Tag Archive | Álvaro Domingues

O insólito normal

Fotografia de Álvaro Domingues

No anúncio City Bike, da Mate, os contextos e os movimentos territoriais inesperados cruzam-se num misto de estranheza e familiaridade. Lembram o livro Paisagens Transgénicas, de Álvaro Domingues (Museu da Imagem, 2021). O anormal é normal.

Mate. City Bike. Prudução: Quad Productions. Direção: Greg Ohrel. Canadá, Junho 2021.

Abrir a porta

Fotografia de Álvaro Domingues (Volta a Portugal, 2017)

Não sei porque escrevo, nem para quem! Não escrevo para convencer, nem sequer para seduzir. Não sou um almocreve de ideias e sentimentos. Escrevo porque me dá prazer! Com ironia e uma pitada de poesia. Gosto de dar ao mundo letras que dançam desequilibradas. Escrevo enquanto me dá prazer. Já me preocupei com as coisas e as pessoas. E pouco aprendi. As pessoas, as pessoas são fantásticas. Andam tão ocupadas. E eu a ruminar à sombra como uma vaca grávida! A ponte une mundos; a porta separa-os, mas liga e desliga. Já não estou onde estou. A porta é uma tentação. Acontece cair em melancolia, mas esta melancolia não presta, não vem de dentro mas de fora. Não aprecio a melancolia azeda, esgrimida, mas a melancolia destilada, que pinga gota a gota, depois de muito penar no alambique.

Hoje, o meu amigo faz anos, os mesmos que eu. Creio que ainda gosta destas músicas. As duas primeiras remontam aos tempos de estudante. A terceira é especial. Acompanhou-nos numa viagem entre Monção e os Arcos de Valdevez, pela estrada de Sistelo. A música é amiga da memória.

Brigada Victor Jara. Marião. Eito Fora. 1977.
Sérgio Godinho. Paula. Os Sobreviventes. 1972.
Vivaldi Concerto in C major RV 443 (largo). Intérprete: Lucie Horsch.

O estendal

Fotografia de Álvaro Domingues

Há olhares que vêem e outros que cativam. Cativam o espanto, a vitalidade e a turbulência. A fotografia renova o olhar cansado. O fotógrafo é um alquimista, um pintor de verdades. Esta fotografia foi tirada para os lados de Almada. O Álvaro Domingues percorre todas as estradas do País, numa espécie de rota do presente insólito.

Um silo e um estendal: o pequeno e o grande, o infantil e o monstruoso, o afecto e o objecto. Em tempos de responsabilização e estetização empresarial, o silo ostenta uma pintura minimalista gigantesca. Lembra a Street Art. No estendal, três peluches. A fragilidade do mundo exposta ao ar livre. Uma alegoria do tempo: o passado, de pernas para o ar e de costas voltadas; o presente, pendurado pelas orelhas; e o futuro, a alucinação de olhos arregalados. Uma fotografia constrói um mundo, propõe um mapa mental. Em cima, à esquerda, vislumbra-se um aglomerado de prédios. Na margem, parece um apêndice do silo visitado por transportadoras. Convém não cortar as asas à imaginação para não cortar as pernas ao pensamento.

Camisola com faíscas

Fotografia: Álvaro Domingues.

O Álvaro Domingues é uma inspiração abençoada. A crónica “Paisagem eléctrica com rebanho” (Público, 09/03/2019) baralha qualquer algoritmo de ideias.

Um rebanho apascenta à sombra de painéis fotovoltaicos. Talvez a lã se destine a uma nova produção de camisolas Thermotebe, as únicas com “características turboeléctricas”, capazes de resistir ao arrefecimento global. O algodão já não engana. Respeitando determinadas proporções no fabrico, a lã destas ovelhas faz faíscas.

As camisolas Thermotebe deixaram de se produzir há cerca de 20 anos, tendo alcançado nos anos oitenta um sucesso internacional espantoso (https://observador.pt/2015/02/15/tem-frio-isso-e-porque-ja-nao-existe-thermotebe/). Com a ajuda dos painéis fotovoltaicos e a boa vontade das ovelhas, reúnem-se condições para voltar a investir na produção de camisolas Thermotebe, com o lema: “Thermotebe, a camisola amiga do ambiente”.

Thermotebe. Portugal.

A montanha mágica

02. Albert Bierstadt. A Storm in the Rocky Mountains, Mt. Rosalie, 1866

02. Albert Bierstadt. A Storm in the Rocky Mountains, Mt. Rosalie, 1866.

É costume opor-se a cultura e a natureza. Quase toda a natureza é cultura. Um povo pode nunca se ter deslocado a determinada montanha, não lhe ter feito o mínimo arranhão, percorre-a, no entanto, com as suas crenças e o seu imaginário. Eleva-a, por exemplo, a um lugar mítico. O ser humano acolhe, deste modo, a natureza naquilo que a cultura tem de mais crucial: o sagrado.

