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Publicidade antidroga

Rodrigo. O preço da droga. Expresso. 2011.

Rodrigo. O preço da droga. Expresso. 2011.

“Acontece a realidade mais relevante ser aquela que não existe” (Albertino Gonçalves).

Consultei duas bases de anúncios publicitários e comprovei o que já sabia: os anúncios antidroga tenderam a desaparecer, nos últimos anos, do mapa europeu. Mantêm-se noutros países tais como os Estados Unidos, o Canadá, o Brasil ou as Filipinas.

Em matéria de prevenção, são pouco aceitáveis o descuido e a arbitrariedade. O que justifica o vazio? Tudo se passa como se a Europa sofresse, simultaneamente, de uma diarreia anti-tabaco e de uma obstipação antidroga. As políticas e o consumo de droga não são o meu jardim. A minha ignorância na matéria excede o pico do monte Everest. Não resisto, contudo, a arriscar algumas conjecturas:

Será que o consumo de droga está, para falar como os bombeiros, controlado? Acreditar em semelhante cenário padece de um excesso de optimismo.

Chegou-se à conclusão que as campanhas publicitárias antidroga são contraproducentes? Contribuem, eventualmente, para o crescimento, e não para a diminuição, do fenómeno? Algo como deitar pouca água em muito fogo. Existem vários estudos, incluindo de sociólogos, que denunciam esta suposta perversidade da publicidade antidroga.

Enveredou o combate ao consumo da droga por outros caminhos, tais como acções de proximidade nas escolas? Em 2011, em Portugal, na população escolar, “entre 4,4% (13 anos) a 24,9% (18 anos) já consumiram substâncias ilícitas” (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, Sinopse Estatística: Portugal 2014, 2016, p. 5).

Prende-se com descriminalização do consumo de droga? A descriminalização e a reprovação pública (publicitária) são dissonantes, ver contraditórias? O efeito preventivo da descriminalização (em Portugal, em 2001) suplanta o da publicidade? O nosso foco é a Europa. Em 2015, em 29 países europeus, apenas 9 despenalizaram o consumo de droga (Secretariado Nacional de Políticas sobre Drogas, Levantamento sobre legislação de drogas nas Américas e na Europa, Junho 2015).

Será que as campanhas antidroga, eventualmente chocantes, se manifestam avessas à publicidade no ecrã? Mais chocantes do que as campanhas de prevenção rodoviária, contra o álcool ou contra o tabaco? Não me parece que as imagens da droga sejam agora mais chocantes do que há dez anos. Acresce que, hoje, tudo pode ser servido ao público desde que convenientemente embalado.

A droga é tabu? Afigura-se-me que, desde os anos sessenta, os tabus têm vindo a aumentar. Não creio, porém, que os tabus face à droga se mostrem hoje mais e maiores do que no início do século.

Em suma, desconheço o motivo por que a publicidade antidroga se terá tornado, recentemente, mais discreta. Para esta conclusão, escusava ter teclado tanto.

Vêm estas impertinências a propósito do anúncio The Power of You, do realizador tailandês Thanonchai Sornsriwichai. Tendências do Imaginário inclui cinco dos seus vídeos. Considero-os adágios de imaginação sensível. Neste anúncio, um jovem rompe com a droga. Corre sem parar, ultrapassando obstáculos objectivos e subjectivos. Ressurge o tópico da corrida como desprendimento e libertação, bem como o tópico da transformação e da salvação pelo despojamento.

Marca: ONCB – Office of the Narcotics Control Board. Título: The Power of You. Produção: Phenomena Company Limited. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai (Tor). Tailândia, 2015.

A mulher real

Dove. Mulher Real.A publicidade da Dove (Unilever) distingue-se pela recusa da imagem estereotipada da mulher cuidadora ou sexy. Esta rejeição depressa se transformou numa causa e numa campanha rumo a uma nova definição da mulher. O anúncio Image_Hack Case Study compila e contrasta imagens de “mulheres belas” e imagens de “mulheres reais”. Muitas “mulheres reais” apresentam-se numa pose “assumida” e “robusta”, por vezes, “guerreira”. Há poucas décadas, dir-se-ia, com sobranceria machista, uma pose masculina. Imagens semelhantes foram propagadas em vários regimes do século XX. Até nos selos as estampavam! Sexy women? Observe uma “mulher bela” e uma “mulher real”; é difícil separar as águas: os caminhos da sexualidade são insondáveis.

