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A minha ciência é tua

Telus World of Science. Vancouver. Canadá.

Telus World of Science. Vancouver. Canadá.

A Science World (Vancouver, Canadá) desenvolve uma política de comunicação assente num entendimento peculiar da responsabilidade social da ciência. Empenha-se em despertar não só a atenção mas também a curiosidade dos cidadãos para a ciência.

Science World is a not-for-profit organization dedicated to engaging British Columbians in science and inspiring future science and technology leadership in our province (http://www.scienceworld.ca/).

Habituei-me a aprender com os canadianos. Entre os cientistas sociais que mais prezo, três são canadianos: Gregory Bateson, Marshall McLuhan e Erving Goffman. Seleccionei três vídeos e nove cartazes ilustrativos do carácter franco, estimulante e provocador das campanhas promovidas pela Science World.

Anunciante: Science World. Título: Boardroom. Agência: Rethink Communications Inc. Direção: Michael Downing. Canadá, 2004.

Anunciante: Science World. Título: Airport Security. Agência: Rethink. Canadá, 2012.

Anunciante: Science World. Título: Positively Painful. Agência: Rethink. Direção: Chris Woods. Canadá, Agosto 2014.

A técnica e a ciência como ideologia

Cigarro mata

Van Gogh. Caveira com cigarro aceso. 1885.

Van Gogh. Caveira com cigarro aceso. 1885.

Técnica e ciência como “ideologia” (1968) é uma das primeiras obras de Jürgen Habermas. Se bem me lembro, sustenta que, nas sociedades modernas, a ciência e a técnica funcionam como uma forma que disciplina o olhar. A ciência e a técnica compõem, de algum modo, a nova grande linguagem do poder. Neste anúncio da L&M, de 1949, os atributos da ciência (a medicina, as sondagens e as estatísticas) são mobilizados para promover o consumo do tabaco, nomeadamente da marca L&M. Ontem, como hoje, a tendência aponta para o abuso das capacidades da ciência e da técnica e para a ultrapassagem dos seus limites.

Marca: L&M. Título: Doctor’s day. USA, 1949.

O bom e o mau ladrão

Os discursos do poder sobre a ciência lembram-me duas passagens da Bíblia; o bom e o mau ladrão no Calvário e a parábola do trigo e do joio.

Habituámo-nos a diversas classificações das ciências: nomotéticas e ideográficas; dedutivas e indutivas; duras e moles; experimentais e não experimentais; cosmológicas e noológicas; formais e factuais… Confrontamo-nos agora com um mandamento novo: produtivas e não produtivas. São prestáveis as ciências com impacto no crescimento económico. As demais são imprestáveis. As primeiras merecem investimento público adicional. As demais, nem uma esmola. Não é fácil discernir a fronteira entre as duas ciências. Recorro, por isso, à catequese pela imagem.

Figura 1: Brain. Ralph Hutchings. Tree.  David Sanger.

Figura 1: Brain. Ralph Hutchings. Tree. David Sanger.

Desde Aristóteles, não se vislumbra distinção tão profunda e orgânica como esta entre cientistas produtivos e cientistas não produtivos. Como se pode comprovar na figura 1, a diferença radica no próprio cérebro: uns são produtivos, outros não. Uma tumografia pode ajudar a identificar um cientista produtivo.

Figura 2. George Grosz. Remember Uncle August, the Unhappy Inventor'. 1919.

Figura 2. George Grosz. Remember Uncle August, the Unhappy Inventor’. 1919.

Os efeitos das ciências produtivas são observáveis na própria fisionomia do cientista (ver figura 2). Existem sinais exteriores de cientificidade produtiva. A antropologia Física pode ajudar a classificar os cientistas

O cientista imprestável desperdiça, em contrapartida, o dinheiro público, que tanto custa a sacar aos cidadãos, em investigação inútil do ponto de vista do crescimento económico (ver figura 3). As Ciências do Espírito podem ajudar a caracterizar o perfil comportamental das diversas figuras de cientistas.

Franquin. Gaston Lagaffe.

d Figura 3: Franquin. Gaston Lagaffe.

