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Aspirados

Wilma. Flintstones

Do Homem-Aranha ao Exorcista.

Aspirações. Tendências do Imaginário, 25.08.2026

Vade retro! Atribulações das almas

Morte de São Bento. Capela de São Bento. Mosteiro de de São Martinho de Tibães

Em 29 de dezembro de 2014, publiquei o artigo A caminho do inferno. Retoquei-o várias vezes: em 3 de janeiro de 2015, com o título O último suspiro, aumentei-o. Em 23 de agosto de 2017, procedi a uma nova revisão, optando pelo título inicial A caminho do inferno; por último, em 15 de janeiro de 2023, retomei-o, no blogue Margens, com o título Atribulações das almas, acrescentando um vídeo com gravuras do Livro Horas de Taymouth e um excerto do álbum Heaven and Hell, do Vangelis. Recoloco esta versão mais recente e mais completa.

Atribulações das almas. Margens, 15.01.2023

Ter o Diabo no Corpo

Pedro Abrunhosa e Bandemónio. Momento, 2002

No imaginário medieval, os demónios eram expulsos pela boca. Pareciam morcegos ou répteis voadores envoltos em fumo.
Entre os santos exorcistas, dois sobressaem: São Bento e São Francisco. São Bento não era meigo com os endemoninhados. Arreava-lhes umas bofetadas e umas pauladas.
Mil anos depois, São Francisco retoma o exorcismo colectivo característico de São Bartolomeu. Cidade onde este santo entrasse, não demorava demónio. (A Fuga dos Demónios, 08.08.2014)

Em 8 de agosto de 2014, escrevi o artigo A Fuga dos Demónios. Três anos volvidos, retomei-o no artigo Exorcismos, de 15 de agosto de 2017, acrescentando-lhe outro texto: Esqueletos vampiros. Recoloco o artigo Exorcismos, mais completo, acompanhando-o com duas canções do Pedro Abrunhosa: “Diabo no corpo” e “Momento”, ambas de 2002.

Pedro Abrunhosa, Os Bandemónio – Diabo No Corpo. Momentos, 2002
Pedro Abrunhosa, Os Bandemónio – Momento. Momento, 2002

Jogar às cartas com o Diabo 2. Chove no inferno

No dia 3 de agosto de 2021, após três semanas de internamento, tive, enfim, alta. Pouco são, mas salvo [aguardava-me cerca de um ano de cadeira de rodas e ainda não dispenso a bengala]. Espreitava, porém, a esperança. A tendência desenhava-se auspiciosa: de mal para melhor. Chegado a casa, logo acudi ao Tendências do Imaginário. Era o reencontro com uma componente pessoal de que sentia saudades.

Demónio à chuva

Os primeiros artigos suspiravam alívio. Recomeçava o alfabeto [Vangelis- Alpha]. “Sobrevivente do desespero (…) estava de volta” (Regresso, 03.08.2025); escapara graças a um fenómeno contranatura: “choveu no inferno” (Alívio, 04.08.2025). A terra ainda ressumava um cheiro abençoado a fumo molhado.

Seguem os artigos Regresso (03.08.2021) e Alívio (04.08.2021)

Regresso

Uma  coisa é escrever sobre a morte, outra privar com ela. Durante um ano, fui vítima de intoxicação severa não diagnosticada. Uma degradação galopante interminável. Para fumar, tinham que me segurar no cigarro. Sobrevivente do desespero. Acabei internado, uma semana nos cuidados intensivos. Cruzei-me com a morte e não dei por ela. Nem sombra de memória. Espero estar de volta. Obrigado!

Vangelis. Alpha. Albedo 0.39. 1976.

Alívio

Chove no inferno!

Schubert – Impromptu In G-Flat Major, D899, Op. 90 No. 3. , D. 899. Interpretação de Khatia Bruniatishvili. 2019

A Ausência de Deus

Missal Fouquet. 48r. Entre 1450 e 1470. Yale University Library

Em Cabeceiras de Basto, sexta feira, dia 13, falei muito, talvez demasiado, do diabo, pelos vistos uma espécie de “Absens Deus”. Hoje, lembrei-me deste anúncio. Coloquei-o no Tendências do Imaginário em agosto de 2015 com o seguinte comentário: “Este anúncio macedónio é uma espécie de catequese da ciência mitigada com religião: o jovem Einstein rebate a argumentação do professor com recurso à ciência e em nome da religião” (https://tendimag.com/2015/08/03/a-ciencia-a-bicicleta-a-cigarra-e-a-formiga/). Retomo-o como um lembrete esfíngico.

