Blasfémia

Todos temos um anjo da guarda e um demónio pessoal. Às vezes, atravessam-se no pensamento. Perdemos lucidez e postura.

Devils and Hell’s flames. Séc. XIV.

“À liquidez de Zygmunt Bauman (Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press, 2000), prefiro a moleza de Abraham Moles (Les sciences de l’imprécis, Paris, Ed. Seuil, 1990). Permite conceber as pessoas como pedaços de plasticina. O homem pós-moderno é um pedaço de plasticina arco-irisada. Um contexto, uma cor, outro contexto, outra cor. Esta moleza camaleónica caracteriza-nos por dentro e por fora. “Eu sou vários”, logo proliferação; eu sou versátil, logo multiusos. Uma complexidade flexível? Uma equação para quase nada. Líquido? Mole? Quase nada?

Emil Nolde. Masks Still Life III. 1911.

Dos falecidos de infância, ainda lembro, cinquenta anos depois, o feitio, o carácter. Naquela pobreza, não havia ninguém incaracterístico. Mortos com identidade. E os novos mortos multidentitários? Quanto tempo vão persistir na memória colectiva? Arrisca-se não ser nada quando se é tudo. Uma pessoa estilhaçada é uma nuvem de estilhaços. Um nada volumoso em órbita de electrão. Quantos eus, quantas expressões de si, cabem numa única sepultura? Quais são as flores preferidas do defunto? O que nos impede de conduzir uma metáfora até aos últimos limites?” (Assinatura: Demónio de trazer por casa).

Marca: Rocket Morgage. Título: Comfortable. Agência: Highdive. Estados Unidos, Fevereiro 2020.

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Sociólogo.

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