Tag Archive | Álvaro Domingues

Camisola com faíscas

Fotografia: Álvaro Domingues.

O Álvaro Domingues é uma inspiração abençoada. A crónica “Paisagem eléctrica com rebanho” (Público, 09/03/2019) baralha qualquer algoritmo de ideias.

Um rebanho apascenta à sombra de painéis fotovoltaicos. Talvez a lã se destine a uma nova produção de camisolas Thermotebe, as únicas com “características turboeléctricas”, capazes de resistir ao arrefecimento global. O algodão já não engana. Respeitando determinadas proporções no fabrico, a lã destas ovelhas faz faíscas.

As camisolas Thermotebe deixaram de se produzir há cerca de 20 anos, tendo alcançado nos anos oitenta um sucesso internacional espantoso (https://observador.pt/2015/02/15/tem-frio-isso-e-porque-ja-nao-existe-thermotebe/). Com a ajuda dos painéis fotovoltaicos e a boa vontade das ovelhas, reúnem-se condições para voltar a investir na produção de camisolas Thermotebe, com o lema: “Thermotebe, a camisola amiga do ambiente”.

Thermotebe. Portugal.

A montanha mágica

02. Albert Bierstadt. A Storm in the Rocky Mountains, Mt. Rosalie, 1866

02. Albert Bierstadt. A Storm in the Rocky Mountains, Mt. Rosalie, 1866.

É costume opor-se a cultura e a natureza. Quase toda a natureza é cultura. Um povo pode nunca se ter deslocado a determinada montanha, não lhe ter feito o mínimo arranhão, percorre-a, no entanto, com as suas crenças e o seu imaginário. Eleva-a, por exemplo, a um lugar mítico. O ser humano acolhe, deste modo, a natureza naquilo que a cultura tem de mais crucial: o sagrado.

Os quadros de Albert Bierstadt (1830-1902), norte-americano nascido na Alemanha, lembram as palavras de Álvaro Domingues:

“As montanhas, outrora lugares de assombração e de cavernas de dragões, eram, no imaginário do antigamente, os ossos da terra, os ligamentos sem os quais tudo se desconjuntaria, os ninhos das tempestades, o reino das nuvens, a origem das águas, os tesouros de minério, um axis mundi, uma montanha cósmica entre a Terra e o Céu” (Álvaro Domingues, Volta a Portugal, 2017, p. 54)-

As montanhas de Albert Bierstadt:

Cegonhas

 

Álvaro Domingues. Bestiário do imobiliário 2

Fotografia de Álvaro Domingues.

“Somos as cegonhas eléctricas (…) No tempo em que as crianças não percebiam nada de sexo e reprodução, o nosso emprego era transportar bebés no bico. Com a quebra da natalidade, as normas de segurança no transporte de crianças e as incubadoras, ficámos sem emprego. O resto adivinha-se: desde que nos tornamos sedentárias metemo-nos a comprar uma casa que não há como pagar. Ficou para o banco. Que se lixe. Sempre que passamos em cima, cagamos nele” (Álvaro Domingues, Bestiário do Imobiliário II. Punkto (https://www.revistapunkto.com/2013/05/bestiario-do-imobiliario-ii-alvaro_3.html).

Cegonha, escultura na Catedral de Estrasburgo

Cegonha, escultura na Catedral de Estrasburgo.

Os bebés, dizia-se, vinham de França no bico das cegonhas. A cegonha é o símbolo de Estrasburgo. Segundo a lenda, “sob a catedral de Estrasburgo, existia um lago, o Kindelsbrunnen, nome que podia ser traduzido por “poço das crianças”. Neste lago, as almas das crianças por nascer esperavam para vir ao mundo. Um gnomo gentil pegava a alma do recém-nascido com a ajuda de uma rede de ouro e entregava-o, de seguida, à cegonha para que ela pudesse entregá-lo aos pais. Os pais que desejassem um filho deviam colocar alguns pedaços de açúcar no rebordo da sua janela de modo a cativar a cegonha” (Pourquoi dit-on que les cigognes apportent les bébés ?: https://www.youtube.com/watch?v=I0cc6K_Lxlc).

