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Sem legendas

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Primeira Guerra Mundial. Trincheiras. Repouso.

O anúncio War, da Berlitz, destina-se ao público canadiano. Visa converter os franco-canadianos às vantagens do inglês. Desconheço a situação das nacionalidades no Canadá, mas ainda há algumas décadas, o Québec reclamava a independência. Em 1967, em Montréal, num discurso célebre, Charles Degaulle  proclama “Vive le Québec libre”. O anúncio War subentende uma relação de poder. Dedicado aos franco-canadianos, percorre o mundo. As insignificâncias do poder costumam tornar-se virais. A língua é o âmago da cultura e da identidade. Ferdinand de Saussure já sublinhava que uma língua é uma visão do mundo. A língua constrói-nos e com a língua construímos o mundo. A língua é o que temos de mais precioso. O essencial da indústria cinematográfica é norte-americano. Importa aprender inglês para ver os filmes sem ler as legendas. O predomínio de Hollywood não é recente. Vem, pelo menos, desde a Segunda Guerra Mundial. No entanto, nos anos sessenta, os filmes norte-americanos não assoberbavam as salas de cinema nem os canais de televisão europeus. Entretanto, o que sucedeu? O mesmo que noutros sectores como, por exemplo, a música ou a ciência: o predomínio anglo-saxónico. Mas também é de admitir a perda de capacidade de resposta por parte dos países europeus. Assisti à crise, ou declínio, do cinema francês nos anos setenta. Um dos principais motivos radicava na alteração da distribuição, decisiva no sector. De qualquer modo, continua a cavar-se o fosso entre os países que fazem o que lhes interessa e os países que fazem o que podem. Se quiser ver filmes de Hollywood sem legendas, fale inglês. Se pretender ler Fernando Pessoa sem dicionário, fale português. A desvalorização das línguas do continente europeu é uma desvalorização da sua cultura e da sua identidade, uma perda de poder. Caminhamos para um mundo monolingue, uma aberração na história cultural da humanidade. Em suma, um anúncio bem concebido, criativo e eficaz, que toma o garantido como certo.

Marca: Berlitz. Título: Sous-titres War. Agência: Rethink. Direcção: Jean-Marc Piché – Quatre Zéro Un. Canadá, Dezembro 2016.

Filmes do Homem. Melgaço, 2 a 7 de Agosto

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Existem, sempre, bons motivos para visitar Melgaço. Os Filmes do Homem 2016, Festival Internacional de Documentário de Melgaço, é um motivo muito especial. Decorre de 02 a 07 de Agosto, em várias localidades do concelho. Para aceder ao catálogo, carregar numa imagem ou no seguinte endereço: http://www.filmesdohomem.pt/doc/FDH2016.pdf.

Filmes do Homem. Projecção junto à Torre de Menagem. Melgaço, Agosto 2016.

Filmes do Homem. Projecção junto à Torre de Menagem. Melgaço, Agosto 2016.

Regresso à Cruz de Ferro

CruzdeFerro (1)

Desencantei, finalmente, uma cópia do filme A Cruz de Ferro (Brum do Canto, 1968) rodado em Castro Laboreiro (ver https://tendimag.com/2015/10/23/a-cruz-de-ferro/). Retrata o conflito entre duas aldeias por causa de um namoro e, por arrasto, da água. Agradeço este reencontro com A Cruz de Ferro, passado meio século, ao Valter Alves, um estudioso das gentes de Melgaço, cujo blogue recomendo: http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/. O filme completo está acessível no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=28HstNqSgb8. Segue um excerto. Privada de água, a população, na maioria mulheres, decide construir um engenho de rodas articuladas capaz de elevar a água do rio até à aldeia (vídeo 1). Uma demonstração da potência popular, sobre-humana, cara ao Estado Novo, patente, também, no episódio da reconstrução, “durante três dias e três noites”, da Praça de Touros de Guimarães, no ano de 1947 (vídeo 2).

Vídeo 1. A Cruz de Ferro. Realizador: Brum do Canto. Portugal. 1968. Excerto: 01.32.20 – 01.41.40.

Vídeo 2. Reconstrução da Praça de Touros de Guimarães (1947).

