Tag Archive | identidade

Virar costas a Castela

Padrão dos Descobrimentos. Lisboa.

Virar costas à latinidade não traz bom vento. Insensatez de Estado, cenoura do povo e oportunismo do resto.

Conhece Angelo Branduardi? Não? E a Billie Eilish? A cereja no bolo do terceiro milénio é a avaliação assente na ignorância electronicamente ruidosa. O Angelo Branduardi é uma espécie de José Afonso da Itália. Ao prestar-lhe atenção, paramos, por um momento, de coçar o mainstream. Boiar na corrente é cómodo, mas nada pessoal. Sem cabeça, coração e estômago, com raízes gastas, sob uma tempestade de gadgets e emblemas, arriscamos o excesso semiótico e o distúrbio gastro-identitário.

Viramos costas à latinidade com o freio nos dentes. Afigura-se estúpido desvalorizar o que somos.

Angelo Branduardi. La Luna. La Luna. 1975.
Angelo Branduardi. Alla Fiera Dell’ Est. Alla Fiera Dell’ Est. 1976. Ao vivo em 1996.
Angelo Branduardi. La Pulce D’Acqua. La Pulce D’Acqua. 1977. Ao vivo em 1983.

O murmúrio e o grito

As questões de identidade constituem uma fonte incansável e delicada de discursos. A publicidade não se faz rogada. A propósito, por exemplo, de brinquedos, do cancro da mama ou da assunção de género. Pode significar-se uma identidade discretamente, em modo quase confidencial. Dispensa-se gritar ou arranhar sensibilidades. Há anúncios que transpiram subtileza, outros sopram trombetas num filme mudo.

Marca: Dreamland. Título: Déballe tes rêves. Agência: Mortierbrigade (Bruxelles). Direcção: Marit Weerheijm. Bélgica, Novembro 2019.
Marca: Pink Ribbon. Título: Finally. Agência: Mortierbrigade (Bruxelles). Direcção: Marit Weerheijm. Bélgica, Setembro 2018.

Para aceder ao anúncio seguinte, carregar na imagem.

Anunciante. 22nd San Francisco International Lesbian & Gay Film Festival. Título: Au cinéma. Estados Unidos, 1998.

A cópia e o fragmento

“Nós só conhecemos verdadeiramente aquilo que é novo, aquilo que introduz bruscamente na nossa sensibilidade uma mudança de tom que nos choca, aquilo que o hábito ainda não substituiu pelos seus pálidos fac-símiles. Mas foi sobretudo este fraccionamento de Albertina em numerosos fragmentos, em numerosas Albertinas, que era o seu único modo de existência em mim (…) Cada um de nós não é uno, mas contém numerosas pessoas que não possuem todas o mesmo valor moral” (Marcel Proust, À la recherche du temps perdu. Livre 6 : Albertine Disparue, 1927).

Sempre que me deparo com o tema da sensibilidade, acode-me Marcel Proust, “o realista da alma” (Gazette de Lausanne, 15 de Abril de 1914). Leio e releio Proust pelo prazer literário, mas também pela vontade de aprender. Muitos autores, a começar por Pierre Bourdieu, encaram a obra de Marcel Proust como uma inspiração e uma referência da micro-sociologia. Na presente citação, Marcel Proust releva o “fraccionamento de Albertina (…) em numerosas Albertinas”. No que respeita à fragmentação identitária e à polifonia, Marcel Proust sucede a Arthur Rimbaud (“Eu é um outro”; Carta a Paul Demeny, 15 de Maio de 1871), mas precede Mikhail Bakhtin e Erving Goffman. Sem ofensa deontológica, no ofício recorro tanto a Blaise Pascal, Marcel Proust, Thomas Mann e Fernando Pessoa, quanto aos faróis mais sublimes do panteão da sociologia académica. Talvez por influência da sociologia fenomenológica, acredito que o conhecimento do social não começa, nem acaba, com um diploma ou uma certificação.

Men Pioneers, da Nívea (México), é um excelente anúncio. Encerra várias ressonâncias que compete a cada um interpretar. Por exemplo, a contradição entre o gládio e a taça (Gilbert Durand) e, eventualmente, a alusão à homossexualidade. Os episódios são impactantes, uns originais, outros, como diria Proust, fac-símiles: concentrados de sentido e emoção já circulados e testados. Despoletam um efeito garantido. O eco e a redundância podem ser amigos da persuasão.

