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Exorcismos

O mal só pode ser vencido por outro mal (Sartre, Jean Paul, Les Mouches, 1943)

  1. A Fuga dos demónios

01. Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV

01. Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV

Há muitos anos, fiz uma comunicação sobre São Bento no Mosteiro de Tibães. São Bento é um santo milagreiro mas rigoroso. Segundo a crença popular, antes de se fazer uma promessa a São Bento, importa pensar duas vezes. Promessa a São Bento é para cumprir. A par de São Bartolomeu, Santo Antão ou São Francisco, São Bento é um dos grandes santos exorcistas, dos mais temidos pelo diabo. Desafiado pelo diabo várias vezes em vida, São Bento não é meigo com os endemoninhados. Empunha a cruz e arreia-lhes umas pauladas (figura 2) ou umas bofetadas (figura 3). Não há demónio que resista. A assistência, de provecta idade, ouviu, ponderou e deu um desconto.

02 Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído. Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387

02. Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído pelo demónio (à direita). Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387

No imaginário medieval, os demónios são expulsos pela boca, lembrando morcegos e répteis voadores envoltos em fumaça. A este nível, não se verifica diferença maior, salvo um ou outro detalhe, entre os exorcismos de Jesus Cristo (figuras 1 e 5) e os dos santos (figuras 2 e 6). As bruxas, seres próximos do diabo, destacam-se na primeira fila dos possessos.

03. Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio, 1637-1714

03. Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio, 1637-1714

À semelhança de São Bartolomeu, mas mil anos depois, São Francisco retoma a figura do exorcismo colectivo. Ao entrar numa cidade, afugentava todos os demónios (figura 4).

 

Não são apenas os demónios que saem pela boca. A fazer fé nas gravuras das Ars Moriendi, no momento do último suspiro, a alma liberta-se do corpo pela boca. Nas figuras 9 e 10, a alma de um moribundo é acolhida, sob a forma de uma criança, ora por um anjo, o Anjo da Morte, ora por um demónio.

 

Pela boca quase tudo entra e pela boca nunca se sabe o que pode sair. Alguma razão tinha François Rabelais ao sugerir que a boca é o órgão cósmico por excelência. A boca é um local de passagem entre vários mundos, sagrados e profanos. Nunca se sabe o que escondem as goelas de Grandgosier, Gargantua ou Pantagruel.

2. Esqueletos vampiros

O mal não tem fim. Resiste e ressurge. Como o Drácula e os mortos vivos. Para o mal, a morte não é obstáculo incontornável, não é, como se diz, sono eterno. Receosas e vulneráveis, as comunidades humanas previnem-se. No pesadelo medieval, a morte não não é irreversível. O morto pode regressar do além para molestar os vivs. Importa proteger-se.

09. Esqueleto de mulher enterrada com foice na garganta. Polónia, secs XVII e XVIII.

09. Esqueleto de mulher enterrada com foice na garganta. Polónia, secs XVII e XVIII

Neste quadro mental, há cadáveres que, pela sua vidas terrena, são ameaças mesmo após a morte. Na Polónia, na Bulgária, na Irlanda e na Itália, foram descobertos túmulos medievais e pós-medievais com esqueletos de corpos brutalizados: pedras e tijolos enfiados na boca e na garganta, cabeça deslocada entre as pernas, corpos cravados com estacas, imobilizados com forquilhas… São “esqueletos de vampiros”. Pertencem a cadáveres de presumíveis vampiros (undead, em inglês, ou revenants, em francês). Para maior imunidade, impunha-se evitar a saída do túmulo e o regresso aos vivos.

10. Esqueleto de vampiro com uma pedra na boca. Kamien Pomorski. Polónia. Séc XVI

10. Esqueleto de vampiro com uma pedra na boca. Kamien Pomorski. Polónia. Séc XVI

Em Drawsko, na Polónia, num cemitério datado dos séculos XVII e XVIII, foram encontrados, no meio de 285 sepulturas, seis esqueletos de vampiros:

11. Mulher vampiro com pedra colocada na garganta. Drawsko. Polónia. Séc XVII e XVIII

11. Mulher vampiro com pedra colocada na garganta. Drawsko. Polónia. Séc XVII e XVIII

“Destes seis indivíduos, cinco foram enterrados com uma foice colocada à volta da garganta ou do abdómen, destinada a cortar a cabeça ou abrir o intestino caso tentassem sair do túmulo (…). Dois indivíduos também tinham pedras grandes posicionadas sob o queixo, provavelmente como uma medida preventiva para evitar que o indivíduo mordesse outros (…) ou para bloquear a garganta de modo a que o indivíduo não pudesse alimentar-se dos vivos (…). Curiosamente, essas sepulturas não se encontram segregadas no cemitério, foram colocadas no meio das sepulturas não-desviantes” (Gregoricka LA, Betsinger TK, Scott AB, Polcyn M (2014) Apotropaic Practices and the Undead: A Biogeochemical Assessment of Deviant Burials in Post-Medieval Poland. PLoS ONE 9(11): e113564. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0113564).

Os vampiros do cemitério de Drawsko não apresentam diferenças significativas quanto à idade e ao sexo, e provêm da comunidade local. A hipótese de serem vítimas de epidemias de cólera não encontra fundamentação empírica suficiente. Mas, para além das vítimas da cólera, existem outras categorias pessoas candidatas a vampiros.

12. Caveira de uma mulher vampiro com pedra na boca. Itália. Séc XVI

12. Caveira de uma mulher vampiro com pedra na boca. Itália. Séc XVI

“Um texto alemão de 1898, “Zeitschrift des Vereins fur Volkskunde”, descreve as antigas crenças na região segundo as quais os vampiros podiam manifestar-se como seres malévolos, vítimas de suicídios, bruxas ou possessos. Segundo a “Mythologie du Vampire en Roumanie” de Adrein Cremene, entre os romanis, qualquer pessoa sem um dedo, com um apêndice semelhante ao de um animal ou uma aparência horrível, era encarado como “alguém que está morto”, enquanto que na Rússia quem falasse sozinho, consigo próprio, era suspeito de possuir a natureza de um vampiro (Pirate Vampire Dug Up in Bulgaria; http://www.smithsonianmag.com/smart-news/pirate-vampire-dug-up-in-bulgaria-131708166/).

13. Sepultura de vampiro. A cabeça foi decepada e colocada ntre as pernas. Gliwice. Polónia. Sec XVI

13. Sepultura de vampiro. A cabeça foi separada e colocada entre as pernas. Gliwice. Polónia. Sec XVI

No cemitério de Drawsko, foram desenterradas três sepulturas com medalhas. Duas de S. Bento, com a respectiva cruz. O exorcismo e a protecção contra o mal prosseguem após a morte, no outro mundo. Em 116 sepulturas, mais de um terço (36%) do total de sepulturas escavadas, descobriram-se moedas passíveis de funcionar, na outra vida, como amuletos contra o mal:

“As moedas (…) representam uma importante apotropaia colocada junto aos mortos, e foram concebidas ​​para proteger o corpo de espíritos malignos (…). Às vezes, eram simplesmente colocadas sobre ou perto do corpo, mas muitas dessas moedas foram colocadas sob a língua, não só para evitar que um espírito malicioso entre no corpo através da boca, mas também para proporcionar aos mortos-vivos algo para morder de modo a dissuadi-los de se alimentar dos vivos” (Gregoricka LA, Betsinger TK, Scott AB, Polcyn M (2014) Apotropaic Practices and the Undead: A Biogeochemical Assessment of Deviant Burials in Post-Medieval Poland. PLoS ONE 9(11): e113564. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0113564).

14. Suposto vampiro com uma estaca cravada no coração. Bulgária. Sec XIII

14. Suposto vampiro com uma estaca cravada no coração. Bulgária. Séc XIII

A potência atribuída ao mal sobrenatural é de tal índole que todo o exorcismo é pouco. Corre-se, apenas, o risco de combater o mal com uma maldade ainda maior. É desolador, mas humano. E “nada do que é humano nos é estranho” (Terêncio).

Para mais informação, sugiro o documentário da National Geographic Documentaries. Vampire Skeletons Mystery. 2002: https://www.youtube.com/watch?v=H425yBlkm_Ihttps://www.youtube.com/watch?v=H425yBlkm_I.

National Geographic Documentaries. Vampire Skeletons Mystery. 2002

O vídeo musical Come to Daddy (1997), realizado por Chris Cunningham para os Aphex Twin fecha o artigo com chave sinistra.

Come to Daddy (1997), realizado por Chris Cunningham para os Aphex Twin.