Todos os caminhos vão dar a Babel

Torre de Babel. Bedford Master Book oh Hours. 1423.

Torre de Babel. Bedford Master Book of Hours. 1423.

Devia ter-me inscrito num congresso da minha área de investigação e não o fiz. Cheguei a uma idade em que, em matéria de ciência, não pago para falar, nem pago para ouvir. Autismo? Com certeza! Ou talvez não, nunca partilhei tanto e tão depressa os resultados da investigação como nos últimos anos. Deparei com uma ficha relativa à actividade científica do ano 2013, onde só são contempladas as comunicações em congressos! Parte da minha actividade profissional resvala para a insignificância. Conferências não servem? O mundo dá cada cambalhota! As conferências foram destronadas pelos “papers”. Sexta, apresento, por convite, uma comunicação nas 1.as Jornadas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Região Norte (ver cartaz). Pelos vistos, atendendo aos rankings profissionais em circulação, não vou fazer nada. Ainda por cima, fora do tempo da cereja. Vou sentir-me pura transparência a pender para a nulidade.

Hendrik III Van Cleve. Torre de Babel. 1563

Hendrik III Van Cleve. Torre de Babel. 1563

À focalização nas revistas com fator de impacto, acrescenta-se a focalização nos congressos. Eis uma nova culinária: todos os caminhos da ciência vão dar a Babel, a torre da ambição desmedida e do colossal desperdício. O triunfo da Bimby!

Cornelis Anthonisz. A Queda da Torre de Babel.1547

Cornelis Anthonisz. A Queda da Torre de Babel. 1547

Nas aulas de Matemática e de Estatística cunhavam-se algumas anedotas do tipo: um homem que tem a cabeça no congelador e as pernas no forno, do ponto de vista da média, está a uma boa temperatura. Outra sentença para rir consistia no seguinte: o que não é quantificável não existe! Eram piadas, mas já preocupavam C. Wright Mills (Sociological Imagination, 1959) e Pitirim Sorokin (Fads and foibles in modern sociology and related sciences, 1956), que alertavam para o risco de quantofrenia. Nunca pensei que a piada se tornasse realidade. Tudo indica, aliás, que temos uma nova versão: só existe o que é facilmente quantificável.

Andreas Zielenkiewicz. Torre de Babel. Contemporâneo.

Andreas Zielenkiewicz. Torre de Babel. Contemporâneo.

1.as Jornadas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Região Norte

1.as Jornadas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Região Norte

ISI Riders. A ciência na era da comunicação generalizada

“Demasiada luz ofusca”
Blaise Pascal

ScienceComecei uma crónica que ficou obesa. Adquiriu dimensão de artigo. Por cautela, cortei-a às postas para a publicar num formato amigável. Estou a ficar alérgico à palavra artigo: causa-me urticária e, às vezes, gastroenterite. Na modernidade retardada, um artigo que se preze deve aspirar à honra de uma revista com fator de impacto. Assim ditam os categóricos. Acodem-me algumas imagens insidiosas: o cientista como mendicante, como homem-sanduíche ou como funcionário do espírito.

Escrevo artigos sobre temas que me interessam, em revistas que aprecio, normalmente por convite. Apego-me a estes pequenos nadas: autonomia, escolha e colaboração. Não deixo de ponderar que, num blogue razoável, um texto meu colherá mais leitores em cinco dias do que um artigo, também meu, numa revista com fator de impacto em cinco anos. Continuo a ruminar: por que motivo um artigo publicado numa revista portuguesa vale quase nada e a sua tradução numa revista estrangeira com fator de impacto vale quase tudo? Anda aqui mão de Conde Andeiro.

Os donos do poder e da ciência estão a transformar a investigação num espécime sem corpo, só cabeça, a modos como o bilionário do romance I Will Fear No Evil, de Robert A. Heinlein. Um cientista parece cada vez mais um jogador de basquetebol. É um encestador de papers. É o gesto, a arte, que define o artista.