Marca: Nivea for men. Título: Men Pioneers. Agência: FCB Mexico. Direcção: Nico Perez Veiga. México, Outubro 2019.

A corrosão electrónica

Francis Bacon. Tríptico. Três estudos para um auto-retrato. 1976.

O Brasil salienta-se pela homeopatia, cultural, do grotesco. Reúne sábios e rituais notáveis. Não espanta o anúncio Anger (Raiva), do Clube de Recriação do Rio de Janeiro. Coaduna-se, aliás, com o espírito da publicidade de festivais congéneres (vídeo, cinema, documentário). Estamos habituados. Mas o Anger exorbita. Na idade electrónica, as máscaras, a nossa identidade natural, deformam-se catastroficamente, e ódio já não se estranha, entranha-se. Quanto à nossa imagem, aproxima-se de uma orgia de pixels.

Anunciante: Clube de Recriação do Rio de Janeiro. Título: Anger / Raiva. Agência: FCB Brasil. Direcção: Alton. Brasil, 28 de Agosto de 2019.

O egomundo e a pavimentação da vida

Figura 1. Lugar da Serra. Prado. Melgaço. Fotografia de Álvaro Domingues.

Este artigo é estúpido. Levanta problemas que não existem.

Acreditei inventar uma nova palavra, por sinal, óbvia: egomundo. Mas em Coimbra, uma empresa tem esse nome. Egomundo é o antípoda do mundo colectivo. Remete para a experiência, a memória e o sentido da vida de cada pessoa. É um cúmulo de subjectividade. Uma perspectiva subjectiva de um ponto de vista subjectivo. Nada de consensos, tribalismos ou projectos sociais. Sem retóricas religiosas, científicas e técnicas, o mundo gira em torno do egocentro.

Tenho-me deslocado com alguma frequência à minha terra. No limiar do tempo e do espaço, deixo os olhos e a memória pastar. Demando os sítios onde costumava jogar ao espeto e ao pião. Alcatrão, cimento ou empedrado. Em centenas de metros em redor, é materialmente impossível jogar ao espeto ou ao pião. Terra, só nos campos. Não sendo terra batida não dá para jogar. O cimento e o alcatrão conquistaram tudo. Mesmo nas povoações, a estrada não tem valetas. Não cresce uma única planta. Na Serra, local de convívio público da freguesia, a maré negra e cinza cobriu tudo, até trepou os degraus do cruzeiro. Estar sentado no passeio proporciona o conforto de uma lagartixa numa eira de basalto. O ar aquece de baixo para cima. Assim o impõem o trânsito e a velocidade. Não admira que as estradas se alarguem até ao último milímetro. Os carros também se alongam: um Volkswagen carocha media 1.54 metros de largura; o Golf mede 1.799. Dois Golf que se cruzam, carecem de mais 1.03 metros de estrada. Na minha freguesia, tudo quanto é estrada, caminho ou largo foi asfaltado ou cimentado. Na minha infância, apenas a estrada nacional era asfaltada.

Figura 2. Terreiro. Prado. Melgaço. Fotografia de Álvaro Domingues. Público, 28/07/2019: “Terreiro”.

O Terreiro era o “campo de futebol” mais à mão. Ficava no caminho da escola e da catequese. Térreo, era um regalo para o jogo da bola. O cruzeiro delimitava uma baliza e uma pedra a par de um pilar das escadas da Igreja, outra. Primeiro, empedraram-no, para mal dos nossos joelhos e cotovelos. Acabaram por o asfaltar e cimentar nas bordas. Porquê tamanha intemperança pavimentar? À velocidade e à circulação, temos que acrescentar um outro cavaleiro do asfalto: o estacionamento. A terceira aresta do triângulo rodoviário: velocidade, circulação e estacionamento. Asfaltou-se todo o terreiro para facilitar o estacionamento, o repouso do motor. O asfalto e o cimento são materiais invasivos. Alastram e grassam. Acontece-lhes engordar. Na minha casa de infância, para entrar na loja convinha subir um degrau; agora, convém descer.

O alcatrão tem muitas virtudes. Quando o sol queimava, fazia esferas com o alcatrão derretido. Não davam, porém, para “jogar aos berlindes”. O pavimento da estrada era perfeito para andar de patins. Com pouca gravilha, areia e cascalho, ficava polido, quase sem atrito. Os dois quilómetros sempre a descer até às termas do Peso eram uma tentação. Dei quedas dignas do cinema mudo.