Anunciante: Ministry of Education and Science of the Republic of Macedonia. Título: Religion. Does god exist? Macedónia, 2008.

Os cornos do diabo

Tenho andado por fora a vadiar de cama em cama. Passei pelo Miradouro de Tibo, almocei com amigos em Santo António de Vale de Poldros e aterrei na Exposição “Máscaras do Diabo”, na Casa da Cultura de Melgaço, integrada no programa da Noite dos Medos (de 6 até 28 de outubro).

Do Miradouro de Tibo, avista-se do lado norte o Santuário da Peneda. Do lado sul, a paisagem do vale l também é prodigiosa, mas o sol desaconselhou a fotografia. Aliás, sem visionamento no ecrã do telemóvel, o enquadramento desta fotografia teve que ser adivinhado.

Andrew Lloyd Webber. O Fantasma da Ópera. Banda sonora do filme O Fantasma da Ópera. 1986
Manfred Mann’s Earth Band. Visionary Mountains. Nightingales & Bombers. 1975

Expo diabólica

Expo diabólica. Cabeceiras de Basto. Até setembro. Fotografia: Sara.

A seguir ao Museu Alberto Sampaio, a Expo diabólica desloca-se para a Casa do Tempo, em Cabeceiras de Basto.

“A Casa do Tempo de Cabeceiras de Basto acolhe entre os meses de maio e setembro a ‘Expodiabólica’, curiosa e admirável exposição de diabos que o investigador vimaranense Fernando Capela Miguel idealizou em desenho e que veio a materializar em belíssimas peças de cerâmica concretizadas por renomados oleiros de Barcelos. / O imaginário popular do Minho é retratado nesta ‘Expodiabólica’ que dá ‘voz’ à cultura popular e a crenças antigas envoltas em misticismo” (Presidente da Câmara de Cabeceiras de Basto).

Expo Diabólica – Uma Expressão da Cultura Popular no Museu de Alberto Sampaio. Uma coleção particular, pertença de Fernando Capela Miguel.

O diabo apaixonado. A mulher e o diabo

Jacques Le Grant. – Le livre des bonnes moeurs. XVe siècle. Musée Condé de Chantilly.

No imaginário cristão, o diabo seduz, preferencialmente, a mulher. Tudo indica que está mais exposta à tentação demoníaca. O destino começa no início: foi Satanás, Arimane, sob a figura de serpente, quem tentou a primeira mulher e esta, o primeiro homem. O Martelo das Feiticeiras (Heinrich Kraemer & James Sprengerm, 2004, O Martelo das Feiticeirass, Rio de Janeiro, Editora Rosa dos Ventos, 1ª edição 1486) assegura existir um “maior número de mulheres supersticiosas do que de homens” (p. 114). “Por serem mais fracas na mente e no corpo, não surpreende que se entreguem com mais frequência aos atos de bruxaria” (p. 113). São mais crédulas, socorrem-se mais de poderes maléficos e passam a palavra, prestam-se ao contágio. Com estas e outras sentenças,

“Só em 1485, apenas no distrito de Worms, 85 feiticeiras foram entregues às chamas. Em Genebra, em Basileia, em Hamburgo, em Ratisbona, em Viena, e em muitas outras cidades, ocorreram execuções do mesmo género. Em Hamburgo, entre outros, queimou-se vivo um médico que salvou uma mulher em trabalho de parto abandonada pela parteira. No ano 1523, em Itália, após uma bula contra a feitiçaria aprovada pelo papa Adriano VI, só a diocese de Como assistiu à queima de cem bruxas” (Albert Réville. Histoire du Diable, ses origines, sa grandeur et sa décadence, à propos d’un récent ouvrage allemand. Revue des Deux Mondes, Paris, 2e période, tome 85, 1870, pp. 101-134: III).

Francisco Goya. El Aquelarre. 1797–1798.

