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Jogar às cartas com o Diabo 5. Deus anda a fumar haxixe

Hieronymus Hess. Dança Macabra, c. 1845. Cópia da Dança da Morte, datada da primeira metade do séc. XV (c. 1435-1441), numa igreja de Basileia

A capacidade de resistência é espantosa, mas não evita traumas, nem desarma golpes.

Espécie de diário, o Tendências do Imaginário raramente passa uma semana sem novos artigos. Entre o 15 de Julho e o 17 de Agosto de 2021, passei quatro semanas de internamento hospitalar, com um intervalo em casa entre o 3 e o 9 de agosto.  Representa bastante tempo!

O artigo Sofrimento (09.08.2021) lembra a única recordação dos cuidados intensivos: “visões do outro mundo”, pasmadas e recorrentes, “colunas translúcidas esvoaçam cravadas no solo. Lembram Stonehenge. Sanguíneas, escuras, esguias, vazias e vorazes, deslizam como sombras chinesas num ritual de sacrifício”.

Dois episódios ocorridos durante os catorze dias de cuidados continuados ficaram-me especialmente gravados na memória.

Com oito internamentos, possuo um currículo hospitalar apreciável. Algumas situações beliscaram a dignidade. Um tratamento noturno, descrito no artigo Anjo da Guarda (17.08.2021), afetou-me em particular. A motivação foi, certamente, para me proteger, sobretudo de mim mesmo, mas talvez concretizada com excesso de zelo. As circunstâncias proporcionavam-se. Em plena pandemia de COVID 19, o pessoal estava esgotado. Para complicar, fui o primeiro caso com semelhante diagnóstico no Hospital: desconhecimento gera insegurança; e insegurança, agressividade. De qualquer modo, foi traumático. O anjo que estava de guarda naquela noite bem podia inspirar um quadro da Paula Rego, com moldura de enxofre. Senti-me embarcado numa Arca de Noé.

Simon de Myle. A Arca de Noé no Monte Ararat, c, 1570

Apesar de efémeras, as relações entre doentes, visitantes, médicos, enfermeiros e auxiliares, nas enfermarias e nos quartos dos hospitais, mereciam um estudo.

Partilhei espaços e momentos com vários tipos de companheiros. Alguns diálogos resultam dignos de registo. Por exemplo, quando disse ao parceiro de quarto que “Deus andava a fumar haxixe”. Duvidava, realmente, da sageza e da clarividência divinas (artigo Raiva, 18.08.2021).

Os três próximos artigos culminam a série Jogar às cartas com o Diabo, uma revisitação ao Tendências do Imaginário entre o 3 e o 18 de agosto de 2021. Uma oportunidade para dançar com esqueletos, mas também para “arrumar sombras”. Um jeito de se limpar mergulhando no lodo.

Anónimo. As idades do homem ou a escala da vida, uma representação das diferentes etapas da vida de um casal burguês, do nascimento à morte, Final do séc. XIX

O verão de 2021 foi uma fase de inversão. Antes, sempre a piorar, depois, sempre a melhorar. Da cama para a cadeira de rodas, o andarilho, o tripé e a bengala, que quase dispenso. Endireitei e “cresci”! Como se, após ter descido intempestivamente a escada do lado direito da gravura das idades da vida, a voltasse a subir com paulatinamente. Sobram, contudo, danos irreparáveis em determinados órgãos e funções, por exemplo, ao nível dos rins. Mudaram, inclusivamente, a atitude e a personalidade, mas essa é outra história, difícil de abordar resumidamente.

Sofrimento (09.08.2021)

Colunas translúcidas esvoaçam cravadas no solo. Lembram Stonehenge. Sanguíneas, escuras, esguias, vazias e vorazes, deslizam como sombras chinesas num ritual de sacrifício. No vórtice, um corpo aberto.

Francis Bacon. Head VI. 1949.

Assombra-me a capacidade de sofrimento do ser humano. Perturba. parece não ter limites. Tão pouco o sadismo.

Alexander Borodin (1833-1187). String Quartet № 2—III. Notturno.

Anjo da guarda (17.08.2021)

Paula Rego. Anjo da Guarda. 1998.

O Tendências do Imaginário está doente. Está em estado de inércia, com as visualizações pasmadas: nem sobem nem descem.