Porquê tamanha fixação em organizações como a ORCID ou em bases de dados como a SCOPUS? Será que alguém quer filtrar e acelerar a informação na comunidade científica? Ontem sonhei com a Nova Jerusalém da ciência: vi tribos de cientistas a convergir em filas para a cidade sagrada: o mercado global do saber hiper-normalizado. Uns entusiasmados, outros calados, outros recalcitrantes. Adivinha-se algum ranger surdo de dentes, mas, deste jeito, só sofrem os maxilares.

Em Portugal, há um ditado novo: se queres semear, começa pela cúpula. Para promover alguns, desvaloriza-se o resto. O poder é um bom fertilizante. Faz crescer dependências. E os jogos do poder são uma seiva mais viciante do que as máquinas dos casinos. O mocho já foi símbolo da sabedoria, a honra cabe agora ao cuco. À semelhança da maçã de Prévert, a ciência não é para pintar, é para fazer. O contrário é uma falácia.

O Passeio de Picasso

Numa base bem redonda de porcelana real
posa uma maçã
Face a face com ela
um pintor da realidade
em vão tenta pintar
a maçã tal como ela é
mas
ela não vai deixar

e o pintor atordoado perde de vista seu modelo
e adormece
É então que Picasso
enquadrando-se ali como em toda oportunidade
cada dia como em sua casa
vê a maçã e o prato e o pintor adormecido
Que ideia de pintar uma maçã
diz Picasso
e Picasso come a maçã
e a maçã lhe diz Obrigado
e Picasso quebra o prato
e sai dali sorridente
e o pintor arrancado de seus sonhos
como um dente
se encontra só novamente diante da sua tela inacabada
com os terríveis caroços da realidade
bem no meio da sua louça despedaçada.

Jacques Prévert, 1949

Internacionalização

Millenium Bcp. Internacionalização.

Millenium Bcp. Internacionalização.

A rolha de cortiça consta entre os produtos portugueses mais internacionalizados: prevê-se que a exportação atinja, em 2015, um valor de mil milhões de euros. A rolha de cortiça anda nos gargalos do mundo. Deve inspirar-nos, tal como a sardinha de conserva.

Entre os grupos de produtos mais exportados constam as máquinas e os aparelhos (c. 15%) e os veículos e outro material de transporte (c. 11%). São duplamente internacionalizados: à partida e à chegada.

Sapatos de cortiça

Sapatos de cortiça

Os jogadores de futebol, mais que internacionalizados, são internacionais. Inseridos num mercado global, tanto são internacionais cá dentro, como lá fora.

Quem está em franca internacionalização é a ciência. Acreditava, ingénuo, que a ciência sempre foi internacional. Internacional talvez, mas internacionalizada… Embarcamos numa espécie de peddy paper além-fronteiras, pautado pelo coleccionismo e pela caça ao rótulo. Da nova Ponta de Sagres, partem novos padrões dos descobrimentos.

Internacional, mas muito nacional, é o fado. Raro nos pubs de Londres ou nos bistrots de Paris, ainda não é cantado em inglês.

Proverbial é o estrangeirismo e o cosmopolitismo das nossas elites. Inexplicavelmente, exportam-se muito pouco.

Papa-moscas

Tudo cabe no albergue espanhol que é a publicidade! Até a ciência e a tecnologia… Os laticínios helvéticos debatem-se com um problema: o estresse no leite das vacas causado pelas moscas. A ciência e a tecnologia resolveram o problema inventando a “Gecko-Tecnologia”: a cada vaca é associado um geco (espécie de lagartixa ou osga) que come tudo quanto é mosca na vizinhança. O anúncio explica todo o processo, bem explicadinho, ao ritmo de um relógio suíço. Em suma, o emmental é, doravante, um queijo muito mais relaxado. Este anúncio estreou alguns dias antes do primeiro de Abril. Coincidência? Na verdade, a publicidade tende a sintonizar-se cada vez mais com as efemérides. Pelo sim, pelo não, importa comprovar se a “Gecko-Tecnologia” também é eficaz contra as contribuições e os impostos. Podia-se pensar em pagar a patente ou em importar a tecnologia.

Marca: Emmentaler. Título: Gecko Technology. Agência: Spillman/Felser/Leo Burnett. Suíça, Março 2012.