A minha freguesia, para além de terra, também tem água. Muita água, a condizer com o nome: Prado. Em criança, via-se e ouvia-se cantar a água por todo lado. Agora, nem se vê, nem se ouve; adivinha-se. Dava jeito uma vara de detecção de água subterrânea. Tudo quanto é rego ou poço foi encanado ou tapado, sobretudo, com cimento. A minha casa de infância era contornada por cursos de água em três frentes. A cerca de 70 metros, a levada proveniente do ribeiro dividia-se em três regos: um prosseguia para o lugar da Corredoura; outro passava por debaixo do caminho e, após uma pequena cascata, por baixo da estrada rumo à Serra; o terceiro mergulhava uns quatro metros num “tubo” de granito e reemergia do outro lado da estrada a uma altura de quatro metros noutro “tubo” de granito rumo à Quinta dos Governadores. Tudo foi encanado e tapado, salvo uma dezena de metros destinados a uma espécie de arremedo de lavadouro público. Já não se enxergam nem girinos cabeçudos, nem “alfaiates”. Nestes cursos de água, refresquei os pés no Verão, pilotei barcos, uns de casca de pinheiro, outros de madeira, com mastros de cana e velas de plástico. Fitava, quase hipnotizado, a água corrente à cata de uma truta. Tudo tapado! Até a “arquitectura granítica dos vasos comunicantes” foi cimentada. Para quê? Para alargar a curva. A uns sete metros da entrada da casa, do outro lado da estrada, na base de um muro alto de saibro, uma mina de água, cuja entrada escondia cristais de quartzo ferruginoso. Ali, colocávamos a refrescar as garrafas de bebidas. Munidos com uma lanterna, arriscávamos explorar a mina. Às vezes, éramos obrigados a parar: o tecto da mina tinha desabado. Nestas circunstâncias, subia ao campo que se situava por cima da mina. Lá estava um buraco enorme provocado por um aluimento de terras. Como medida segurança, a entrada da mina foi cimentada.

Figura 3. Casa de infância. Serra. Prado. Melgaço. Fotografia de Gonçalo Dias. Público 28/07/2019: Micro-retrato de um país “corrente de ar” pela vida de duas freguesias.

A terra e a água, esta terra e esta água, fazem parte da nossa memória e identidade. Por que motivo se enterra a água e tapa a terra? Não é, decerto, para evitar acidentes, a exemplo do sacristão que, durante o compasso, caiu com a cruz num curso de água que atravessava o caminho ou da mulher que se afogou num rego. É verdade que se ganham centímetros nas estradas e, porventura, eficácia na distribuição da água.

A expansão do asfalto aumentou a velocidade e reforçou a segurança dos automóveis. E a insegurança dos peões. Sem passeios, existem bermas onde ninguém ousa andar. Na curva da Serra, uma motorizada partiu uma perna a uma pessoa e um idoso foi atropelado mortalmente por um automóvel. Ambos caminhavam pela berma. Um motão entrou pela loja dentro!

Acessibilidade, velocidade, expansão, segurança e eficácia são trunfos do baralho da modernidade materialista (o presente inclinado para o futuro). Mas há mais. Desviando o olhar do espaço público para o espaço privado, constata-se que, junto às moradias, quase todo o solo está pavimentado. Com pedra, mármore, mosaicos, cimento e outros pavimentos. Nada de lama, poças, erva ou bicharada. Tudo asseado e de fácil manutenção. Alguém imagina quanto custa cuidar de um relvado ou de um canteiro de flores? Dar vida à vida dá trabalho. Acrescentam-se, assim, mais duas vantagens a favor da pavimentação: a higiene e a facilidade de manutenção.

A pavimentação da terra e a canalização da água conheceram um franco crescimento nas últimas décadas nos espaços públicos e privados. Autoestradas, caminhos, praças, recintos, nada escapou. Há quem diga que é uma das conquistas de Abril! Seria interessante ter acesso a fotografias de satélite com a evolução da pavimentação em Portugal.

Figura 4. Árvores crescem na pedra. Moledo do Minho. Fotografia de Fernando Gonçalves.

