Infinitamente nada
O argentino Guillerme Mordillo, “catedrático honorário do humor” pela universidade espanhola de Alcalá de Henares, é um cartoonista que se distingue pelos desenhos coloridos sem sombra de palavra. O seu humor terno está bem patente nestas duas imagens.
O elefante e a girafa dão à luz um híbrido desconsolado. Bauman diria que é fruto da liquidez das fronteiras. Ser funâmbulo no arco-íris não é para todos. É só para quem perde a razão, para “quem vê com o coração”. Os amantes são os principezinhos da pós-modernidade. Como diria Pascal, somos infinitamente pequenos pelas nossas capacidades, mas infinitamente grandes pelos nossos desejos. Não somos geómetras com a flecha apontada ao sonho. Não “inventámos a felicidade” (Max Weber), namorámo-la.
Imaginação e irreverência
Nas margens dos livros medievais existem imagens de uma criatividade e de um atrevimento extremos. No fólio 18v do manuscrito Voeux du Paon (figuras 1 e 2), concluído cerca de 1350, “na margem esquerda, um animal híbrido, com cabeça humana coroada e corpo de serpente, toca gaita-de-foles com o ânus. Um animal híbrido, com cabeça humana, equilibra uma espada com a face” (Pierpont Morgan Library). O tema da gaita-de-foles é várias vezes retomado ao longo do livro.
Na margem esquerda do fólio 28v, “um homem nu segura a cabeça e a perna amputadas. No fundo da página (bas-de-page), uma serpente engole um homem, do qual se vê apenas a cabeça. Na margem direita, um homem, com o rosto visível, espreita do interior de uma construção, provavelmente uma prisão ou um forno” (Pierpont Morgan Library).
Ambas as páginas nos apresentam híbridos disformes, desmontados e remontados em função da imaginação, mas também do imaginário. Muitas destas imagens eram escrupulosamente codificadas.
Retocar o imaginário
A My Brother Bob, uma agência de pós-produção, decidiu publicitar-se. Para evidenciar o virtuosismo, “retoca” um ser humano transformando-o num híbrido. What my Brother Bob did to me? An Hybrid. Nem mais, nem menos, uma zebra ou um polvo com a parte superior humana como é de bom uso e melhor efeito (na gama: espanto, humor e terror). A agência assume-se como realizadora do imaginário: “If it can be imagine, it can be done”. A fábula, a quimera e o sonho adquirem espessura, tornam-se palpáveis, (pet)iscos da imaginação cobiçados pelos sentidos (a devorar com os olhos e beber com os ouvidos). Em suma, um imaginário embalado, com mercadoria dentro… Dito isto, os dois anúncios, com final alternativo, são excelentes, a todos os níveis, incluindo a referência à psicanálise.
Anunciante: My Brother Bob. Título: What My Brother Bob did to me / Alternative. Agência: My Brother Bob. Direção: Alexis Burke. Reino Unido, Fevereiro 2013.
Homens e Bestas 4. Charles Le Brun
Giambattista della Porta, Ticiano, Rubens, do quarteto anunciado, só falta Charles Le Brun (1619-1690). Foi primeiro pintor do rei Luís XIV e ocupou-se da decoração da Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes. Nos seus desenhos, os seres humanos resultam abestalhados (ver galeria, figuras 1 a 23). No que agora nos diz respeito, herdeiros da modernidade, da racionalidade e da ciência positiva, confusões entre homens e animais só se for à luz de Charles Darwin. Não é verdade? Não, não é! No terceiro milénio, continuamos às voltas com os lobisomens (Figuras 24 e 25), com os vampiros (figuras 25 e 26), com os homens aranha (Figura 27), as mulheres gato e outras bestialidades do género (Figura 28). Se considerarmos as máquinas como as bestas do nosso tempo, ainda temos os ciborgues e os biomecanóides. Não esquecendo os mangás nem os animes, onde, à semelhança dos apóstolos evangelistas (águia, São João; touro, São Lucas; leão, São Marcos; e anjo, São Mateus), os heróis estão associados a animais (Naruto, raposa; Son Goku, macaco; figuras 29 e 30).