A Dove pretende trabalhar em rede, sobretudo com empresas e agências de publicidade: todos são poucos para espalhar a palavra. A Dove não abraçou apenas uma missão, encontrou um filão. Afigura-se-me que está a montar um dispositivo, do qual, tão cedo não sairá. Um dispositivo disciplinar. Um dispositivo que disciplina o olhar através de uma di-visão da realidade centrada na figura da “mulher real”. As campanhas da Dove lembram, até certo ponto, as campanhas da Benetton, embora menos abrangentes, porque confinadas às relações de género, mais precisamente, à representação da mulher.

Dove. Mulher Real 2

Para um comentário alargado do anúncio Image_Hack Case Study, ver http://www.adweek.com/creativity/how-dove-is-hacking-photography-to-change-the-way-advertising-depicts-women/.

Marca: Dove. Título: Image_Hack Case Study. Agência: Mindshare, Denmark. Director criativo: Kenneth Kaadtmann. Dinamarca, Abril 2017.

Com a morte no bolso

Insisto na ferida que nos últimos anos mais magoou a minha cidadania. O problema é que a falta de respeito pela dignidade das pessoas é algo que se pega.

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“Não há dúvida que na Idade Média se falava mais francamente e mais frequentemente do que hoje da morte e da agonia. A literatura popular da época comprova-o. Os mortos, ou a morte em pessoa, aparecem em numerosos poemas (…) A Vida queixa-se que a Morte espezinha os seus filhos. A Morte gaba-se das suas vitórias. Em comparação com a época contemporânea, a morte dos jovens e dos velhos era nesse tempo menos dissimulada, mais omnipresente e mais familiar (Elias, Norbert, La Solitude des Mourants, Paris, Christian Bourgois Ed, 1988, p. 26). Norbert Elias engana-se, pelo menos, em parte. Mais de 20% da população actual vive sob permanente ameaça ou assédio de morte. Deve ser um retrocesso do “processo civilizacional” (Norbert Elias).

Todos os dias, José Fumega, o “sobretaxado”, compra o vício no lugar do costume: 4 euros e 20 cêntimos; cerca de três euros destinam-se ao Estado. Um dos impostos mais elevados do mundo. Só de imposto sobre o tabaco, José Fumega paga mais do que muitos concidadãos pelo IRS. José Fumega, como a maioria dos fumadores, pertence às classes mais carenciadas. Em termos técnicos, chama-se a isto o princípio constitucional da progressividade da tributação. José Fumega paga e não protesta. Para além dos cigarros, compra o discurso de Estado.

imagens-tabaco

Quando era pequeno e se portava bem, o senhor abade dava-lhe santinhos. Agora, o Estado dá-lhe imagens sinistras do futuro, uma catequese de bolso. É sempre bom saber, e ver, como vamos morrer! Aqueles corpos nos maços de cigarros são mais explícitos do que as fotografias postmortem da era vitoriana. José Fumega pensou em coleccionar embalagens. Ficaria com um catálogo da miséria e da morte anunciadas. Mas desistiu: ao contrário da revista La Redoute, não dá para escolher.

José Fumega retira o maço do bolso, pisca o olho à fotografia e acende um cigarro. “Fumar provoca ataques cardíacos”. Tenta recordar-se: como era a mensagem de ontem? “O tabaco pode provocar uma morte lenta e dolorosa”? Deve ser isso. E a imagem, outro cadáver… Duas passas. Fixa o olhar na ponta incandescente: cinzas, só cinzas. Até o fumo, “com mais de 70 substâncias causadoras de cancro”, tem um sabor macabro.

cigarete

Mais duas passas. No meio da fumarada, José Fumega sonha, sonha com um funeral: o corpo jazente, dizimado por um rosário de doenças e mortes, avança numa carruagem puxada por burros ajaezados a ouro. E sente-se justiçado. Pagou para isso. José Fumega sacode a nuvem de fumo. Por mais impostos e mortes que acumule, nunca terá direito a honrarias de Estado. Nome de rua é apanágio de quem governa vidas e impostos alheios.