Pavimenta-se quase tudo. Cobre-se a terra, a pedra e a água. Por enquanto, não se colocam tectos no céu, apenas fios de electricidade onde se enredam os papagaios de papel (ver figura 2). Esta pavimentação do mundo impede a vida, apesar da ilusão do crescimento de árvores na pedra, no cimento ou do alcatrão (ver figura 4).

Esta é a nossa ecologia. Embalsamadores da natureza envolvente, que autoridade nos resta para protestar contra deflorestação da Amazónia, o aquecimento global ou a plastificação do oceano Pacífico?

A pretexto do Terreiro, em Prado, Álvaro Domingues escreve:

“Contrariamente à lentidão do tempo longo no passado pré-moderno, os localismos só sobrevivem na velocidade rápida exigida pela sua franca exposição a tudo o que vindo de onde vier, mexe e circula” (Terreiro, Público, 28 de Julho de 2019: https://www.publico.pt/2019/07/28/opiniao/ensaio/terreiro-1881329).

Prado está inclinado para a frente. É um cata-vento de oportunidades que cavalga na crista dos limites.

E o meu egomundo, cúmulo de subjectividade, como anda? Introspectivo, nostálgico e birrento. Como o Angelus Novus (1920), de Paul Klee, avança às arrecuas com os olhos postos nas ruínas. Anda com vontade de não chegar. “Y al volver la vista atrás / se ve la senda que nunca / se há de volver a pisar (…) Todo passa y todo queda, pero lo nuestro es passar, passar haciendo caminos, / caminos sobre la mar” (Antonio Machado, Proverbios y cantares, XXIX / XLIV, Campos de Castilla, 1912).

O anúncio Release Me, da Saab, também é um poema: de vitalidade e liberdade. Podia tê-lo colocado no início do artigo.

Anunciante: Saab. Título: Release Me. Agência: Lowe Brindfors, Sweden. Suécia, Junho 2007.

Antonio Machado. Proverbios y cantares.
XXIX
Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
XLIV
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar

Margens (Ficção)

M.C. Escher. Encounter. 1944.

Das margens sólidas da fábrica da razão para as margens líquidas do Norte, de onde contemplo a Espanha, coisa digna de ser vista.

Na fábrica da razão certificada, no concelho onde resido, anda tudo com a fita métrica elástica na cabeça. Nada escapa à quantificação. Algum resto inverosímil que resista tem o selo do sétimo dia da criação. O “sonho da razão” Goya “persegue a medida de tudo e a relevância de nada” (Pitirim Sorokin). Assim como existe o “reino da Taquicardia” (filme de Paul Grimault: https://tendimag.com/2011/09/04/o-reino-de-taquicardia-animacao-musica-e-palavra/), também existe o reino da Quantofrenia. Se na fábrica da razão a medida é compulsiva, nas margens salgadas da minha residência balnear, “estigmatizam” mais do que me calculam. Somos semáforos de identidade. Olha-se para a barriga e não se vê mais nada. O cerne, segundo Goffman, do estigma: a parte polui o todo. Não sei que escolher: ser medido ou estigmatizado. Ontem, fui ao restaurante. Fiz o pedido. O empregado inspecciona, focaliza a barriga e pergunta: quantas doses? Acho que vou regressar antes do Carnaval às margens da fábrica da razão: medem-me a barriga como caso particular do geral. A avaliação é como a “donna” do Rigoletto de Pucinni: incerta e volúvel, mas abstracta e global, graças aos indicadores, aos índices e às ponderações. Nunca conhecerei ao certo o volume da barriga. Aguardo, os cartógrafos de Jorge Luís Borges:

“Naquele Império, a Arte da Cartografia logrou tal perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele” (Jorge Luís Borges, “Sobre o Rigor na Ciência”, in História Universal da Infâmia, Assírio e Alvim,1982, 117).

Hoje fui ao concelho do meu berço, as minhas margens de água doce. Fui a uma residência sénior. No salão, uma mulher de 89 anos exclama: “Olhó Tino! Há quanto tempo!” E dá-me um abraço. A barriga não estorvou. Nestas margens de água doce, não sou nem uma equação nem uma aparência. Tenho um nome, uma história e afectos. Sem precisão de números. Como diria Alfred Schutz, sou um ser “apostrofado”, uma pessoa única, avessa a generalizações.

Das margens da água salgada e da água doce, avista-se a Espanha. Também se pode ouvir pela mão de um pianista norte-americano: Chick Corea, com Bobby McFerrin

Spain. Chick Corea com Bobby McFerrin. Original: Return to Forever. Light as a Feather. 1972.