Do outro lado da fronteira, na Alemanha, existe uma versão com um teor mais mitológico:

“A cegonha é a mensageira da deusa Holda, encarregada de reincarnar as almas dos defuntos nos nascituros. Nas grutas ou perto de um ponto de água, “elfos” resgatavam as almas das profundezas da terra, que a deusa reincarnava em nascituros que a cegonha levava, em seguida, aos pais” (Pourquoi dit-on que les cigognes apportent les bébés ?: https://www.youtube.com/watch?v=I0cc6K_Lxlc).

Imagem do filme Cegonhas. 2016.

Imagem do filme Cegonhas. 2016.

Com o tempo, os relatos míticos sofrem alterações. No anúncio Cegonha, da Volkswagen, o carro novo é o bebé que a cegonha terá trazido e do qual não se separa. A mulher também parece estar grávida. Conjugam-se assim dois nascimentos: o mecânico e o humano.

Marca: Volkswagen. Título: Cegonha. Agência: AlmapBBDO (São Paulo). Direcção: Claudio Borrelli. Brasil, Julho 2018.

Se me encomendassem um print para acompanhar este anúncio, não andaria longe do seguinte: o carro com fraldas electrónicas, a cegonha no capot em pose de Vitória de Samocrácia; o pai, ao volante, confuso; a mãe, ao lado, como uma Vénus de Willendorf; no banco traseiro, os filhos, mais um lugar vago para a próxima cegonha.

Filmes do Homem / A cumplicidade dos objetos

Filmes do Homem. Identidade, Memória, Fronteira.. 2018. Catálogo.

Filmes do Homem. Identidade, Memória, Fronteira.. 2018. Catálogo.

De 30 de Julho a 5 de Agosto, ocorre, em Melgaço, o Festival Filmes do Homem, organizado pela Câmara Municipal e pela associação Ao Norte. “Um evento de referência no território nacional e internacional”. Além do cinema, o Festival contempla outras actividades, tais como a fotografia. Articula-se, entre outras entidades, com o Museu do Cinema, o Espaço Memória e Fronteira, a Torre da Menagem, a Casa da Cultura, a Porta de Lamas e o Museu de Castro Laboreiro.

Melgaço, um dos municípios mais envelhecidos do País, insiste em ser dinâmico e ambicioso. Colaboro com os Filmes do Homem desde a origem. Nos últimos anos, foi incluída uma exposição de fotografia. O Álvaro Domingues  e eu próprio temos escrito os textos para os catálogos. No dia 30 de Julho, pelas 19:30, na Casa da Cultura, vão ser lançadas publicações com as fotografias e os textos correspondentes a três exposições.

Para aceder ao pdf do Catálogo dos Filmes do Homem, de 2018, carregar na imagem acima ou no seguinte endereço: file:///C:/Users/Utilizador/Downloads/Cat%C3%A1logo%20Filmes%20do%20Homem.pdf

Para aceder ao pdf do texto “A cumplicidade dos objectos”, carregar na imagem abaixo (uma mulher a preparar a terra) ou no seguinte endereço: Albertino Gonçalves. A cumplicidade dos objectos. Exposição Pedra e Pele, de João Gigante. Filmes do Homem 2018.

A amanhar a terra. Exposição a Pedra e a Pele. João Gigante. Filmes do Homem, 2018.

A amanhar a terra. Exposição A Pedra e a Pele. João Gigante. Filmes do Homem, 2018.

Volta a Portugal

Existem fenómenos insólitos no País? As fotografias assombrosas do livro Volta a Portugal, de Álvaro Domingues, ilustram esta estranheza. Existem discursos que tornam familiares, e entranham, as identidades nacionais e territoriais? Hoje, como ontem. Álvaro Domingues cita-os, escrupulosamente, sem complacência. Página a página, etapa após etapa, familiarizamos o estranho e estranhamos o familiar. Portugal não cabe nos seus mitos. Um livro para ver e ler. Para nos pensar.