A esfinge digital

MTV 2

 “MTV – now on your television, on your phone, on your computer, even on the chip in your brain. MTV is the marriage of the biological and the digital, a perfect combination of soundwaves, particles and lust. It is mooniest compressed into a signal for terrestrial and extra terrestrial consumption. A machine is exact. An animal is flexible. MTV is not one or the other. It is both and it makes me want to dance. You are a series of electrical impulses in a meat sack. MTV is a series of letters that used to stand for words. In the future, we don’t use the word ‘future,’ and MTV isn’t not the future. Because knows what gravity is but everyone knows that dancing is fun…”

Estreado durante o evento 2015 MTV Video Music Awards, “Tagline Here” é um meta-anúncio surrealista, que tacteia sem encontrar. Trata-se de uma montagem que alinha, sem sentido nem razão, 35 excertos de filmes. As sequências desenrolam-se sem se cruzar. Não há consolidação. A esboçar-se alguma identidade, ela será flexível e transitória, como uma esfinge híbrida que dança, sem se cansar, por entre espaços e tempos, ondas, audiências, mapas e calendários.

Marca: MTV. Título: Tagline Here. Agência: Ghost Robot. Direcção: Benjamin Dickinson. USA, setembro 2015.

Virados do avesso

Kate MacDowell. Daphne. 2007.

Kate MacDowell. Daphne. 2007.

Quem rejeita desencontros como este?
O anúncio da Interflora é uma bela parábola.
Diferença, aproximação, devir.
O gótico torna-se clássico, e vice-versa.
Tu não és apenas o que és mas o que podes ser.
Contraditorial, é atributo do homem poder virar-se do avesso.

Marca: Interflora. Título: Odd love. Agência: Brandhouse. Direcção: Martin Werner. Dinamarca, Fevereiro 2015.

A Marca da Consagração

shaolin_pepsiEnquanto o Mundial de Futebol seca a publicidade, vale a pena revisitar as relíquias. Este anúncio da Pepsi Cola é genial: exotismo, Oriente, monges, kung fu, “solidariedade mecânica”, humor e, por último, a MARCAção do escolhido. Não parece, mas é um anúncio francês.

Marca: Pepsi Cola. Título: Kung Fu. Agência: CLM BBDO. Direcção: TARSEM. França, 2002.

Ser ou não ser cão

O2. Be more dog.

Se não gosta da sua identidade, faça uma actualização. Este anúncio da O2 é uma delícia.

Marca: O2. Título: Be more dog. Agência: VCCP. UK, 2013.

Se chove, que chova

Se chove, que chovaOs meus avós paternos eram galegos. Na aldeia, da janela do quarto vejo a Galiza e oiço o comboio galego.

Este anúncio dispensa palavras: “São necessários dois anos para aprender a falar e sessenta para aprender a calar” (Ernest Hemingway).

Um abraço, Ludo! És a mais galega das minhotas!

Marca: Supermercados Gadis. Título: Se chove, que chova. Espanha, 2013.

Espelho

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“Chapéus há muitos, seu palerma!” (Vasco Santana, Pátio das Cantigas). Identidades, também! Fragmentadas, líquidas, múltiplas, híbridas, virtuais, camaleónicas… Neste anúncio francês, a identidade desafia o espelho. Não fosse a idade, seria mais um apontamento para a teoria do estádio do espelho.

Marca: Nestlé – Extrême. Título: Le reflet. Agência: JWT Paris. Direcção: Sébastien Grousset. França, Maio 2014.

 

O Mesmo e o Outro (Vincent Descombes)

NOMAD zepplin

A publicidade consta entre os segmentos de actividade mais dinâmicos e mais criativos da actualidade. Houve tempos em que o protagonista do anúncio era o produto que absorvia quase todo o conteúdo. Ao produto deu-lhe, entretanto, para se esconder à sombra da marca. O diálogo entre a marca e o conteúdo passou a predominar. Mas sempre subsistiu um vértice no poliedro publicitário: o espectador, o consumidor ou público, como se lhe queira chamar. O público, eventualmente alvo, nunca foi meramente passivo. Mas sê-lo-á cada vez menos. Não se reduz a uma questão de interacção. O público tende a fazer parte do anúncio. O anúncio apresenta o produto, propõe o conteúdo, promove a marca, mas também caracteriza o público. O anúncio diz as qualidades do produto, da marca e do consumidor, do público alvo. Cabe ao espectador aproximar-se ou afastar-se, proceder a uma montagem identitária com as peças do puzzle incluídas no anúncio. O segredo reside nesta montagem que pressupõe, para além de uma identificação, uma participação, um sujeito, e não um mero receptor, do outro lado do ecrã. Esta leitura resulta de conversas vadias com o Carlos Nascimento. Pertence-lhe. Tem como pretexto a campanha Respect, da Nomad, uma empresa espanhola de pranchas de skateboard, implantada em 22 países. A campanha desdobra-se por três anúncios alusivos a três profissões: cientista, violinista e polícia. Não é o melhor exemplo para ilustrar o triângulo composto pela marca, pelo conteúdo e pelo público alvo. Mas essa geometria transparece, por momentos, de um modo tão luminoso que vale a pena destacar a campanha.