O diabo antitabaco

1. S. Bento da Várzea. Barcelos.

1. S. Bento da Várzea. Capela lateral. Barcelos.

Não me lembro, na história da arte, de pinturas, esculturas ou gravuras com o diabo a fumar. Fraca memória ou vazio simbólico. Mergulhado no fogo, o diabo dava um bom padroeiro dos fumadores.

Na igreja de S. Bento da Várzea, no concelho de Barcelos, numa capela lateral, estão três figuras, entre as quais S. Bento e o Diabo. Consta que este diabo ajuda a deixar de fumar. Os crentes lançam cigarros no chão, junto ao dito diabo.

Quem havia de dizer? O diabo a ajudar os fumadores a deixar de fumar? Será por esse motivo que tanta campanha contra o tabaco cheira a enxofre?

2. S. Bento da Várzea. Barcelos

2. S. Bento da Várzea. Barcelos.

3. S. Bento da Várzea. Barcelos

3. S. Bento da Várzea. Barcelos.

O diabo e os homens

O anúncio Le diable pleure, da marca Quick, é absurdo e minimalista: um rosto, mãos e um hamburger. Nem por isso deixa de ter impacto. No anúncio do artigo anterior, o diabo foi enganado (https://tendimag.com/2015/12/26/enganar-o-diabo/). Neste, tentado, o diabo chora. Mostra-se mais humano.

Por que motivo o diabo tende a ser, na publicidade, masculino, aproximando o homem do lado sinistro do mundo? Na verdade, há diabas. Nunca ouvi falar em “demónias” ou em “satanazas”, mas em diabas, sim. Há uma diaba, bem roliça, em Amarante (https://tendimag.com/2014/05/28/cronica-dos-diabos-de-amarante/). Nas pinturas e nas gravuras do inferno também surgem diabas a atormentar os condenados. No famoso Inferno (c. 1510-1520), da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, distinguem-se duas diabas, ambas com peitos fartos: uma, do lado direito, a importunar uma mulher; a outra, do lado esquerdo, a atestar um homem. Ao endiabrar, de forma tão discriminatória, os homens, a publicidade manifesta-se perversa.

Carregar na imagem para maior resolução.

Inferno. Museu Nacional de Arte Antiga. c. 1510-1520.

Inferno. Museu Nacional de Arte Antiga. c. 1510-1520.

Na publicidade abunda a figura do homem ao volante de um caixão com rodas. Até parece a maior fonte libidinal masculina. Não sabem encontrar outras formas de prazer? Se fosse Freud, diria que parece uma regressão em massa. BMW, Volkswagen, Honda, Toyota, Ford, Audi, Renault, Volvo, Citroen, Fiat, Seat, todos carregam na mesma tecla: o homem e o seu brinquedo favorito.

O desporto, mormente o futebol, rivaliza com o automóvel. O homem a pontapear o “esférico”. Viril, forte, rápido e ágil. O herói sob o olhar da multidão suspensa. O bambino de oro. Os estádios assumem-se como passerelles agonísticas de machos em adolescência activa. Creio que a maioria dos homens não joga à bola, nem anda atrás dela, nem encara a vida como um desporto. Mas a bola tem algo de demoníaco: peca-se por amor à camisola da bola. De qualquer modo, a associação o homem ao futebol é um entorse na identidade masculina que urge corrigir.

Os homens são uns animais. Sem dúvida! Não seduzem como outrora. Antigamente seduzir uma mulher era uma “conquista” demorada e incerta. Na publicidade, a sedução tornou-se mágica e tonta. Basta pegar numa chávena de café, num chapéu ou num guarda-chuva. E já está! Sedução instantânea. Mas os romeus e as vedetas não são os homens, mas os perfumes e os desodorizantes: Axe, Old Spice, Acqua di Gio… O homem regressou à natureza artificial: seduz pelo cheiro. Um soupçon aromático e ei-las nos braços. Tamanha idiotice degrada a imagem dos homens.

Estas linhas constituem um exercício meramente gratuito, próprio de quem está em férias. Não têm princípio nem fim. Um divertimento. Deu-me para ensaiar como seria glosar sobre a publicidade em sentido inverso ao habitual. Em suma, uma paródia.

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quick-demoniak-burgers-le-diable-pleureMarca: Quick. Título: Le diable pleure. Agência: Leo Burnett. França, 2008.