O máximo no mínimo

Apple. The Bucket. 2019,

Muitos anúncios do Extremo Oriente são longos, acima de cinco minutos, lentos, de escassa acção, e moralmente elevados, debruçam-se sobre valores essenciais da vida. A história, os actores e a moral bem podiam limitar-se a menos tempo e a menos imagens. Mas não seria a mesma coisa. Não há maneira alternativa de sentir “o sabor da casa e o sabor da terra”. Sem pressa. Há culturas que colocam o mínimo no máximo. O antropólogo Marshall Sahlins estuda esta sabedoria em vários povos e culturas (Stone Age Economics, Chicago, 1972). A sabedoria dos ocidentais é diferente. Consiste em colocar o máximo no mínimo. Somos os apóstolos da compressão e do exorcismo do vazio. Até a morte, que, segundo Epicuro, não é nada para nós, recheamos de rituais e fantasmas.

A morte não é nada para nós (Epicuro)
“Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.
Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente: ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é um mal”  (Epicuro, Carta sobre a felicidade – a Meneceu, São Paulo, Editora UNESP, 2002, pp. 27-31).

Marca: Apple. Título: The Bucket. Agência: TBWA. Direcção: Jia Zhangke. China, Janeiro 2019.

A última vontade

Serge Reggiani

Serge Reggiani

Gosto de ouvir música enquanto leio ou escrevo. Propicia uma atmosfera balsâmica. Distraio-me a compor ramalhetes musicais para consumo futuro. Hoje é a vez de Serge Reggiani. No meu panteão da “canção” francesa, está ao lado do Jacques Brel ou do Léo Ferré. Cantam, antes de mais, poemas, poemas sobre a humanidade. Poemas para a humanidade. Poemas que dão a um homem vontade de o ser.

Para a “lista” do Serge Reggiani, retive três canções já publicadas, isoladamente, no Tendências do Imaginário: Sarah; Le temps qui reste; e Ma liberté. Acrescento: Ma dernière volonté; Ma solitude; e Il suffirait de presque rien.

A maioria das pessoas não aprecia este tipo de música, ademais em francês. Mas quem gosta gosta mesmo. Tem direito ao prazer! No que me respeita, a canção Ma dernière volonté é um caso sério: quase me rouba a identidade antes de ela existir.

1. Serge Reggiani. Sarah. Album nº2. 1967.

2. Serge Reggiani. Ma Solitude. Album nº 2. Letra e música de Georges Moustaki.

3. Serge Reggiani. Ma liberté. Album nº 2. Composta por Georges Moustaki. 1967.

4. Serge Reggiani. Il suffirait de presque rien. Et Plus. 1968.

5. Serge Reggiani Ma derniere volonte. Venise n’est pas en Italie. 1977.

6. Serge Regianni. Le temps qui reste. Long Box Serge Reggiani. 2004.

 

Incerteza

 

DNBBank_Clones18-1024x683

Janus tem duas faces. Cristo, três. Hoje, os jovens parecem ter dezenas. Têm resmas de identidades e fronteiras. E cabe tudo na cabeça. No anúncio Clones, do DNB Bank, as faces são muitas e conflituosas. Todos nos comprazemos a receitar incerteza, uma palavra para uns, um desafio corrosivo para outros.

Marca: DNB Bank. Título: Clones. Agência: try. Direcção: Joe vanhoutteghem. Noruega, Maio 2018.

A cópia, a série e a ovelha negra

Golconda, 1953 by Rene Magritte

René Magritte. Golconda. 1953.

Trump X Magritte. The Surrealist Series by Butcher Billy (2016) Trump Travesty

Trump X Magritte. The Surrealist Series by Butcher Billy (2016) Trump Travesty.

Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões (Walt Whitman).

Eu me duplico? Pois muito bem, eu me duplico. Sou amplo, contenho massas. A reflexividade não é pós-moderna. Mas tanta reflexividade, quem sabe? “Eu é um outro” (Arthur Rimbaud). Numa galeria de espelhos, eu sou vários outros iguais a mim. Um desfile de cópias como no Golconda de René Magritte. Mas ressalve-se: ainda existem ovelhas negras. O vídeo de Vladimir Cauchemar não as esquece.

Vladimir Cauchemar. Aulos. Direcção: Alice Kunisue. Ed Banger records. 2017.