Os quadros de Albert Bierstadt (1830-1902), norte-americano nascido na Alemanha, lembram as palavras de Álvaro Domingues:

“As montanhas, outrora lugares de assombração e de cavernas de dragões, eram, no imaginário do antigamente, os ossos da terra, os ligamentos sem os quais tudo se desconjuntaria, os ninhos das tempestades, o reino das nuvens, a origem das águas, os tesouros de minério, um axis mundi, uma montanha cósmica entre a Terra e o Céu” (Álvaro Domingues, Volta a Portugal, 2017, p. 54)-

As montanhas de Albert Bierstadt:

Cegonhas

 

Álvaro Domingues. Bestiário do imobiliário 2

Fotografia de Álvaro Domingues.

“Somos as cegonhas eléctricas (…) No tempo em que as crianças não percebiam nada de sexo e reprodução, o nosso emprego era transportar bebés no bico. Com a quebra da natalidade, as normas de segurança no transporte de crianças e as incubadoras, ficámos sem emprego. O resto adivinha-se: desde que nos tornamos sedentárias metemo-nos a comprar uma casa que não há como pagar. Ficou para o banco. Que se lixe. Sempre que passamos em cima, cagamos nele” (Álvaro Domingues, Bestiário do Imobiliário II. Punkto (https://www.revistapunkto.com/2013/05/bestiario-do-imobiliario-ii-alvaro_3.html).

Cegonha, escultura na Catedral de Estrasburgo

Cegonha, escultura na Catedral de Estrasburgo.

Os bebés, dizia-se, vinham de França no bico das cegonhas. A cegonha é o símbolo de Estrasburgo. Segundo a lenda, “sob a catedral de Estrasburgo, existia um lago, o Kindelsbrunnen, nome que podia ser traduzido por “poço das crianças”. Neste lago, as almas das crianças por nascer esperavam para vir ao mundo. Um gnomo gentil pegava a alma do recém-nascido com a ajuda de uma rede de ouro e entregava-o, de seguida, à cegonha para que ela pudesse entregá-lo aos pais. Os pais que desejassem um filho deviam colocar alguns pedaços de açúcar no rebordo da sua janela de modo a cativar a cegonha” (Pourquoi dit-on que les cigognes apportent les bébés ?: https://www.youtube.com/watch?v=I0cc6K_Lxlc).

Do outro lado da fronteira, na Alemanha, existe uma versão com um teor mais mitológico:

“A cegonha é a mensageira da deusa Holda, encarregada de reincarnar as almas dos defuntos nos nascituros. Nas grutas ou perto de um ponto de água, “elfos” resgatavam as almas das profundezas da terra, que a deusa reincarnava em nascituros que a cegonha levava, em seguida, aos pais” (Pourquoi dit-on que les cigognes apportent les bébés ?: https://www.youtube.com/watch?v=I0cc6K_Lxlc).

Imagem do filme Cegonhas. 2016.

Imagem do filme Cegonhas. 2016.

Com o tempo, os relatos míticos sofrem alterações. No anúncio Cegonha, da Volkswagen, o carro novo é o bebé que a cegonha terá trazido e do qual não se separa. A mulher também parece estar grávida. Conjugam-se assim dois nascimentos: o mecânico e o humano.

Marca: Volkswagen. Título: Cegonha. Agência: AlmapBBDO (São Paulo). Direcção: Claudio Borrelli. Brasil, Julho 2018.

Se me encomendassem um print para acompanhar este anúncio, não andaria longe do seguinte: o carro com fraldas electrónicas, a cegonha no capot em pose de Vitória de Samocrácia; o pai, ao volante, confuso; a mãe, ao lado, como uma Vénus de Willendorf; no banco traseiro, os filhos, mais um lugar vago para a próxima cegonha.

Filmes do Homem / A cumplicidade dos objetos

Filmes do Homem. Identidade, Memória, Fronteira.. 2018. Catálogo.

Filmes do Homem. Identidade, Memória, Fronteira.. 2018. Catálogo.

De 30 de Julho a 5 de Agosto, ocorre, em Melgaço, o Festival Filmes do Homem, organizado pela Câmara Municipal e pela associação Ao Norte. “Um evento de referência no território nacional e internacional”. Além do cinema, o Festival contempla outras actividades, tais como a fotografia. Articula-se, entre outras entidades, com o Museu do Cinema, o Espaço Memória e Fronteira, a Torre da Menagem, a Casa da Cultura, a Porta de Lamas e o Museu de Castro Laboreiro.

Melgaço, um dos municípios mais envelhecidos do País, insiste em ser dinâmico e ambicioso. Colaboro com os Filmes do Homem desde a origem. Nos últimos anos, foi incluída uma exposição de fotografia. O Álvaro Domingues  e eu próprio temos escrito os textos para os catálogos. No dia 30 de Julho, pelas 19:30, na Casa da Cultura, vão ser lançadas publicações com as fotografias e os textos correspondentes a três exposições.