 

Enganar o diabo

Receita para um humor fora do normal:

  • Desempenar as ideias;
  • Aparências que enganam
  • O não lógico segue uma sequência lógica;
  • Banaliza-se o extraordinário;
    1. O pacto com o diabo é uma figura vulgar;
    2. O requisito do primeiro filho, também. O pacto é igual ao do Dr. Parnassus.
  • Sobe-se o nível do extraordinário, firmando-o na realidade;
    1. A “vítima” é homossexual;
  • Não se mistura nada; serve-se aos pedaços na devida ordem;

Este diabo é um trapalhão. Não acerta uma. Mas más apostas, quem as não faz?

Os anúncios envelhecem. Desactualizam-se. Técnica e historicamente. Sete anos é muito tempo. Em vários países, os casais homossexuais podem adoptar crianças.

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First BornMarca: Tele 2. Título: First Born. Agência: Euro RSCG. Direcção: Martin Werner. Suíça, 2008.

Aspirações

Dirt Devil

“Expliquemos previamente a natureza complexa do riso carnavalesco. É, antes de mais, um riso festivo. Não é, portanto, uma reacção individual diante de um ou outro fato “cómico” isolado. O riso carnavalesco é em primeiro lugar património do povo (esse carácter, como dissemos, é inerente à própria natureza do carnaval); todos riem, o riso é “geral”; em segundo lugar, é universal, atinge a todas as coisas e pessoas (inclusive as que participam no carnaval), o mundo inteiro parece cómico e é percebido e considerado no seu aspecto jocoso, no seu alegre relativismo; por último, esse riso é ambivalente: alegre, cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico, nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente” (Bakhtin, Mikhail, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, São Paulo, Hucitec, 1077,  p.10).

No grotesco, todos riem de tudo e de todos. Tudo é risível, nomeadamente o sagrado e o poder político. Nada permanece estável, o riso grotesco é um agitador e um baralhador do mundo. O alto é rebaixado. Tudo o que se mostra fixo é deslocado para os lugares mais inesperados. O detergente Cif no Cristo Redentor, do Rio do Janeiro, um aspirador associado a um exorcismo, outro a uma tentativa de suicídio, uma pastilha elástica liberta a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque.

Primeiro, os aspiradores, máquinas anormalmente intrusas. Amanhã, as estátuas.

Marca: Electolux. Título: Suicide. Agência: Lowe (Shangai). Direcção: Liang Quing Song. China, 2006.

Marca: Dirt Devil. Título: The Exorcist. Produçao: Filmakademie Baden-Wurttemberg. Direcção: Andreas Roth. Alemanha, 2011.

A caminho do inferno

01. Taymouth Hours, c. 1325-40.

01. Taymouth Hours, c. 1325-40.

O Taymouth Hours é um livro de horas datado de 1325-40. Da profusão de iluminuras, retenho uma pequena amostra alusiva às coisas do inferno (ver galeria). Dedicados e despachados, os diabos conduzem os condenados (figuras 2 a 4) para a boca do inferno (figura 5). No interior, o ambiente é caloroso (figuras 6 a 8). Cada suplício, uma vez terminado, é recomeçado. A never ending pain!

O Gozo da Maldade

Piscar de olho do diaboEste anúncio dinamarquês é uma história sem palavras. Gosto de histórias sem palavras. São fáceis de traduzir. Esta é composta, exclusivamente, por maldades, por sinal, gratuitas. Somos assim, apreciamos maldades estúpidas, que não trazem proveito a ninguém. O nosso olhar abre-se de gozo, para logo se fechar numa piscadela ao diabo. O condutor do descapotável é mau, pelo prazer da maldade. O condutor do eléctrico é mau, pelo prazer da vingança. Pelos vistos, não há melhor promoção do que tamanho gozo na maldade.

Marca: As Oslo Sporveier. Título: Make way for the tram. Agência: New Deal. Direcção: Rof Sohlman. Noruega, 1993.

A Festa de S. Bartolomeu de Cavez

Cabeceiras  de Basto. História e Património

Estudei, com o João Gonçalves, seis festas populares do concelho de Cabeceiras de Basto.
Os resultados estão publicados, em vários textos no livro Cabeceiras de Basto: História e Património (2013). Segue um excerto, com imagens novas, respeitante à Festa de S. Bartolomeu de Cavez; ao confronto entre a ordem e a desordem, numa noite endiabrada.