Escuro. De olhos no céu. Atado de pés e mãos. Dor. Exposto. Um vulto aproxima-se: – O senhor é um manipulador! Um grande manipulador! Há muitos que estão no seu estado e que não são manipuladores, mas o senhor é um grande manipulador. Não devia ter rasgado a fralda. Não, não devia ter rasgado a fralda! – Foi a minha mulher ao puxá-la. – O senhor é um mentiroso, um grande mentiroso… Afasta-se. Consegui libertar três membros. Entretanto, não sei após quanto tempo, regressa. Aperta-me os pulsos, retira o telemóvel, muda a cama encharcada e as fraldas desconsoladas. Não há anjos em terra, não há anjos no céu, protegem-nos no purgatório (Diálogo inspirado nos Cadernos do Subterrâneo, de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, de 1864).

Eu não o vejo, eu não o oiço
Mas sinto sempre a sua companhia
Eu tenho um guarda que é um anjo
Que me protege de noite e de dia
(António Variações. Anjinho da Guarda. Anjo da Guarda. 1983.

Valentin de Boulogne. O Martírio de São Bartolomeu. ca. 1613–15.

Nos meses de Julho e Agosto, estive 21 dias internado no Hospital. Uma semana em cuidados intensivos. Regressado a casa, começo a reganhar, milagrosamente, as faculdades perdidas. Mas ao quinto dia, uma dor insinua-se nas costas e espalha-se, no dia seguinte, pelo abdómen. Vómitos. Mais uma corrida, no INEM, para as urgências do Hospital. Nova cirurgia: extração da vesícula biliar. Estou, desde ontem, em convalescença doméstica. Confuso. Que convalescença? Do Lítio? Da vesícula? Sinto-me um esfrangalho, aninhado como uma múmia, a tentar preservar o melhor que tenho: o sentido de humor e o sentido de beleza. Com quatro furos na barriga e os braços apontados ao Indiana Jones.

A escultura convida o gesto e a pintura assoberba o olhar, mas a música envolve-nos. A primeira música é para o período antes de tomar o ben-u-ron. A segunda, para depois.

Antes do ben-u-ron:

Vangelis. 12 O’clock. Heaven and Hell. 1975

Após o ben-uron_

Joshua Bell. Sergei Rachmaninov. Vocalise, Op 34 No 14

Raiva (18.08.2021)

“Todos os meus tormentos cingem-se a uma passagem – Do medo à esperança, da esperança à raiva” (Jean Racine, Bérénice, 1670).

Tive a sorte de ter excelentes companheiros nos quartos do Hospital. O último lamentava-se e chorava com frequência. Ao aparar a relva, uma pedra vazou-lhe um olho: – Meu Deus, MeuDeus, o que me foi acontecer. Que vai ser dos meus dois filhinhos? Valha-me Deus! Interrompi-o, com aquele jeito blasfemo: – Deus anda a fumar haxixe! (charutos, diria Serge Gainsbourg). Saiu assim: nu, bruto e abrupto. E as lágrimas cederam ao riso.

Cintila uma raiva daninha no meu olhar embaciado. Brota das entranhas. Manifesta-se de duvidosa utilidade.

Armaggedon. Buzzard. Armaggedon. 1975
Serge Gainsbourg. Dieu est un fumeur de havane. Com Catherine Deneuve. 1980

Fetal / Fatal

Uma coisa é uma estação ferroviária na qual passado e futuro são comboios que deslizam um contra o outro, provocando o movimento relativo que gosto de chamar agora. Esse agora é muito diferente do agora pontual de um relógio. Os relógios e a metafísica alimentam a ilusão de que o agora é uma espécie de ponto ou átomo, pré-embalado, predefinido. Mas, num certo sentido, não há presente, nem presença, exceto esse agora cintilante causado pelo deslizamento do futuro sobre o passado, sem se tocar (Timothy Morton, “From Things Flows What We Call Time,” in Olafur Eliasson et al., eds., Spatial Experiments: Models for Space Defined by Movement, Thames and Hudson, 2015, 349-351. M.T.)

Onde o ninho, o abrigo, o jazigo? O início, o presente, o fim? A forja, o anel, a (j)unção?

Palavras, palavras, só palavras.

Mais gemido do que sentido.

Desencontro. Uma dança a solo.

Francis Bacon, Portrait of Isabel Rawsthorne Standing in a Street in Soho, 1967. Photo by Prudence Cuming Associates Ltd

Ólafur Arnalds – This Place Was A Shelter. Living Room Songs. 2011
Billie Eilish, Khalid – lovely. 13 Reasons Why (Season 2). 2018
Dança: Kayla Johnson – Not My Responsibility – Senior Solo. Música: Billie Eilish, álbum Happier Than Ever. 2021

Sentimentalismo romântico

Francis Bacon. After Three Studies of Lucian Freud. 1969

Estou a ficar saturado de me fazer companhia. Sempre os mesmos estímulos. Minimalistas. Sobra a sensação de um mundo que se esgota. Quando não se pode abrir a porta, espreita-se pela janela, da alma. Sinto saudades de tudo! De Paris, por exemplo. Até o sentimentalismo romântico dos franceses, que ridiculizava, agora me enternece. Fiz bem em regressar? Ganhei quarenta anos, quase dois terços de uma vida; mas nunca saberei o que perdi. Nem quero imaginar. Certo é que até os ecos mais vulgares me satisfazem neste vazio de uma quase morte social. Georges Moustaki, o poeta, nunca se sentia só com a sua solidão (ver A companhia da solidão). Creio que estou a perder a poesia. Ela era tão bonita / Ela tinha olhos revolver / A vida.

