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Quando o corpo incomoda a alma

Avoir un corps, c’est la grande menace pour l’esprit (Marcel Proust, Le temps retrouvé, NRF, 1927).

Leon Bonnat. Job. 1880.

O corpo fala. Não se cala. E grita! Dores, avisos, urgências e avarias; a alma não sossega. A quem tem o purgatório em vida, apetece-lhe cegar os sentidos, pontapear o mundo e puxar o paraíso pelos cabelos.

A Bíblia permite várias interpretações. No Génesis, Adão e Eva andavam nus. Mal comeram a maçã, procuraram folhas de figueira para se resguardar. Foi nesse preparo que Deus os encontrou. O primeiro castigo não foi o trabalho, nem o parto, mas o corpo! Acontece zangar-me com o corpo. E não adianto nada.

A canção Child in Time, dos Deep Purple, vem, já tardava, a talhe de foice.

Deep Purple. Child in Time. Deep Purple In Rock. 1970. (Official Video) [HQ].

Velocidade pedagógica: o novo futurismo

Carlo Carrá. Il cavalieri rosso. 1913.

“Nós estamos no promontório extremo dos séculos!… Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente” (Filippo Tommaso Marinetti, Manifesto Futurista, 1909).

A sensação que se desprende do anúncio Never Stop, da Universidade de Aukland, é velocidade, vertigem e futurismo.

O ensino é admirável. Um mundo novo, na era das learning machines. Antes do tempo, sem parar e sempre a subir, até ao pináculo. Educação acelerada, numa sociedade sem fios. Aguarda-se a aprendizagem instantânea: o implante de um chip, com actualizações automáticas, reciclável e sem plástico.

Marca: University of Auckland. Título: Never Stop. Nova Zelândia, Junho 2017.

Acrescento, mais por vício do que por virtude, um hino hard rock à velocidade:a música Highway Star, dos Deep Purple (álbum Machined Head, de 1972, que inclui o consagrado Smoke on the water). Canta Ian Gillan que “ninguém lhe rouba a vida porque a guarda no inferno”.

Deep Purple. Highway Star. Machine Head. 1972.

Quando um cego chora

Pieter Bruegel. A parábola dos cegos. 1568

O domingo é sagrado, dia de ansiolíticos e antidepressivos naturais. Há quem combine uns e outros. Na vida quotidiana também se entrelaçam (Norbert Elias e Eric Dunning, A busca da excitação, 1986). Por exemplo, durante um espectáculo de futebol as doses alternam-se (Albertino Gonçalves, Vertigens, 2009). Domingo é dia de compensação. Mais vale jogar à sueca em casa do que labirintar no poker de massas. Gosto de namorar o passado. O passado não para de crescer! O presente não o agarro e o futuro não o conheço. O meu passado é um contrabandista: atravessa as fronteiras do tempo. O domingo é dia de música. Música ultrapassada. Um rosário de pérolas barrocas, amuleto contra os carneiros de Panurgo (François Rabelais, Pantagruel, c. 1532). Já coloquei no Tendências do Imaginário a canção When a blind man cries, dos Deep Purple (https://tendimag.com/2015/10/01/when-a-blind-man-cries/). Uma espécie de gata borralheira para o Ritchie Blackmore, a música foi editado num single em 1972. Esperou pelos anos noventa para subir aos palcos e figurar nas antologias. A versão de 1999 de Ritchie Sambora, ex Bon Jovi, pouco difere do original. Mas o vídeo musical é pedagógico. Ensina que 1) não existem abraços electrónicos; 2) Os média podem estimular abraços; 3) Por detrás dos média, há sempre alguém; e 4) os sonhos existem e são humanos.

Só agora, concluído o texto, me apercebi, enquanto procurava um vídeo com melhor resolução, que esta curta-metragem foi escrita e realizada por um português: Nuno Rocha, para a LG Portugal. Pontes.

Richie Sambora (Deep Purple cover) – When A Blind Man Cries | LG — «Momentos». Guião e realização de Nuno Rocha. 2010.

Entre quatro linhas

Smoking Cartoon Angry Face (https://br.storyblocks.com/stock-image/smoking-cartoon-angry-face-hqzepxru7ozj6grsnrs)

“Quanto mais a água é pura, menos peixes tem” (Provérbio chinês)

Aprende-se quando se viaja. O aeroporto do Luxemburgo é magnânimo: permite fumar fora do edifício. Nuns rectangulozinhos chamados smoking areas, situados entre as entradas. Com 6 graus abaixo de zero, as calças pareciam cubos de gelo. Acodem-me dois sentimentos: um de culpa e outro de idiotice. Tanta chaminé bípede a expelir fumo magoa a cidadania: em tempos de aquecimento, os fumadores tanto aquecem os pulmões como o planeta. Mas mais do que fumar tabaco, fumam-se impostos. No tempo do volfrâmio, consta que havia quem acendesse o cigarro com notas de dinheiro. O fumo do tabaco também se desfaz no orçamento do Estado. Aproximo-me da smoking area. Uma jaula sem grades para párias. Fuma-se e defuma-se até à última cinza.