Miguel Ângelo. Juízo Final. 1535-1541. Pormenor com S. Lourenço e S. Bartolomeu (com o cutelo numa mão e a pele na outra)

Miguel Ângelo. Juízo Final. 1535-1541. Pormenor com S. Lourenço e S. Bartolomeu (com o cutelo numa mão e a pele na outra)

 

São Bartolomeu de Cavez

É impossível compreender a festa de São Bartolomeu de Cavez sem referir a curiosa geografia que a envolve. A festa decorre nas margens do Tâmega, junto à ponte de Cavez. Cada margem tem a sua valência, para o lado do Minho, a capela de São Bartolomeu, que pertence a uma propriedade privada, a Quinta da Casa da Ponte, e para o lado de Trás-osMontes, a fonte milagrosa de água sulfurosa. Ambas são centrais para a festa e identidade da freguesia e ambas estão à guarda de São Bartolomeu.

Ponte de Cavez. Cabeceiras de Basto

Ponte de Cavez. Cabeceiras de Basto

Agnolo Bronzino. São Bartolomeu. 1556

Agnolo Bronzino. São Bartolomeu. 1556

A festa de São Bartolomeu realiza-se, em Cavez, todos os anos, nos dias 23 e 24 de Agosto. Camilo Castelo Branco descreve, nas Noites de Lamego, os temíveis confrontos que, “segundo o bárbaro estilo daquela romagem” (Branco, Camilo Castelo, Maria Moisés, 1876, Biblioteca Digital, Porto Editora, p. 27), se desenrolavam sobre a ponte entre minhotos e transmontanos. Alexandre Teixeira recorda os preparativos da contenda: “atempadamente as duas partes tratavam de arranjar os melhores caceteiros da região para se baterem por causas que às vezes nem lhe diziam nada. E assim no dia 23 de Agosto lá se reuniram em plena noitada para concertar o plano de ataque ao grupo contrário e a coisa acontecia da seguinte forma: armados de paus de lódo estavam todos os intervenientes e alguns até tinham no bolso a fusca para dar uns tiros se fosse preciso. À frente uma concertina entoando marchas marciais em passo de corrida, atrás os caceteiros com os paus virados ao alto tocando-se nas extremidades pronunciando uma batalha prestes a acontecer. Atravessavam a ponte repetidamente e quando as rusgas se cruzavam aconteciam provocações de parte a parte, até acontecer o confronto físico.” (Teixeira, Alexandre, 2010, “S. Bartolomeu da ponte de Cavez”, jornal Ecos do Basto, edição de 21-06-2010, http://www.ecosdebasto.com/noticia.asp?idEdicao=159&id=5772&idSeccao=1525&Action=noticia). Outra testemunha de longa memória confirma: “Aquilo era a sério, senhor. Chegava a haver mortes”. Com murros, paus e até armas de fogo, era na noite do dia 23 que se ajustavam as contas de amor, dinheiro e outras desavenças.

Apesar da reputação aguerrida dos confrontos da festa de São Bartolomeu, muitos peregrinos acorriam à festa em busca de outro tipo de pancada: a “marretada”, exorcista, do Santo. A romaria à capela de São Bartolomeu já é mencionada nas memórias paroquiais de 1758. Sendo a capela propriedade privada, os caseiros abrem a porta aos crentes que demandam o Santo.

Matteo di Giovanni. O Apóstolo S.  Bartolomeu, c. 1480

Matteo di Giovanni. S. Bartolomeu, c. 1480

Segundo testemunho dos caseiros, todos os fins-de-semana recebem pessoas, o que indica que a tradição se mantém viva. No centro da capela, e da tradição, encontra-se a imagem de São Bartolomeu a pisar o diabo. O ritual a que os romeiros são submetidos assevera-se simples. Dentro da capela, prestada homenagem ao Santo, a pessoa suposta possessa recebe, literalmente, uma pancada na cabeça. A imagem, erguida com ambas as mãos, desce ao encontro da testa do visitante com um ligeiro, mas decidido, toque. Em Cavez, a conta destes exorcismos não tem fim. Vêm pessoas de longe, por exemplo do Brasil, para experimentar a marretada de São Bartolomeu.