Alain Barrière. Elle était si jolie. 1963. Festival da Eurovisão.
Marc Lavoine. Elle a les yeux revolver. Marc Lavoine. 1985. Ao vivo: Olympia, 2003.
Alain Barrière. Ma vie. Ma vie. 1964.

LETRAS
Alain Barrière: Elle était si jolie
Elle était si jolie
Que je n’osais l’aimer
Elle était si jolie
Je ne peux l’oublier
Elle était trop jolie
Quand le vent l’emmenait
Elle fuyait ravie
Et le vent me disait
Elle est bien trop jolie
Et toi je te connais
L’aimer toute une vie
Tu ne pourras jamais
Oui mais, oui mais elle est partie
C’est bête mais c’est vrai
Elle était si jolie
Je n’oublierais jamais
Aujourd’hui c’est l’automne
Et je pleure souvent
Aujourd’hui c’est l’automne
Qu’il est loin le printemps
Dans le parc où frissonnent
Les feuilles au vent mauvais
Sa robe tourbillonne
Puis elle disparaît
Elle était si jolie
Que je n’osais l’aimer
Elle était si jolie
Je ne peux l’oublier
Elle était trop jolie
Quand le vent l’emmenait
Elle était si jolie
Je n’oublierai jamais

Marc Lavoine: Elle a les yeux revolver

Un peu spéciale, elle est célibataire
Le visage pâle, les cheveux en arrière
Et j’aime ça
Elle se dessine sous des jupes fendues
Et je devine des histoires défendues
C’est comme ça
Tellement si belle quand elle sort
Tellement si belle, je l’aime tellement si fort
Elle a les yeux revolver
Elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première
M’a touché, c’est foutu
Elle a les yeux revolver
Elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première
Elle m’a touché, c’est foutu
Un peu larguée, un peu seule sur la terre
Les mains tendues, les cheveux en arrière
Et j’aime ça
À faire l’amour sur des malentendus
On vit toujours des moments défendus
C’est comme ça
Tellement si femme quand elle mord
Tellement si femme, je l’aime tellement si fort
Elle a les yeux revolver
Elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première
M’a touché, c’est foutu
Elle a les yeux revolver
Elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première
Elle m’a touché, c’est foutu
Son corps s’achève sous des draps inconnus
Et moi je rêve de gestes défendus
C’est comme ça
Un peu spéciale, elle est célibataire
Le visage pâle, les cheveux en arrière
Et j’aime ça
Tellement si femme quand elle dort
Tellement si belle, je l’aime tellement si fort
Elle a les yeux revolver
Elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première
M’a touché, c’est foutu
Elle a les yeux revolver
Elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première
Elle m’a touché, c’est foutu
Alain Barrière: Ma vie

Alain Barrière: Ma vie

J’en ai vu des amants
Ma vie
L’amour ça fout le camp
Je sais
On dit que ça revient
Ma vie
Mais c’est long le chemin
Ma vie
J’en ai lu des toujours
Ma vie
J’en ai vu de beaux jours
Je sais
Et j’y reviens toujours
Je sais
Je crois trop en l’amour
Ma vie
J’en ai vu des amants
Ma vie
L’amour ça fout le camp
Je sais
On dit que ça revient
Ma vie
Mais c’est long le chemin
Ma vie
Qu’il est long le chemin

O exílio da responsabilidade. Frases batidas

Francis Bacon. Crucificação. Fragmento. 1950.

Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam da saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Não matam os tiranos pedem mais
(José Afonso. Os Eunucos. Traz Outro Amigo Também. 1970).

Sentir o poder é um prazer. Apontam nesse sentido as noções de libido dominandi, de Santo Agostinho, e vontade de poder, de Nietzsche. O resto é acessório. Parafraseando Gil Vicente, mais vale uma decisão estúpida que nos carregue do que uma sábia que nos derrube. Assim caminhamos, de soberba em soberba e de disparate em disparate. O rei nunca vai nu. É agasalhado por oportunistas, néscios e bajuladores. Uma pirâmide de lambe-botas. Quanto mais em baixo, maior a língua. E assim por aí acima. Neste coro de línguas sem papilas, é mais execrável quem suporta o poder do que quem o detém. É o exílio da responsabilidade.