José Fumega apaga o cigarro. Ele, que não gosta de beatas, sente-se uma beata num cinzeiro de vidro. Somam milhões os abençoados a passear uma dança macabra até ao fim do vício. São os segredos da conversão. José Fumega guarda os cigarros e diz para com os seus botões: é um privilégio andar com um arroto do Estado no bolso. Erasmo falava em “ventosidade” (Erasmo de Rotterdam, De la urbanidad de las maneras de los niños (De civilitate morum puerilium, Ministerio de Educación y Ciencia, 2006, p. 33). Enquanto caminha, José Fumega não consegue afastar uma dúvida: a ventosidade do Estado pode configurar uma atentado à dignidade humana? E a Constituição da República Portuguesa para que serve? Não estipula o artigo 1º que “Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”. E, segundo o artigo 26º, “A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra quaisquer formas de discriminação”. Quem são “todos”? E José Fumega afasta-se por entre os transeuntes soletrando uma máxima que o avô lhe ensinou: se não defender a tua liberdade, arrisco a minha.

Outrora, para salvar a alma, prometiam o inferno. Agora, para salvar o corpo, prometem a morte.

A morte entre as mãos de uma criança

brady-campaignA publicidade tem picos temáticos, tais como os jogos olímpicos ou o campeonato do mundo de futebol. Acrescente-se o Halloween. Semanas antes, em Outubro, disparam os anúncios alusivos a mortos ou, eventualmente, à morte. O estilo vai do humor, amiúde negro, à sátira, passando pela paródia e pela ironia.

O anúncio Toddlers Kill, da Brady Campaign to Prevent Gun Violence, não é um rebento do Halloween, mas é sinistro, satírico e irónico, substituindo, num registo jornalístico, o slogan clássico “Guns don’t kill people, people do” por um novo slogan, absurdo: “Guns dont’kill people. Toddlers kill people”.

Anunciante: The Brady Campaign to Prevent Gun Violence. Título: Toddlers Kill. Agência: McCann Erickson (New York). Estados Unidos, Outubro 2016.

Rosa

issue-cancroGosto de anúncios apostados na vida. Dispenso arautos da morte alheia. Neste Outubro, Mês Internacional de Luta conta o Cancro da Mama, a empresa Issue e a ONG FUCA juntam-se num gesto de solidariedade.

La marca de coloración para el pelo Issue presenta una campaña realizada en colaboración con la ONG de lucha contra el cáncer FUCA. Tiñamos Octubre de Rosa invita a la gente a teñirse un mechón de su pelo de color rosa y compartir una selfie en redes sociales con el hashtag #ISSUEyFUCAdeRosa. Por cada foto publicada Issue hará una donación a la entidad. Para promocionar esta iniciativa se realizó un spot protagonizado por mujeres que sobrevivieron al cáncer, donde la premisa es que el pelo más hermoso es aquel que sobrevive a esa enfermedad. El spot fue dirigido por Maureen Hufnagel para Hachiko Films (http://www.adlatina.com/publicidad/%E2%80%9Cti%C3%B1amos-octubre-de-rosa%E2%80%9D-preestreno-de-issue-y-fuca).

Anunciante: Issue Group. Título: Tíñamos octubre de rosa. Produção: Hachiko Films.  Direcção: Maureen Hufnage. Argentina

 

 

Fumar é feio

Ricardo Marenco. 2009.

Ricardo Marenco. 2009.

As três parcas da higiene pública são o nojo, a culpa e a morte. Moram no jardim da publicidade degradante. Estes três anúncios, dois da Fundação Portuguesa de Cardiologia e o terceiro da Asociación Española Contra el Cancer, convocam o nojo, à boa  maneira dos anúncios anti tabaco do início dos anos 2000. Estes vídeos são difíceis de encontrar. Desconhece-se o motivo.

Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Modelos. Campanha”Fumar é feio, tu não comeces”, Central Models / Brandia Novodesign. Portugal, Setembro 2005.
Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Gémeos no campo. Campanha”Fumar é feio, tu não comeces”, Central Models / Brandia Novodesign. Portugal, Setembro 2005.
Anunciante: AECC. Título: Sneeze. Agência: Torrelazur McCann, Barcelona. Espanha, Julho. 2002.

Positividade

FAD Create

Fiquei agradavelmente surpreendido pela campanha “construye tu mundo” da ONG espanhola FAD (Fundación de Ayuda contra la Drogadicción). Acrescento, por isso, um segundo anúncio. Repito o que escrevi acerca do primeiro: é possível fazer anúncios de consciencialização de elevada qualidade apostando na criatividade positiva.

“Try! Create a why not, a just because. Create a place to be, create a nonsense. Create what you like, but create something, because the more things you create in your life, the less room is left for drugs” FAD, Create).