O texto que segue foi extraído da notícia da livraria Centésima Página (http://www.centesima.com/content.asp?startAt=4&categoryID=15&newsID=839)

“Apresentação do livro Volta a Portugal , Álvaro Domingues, Contraponto Editora

Dia 9 de Março, sexta, às 18:30, na Livraria Centésima Página.

Apresentação do livro Volta a Portugal de Álvaro Domingues (FAUP). Contraponto Editora,

Apresentação a cargo de Albertino Gonçalves, do Departamento Sociologia- Instituto de Ciências Sociais_UMinho.

“De bicicleta ou de Google Earth, dar voltas em Portugal constitui um modo de (re)conhecimento perfeito para preencher curiosidades ou estranhamentos acerca da exótica geografia da terra dos portugueses. Dizem-nos e demonstram-no de maneira variada que tal terra existe mesmo, que tem um certificado de nascimento, um corpo, uma alma, uma identidade. Não tem nem tem de ter. Muito se insistiu no Portugal dos marinheiros, dos fados ou da bola no jardim à beira mar plantado – um território, o nevoeiro dos antepassados, os mitos, o império, a língua, a saudade e a ruína, aquele que os deuses amam e visitam, o bom povo cosmopolita ou burro de trabalho repartido pelo mundo. Pode ser tudo isso e muito mais e mudar no dia a seguir ou perder-se no caminho; pode dar um execrável programa na televisão, um elaboradíssimo ensaio, um solene discurso patriótico ou uma frenética crepitação nas redes socias.
Não há um fio condutor, um roteiro. Vai-se pela terra fora. Convocam-se palavras de muitas vozes e tempos. Alguma lhe servirá melhor que outras.
A pretexto desta sua última publicação, teremos a oportunidade em revisitar os seus anteriores livros.”

Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) é geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde também é investigador no CEAU-Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo. Para além das suas funções docentes na Universidade do Porto e noutras universidades publica com regularidade sobre temáticas relacionadas com a geografia urbana, o urbanismo e a paisagem.”

 

Coincidências

Álvaro Domingues. Rua da Estrada. Dafne Editora. 2009.

Álvaro Domingues. Rua da Estrada. Dafne Editora. 2009.

Não diga que não há coincidências. Carros, cadeiras e câmaras elevam-se no ar até furar o céu. Lembram a ascensão diária de Santa Maria Madalena para alimentação divina. Álvaro Domingues publicou em 2009 o livro Rua da Estrada. Na capa, uma fotografia com um carro nas alturas (Fig. 1). Cruzando esta fotografia com a “cadeira espacial” do anúncio da Toshiba (2009; vídeo 1), desembocamos no anúncio Stratoquest (2014), com um Citroen C4 a subir ao espaço (vídeo 2). Coincidências…

Marca: Toshiba. Título: Chair. Agência: Grey London. Direcção: Andy Amadeo. UK, 2009.

Marca: Citroen C4. Título: Stratoquest. Agência: Les Gaulois. Direcção: Ivan Laprade. França, 2014.

Álvaro Domingues

Fotografia - Álvaro Domingues

Fotografia – Álvaro Domingues

Álvaro Domingues é um autor que se lê com interesse e prazer. Navega por paisagens transgénicas num mundo em perda do rural e do urbano. Atarda-se, com inteligência, humor e generosidade, sobre obras humanas estranhamente expressivas. Os livros A Rua da Estrada (2009) e Vida no Campo (2012) revelam-se ímpares tanto pela escrita como pela fotografia. Vida no Campo venceu o prémio de Edição da revista LER/Booktailors 2012, na categoria de melhor fotografia original. Recomendo a consulta de textos e fotografias de Álvaro Domingues em O Correio do Porto: http://www.correiodoporto.pt/category/rua-da-estrada.

Fotografia e Investigação

É com grande prazer que o convidamos para o encontro Fotografia e Investigação, que terá lugar no dia 2 de Maio, pelas 18 horas, no Auditório do Instituto da Educação, da Universidade do Minho. Esta sessão do Ciclo Percursos Profissionais na Área da Cultura conta com a participação de Álvaro Domingues, Professor da Faculdade de Arquitetura, da Universidade do Porto, e de Isabel Alves, Responsável pelo Museu das Migrações e das Comunidades, de Fafe.

