Enganar o diabo
Receita para um humor fora do normal:
- Desempenar as ideias;
- Aparências que enganam
- O não lógico segue uma sequência lógica;
- Banaliza-se o extraordinário;
- O pacto com o diabo é uma figura vulgar;
- O requisito do primeiro filho, também. O pacto é igual ao do Dr. Parnassus.
- Sobe-se o nível do extraordinário, firmando-o na realidade;
- A “vítima” é homossexual;
- Não se mistura nada; serve-se aos pedaços na devida ordem;
Este diabo é um trapalhão. Não acerta uma. Mas más apostas, quem as não faz?
Os anúncios envelhecem. Desactualizam-se. Técnica e historicamente. Sete anos é muito tempo. Em vários países, os casais homossexuais podem adoptar crianças.
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Marca: Tele 2. Título: First Born. Agência: Euro RSCG. Direcção: Martin Werner. Suíça, 2008.
Aspirações
“Expliquemos previamente a natureza complexa do riso carnavalesco. É, antes de mais, um riso festivo. Não é, portanto, uma reacção individual diante de um ou outro fato “cómico” isolado. O riso carnavalesco é em primeiro lugar património do povo (esse carácter, como dissemos, é inerente à própria natureza do carnaval); todos riem, o riso é “geral”; em segundo lugar, é universal, atinge a todas as coisas e pessoas (inclusive as que participam no carnaval), o mundo inteiro parece cómico e é percebido e considerado no seu aspecto jocoso, no seu alegre relativismo; por último, esse riso é ambivalente: alegre, cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico, nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente” (Bakhtin, Mikhail, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, São Paulo, Hucitec, 1077, p.10).
No grotesco, todos riem de tudo e de todos. Tudo é risível, nomeadamente o sagrado e o poder político. Nada permanece estável, o riso grotesco é um agitador e um baralhador do mundo. O alto é rebaixado. Tudo o que se mostra fixo é deslocado para os lugares mais inesperados. O detergente Cif no Cristo Redentor, do Rio do Janeiro, um aspirador associado a um exorcismo, outro a uma tentativa de suicídio, uma pastilha elástica liberta a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque.
Primeiro, os aspiradores, máquinas anormalmente intrusas. Amanhã, as estátuas.
Marca: Electolux. Título: Suicide. Agência: Lowe (Shangai). Direcção: Liang Quing Song. China, 2006.
Marca: Dirt Devil. Título: The Exorcist. Produçao: Filmakademie Baden-Wurttemberg. Direcção: Andreas Roth. Alemanha, 2011.
A caminho do inferno
O Taymouth Hours é um livro de horas datado de 1325-40. Da profusão de iluminuras, retenho uma pequena amostra alusiva às coisas do inferno (ver galeria). Dedicados e despachados, os diabos conduzem os condenados (figuras 2 a 4) para a boca do inferno (figura 5). No interior, o ambiente é caloroso (figuras 6 a 8). Cada suplício, uma vez terminado, é recomeçado. A never ending pain!
- 01. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 02. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 03. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 04. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 05. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 06. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 07. Taymouth Hours, c. 1325-40.
- 08. Taymouth Hours, c. 1325-40.
O Gozo da Maldade
Este anúncio dinamarquês é uma história sem palavras. Gosto de histórias sem palavras. São fáceis de traduzir. Esta é composta, exclusivamente, por maldades, por sinal, gratuitas. Somos assim, apreciamos maldades estúpidas, que não trazem proveito a ninguém. O nosso olhar abre-se de gozo, para logo se fechar numa piscadela ao diabo. O condutor do descapotável é mau, pelo prazer da maldade. O condutor do eléctrico é mau, pelo prazer da vingança. Pelos vistos, não há melhor promoção do que tamanho gozo na maldade.
Marca: As Oslo Sporveier. Título: Make way for the tram. Agência: New Deal. Direcção: Rof Sohlman. Noruega, 1993.