Anunciante: FAD. Título: Create. Agência: Publicis, Spain. Direcção: Marc Coronas & Lorena Medina. Espanha, Março 2015.

Hormonas da felicidade

A Fitness está a desafiar as mulheres portuguesas a juntarem-se à Missão Corpo Positivo, convidando a acreditar que o importante é ser positivo e não perseguir a perfeição. Para isso, a marca dá dicas numa nova campanha presente em televisão, digital e pontos de vendas.
Nesta campanha, a Fitness quer ajudar as mulheres a Pensar Positivo, Agir Positivo e Comer Positivo, através de dicas de linguagem corporal, sugestões de exercícios e receitas disponíveis no site da marca.
Com esta iniciativa, a marca pretende ajudar as mulheres a tornarem-se mais confiantes com o seu corpo para que possam assim ser mais confiantes com elas próprias (Briefing. Fitness dá dicas para corpos positivos).

Não aspire ao corpo perfeito, mas ao corpo positivo. Um corpo com espírito positivo e expressão própria: a linguagem corporal. Mulheres jovens e adultas, magras e avantajadas, bonitas e especiais, aderem à missão corpo positivo da Fitness. A mulher objecto de desejo passa a sujeito de um corpo comunicante cheio de hormonas da felicidade. Dicas e ideias, vídeos e textos, estão disponíveis na página https://nestle-fitness.com/pt/. Homens, nem vê-los! Se calhar, não têm emenda.

Fitness. Missão Corpo Positivo. Portugal, 2016.

Fitness. Missão Corpo Positivo. Como melhorar a tua linguagem corporal. Portugal, 2015.

Fitness. Missão Corpo Positivo. Como impressionar num enconto. Portugal, 2015.

Fitness. Missão Corpo Positivo. Influencia os teus filhos mostrando-lhes como se faz. Portugal, 2015.

Desrazão

klaus Nomi. Uma das primeiras vítimas da sida

klaus Nomi. Uma das primeiras vítimas da sida

Le sida parle! Como Deus aos argentinos (Bendita bola). A sida, a epidemia mais mediática de sempre, é universal e imprevisível. Toca a todos, sem avisar. Como o beijo da morte. Depois de tanto alarido, o silêncio. Mas a magia tem limites. Não é porque a ignoramos que a sida desaparece. Je suis là! Nous sommes là, se calhar, menos prevenidos do que há alguns anos atrás. Um anúncio oportuno, que inspira a seguinte pergunta: quais são os critérios e os enredos da publicidade de sensibilização? O que justifica o apagão em torno dos riscos da sida? O que justifica, em contrapartida, que num único maço de cigarros se repitam dois anúncios de morte: de um lado, “Fumar mata” e, do outro, “Os fumadores morrem prematuramente”? Uns andam sobreavisados, os outros andam como andam. “ Morra Marta, morra farta”! Desrazoável. Estas linhas trazem-me à memória o cantor Klaus Nomi (1944-1983), uma das primeiras vítimas da sida. Seguem duas interpretações ao vivo. A primeira, Total Eclipse, foi retomada por vários grupos e cantores; a segunda, The Cold Song, a partir de King Arthur, de Purcell, é uma obra-prima, comovedora, tanto mais que nesta interpretação, em Dezembro de 1982, em Munique, Klaus Nomi já se sabia infectado pelo vírus da sida. Faleceu poucos meses depois, em Agosto de 1983. Sinto a falta de pessoas como o Klaus Nomi. Aparadores de relva há muitos.

Anunciante: AIDES. Título: Je suis là. Agência: WNP. França, Junho 2015.

Klaus Nomi. Total Eclipse. 1981.

Klaus Nomi. The Cold Song. Munique. 1982.

Campanha pedagógica

Os seguidores do Tendências do Imaginário são exigentes. Sustentam que a antevisão da “campanha de prevenção contra o ensino”, inspirada nas campanhas contra o consumo de tabaco, não está correta (https://tendimag.com/2015/05/31/futura-campanha-sanitaria/). Devia ser a cores, como no Canadá, desde 2001, ou em Portugal, a partir de 2016. Para me penitenciar, segue um protótipo bem colorido. com a Duquesa Feia, de Quentin Massys (1525-30). Acrescento um painel, em alta resolução, com imagens de embalagens brasileiras de tabaco.

Campanha pedagógica

verso-do-cigarro