Marco d'Agrate. São Bartolomeu. Catedral de Milão. 1562.

Marco d’Agrate. São Bartolomeu. Catedral de Milão. 1562.

A capela e a imagem não são a única forma de o Santo fazer milagres. Na outra margem do rio, uma descida, melhorada por promessa de uma emigrante, conduz a uma fonte, também ela milagrosa. As memórias paroquiais de 1758 descrevem o fenómeno: “Junto ao rio Tamega nasce huma fonte tenue que se chama fonte de São Barthollameo e sabe a agoa de enxofre” (Capela, José Viriato, 2003, As Freguesias do Distrito de Braga nas Memórias Paroquiais de 1758, Braga, p. 223). O caudal da fonte é ténue, mas certo e a flora envolvente contribui para a aura sobrenatural da pia.

Fonte de S. Bartolomeu. Cavez. Cabeceiras de Basto.

Fonte de S. Bartolomeu. Cavez. Cabeceiras de Basto.

À água são atribuídas propriedades curativas, sobretudo para as doenças da pele. Há indícios de que a fonte foi associada, em tempos recuados, no final da Idade Média, a uma gafaria. Acredita-se que o efeito da água da fonte aumenta nos dias de festa. Ainda é prática usual beber a água da fonte ou levá-la para casa em garrafas e garrafões. Não vai muito tempo, durante a festa, quando os ânimos guerreiros se exaltavam, os transmontanos desafiavam “Vinde à Fonte! Vinde à Fonte!”; do outro lado, os minhotos gritavam “Vinde ao Santo! Vinde ao Santo!”

No centro da crença e da festa está a Ponte de Cavez, cuja construção, no século XIII, é motivo de lenda. Esteve por duas vezes para ser construída em locais a montante de onde se encontra hoje. Quando os trabalhadores começavam a construção, uma voz dizia-lhes “aqui não!” e o local da obra ficava completamente alagado. Por duas vezes a voz advertiu os trabalhadores e por duas vezes estes se viram incapazes de prosseguir a obra. À terceira tentativa a voz não se manifestou, e a Ponte de Cavez foi edificada no local que hoje ocupa.

S. Bartolomeu. Vale da Pinta. Medieval.

S. Bartolomeu. Vale da Pinta. Medieval.

O próprio responsável pela obra está envolto em mistério. Conta-se que Frei Lourenço Mendes, o promotor da construção, morreu imediatamente após a conclusão da obra. Alguns vaticinam que foi o excesso de alegria que o vitimou, enquanto outros falam de um acordo com o diabo que permitiu que a ponte terminasse no prazo. Terá sido sepultado junto a uma das cabeceiras da ponte com a seguinte inscrição: “Esta é a ponte de Cavez e aqui jaz quem a fez”. A fazer fé na memória das pessoas, o túmulo terá sido demovido há algum tempo. O mesmo dizia António Carvalho da Costa há mais de trezentos anos: “S. João de Cavez, Vigairaria do Convento de Pombeiro, tem setenta vizinhos. Nesta Freguesia está sobre o rio Tâmega a ponte de Cavez, fundação de Frei Lourenço Mendes, a qual divide esta Província da de Trás-os-Montes. Junto dela estava um túmulo e nele sepultado o Mestre, que a obrara, com um letreiro, que dizia: Esta é a ponte de Cavez, aqui jaz quem a fez. Ha poucos anos a desfizeram para outra obra” (COSTA, 1706, I: 151).

Para a memória colectiva, a duração manifesta-se uma realidade muito relativa…

Longe dos tempos em que os confrontos físicos abalavam a festa, as celebrações em honra de São Bartolomeu concentram-se na imagem do Santo e na água da fonte milagrosa, para onde convergem longas filas de romeiros à espera da generosidade do Santo.

Pierre Le Gros, o Novo. Bartholomaeus. San Giovanni in Laterano. Início séc. XVIII

Pierre Le Gros, o Novo. Bartholomaeus. San Giovanni in Laterano. Início séc. XVIII

A festa de São Bartolomeu de Cavez manifesta uma riqueza simbólica ímpar. Antes de mais, pelo contexto de liminaridade. No tempo de Camilo Castelo Branco, a ponte de Cavez ainda delimitava as províncias do Minho e de Trás-os-Montes, territórios e identidades assumidamente distintos. Junto à ponte, numa margem localiza-se a fonte sulfurosa e na outra a capela, ambas associadas a São Bartolomeu. A demarcação cavada pelo rio Tâmega e pela fronteira coabita com a passagem permitida pela ponte dando azo a uma dinâmica que tanto separa como aproxima as entidades humanas e sagradas envolvidas. Trata-se de uma configuração propícia ao investimento simbólico, à crença, ao ritual e ao excesso.

