Perversidades
Os anúncios “Storytime” e “Romance”, do Stockholm International Film Festival 2025, resultam perversos: “anormalizam” a meio do percurso, acabando por lembrar dois filmes (de terror) clássicos: O Exorcista (1973) e A Semente do Diabo (Rosemary’s Baby, 1968).
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Carta de uma Criança ao Menino Jesus

Receber é bom, oferecer ótimo. Habitualmente, ocorre reciprocidade. Ora a dádiva suscita contra dádiva (Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva, 1925), ora entra numa cadeia que acaba por regressar ao início (Bronislaw Malinowski, Os argonautas da Pacífico Ocidental, 1922). De qualquer modo, o gesto tende a compensar.
A Academia Sénior de Braga é um espaço de generosidade. Em dezembro de 2025, os alunos foram convidados a colocar uma carta ao Menino Jesus na árvore de Natal instalada na Biblioteca. Partilhada por uma aluna, a carta escrita por uma criança de sete anos, por volta dos anos 1940′, é uma pérola rara; e a análise, da autoria da professora Maria da Graça Guimarães, coordenadora pedagógica da Academia, um diamante penetrante, detalhado e brilhante. Segue o respetivo pdf, cuja leitura recomendo.
Refúgio da atrocidade
Quando se procura acontece encontrar-se, eventualmente, o que não se espera e nos choca. Para acompanhar o anúncio “Member of the British Empire”, da The Respite Association, é preciso ter “coração, cabeça e estômago”.
Ser IA ou não ser IA, eis a questão

Mostram-se imagens de paisagens da Islândia a londrinos; são unânimes a considerá-las falsas, geradas pela IA. Apresentam-se a islandeses como falsas; indignam-se, reconhecendo-as. Reside nesta propensão a maior ameaça da IA: menos a tomar o falso como verdadeiro e mais o verdadeiro como falso.
Reciclagem. Au Revoir Simone

Envelheço e reciclo. Recupero textos e remendo vídeos. Ocupa mais do que criar. Negligencio o blogue, sujeito a outros interesses e interlocutores, mais presenciais e interativos. O frio também contribuiu para desleixar a barba. Amanhã, tenho uma reunião: nada como duas giletes descartáveis e um Cd com música etérea e discreta. Por exemplo, The bird of music (2007), do trio nova-iorquino Au Revoir Simone.
Clio
O anúncio “A Musa”. para o Renault Clio, faz-me regressar ao interesse pela publicidade a automóveis: “os anúncios a automóveis formam um mundo à parte. Destacam-se como os mais prendados em recursos humanos, técnicos e criativos. ” (Sentados sobre Rodas. 19.01.2013). Em dezembro de 2021, fiz aliás uma comunicação dedicada à “música na publicidade de automóveis”.
A musa e o carro Clio são encantadores, mágicos, irreverentes, ousados, joviais, desenvoltos, criativos e práticos. Propriedades que se estima condizentes com os valores do público alvo da publicidade, em particular as novas classes médias.
Pontos quase invisíveis num coração de mercúrio
Numa poltrona ampla, perto de uma lareira abençoada, pode-se viajar, no inverno, até ao infinito (Hippolyte Laroche)
Em janeiro de 2023, escrevi:
Há anos que não me expunha assim, tão fora de casa e tão fora de mim. Deixei o mundo penetrar até aos ossos e a expressão soltar-se. Como desfecho, sinto-me massajado, amassado e moído. Surpreendo-me, por drástica que tenha sido a vacina, a desejar o torpor cálido da caverna. Com a visita desta frente nórdica, frio apenas tolero o da música, compassada, suave, minimalista… Etérea!
Por exemplo, a trompete do norueguês Nils Peter Molvær.” (A Caverna dos Fantasmas de Estimação. The Cinematic Orchestra. 17.01.2023)
Apesar desta menção, o Tendências do Imaginário ainda não contempla nenhuma obra do trompetista norueguês Nils Petter Molvær, pioneiro da fusão do jazz com a música eletrónica. Aproveito esta vaga gélida para reparar o esquecimento.
Nils Petter Molvaer soa diferente, mas ser diferente, mormente pioneiro na diferença, merece apreço. Nada como ensaiar entranhar, de preferência com a ajuda do crepitar da lenha na lareira.
Começo com o belíssimo vídeo oficial de “Nearly Invisible Stitches”, do álbum de estúdio mais recente Stitches (2021). Prossigo com “Mercury Heart”, do álbum Baboon Moon (2011). Por último, regresso a duas músicas do primeiro álbum, o meu preferido, Khmer (1996): “Song of Sand II” (ao vivo em 2001) e “Khmer”.
Sem limite de idade

Escrevi pelo menos sete artigos dedicados à estratégia publicitária da Dove (para aceder aos artigos, carregar no título):
- A beleza que toca o coração
- A mulher real
- Beleza real
- A beleza da coragem
- Estética de género
- A beleza como obrigação
- Publicidade simpática
Confunde-se muitas vezes envelhecimento com desvitalização. Mas a vida não tem idade — apenas a morte traça um fim. Parece ser este o mote do anúncio “Beauty has no age limit”, da Dove. O que vale para as pessoas vale para as comunidades: uma comunidade envelhecida não é uma comunidade sem vida.
Adaptação

O anúncio indiano “Har Koi Peera Lahori Zeera 2.0”, da Lahori Zeera, aproxima-se mais da teoria da evolução de Lamarck do que da de Darwin: os seres humanos adaptam-se em vida aos novos requisitos ambientais, inclusivamente decorrentes das suas próprias inovações, tais como a bebida direta pela garrafa em todas as circunstâncias.