Para aceder ao pdf do Catálogo dos Filmes do Homem, de 2018, carregar na imagem acima ou no seguinte endereço: file:///C:/Users/Utilizador/Downloads/Cat%C3%A1logo%20Filmes%20do%20Homem.pdf

Para aceder ao pdf do texto “A cumplicidade dos objectos”, carregar na imagem abaixo (uma mulher a preparar a terra) ou no seguinte endereço: Albertino Gonçalves. A cumplicidade dos objectos. Exposição Pedra e Pele, de João Gigante. Filmes do Homem 2018.

A amanhar a terra. Exposição a Pedra e a Pele. João Gigante. Filmes do Homem, 2018.

A amanhar a terra. Exposição A Pedra e a Pele. João Gigante. Filmes do Homem, 2018.

Volta a Portugal

Existem fenómenos insólitos no País? As fotografias assombrosas do livro Volta a Portugal, de Álvaro Domingues, ilustram esta estranheza. Existem discursos que tornam familiares, e entranham, as identidades nacionais e territoriais? Hoje, como ontem. Álvaro Domingues cita-os, escrupulosamente, sem complacência. Página a página, etapa após etapa, familiarizamos o estranho e estranhamos o familiar. Portugal não cabe nos seus mitos. Um livro para ver e ler. Para nos pensar.

O texto que segue foi extraído da notícia da livraria Centésima Página (http://www.centesima.com/content.asp?startAt=4&categoryID=15&newsID=839)

“Apresentação do livro Volta a Portugal , Álvaro Domingues, Contraponto Editora

Dia 9 de Março, sexta, às 18:30, na Livraria Centésima Página.

Apresentação do livro Volta a Portugal de Álvaro Domingues (FAUP). Contraponto Editora,

Apresentação a cargo de Albertino Gonçalves, do Departamento Sociologia- Instituto de Ciências Sociais_UMinho.

“De bicicleta ou de Google Earth, dar voltas em Portugal constitui um modo de (re)conhecimento perfeito para preencher curiosidades ou estranhamentos acerca da exótica geografia da terra dos portugueses. Dizem-nos e demonstram-no de maneira variada que tal terra existe mesmo, que tem um certificado de nascimento, um corpo, uma alma, uma identidade. Não tem nem tem de ter. Muito se insistiu no Portugal dos marinheiros, dos fados ou da bola no jardim à beira mar plantado – um território, o nevoeiro dos antepassados, os mitos, o império, a língua, a saudade e a ruína, aquele que os deuses amam e visitam, o bom povo cosmopolita ou burro de trabalho repartido pelo mundo. Pode ser tudo isso e muito mais e mudar no dia a seguir ou perder-se no caminho; pode dar um execrável programa na televisão, um elaboradíssimo ensaio, um solene discurso patriótico ou uma frenética crepitação nas redes socias.
Não há um fio condutor, um roteiro. Vai-se pela terra fora. Convocam-se palavras de muitas vozes e tempos. Alguma lhe servirá melhor que outras.
A pretexto desta sua última publicação, teremos a oportunidade em revisitar os seus anteriores livros.”

Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) é geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde também é investigador no CEAU-Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo. Para além das suas funções docentes na Universidade do Porto e noutras universidades publica com regularidade sobre temáticas relacionadas com a geografia urbana, o urbanismo e a paisagem.”

 

Coincidências

Álvaro Domingues. Rua da Estrada. Dafne Editora. 2009.

Álvaro Domingues. Rua da Estrada. Dafne Editora. 2009.

Não diga que não há coincidências. Carros, cadeiras e câmaras elevam-se no ar até furar o céu. Lembram a ascensão diária de Santa Maria Madalena para alimentação divina. Álvaro Domingues publicou em 2009 o livro Rua da Estrada. Na capa, uma fotografia com um carro nas alturas (Fig. 1). Cruzando esta fotografia com a “cadeira espacial” do anúncio da Toshiba (2009; vídeo 1), desembocamos no anúncio Stratoquest (2014), com um Citroen C4 a subir ao espaço (vídeo 2). Coincidências…

Marca: Toshiba. Título: Chair. Agência: Grey London. Direcção: Andy Amadeo. UK, 2009.

Marca: Citroen C4. Título: Stratoquest. Agência: Les Gaulois. Direcção: Ivan Laprade. França, 2014.

Álvaro Domingues

Fotografia - Álvaro Domingues

Fotografia – Álvaro Domingues

Álvaro Domingues é um autor que se lê com interesse e prazer. Navega por paisagens transgénicas num mundo em perda do rural e do urbano. Atarda-se, com inteligência, humor e generosidade, sobre obras humanas estranhamente expressivas. Os livros A Rua da Estrada (2009) e Vida no Campo (2012) revelam-se ímpares tanto pela escrita como pela fotografia. Vida no Campo venceu o prémio de Edição da revista LER/Booktailors 2012, na categoria de melhor fotografia original. Recomendo a consulta de textos e fotografias de Álvaro Domingues em O Correio do Porto: http://www.correiodoporto.pt/category/rua-da-estrada.