Leilão da alma
Não é a primeira vez que a Mercedes convoca as figuras da morte e do diabo. Neste anúncio, alguém está prestes a vender a alma ao diabo, para, pressupõe-se, adquirir um Mercedes. Nada que Judas não tenha feito, exceptuando o Mercedes. Mas uma espécie de epifania salva o desgraçado: a aparição do preço do automóvel, uns furos abaixo do valor da alma.
Especialmente interessantes são os longos segundos dedicados à antecipação da felicidade. Não deixa de ser um privilégio ver como a Mercedes, a The Mill, a Mercley+Partners e Dante Ariola representam a felicidade.
Marca: Mercedes-Benz. Título: Soul. Agência: Mercley+Partners. Direção: Dante Ariola. USA, Janeiro 2013.
Convencer o Diabo
O conflito entre santos e demónios tem assumido vários contornos.
São Miguel, comandante do exército de Deus, derrota Satã a golpes de espada. São Bartolomeu acorrenta o diabo a seus pés. São Jorge fere o dragão com uma lança. São Bento expulsa os demónios à bofetada: “Trazia Saõ Bento taõ sopeado, & taõ sogeito o Demonio, que o deitava fòra dos corpos humanos, a assoutes, bofetadas, & golpes, & muytas vezes se vio, que levava São Bento o Demonio arrastos, & preso por cadeas, tão atormentado do espirito do Santo, que se queixava deo Sãto a gritos”(Sermoens varios do M.R.P. Prègador Géral, & Cronista Mòr do Reyno Fr. Rafael de Jesus … pregados em a Curia de Braga pellos annos de 1673, 74 & 75, Lisboa, Officina Craesbeeckiana, 1688, p. 326).
São Wolfgang (c. 934 – 994)) é, porventura, o combatente mais actual. Tenta convencer o diabo com palavras. Desafia-o a construir uma igreja; o diabo retorque, a várias vozes, que tal desígnio não consta na Bíblia. O quadro de Michael Pacher (1430–1498), pintor austríaco, retrata este episódio.
Michael Pacher, São Wolfgang e o Diabo. Fathers of the Church altarpiece, c. 1471-75
Nos limites
Os limites atraem-nos. Para os explorar ou para os ultrapassar. Mesmo quando do outro lado espera a morte ou o inferno. Pisamos a linha. Batemos às portas do além. É a “paixão do risco”, diz David Le Breton. O que vale é a técnica, o anjo da guarda da modernidade. Salva-nos no momento oportuno. Assim acontece nestes três anúncios, como em muitos outros que batem na mesma tecla. No primeiro, Diablo, da Renault, o virtuosismo técnico frustra, raiando o impossível, as arremetidas do diabo. No segundo, Vampires, da Citroen, o carro, equivalente mecânico do cavalo de Zorro, resgata, no momento azado, o herói de uma orgia de vampiros. No terceiro, Ghost, também da Citroen, o carro é o último reduto contra a fúria de um fantasma importunado.
Marca: Renault. Título: Diablo. Agência: Aquila & Baccetti. Direção: Pucho Mentasti. Argentina, 1998.
Marca: Citroen. Título: Vampires. Agência: Euro RSCG. Direção: Enda Mc Callion. Espanha, 1997.
Marca: Citroen. Título: Ghost. Agência: Euro RSCG. Direção: Lionel Mougin. França, 1997.
Futebolistas de terracota
A China é uma terra espantosa. Ia-me esquecendo deste anúncio, uma relíquia premiada em Cannes. Há muitos do género, alguns excelentes (ver o vídeo da Nike), mas não deixa de ter alguma piada ver estes guerreiros de terracota a dar uns pontapés ao globo. Não tem?
Marlboro. Terracotta Warriors. Leo Burnett, Hong Kong, China, 1998.
Nike. Good vs. Evil. The Mill. 2006.