Estas palavras não passam de uma catarse. Não possuem, substantivamente, nenhum valor. São frases batidas (Sérgio Godinho). De vez em quando, apetece descarregar. Um desabafo! Ninguém gosta de desabafos. Prefere-se o abafo, prefere-se abafar numa orgia de poder.

Está um bom dia para ouvir o Sérgio Godinho: O Primeiro Dia (álbum Pano-cru, 1978) e Os Vampiros, uma versão ao vivo da canção homónima de José Afonso (álbum Os Vampiros, 1963).

Sérgio Godinho. O Primeiro Dia. Pano-cru. 1978
Sérgio Godinho. Os vampiros. Ao vivo. Versão de José Afonso (Álbum Os Vampiros, 1963).

A corrosão electrónica

Francis Bacon. Tríptico. Três estudos para um auto-retrato. 1976.

O Brasil salienta-se pela homeopatia, cultural, do grotesco. Reúne sábios e rituais notáveis. Não espanta o anúncio Anger (Raiva), do Clube de Recriação do Rio de Janeiro. Coaduna-se, aliás, com o espírito da publicidade de festivais congéneres (vídeo, cinema, documentário). Estamos habituados. Mas o Anger exorbita. Na idade electrónica, as máscaras, a nossa identidade natural, deformam-se catastroficamente, e ódio já não se estranha, entranha-se. Quanto à nossa imagem, aproxima-se de uma orgia de pixels.

Anunciante: Clube de Recriação do Rio de Janeiro. Título: Anger / Raiva. Agência: FCB Brasil. Direcção: Alton. Brasil, 28 de Agosto de 2019.

A carne e a escada para o céu.

francis-bacon-study-for-a-crucifixion-pormenor-1962

Francis Bacon. Study for a Crucifixion. Pormenor. 1962.

Os australianos estão do outro lado do mundo. Às avessas. Com um sentido de humor muito próprio: enérgico, retorcido e desinibido. O inesperado e o incongruente persistem como principal fonte de humor. Quero envelhecer assim: ao saltos com uma guitarra nas mãos.

Há quem acredite, sobretudo as “classes laboriosas”, que a carne vermelha é o mais nutritivo e o mais revigorante dos alimentos (Bourdieu, Pierre, La Distinction, 1979). Da crença ao hino, apenas um passo. Red Meat merece o Stairway to Heaven, dos Led Zeppelin (tenho em casa um guitarrista que gosta de tocar esta música).

Marca: Red Meat – Australian Meat & Livestock. Título: Stairway to Heaven. Agência: Campaign Palace. Direcção: Graeme Burfoot. Austrália, 2002.

Led Zeppelin. Stairway to Heaven. Live Earls Court. 1975.

Aflição

Pink Floyd. The Wall.

Pink Floyd. The Wall.

Auguste Rodin. A tempestade. 1886-1901.

Auguste Rodin. A tempestade. 1886-1901.

Mais um vídeo dos Dvein, desta vez um vídeo musical. Dos Dvein para os The Vein. Uma erupção de rostos perturbadores. Lembram outros rostos, por exemplo, o Grito, de Edvard Munch, a Tempestade, de Auguste Rodin ou a animação do filme The Wall, dos Pink Floyd. Mas lembram, sobretudo, os rostos de Francis Bacon (ver galeria de imagens). Convém, no entanto, precisar que mais do que pelos rostos, o vídeo dos Dvein sobressai pelo movimento, o fluxo magmático, em que estes se movem, se debatem, se desfiguram e se transformam. Um trabalho técnico e criativo notável.

Dvein. Magma. 2013.

Francis Bacon: galeria de imagens

 

Grotescamente

Ecce Homo. Santuário de Nossa Senhora da Misericórdia de Borjia. Zaragoza. Espanha.

Ecce Homo. Santuário de Nossa Senhora da Misericórdia de Borja. Zaragoza. Espanha.

Vermibus é um artista de Berlim. Em Dissolving Europe, retira as imagens de outdoors, desfigura-as com dissolvente e recoloca-as, deformadas, no mesmo local. Assim sucedeu em Paris, Barcelona, Amsterdão, Viena, Londres e Berlim. Os cartazes apresentam modelos famosos, que irradiam beleza, classe e estilo. Vermibus torna-os irreconhecíveis. Estamos confrontados com um conto de fadas invertido. O belo dá lugar ao disforme e ao grotesco, lembrando a estética de Francis Bacon, bem como a técnica de restauro da espanhola Cecilia Giménez.

Vermibus. Dissolving Europe. 2013.