A fotografia é um recurso apreciável na investigação social, como fonte direta ou como fonte secundária de informação. Não se confina, portanto, ao mero uso ilustrativo. Álvaro Domingues é um exemplo de quanto a máquina fotográfica pode ser um auxiliar do olhar e a fotografia um suporte para a análise e a ilustração. A sua arte peculiar de aproximação à realidade não é alheia ao sucesso alcançado pelos livros Rua da Estrada, publicado em 2010, e Vida no Campo, recém-publicado em Março de 2012, ambos pela Dafne Editora, do Porto.

Gérald Bloncourt é um reputado fotógrafo francês que, nos anos sessenta, direcionou a sua objetiva para os emigrantes portugueses residentes em bairros de lata da região parisiense. Resultou um espólio apreciado por muitos investigadores. As fotografias de Gérald Bloncourt já foram expostas em Fafe, em Lisboa, em Braga e, no final de 2011, em Viana do Castelo. Gérald Bloncourt doou mais de uma centena de fotografias originais ao Museu das Migrações e das Comunidades de Fafe. Isabel Alves, guardiã atenta deste valioso espólio, falará da obra de Gérald Bloncourt.

O Director do Curso de Mestrado em Comunicação , Arte e Cultura

Vilarinho da Furna: Imagens de uma morte adormecida

Em 2010, decorreu no Museu da Imagem, em Braga, uma exposição dedicada a Vilarinho da Furna, aldeia submersa, em 1972, pela construção de uma barragem. As fotografias são da autoria do Grupo IF (Ideia e Forma, composto por António Drumond, Henrique Araújo, João Paulo Sotto Mayor e Manuel Magalhães). Partilhei com Álvaro Domingues a organização de uma conferência próxima do encerramento da exposição. Chamou-se Vilarinho da Furna – Arqueologia do Progresso e teve lugar no dia 9 de Julho de 2010 (http://www.ics.uminho.pt/ModuleLeft.aspx?mdl=~/Modules/UMEventos/EventoView.ascx&ItemID=3056&Mid=29&lang=pt-PT&pageid=25&tabid=11).

O texto que segue corresponde à comunicação que então apresentei. É precedido por uma galeria de fotografias de Vilarinho da Furna colhidas pelo grupo IF aquando da baixa das águas, nomeadamente  em 1976.

 

 

VILARINHO DA FURNA: IMAGENS DE UMA MORTE ADORMECIDA

A memória de Vilarinho da Furna ainda é fresca. Da povoação de outrora sobram as ruínas fotografadas pelo Grupo IF. Memória e fotografias, ambas me inspiram uma palavra: espectralidade (fantasmagoria).

O que simbolizam as ruínas? Os dicionários de símbolos remetem-nos, por um lado, para a remanescência, o lastro no tempo, e, por outro lado, para o efémero e a precariedade, para a finitude das obras humanas. O que, a meu ver, não é suficiente. No nosso imaginário, as ruínas desfrutam de uma aura. Não são meros objectos. São percorridas por uma vitalidade. Se permanecem inertes, se parecem mortas, é de uma morte adormecida, de uma morte que a qualquer momento pode acordar e ganhar vida. As ruínas são lugares onde mora a potência. Tal como os vulcões inactivos, são promessas do extraordinário. Pelo menos, no nosso imaginário.

Atente-se, por exemplo, na saga do Indiana Jones: os momentos clímax ocorrem quase todos em cenários de ruínas. Na parte final do último episódio, as ruínas animam-se numa apoteose fantástica. No filme Ruínas, de 2008, estas perseguem violentamente um grupo de jovens. O Exorcista tem o seu início, a sua chave, nas escavações de umas ruínas no Iraque. Mudando de género, Uncharted, um dos videojogos mais bem cotados de sempre, culmina num cenário de ruínas. O recente Demon Souls, também altamente cotado (9,4), evolui quase sempre num mundo em ruínas. E nas lendas, as ruínas são o local de eleição de bruxas e demónios.

Em suma, primeiro apontamento: as ruínas têm aura, são espectrais.