Uma nova doutora em Ciências Sociais: Heidi Rodrigues Martins. Universidade do Luxemburgo.

Esta segregação justifica-se: afasta os fumadores das entradas. A segregação sabe-se quando começa, não se sabe onde acaba. Com uma ponta de humor negro, imagino os cemitérios com um recanto destinado aos falecidos fumadores. Protecção tanto na morte como na vida. Em poucas décadas, a intolerância face ao tabaco disparou. A aversão das pessoas não é só mental, é física. O fumo incomoda. Na Europa, uma em cada três pessoas com mais de 15 anos fuma (28%). É muita população sem privilégios sobrecarregada com impostos. Uma nova versão da solidariedade social e da repartição democrática dos rendimentos. O confinamento rectangular do fumador não estranha. Faz parte do imaginário. Na topografia das almas, o único lugar que não tem fumo é o Céu. Não obstante, insisto que a obsessão pela pureza é perigosa. O puro pode ser imundo. Vou ter que deixar de fumar. É uma estupidez que dura uma vida. Não me apetece ser ovelha estrelada numa pastagem de cimento. Let us smoke on the water!

Deep Purple – Smoke On The Water – Live 1973 (New York, USA).

Tempos negros

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La Mort Saint Innocent. Statue d’Albâtre présente au Cimetière des Innocents (Paris) de 1530 à 1786.

Estou a marinar, desde meados de Outubro, um artigo sobre os transi (esculturas tumulares, dos séculos XV e XVI, com corpos em decomposição, pasto de vermes, sapos e insectos). Antecipo duas imagens: a estátua de alabastro patente, entre 1530 e 1786, no cemitério dos Inocentes, em Paris; e a cabeça de L’Écorché, transi de René de Chalons , por Ligier Richier (ca. 1550).

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L’écorché. Transi de René de Chalons. Ligier Richier, ca. 1550.

Para baralhar, acrescento a interpretação ao vivo de Black Night, pelos Deep Purple, em 1970, na BBC. Às vezes, a velhice pede para ir beber à fonte.

Deep Purple. Black Night. Ao vivo na BBC. 1970.

When a blind man cries

Dmitri Shostakovich

Dmitri Shostakovich

Hoje, é Dia Mundial da Música. A Música resiste ao tempo. As imagens, também. Sem esquecer a estupidez. A música toca-nos. Ora mais, ora menos. Recordo um slow dos Deep Purple algo inhabitual: When a blind man cries (1972), Não integrou nenhum álbum, apenas a face B de um single. Ritchie Blackmore embirrou com a canção. Nem sequer ao vivo a tocavam! Sem Ricthie Blackmore, substituído, primeiro, por Joe Sartriani e, em seguida, por Steve Morse, a banda recuperou a canção. Uma das melhores interpretações ocorreu durante a Celebração de Jon Lord (falecido em 2012) no The Royal Albert Hall, em 2014 (https://www.youtube.com/watch?v=yItNkVyJ2Vg&list=RDyItNkVyJ2Vg#t=451). Vou colocar a versão original. Não há versão como a primeira! E para bem temperar, acrescento o concerto de piano nº2 de Shostakovich.

 

Deep Purple. When a blind man cries. 1972.

Dmitri Shostakovich .Piano Concerto No. 2 in F major, Op. 102: II. Andante.

Deep Purple-‘When a Blind Man Cries’-1972

Hell to Pay

Deep Purple. Hell to PayNão é por esta que saímos das franjas do inferno. Os Deep Purple acabam de lançar um novo álbum: Now What. Sem Jon Lord, falecido, e sem Ritchie Blackmore, líder de uma “banda de folk rock de estilo renascentista” (Blackmore’s Night). Esta música, Hell to Pay, faz lembrar as origens. Por vezes, demais. Mas sobra um trago a lima. Nem limão, nem laranja. Não é uma questão de idade, mas de tempo. Até porque as “pessoas maiores”, como dizem os castelhanos, sabem fazer melhor coisas melhores do que aquelas que fizeram na juventude.

Massa in Rock

A publicidade argentina é prodigiosa. Estreado esta noite, este anúncio empenha-se em mostrar que a massa vai bem com tudo, até com a música dos Deep Purple.

Marca: Matarazzo. Título: Rock the Pasta. Agência: Madre. Direção: Andres Salmoyraghi. Argentina, Agosto 2012.