“Los tres spots de LOLA para Nomad Skateboards, realizados por Diana Kunst de Garlic Producciones, reflejan el paralelismo que existe entre diferentes profesiones y el mundo del skate, a través de una serie de reflexiones que nos hacen ver que entre estos mundos no hay tanta diferencia. Un científico trabaja e investiga hasta conseguir los resultados deseados, al igual que un patinador. Un violinista practica hasta depurar su técnica con un instrumento construido con madera y el patinador también. Por último, un policía, que a pesar de parecer tan diferente a un skater, comparte con él la dedicación por lo que hace.

Juan Sevilla, Director Creativo de la marca y creador de la campaña, explica: “Llevamos años trabajando con Nomad y la relación que tenemos con el cliente, con Iván e Itziar para ser más exactos, es muy buena. El contacto que tenemos con ellos y su equipo de skaters nos ha hecho entender dónde está el mundo del patín en este momento.” Sevilla asegura que “Nomad es una marca que conoce muy bien su target y por eso nuestras campañas intentan estar siempre cerca de él. Buscamos ideas que conecten con ellos y que partan de insights del mundo del patín pero que, además, cualquiera pueda entender.

Por su parte, Chacho Puebla, Director Creativo Ejecutivo y Socio de LOLA, asegura que “estamos muy contentos con el lanzamiento de esta campaña y estamos convencidos de que les ayudará en su objetivo de abrirse aún más al mercado internacional”. Para Iván Moreno Puché, Socio y Fundador de Nomad Skateboard, “trabajar con LOLA nos ha abierto la mente a otras formas de comunicación dentro de la industria del skateboarding. Nomad está en una fase de “renacer” y, por lo tanto, de poder comunicar bajo nuevos estilos, ajenos a los clásicos marcados por la industria, es un reto que, sin duda, me apasiona”. Queremos madurar con la marca, darle una personalidad y un concepto diferenciador y estas campañas, sin duda, contribuyen. Creo que, además, abren nuevos horizontes en la manera de comunicar y promover el skateboarding en general. Estamos rompiendo muchos estereotipos” (http://www.programapublicidad.com/lola-lanza-respect-para-nomad-skateboards/#.U1U-ffldV8F).

No conjunto, a campanha é uma procissão de valores, artes e traços identitários, um dispositivo de reconhecimento e demarcação:

– Somos como os cientistas, mas somos diferentes
– Somos como os violinistas, mas somos diferentes
– Somos como os polícias, mas somos diferentes
– Somos surfistas, mas somos Nomad
– We are the same, We are different

“Mais do que nos outros dois, o anúncio do polícia confunde-nos, levando-nos a pensar que o auto-retrato seria dele e não, como nos apercebemos no final, do skater que fecha o filme. Este é sem dúvida o mais bem conseguido desta trilogia. Se no caso do cientista e do violinista o anúncio termina com uma proposta de analogia, valendo isso o que vale, a correcção no desfecho do anúncio do polícia chega-nos por um subtil momento de tensão assumindo tratar-se efectivamente de contrários. O testemunho pertence, afinal, a quem está do outro lado da barricada. Na verdade, há dois intervenientes que dizem o texto: aquele que julgamos que o diz e aquele que, constatamos, o diz efectivamente. Mas, dizê-lo por empréstimo é menos nobre do que dizê-lo como proprietário. Na boca do verdadeiro dono o texto dilui-se e o que passa apenas a contar é o sujeito, aquele que é diferente porque afirma que ele e o seu oposto são iguais” (Carlos Nascimento).

Nos vídeos, carregar em HD.

Marca: Nomad Skateboards. Campanha: Respect. Título: Police. Agência: Lola / Lowe & Partners. Direcção: Diana Kunst. Espanha, Abril 2014.

Marca: Nomad Skateboards. Campanha: Respect. Título: Violinista . Agência: Lola / Lowe & Partners. Direcção: Diana Kunst. Espanha, Abril 2014.

Marca: Nomad Skateboards. Campanha: Respect. Título: Cientifico. Agência: Lola / Lowe & Partners. Direcção: Diana Kunst. Espanha, Abril 2014.