni Riefenstahl seja, hoje, considerada uma das grandes realizadoras da história do cinema, com uma obra inovadora, pautada por uma criatividade estética excecional. Os excertos apresentados pertencem ao filme Olympia: o primeiro à segunda parte (Festival da Beleza) e o segundo à primeira parte (Festival das Nações). Na série Sociologia sem palavras, este episódio inscreve-se a contracorrente. Não dá vontade de rir. “Nada do que é humano me é estranho”!

Sociologia sem palavras 9: Desporto e Propaganda. Excertos de Leni Riefenstahl, Olympia, 1938.

Antitabagismos. Uma nota histórica parcelar

Não é você que acaba com ele… Ele acaba com você.

01. Campanha anti-tabaco nazi: “Não é você que acaba com ele… Ele acaba com você”. 1941.

O blogue Tendências do Imaginário tem dedicado alguma atenção às campanhas antitabagistas. Por que não alargar os horizontes no espaço e no tempo. Existiram campanhas contra o tabagismo no passado? Com que contornos? As primeiras pesquisas proporcionaram duas surpresas.

A primeira surpresa prende-se com a antiguidade das medidas contra o tabagismo. O tabaco foi introduzido na Europa no séc. XVI. Em 1642, o Papa Urbano VIII emite uma bula segundo a qual “qualquer pessoa que use tabaco pela boca ou nariz, tanto em peças inteiras, desfiado, em pó, quanto fumado em um cachimbo, nas igrejas da Diocese de Sevilha, recebe a pena de excomunhão latae sententiae(http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/idade-media/moral/640-a-igreja-catolica-e-o-tabagismo-uma-revisao-historica).

O Par Capital Tabaco. 1941

02. Campanha anti-tabaco nazi: O Par Capital Tabaco. 1941

Em  1650, o Papa Inocêncio X estende a pena às igrejas de São João de Latrão e de São Pedro, em Roma. A razão revela-se prosaica: evitar que a decoração das igrejas fosse manchada com suco de tabaco e fumaça. Há santos e papas consumidores de tabaco. À luz da Igreja Católica, fumar pode ser nocivo e inconveniente e até condicionado, mas não é pecado. “Um jesuíta foi questionado se era lícito fumar um charuto enquanto orava, e sua resposta foi um inequívoco “não”. No entanto, o jesuíta sutil rapidamente acrescentou que, embora não fosse lícito fumar um charuto enquanto orava, era perfeitamente lícito rezar enquanto fumava um charuto” (http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/idade-media/moral/640-a-igreja-catolica-e-o-tabagismo-uma-revisao-historica).

2 milhões de carochas reduzidos a cinzas

03. Campanha anti-tabaco nazi: 2 milhões de carochas reduzidos a cinzas

No centro e no norte da Europa, sob influência do protestantismo, as reacções contra o tabaco são mais duras: várias cidades da Alemanha e da Áustria tomaram medidas drásticas contra o tabaco: “No final de 1600, a proibição do fumo foi instituída na Baviera, em Kursachsen e em certas partes da Áustria. O tabagismo foi proibido em Berlim, em 1723, em Königsberg, em 1742, e em Stettin, em 1744. As penalidades por violar tais proibições podiam ser severas. Em Luneberg, em 1691, a pessoa que fumasse o tabaco dentro dos muros da cidade poderia ser condenada à morte. Em outras regiões, a violação das leis do tabaco podia levar a multas (50 moedas de ouro ou “guldens” em Colônia, por exemplo), espancamentos, expulsão, recrutamento para trabalho forçado ou marcação do corpo com ferro em brasa” (http://estomatologista.blogspot.pt/2012/03/guerra-nazista-contra-o-tabaco-primeira.html).

O terreno já estava preparado quando eclodiu a campanha nazi contra o tabagismo no início dos anos trinta. Esta é a segunda surpresa! Foi a primeira campanha nacional contra o tabagismo promovida pelo Estado, de forma consistente e sustentada.

Germany had the world’s strongest antismoking movement in the 1930s and early 1940s, supported by Nazi medical and military leaders worried that tobacco might prove a hazard to the race“ (Proctor, Robert N., The anti-tobacco campaign of the Nazis: a little known aspect of public health in Germany, 1933–45; http://www.bmj.com/content/313/7070/1450).

Cartaz nazi de 1941

04. Cartaz nazi de 1941

O governo alemão fundou organizações específicas dedicadas à luta contra o tabagismo, tais como o Gabinete contra os Perigos do Álcool e do Tabaco e o Instituto para a Pesquisa dos Perigos do Tabaco.