A ponte de Cavez foi construída, eventualmente com mão do diabo, por uma figura, Frei Lourenço Mendes, que se tornou lendária. É certo que há memória de confrontos entre localidades vizinhas em muitas festas, mas não tão ritualizados, endiabrados e trágicos com entre as rusgas de ambas as margens na ponte de Cavez. No conto camiliano “Como ela o amava”, o morgado ébrio põe cobro às negociações entre as rondas rivais nos seguintes termos: “Não há convenções! O mundo acaba-se aqui hoje!” A ponte, arquétipo de ponto de passagem, de traço de união, ergue-se como o lugar onde se suspendem as convenções, um lugar entre mundos, um lugar onde, como sentencia o morgado, acabam os mundos. Em suma, um tabuleiro diabólico, atendendo ao sentido etimológico do verbo grego diabolus: meter-se no meio, atravessar o caminho, separar, dividir, fazer tropeçar e cair. A ponte e suas imediações transformam-se num palco de desordem. “O diabo anda à solta”. Desordem que se manifesta, antes de mais, na violência e na sexualidade. No conto de Camilo o pomo da discórdia era uma mulher: morto o noivo, a mulher suicida-se.

S. Bartolomeu. Vale da Pinta. Séc. XV ou XVI. Com a corrente que prende o diabo na mão esquerda, que simboliza o mal.

S. Bartolomeu. Vale da Pinta. Séc. XV ou XVI. Com a corrente, o santo prende o diabo na mão esquerda, a sinistra, que simboliza o mal.

O pandemónio também se estende à folia pagã do arraial. Há memória de práticas ritualizadas de “rapto de mulheres”. Grupos de homens rodeavam uma mulher que desaparecia por um tempo. Algumas famílias fechavam as filhas em casa para as salvaguardar destes desmandos dionisíacos. Trata-se, também, de um ritual de separação.

Mas o primeiro sinal de desordem, de desconcerto do mundo, era dado pela afluência de enfermos e possessos. Vinham em grande número de muitas léguas em redor. Eram os primeiros a chegar. Acudiam à fonte e à capela para curar ora os corpos, ora as almas, ora ambos.

A noite de São Bartolomeu mergulha-nos na luta sem tréguas entre a ordem e a desordem, o bem e o mal, a luz e as trevas. Combate em que o santo é mestre. Nas suas viagens, libertou cidades assoladas pela idolatria e pelos espíritos malignos. Tal como São Bento, São Bartolomeu consta entre os grandes santos exorcistas. Cumpre-lhe converter a desordem em ordem. Regenerar as comunidades, as pessoas, os corpos e os espíritos. A marretada na cabeça, de cima para baixo, traz luz às trevas, apazigua os corpos e purifica os espíritos. Representado com o diabo acorrentado a seus pés, há, todavia, quem suspeite que o santo, na noite do dia 23 de Agosto, não resiste a dar-lhe, por um tempo, um pouco de lastro.

Irmãos Limbourg. The Belles Heures of Jean, Duke of Berry. France, provavelmente Paris, 1406–1408.

Irmãos Limbourg. The Belles Heures of Jean, Duke of Berry. França, provavelmente Paris, 1406–1408.

A fonte milagrosa suscita algumas conjecturas. Sulfurosa, irrompe das entranhas da terra, junto ao rio, em terra de ninguém. Não admira que tivesse sido entregue à guarda de São Bartolomeu, “um santo gravemente infesto a Satanás”. Esta conjugação do sulfuroso com o luminoso dota a fonte com uma força simbólica extraordinária, milagrosa. O imaginário popular reconhece-lhe uma potência sobrenatural. Tal como na capela, as correntes do santo fazem-se sentir na fonte. Com, pelo menos, tanta afluência e devoção.

Stefan Lochner. Martírio de S. Bartolomeu. 1435.

Stefan Lochner. Martírio de S. Bartolomeu. 1435.