As ruínas de Vilarinho da Furna não são umas ruínas quaisquer. Para além de alagadas, vivem desassossegadas. Pertencem a vários mundos ao mesmo tempo e a nenhum em particular. Pertencem ao Portugal Profundo. Pertencem também ao Portugal afundado. São vestígios do Portugal Profundo afundado. Pertencem ainda ao nosso mundo que não é profundo nem afundado. Divididas entre mundos, sem lugar nem destino definidos, as ruínas encontram-se num limiar, vagueiam numa espécie de limbo. Por isso mesmo, assombram-nos com as suas aparições, demandando reparação. Nas palavras de uma série de televisão recente, ainda não encontraram a luz. Fazem lembrar almas penadas. São espectrais.

Em suma, dois apontamentos: um, as ruínas de Vilarinho da Furna estão num limbo, fazem uma travessia; dois, nós, os electrificados, ainda não lhes conseguimos fazer o luto. Andamos assombrados e desassossegados. Ao nível do imaginário, claro, sempre ao nível do imaginário. Ocorre-nos o Angelus Novus, de Paul Klee, tal como o interpretou Walter Benjamin. Um anjo, inexoravelmente arrastado para a frente pelos ventos do progresso, mantém o rosto voltado para trás. E o que é que vê? Um amontoar de ruínas. Todos nós temos um pouco de Angelus Novus

Por estranho que pareça, estes apontamentos, estes maneirismos, vêm a propósito da exposição de fotografias do Grupo IF. Não sou especialista em fotografia, por isso vou falar pouco para não errar muito. Sobretudo estando presentes os autores.

As fotografias, a maioria a preto e branco, apresentam um granulado muito fino que tende a esbater ou amaciar os limites. A luz joga frequentemente com os claros e escuros, de um modo que lembra Caravaggio. Existe alguma picturalidade, no sentido de Heinrich Wolfflin, nestas fotografias: não há linhas vincadas, nem centralidades. Não temos ponto nem linha onde nos firmar, logo, onde nos focar. Indeciso, o olhar perturba-se e inquieta-se. Faz, também ele, a sua travessia. O nosso olhar não encontra paz, nem descanso. Uma após outra, as fotografias aparecem-nos, interpelam-nos e inquietam-nos.

O nosso olhar faz a sua travessia, mas não é uma travessia qualquer. É uma travessia balizada pelas câmaras fotográficas, pelo olhar do fotógrafo. Muitas fotografias mostram fragmentos de ruínas. Mas, na realidade, o que nos é dado ver são detalhes de fragmentos ou, mais precisamente, detalhes de uma totalidade fragmentada. Os fragmentos não têm origem no fotógrafo, não foi ele quem os fez (afiançam que foi consequência do progresso…). Mas os detalhes desses fragmentos, esses são, inequivocamente, obra do fotógrafo. Foi ele quem os talhou, quem os recortou. Quem percorre as fotografias com detalhes de fragmentos faz caminho. Deambula, com os pés no lodo ou na calçada, pela aldeia. O mapa pertence, contudo, à câmara fotográfica que vai esboçando um labirinto de imagens esfíngicas. Estas fotografias lembram-me, de algum modo, os filmes de Tarkovski, tais como Espelho ou Nostalgia.

Estas duas características, a picturalidade e o enfoque no detalhe de fragmentos já justificam o reconhecimento de uma certa espectralidade às fotografias da exposição sobre Vilarinho da Furna. Mas há, pelo menos, um outro aspecto que concorre para esse efeito espectral.

Está na moda construir impossíveis verosímeis, mais ou menos ao jeito de M. C. Escher. Trata-se de realizar irrealidades. De as tornar, por assim dizer, palpáveis. Esta exposição propõe-nos, por vezes, o contrário: irrealizar realidades. O real parece sofrer algum encantamento. Irrealiza-se, torna-se-nos estranho ou fabuloso. Estou a pensar em várias fotografias e em especial numa a cores, em que o jogo dos reflexos nos deixa confundidos.

Irrealizar é também uma forma de espectralidade.

Nesta comunicação, não parei de irrealizar. Foi uma procissão de palavras espectrais.