“Passaram anos e anos / Sobre esta roda da vida, / Farinha que foi moída, / Vai-se a ver são desenganos” (Fernando Assis Pacheco, Pedro Só). Passaram anos e anos e o imaginário mudou. O Martelo das Feiticeiras tornou-se símbolo de um pesadelo histórico. No anúncio Match Made in Hell, o diabo não só seduz como é seduzido. Por intermédio de uma agência de encontros, Match, o diabo e a donzela envolveram-se num namoro aprazível. Um par, à partida, improvável, uma nova forma de amor. Já no século XVIII, se discorria sobre a figura do “diabo apaixonado” (Cazotte, Jacques, Le diable Amoureux, Paris, 1772; traduzido para português por Camilo Castelo Branco; na imagem, capa da edição de 1845, da autoria de Edouard de Beaumont).

Marca: Match. Título: Match Made in Hell. Agência: Maximum Effort. Direção: Ryan Reynolds. Estados-Unidos, Dezembro 2020.

Blasfémia

Todos temos um anjo da guarda e um demónio pessoal. Às vezes, atravessam-se no pensamento. Perdemos lucidez e postura.

Devils and Hell’s flames. Séc. XIV.

“À liquidez de Zygmunt Bauman (Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press, 2000), prefiro a moleza de Abraham Moles (Les sciences de l’imprécis, Paris, Ed. Seuil, 1990). Permite conceber as pessoas como pedaços de plasticina. O homem pós-moderno é um pedaço de plasticina arco-irisada. Um contexto, uma cor, outro contexto, outra cor. Esta moleza camaleónica caracteriza-nos por dentro e por fora. “Eu sou vários”, logo proliferação; eu sou versátil, logo multiusos. Uma complexidade flexível? Uma equação para quase nada. Líquido? Mole? Quase nada?

Emil Nolde. Masks Still Life III. 1911.

Dos falecidos de infância, ainda lembro, cinquenta anos depois, o feitio, o carácter. Naquela pobreza, não havia ninguém incaracterístico. Mortos com identidade. E os novos mortos multidentitários? Quanto tempo vão persistir na memória colectiva? Arrisca-se não ser nada quando se é tudo. Uma pessoa estilhaçada é uma nuvem de estilhaços. Um nada volumoso em órbita de electrão. Quantos eus, quantas expressões de si, cabem numa única sepultura? Quais são as flores preferidas do defunto? O que nos impede de conduzir uma metáfora até aos últimos limites?” (Assinatura: Demónio de trazer por casa).

Marca: Rocket Morgage. Título: Comfortable. Agência: Highdive. Estados Unidos, Fevereiro 2020.

Diabos, diabas e diabinhos

Prenda de Natal. Diabo com diabinho ao ombro. Mistério. Barcelos.

Meia-noite feliz. Nesta freguesia, como em muitas outras, não há missa do galo. Apenas sinos e foguetes. O Natal está passado; agora é todos os dias. Convém dar tempo ao Pai Natal para descer e subir a chaminé. Coube-me um diabo com um diabinho ao ombro, da Mistério, de Barcelos. A minha cara! Há quem me ofereça prendas de que gostam; há, mais raro, quem me ofereça prendas de que gosto. Oferecer-me algo de que gostam e de que gosto é tão improvável como um eclipse solar. Um diabo com um diabinho ao ombro, há quem me conheça! Desertas as “catedrais do consumo” (Jean Baudrillard) e afrouxados os laços de amor (Zygmunt Bauman), regressam os infernos, com diabos e diabas com diabinhos ao colo (ver figuras 2 e 3). Ressurgem os malefícios e as tentações. O pecado.

Provocadora, a Madonna avançou no fio da navalha da moralidade. A primeira vez que a vi foi a cantar Like a Virgin. Vestida de noiva, simula, deitada no palco, algo como um orgasmo. Sustenta-se que a Madonna é polissémica. Mais ou menos polissemia, a Madonna esteve para ser presa no Canadá por causa da coreografia rasteira. Madonna, uma prenda! Segue uma interpretação, ao vivo, em 1984, de Like a Virgin, apresentada na MTV.

Madonna – Like A Virgin (Live MTV VMAs 1984).