Os testemunhos relativos à roupa abandonada junto à fonte justificam uma breve reflexão. Regra geral, as práticas ritualizadas seculares não são isentas de sentido. Banhar-se é um ato de purificação. Desnudar-se e mudar de roupa é um gesto simbólico de despojamento, exposição e renovação. São Bartolomeu foi esfolado vivo. Surge, aliás, em muitas imagens seja a segurar a própria pele (e.g. Juízo Final, no fresco de Michelangelo na Capela Sistina), seja em carne viva (e.g. a estátua de Marco d’Agrate na Catedral de Milão, de 1562, ou o quadro de Agnolo Bronzino, de 1556), seja a ser esfolado (e.g. a iluminura no Livro de Horas de Dom Manuel I, entre c. 1517 e c. 1538). Sem pele, o mártir São Bartolomeu fica completamente exposto ao olhar divino. Quem se despe e se banha, também se expõe ao poder da fonte milagrosa e do santo que a guarda com o diabo acorrentado. Quem abandona a roupa, nomeadamente interior, muda de pele, muda a sua segunda pele, a roupa: veste a nova e atira a velha, poluída, ao rio. Esta equação releva do pensamento mágico, mas a religiosidade popular costuma saciar a sede nas águas da magia. Esta interpretação pode parecer fantasiosa. Mas não é avulsa. Segundo José Ramos, “na festa de S. Bartolomeu, na foz do Porto, os fiéis cumprem o rito mergulhando no mar com fatos de papel para que as águas dissolvam a ‘pele velha’ e renasça um novo homem” (http://www.nova-acropole.pt/a_s_bartolomeu.html). São princípios e rituais homólogos.

Hoje, a romaria comporta arraial, tendas, procissão e fogo-de-artifício, mas não tem violência. Os demónios deixaram de a afligir. Ou S. Bartolomeu os prendeu de vez ou migraram para outras bandas, se calhar, para as capitais. E se algum se atreve aparecer, uma boa marretada afasta-o de vez.

 

Albertino Gonçalves

João Gonçalves

 

Leilão da alma

Mercedes. SoulNão é a primeira vez que a Mercedes convoca as figuras da morte e do diabo. Neste anúncio, alguém está prestes a vender a alma ao diabo, para, pressupõe-se, adquirir um Mercedes. Nada que Judas não tenha feito, exceptuando o Mercedes. Mas uma espécie de epifania salva o desgraçado: a aparição do preço do automóvel, uns furos abaixo do valor da alma.

Especialmente  interessantes são os longos segundos dedicados à antecipação da felicidade. Não deixa de ser um privilégio ver como a Mercedes, a The Mill, a Mercley+Partners e Dante Ariola representam a felicidade.

Marca: Mercedes-Benz. Título: Soul. Agência: Mercley+Partners. Direção: Dante Ariola. USA, Janeiro 2013.

Convencer o Diabo

O conflito entre santos e demónios tem assumido vários contornos.

São Miguel, comandante do exército de Deus, derrota Satã a golpes de espada. São Bartolomeu acorrenta o diabo a seus pés. São Jorge fere o dragão com uma lança. São Bento expulsa os demónios à bofetada: “Trazia Saõ Bento taõ sopeado, & taõ sogeito o Demonio, que o deitava fòra dos corpos humanos, a assoutes, bofetadas, & golpes, & muytas vezes se vio, que levava São Bento o Demonio arrastos, & preso por cadeas, tão atormentado do espirito do Santo, que se queixava deo Sãto a gritos”(Sermoens varios do M.R.P. Prègador Géral, & Cronista Mòr do Reyno Fr. Rafael de Jesus … pregados em a Curia de Braga pellos annos de 1673, 74 & 75, Lisboa, Officina Craesbeeckiana, 1688,  p. 326).

São Wolfgang (c. 934 – 994)) é, porventura, o combatente mais actual. Tenta convencer o diabo com palavras. Desafia-o a construir uma igreja; o diabo retorque, a  várias vozes, que tal desígnio não consta na Bíblia. O quadro de Michael Pacher (1430–1498), pintor austríaco, retrata este episódio.

Michael Pacher, Saint Wolfgang and the Devil from the Fathers of the Church altarpiece, c. 1471-75

Michael Pacher, São Wolfgang e o Diabo. Fathers of the Church altarpiece, c. 1471-75