Os cientistas alemães reconheceram a associação entre o consumo de tabaco e o cancro dos pulmões (ver figura 5). A história corrente diz que a descoberta foi feita por cientistas norte-americanos e britânicos nos anos cinquenta! Os cientistas alemães identificaram o impacto do tabaco nas doenças cardíacas, incluindo o enfarte do miocárdio. Assinalaram o risco de redução da fertilidade e a presença de nicotina na lactação. Foi avançada, nessa altura, a noção de fumo passivo (Passivrauchen).

Cartaz nazi comparando a incidência do cancro do pulmão no homem e na mulher

05. Cartaz nazi comparando a incidência do cancro do pulmão no homem e na mulher

Quais foram as principais medidas antitabaco adoptadas pelo governo nazi?

– Educação sanitária, relações públicas e propaganda;
– Imposição de restrições à publicidade do tabaco: foram proibidos os anúncios que advogassem o carácter inofensivo do tabaco ou que associassem o tabaco à virilidade.
– Proibição de fumar em transportes, escolas e instituições de saúde. Esta proibição estende-se, progressivamente, a vários organismos e espaços públicos;
– Proibição de fumar em público a menores de 18 anos;
– Focalização nas mulheres. Nos anos quarenta, as mulheres grávidas, bem como as mulheres com menos de 25 anos e mais de 55, não tinham direito a cartões de ração para tabaco. As mulheres assumiam um papel chave na reprodução da raça. Frigidez, infertilidade, quebra da fecundidade, poluição na amamentação e a exposição durante a gravidez representavam pontos sensíveis. A fixação na pureza da raça explica o leitmotiv do Presidente da Associação Médica da Alemanha: “as mulheres alemãs não fumam!”

“Mães, deveis evitar absolutamente o álcool e a nicotina durante a gravidez e a lactância de vossos filhos. Estes elementos dificultam, danificam e destroem o curso normal da gravidez. Beber suco de frutas”. 1942.

06. Campanha anti-tabaco nazi: “Mães, deveis evitar absolutamente o álcool e a nicotina durante a gravidez e a lactância de vossos filhos. Estes elementos dificultam, danificam e destroem o curso normal da gravidez. Beber suco de frutas”. 1942.

A campanha contra o tabagismo ganha em ser encarada à luz da ideologia e da política de raça. O tabaco é considerado como uma ameaça à pureza e à continuidade da raça. Um obstáculo à perfeição. Segundo a propaganda nazi, o vício do tabaco remonta aos africanos. Foi introduzido e é comercializado pelos judeus. Tem mão do capital internacional e do estilo de vida liberal decadente. O tabaco é um intruso que urge combater.

As campanhas contra o tabagismo não têm cor política cativa. Existem, naturalmente, diferenças, principalmente de foro civilizacional.

Imagem nazi. Cada cigarro é um tiro no coração.

07. Imagem nazi. Cada cigarro é um tiro no coração.

Para concluir, duas provocações desmioladas.

As campanhas contra o tabagismo convergem no que respeita aos resultados: costumam ser modestos. Meios e argumentos parecem bater em ventre mole. Na Alemanha nazi, o consumo subiu durante a década de 1930. Sem campanha comparável, os resultados foram melhores em França.

Segundo disparate, de cariz anedótico. Durante a Segunda Grande Guerra, dos três líderes da extrema-direita, Hitler, Mussolini e Franco, nenhum era fumador. Do outro lado, Churchill, Roosevelt, Estaline e Charles de Gaulle, todos fumavam.

Vidas embalsamadas

 

Fantasia Lusitana 2

Há mulheres, homens, países, que são uma maravilha, até os pensarmos…

João Canijo. Fantasia Lusitana. 2010

Com a verdade me enganas

Folha de S. Paulo

“Falar verdade a mentir” é o nome de uma peça de teatro de Almeida Garrett (1846). Neste anúncio, clássico, da Folha de S. Paulo (1987), trata-se, antes, de mentir a falar verdade”: “É possível contar um monte mentiras dizendo só a verdade”. Criteriosamente adiado, o desfecho do anúncio é desconcertante. Em 1988, ganhou o Leão de Ouro em Cannes. É possível contar mentiras cingindo-se à verdade, bem como surpreender o “espectador blasé”. As grandes mentiras não acabaram. Tão pouco as grandes narrativas.

Marca: Folha de S. Paulo. Título: Propaganda – Hitler. Agência: W/Brasil. Brasil, 1987.