Vade retro! Atribulações das almas

Em 29 de dezembro de 2014, publiquei o artigo A caminho do inferno. Retoquei-o várias vezes: em 3 de janeiro de 2015, com o título O último suspiro, aumentei-o. Em 23 de agosto de 2017, procedi a uma nova revisão, optando pelo título inicial A caminho do inferno; por último, em 15 de janeiro de 2023, retomei-o, no blogue Margens, com o título Atribulações das almas, acrescentando um vídeo com gravuras do Livro Horas de Taymouth e um excerto do álbum Heaven and Hell, do Vangelis. Recoloco esta versão mais recente e mais completa.
Jogar às cartas com o Diabo 2. Chove no inferno
No dia 3 de agosto de 2021, após três semanas de internamento, tive, enfim, alta. Pouco são, mas salvo [aguardava-me cerca de um ano de cadeira de rodas e ainda não dispenso a bengala]. Espreitava, porém, a esperança. A tendência desenhava-se auspiciosa: de mal para melhor. Chegado a casa, logo acudi ao Tendências do Imaginário. Era o reencontro com uma componente pessoal de que sentia saudades.

Os primeiros artigos suspiravam alívio. Recomeçava o alfabeto [Vangelis- Alpha]. “Sobrevivente do desespero (…) estava de volta” (Regresso, 03.08.2025); escapara graças a um fenómeno contranatura: “choveu no inferno” (Alívio, 04.08.2025). A terra ainda ressumava um cheiro abençoado a fumo molhado.
Seguem os artigos Regresso (03.08.2021) e Alívio (04.08.2021)
Regresso
Uma coisa é escrever sobre a morte, outra privar com ela. Durante um ano, fui vítima de intoxicação severa não diagnosticada. Uma degradação galopante interminável. Para fumar, tinham que me segurar no cigarro. Sobrevivente do desespero. Acabei internado, uma semana nos cuidados intensivos. Cruzei-me com a morte e não dei por ela. Nem sombra de memória. Espero estar de volta. Obrigado!
Alívio
Chove no inferno!
Purgatório eterno
Eis o homem! Põe a culpa no sapato quando o culpado é o pé (Samuel Beckett. À espera de Godot. 1953).

Vou dedicar os próximos dias ao compositor polaco Zbigniew Preisner. Comecemos pelo céu (Ciel, Opéra Egyptien) para passar em seguida ao inferno (Enfer, La Double Vie de Véronique). Para assistir a um “purgatório eterno”, aconselho À Espera de Godot, de Samuel Beckett, em cena no Theatro Circo, quinta 15 e sexta 16, às 21:30. Entre as peças de teatro que mais me marcaram.
À Espera de Godot – um título que se tornou proverbial em todo o mundo. Talvez nenhuma outra peça do séc. XX tenha conhecido um alcance tão expressivo, tão global. É legítimo afirmar que, na noite em que estreou esta “tragicomédia em dois atos”, Samuel Beckett alterou por completo não apenas a literatura dramática, mas a própria condição teatral. Numa estrada, junto a uma árvore, duas criaturas sem eira nem beira, saídas de um vaudeville ou do cinema mudo, entretêm-se com jogos e picardias, rindo e chorando, discutindo tudo: um par de botas, os Evangelhos, o suicídio… Aguardam por alguém que não chega, que nunca chega: Godot, personagem-mistério que Beckett sempre se recusou a identificar com Deus, porque, mais do que aquilo que esperamos, lhe interessava realçar o que acontece enquanto esperamos (https://www.theatrocirco.com/pt/agendaebilheteira/programacultural/1332).
Fogo

Fui ao inferno. Ainda cheiro a enxofre. Mas estou de volta. E apetece-me uivá-lo com os Polar Bear Club. Como quem vomita o fogo que consome as entranhas.
À porta do inferno

Bruno Aveillan produz uma curta-metragem, Divino Inferno, dedicada à Porta do Inferno, de Auguste Rodin. Uma confluência de dois artistas do sobre-humano. Uma esteticização do sofrimento extremo e da resistência visceral. O desespero, a travessia arrepiada.
Seguem três vídeos. 1) Divino Inferno; e 2) Humans, ambos de Bruno Aveillan; e, para complemento, 3) Auguste Rodin – The Gates of Hell, um documentário do Canal Educatif à la Demande (CED).
Arca de Noé