A modernidade líquida explicada às crianças
Poucos anúncios se aproximam tanto da obra de Hieronymus Bosch, da confusão de corpos, monstros, híbridos e instrumentos musicais, patente em O Inferno, de O Jardim das Delícias. Uma antiguidade sulfurosa. Nada, porém, que se compare a um belo par de asas feito com harpas!
Criaturas pantagruélicas 1
François Rabelais (1494-1553) é um dos grandes nomes da literatura universal. Pantagruel e Gargantua, seguidos pelo Tiers Livre e pelo Quart Livre, são obras-primas originais, escritas num estilo livre, criativo e ousado. Mikhail Bakhtin fala, a seu propósito, em realismo grotesco, eivado por um humor desenfreado, fantástico e exorbitante, francamente inspirado na cultura cómica popular da época. Apesar de sucessivas proibições, os romances de Rabelais foram um caso sério de popularidade.
Em 1979, devorei A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o Contexto de François Rabelais, de Mikhail Bakhtin, e decifrei toda a obra de François Rabelais na versão original. Há coincidências prodigiosas. François Rabelais é, para mim, um dos melhores escritores de todos os tempos e Bakhtin, um dos maiores pensadores do século XX. A influência de Rabelais venceu os séculos. Concebeu situações e seres fantásticos. Artistas, como Salvador Dali, não resistiram à tentação de os desenhar.
O álbum Les Songes drolatiques de Pantagruel, ou sont contenues plusieurs figures de l’invention de maistre François Rabelais, da autoria de François Desprez, é uma das primeiras obras gráficas dedicadas às personagens rocambolescas do livro Pantagruel. Foi editado em 1565, doze anos após a morte de Rabelais. Les songes drolatiques é composto apenas por 120 gravuras legendadas. Segue uma galeria com algumas dessas “criaturas”. Fala-se muito, na atualidade, em ciborgues, homens-máquina e biomecanóides. Mas já em 1565, há mais de quatro séculos, a questão da ligação entre o corpo e a técnica era sistemática e explicitamente abordada. O nosso tempo, dito pós-moderno, compraz-se em barrigadas sociocêntricas. Somos diferentes, claro! Mas muito menos do que se nos afigura.
Recorri a estas imagens numa comunicação intitulada “O tecnohumano na era dos descobrimentos: a pretexto do livro Tecnologia e Configurações do Humano na Era Digital”, no âmbito do encontro Ecosofia na Era Digital, 1º Simpósio Internacional, Universidade do Minho, 28 de Junho de 2011.
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O exílio das palavras
Acedi, hoje, a estes três anúncios, todos estreados ou a estrear este mês. Todos diferentes. O primeiro dedicado a um videojogo, o segundo a um curso de publicidade e o último a uma marca de automóveis. Partilham, no entanto, uma característica: quase prescindem da palavra, centrando-se na música e na imagem.
E fazem-no com requinte. Por exemplo, no primeiro anúncio, “Dust to Dust uses rich visuals and a haunting soundtrack by Mazzy Star to bring humanity to the third-person shooter game (…). Dust to Dust is set to the song “Into Dust” by Mazzy Star, which struck the right tone in both pace and concept. Beyond the match of the lyrics, the song is dark and reflective – the appropriate accompaniment for the end of the film, and, the end of the Gears of War trilogy”. Mais palavras, para quê?
Devo precisar que me passaram hoje pela vista mais anúncios com estas características. Por exemplo, um anúncio ao Volkswagem Jetta, intitulado “Memories”. Entendi não sobrecarregar este artigo. Acrescento que o facto de receber, num único dia, meia dúzia de anúncios com este formato não indica nada. Mas sugerir, lá isso sugere.

















































