“Esta manhã, ocorreu-me, pela primeira vez, a ideia de que meu corpo, este fiel companheiro, este amigo mais seguro, mais meu conhecido do que a minha alma, não é senão um monstro manhoso, que acabará por devorar seu próprio dono. Paz… Gosto do meu corpo, serviu-me muito e bem” (Marguerite Yourcenar, Memoires d’hadrien, 1951).
“O inferno somos nós”. Não me lembro quem escreveu este disparate, mas é um exagero! Importa aliviar a auto-flagelação. Olhar o espelho pelo canto do olho. Na verdade, somos apenas um ninho de monstros (imagem 2) ou um bestiário ambulante (imagem 1). Por outras palavras mais vantajosas: somos uma arca de Noé sonhadora.
Fernando e Albertino

Pandemónio

“Quando morrer vou para o paraíso porque já tive o meu tempo de inferno” (Stephen King, Rose Madder, 1995).
Na Idade Média, o inferno morava ao lado. Os seres humanos viviam rodeados de demónios, bruxas e possessos. Sentia-se o bafo de Satanás. Mas, por temíveis que fossem as incursões do diabo, o inferno pertencia a outro mundo. Normalmente, à direita nos painéis de Hieronymus Bosch; em baixo, também à direita, nas pinturas do juízo final.

Quando Jean-Paul Sartre afirma que “o inferno são os outros” altera a geografia do mal. O inferno está perto, está à nossa volta. Os quadros e as gravuras de Francisco de Goya já o evidenciavam. Há mais de dois séculos! Sejamos, porém, mais radicais. Basta um sobressalto de reflexividade: o inferno não são apenas os outros; o inferno somos nós. Os demónios, também. As pinturas de Otto Dix exprimem esta condição. Andamos todos estropiados porque nos estropiamos uns aos outros.

Blasfémia
Todos temos um anjo da guarda e um demónio pessoal. Às vezes, atravessam-se no pensamento. Perdemos lucidez e postura.

“À liquidez de Zygmunt Bauman (Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press, 2000), prefiro a moleza de Abraham Moles (Les sciences de l’imprécis, Paris, Ed. Seuil, 1990). Permite conceber as pessoas como pedaços de plasticina. O homem pós-moderno é um pedaço de plasticina arco-irisada. Um contexto, uma cor, outro contexto, outra cor. Esta moleza camaleónica caracteriza-nos por dentro e por fora. “Eu sou vários”, logo proliferação; eu sou versátil, logo multiusos. Uma complexidade flexível? Uma equação para quase nada. Líquido? Mole? Quase nada?

Dos falecidos de infância, ainda lembro, cinquenta anos depois, o feitio, o carácter. Naquela pobreza, não havia ninguém incaracterístico. Mortos com identidade. E os novos mortos multidentitários? Quanto tempo vão persistir na memória colectiva? Arrisca-se não ser nada quando se é tudo. Uma pessoa estilhaçada é uma nuvem de estilhaços. Um nada volumoso em órbita de electrão. Quantos eus, quantas expressões de si, cabem numa única sepultura? Quais são as flores preferidas do defunto? O que nos impede de conduzir uma metáfora até aos últimos limites?” (Assinatura: Demónio de trazer por casa).
Divertimento

Interessar-se pela música do inferno é próprio de tolos desocupados. Pior ainda descobrir na terra músicos passíveis de tocar no inferno. A banda de demónios da figura 01 quer sair da porta do inferno. Prefere o interior com ar quente e cheiro a enxofre.
Há músicos com perfil para tocar no inferno: Rolling Stones (Sympathy for the devil), Deep Purple (Demon’s eye), Chris Rea (The road to hell), Uriah Heep (Demons and Wizards), Black Sabbath (Heaven and hell), AC/DC (Highway to hell), Pink Floyd (Run like hell)… Retive dois candidatos. O álbum Heaven and Hell (1975) do Vangelis inspira-se, em vários troços, no inferno. Parco em melodias e ritmos compassados, alguns sons são do outro mundo e muitas passagens incómodas. Mas o álbum de Vangelis é, do princípio ao fim, límpido e afinado. O que desagrada aos diabos, propensos a confusões, cacofonias e charivaris. Sobra, nestas condições, Marilyn Manson, exímio em animar os demónios e torturar as almas penadas.

