Reciclagem. Au Revoir Simone

Envelheço e reciclo. Recupero textos e remendo vídeos. Ocupa mais do que criar. Negligencio o blogue, sujeito a outros interesses e interlocutores, mais presenciais e interativos. O frio também contribuiu para desleixar a barba. Amanhã, tenho uma reunião: nada como duas giletes descartáveis e um Cd com música etérea e discreta. Por exemplo, The bird of music (2007), do trio nova-iorquino Au Revoir Simone.
Clio
O anúncio “A Musa”. para o Renault Clio, faz-me regressar ao interesse pela publicidade a automóveis: “os anúncios a automóveis formam um mundo à parte. Destacam-se como os mais prendados em recursos humanos, técnicos e criativos. ” (Sentados sobre Rodas. 19.01.2013). Em dezembro de 2021, fiz aliás uma comunicação dedicada à “música na publicidade de automóveis”.
A musa e o carro Clio são encantadores, mágicos, irreverentes, ousados, joviais, desenvoltos, criativos e práticos. Propriedades que se estima condizentes com os valores do público alvo da publicidade, em particular as novas classes médias.
Pontos quase invisíveis num coração de mercúrio
Numa poltrona ampla, perto de uma lareira abençoada, pode-se viajar, no inverno, até ao infinito (Hippolyte Laroche)
Em janeiro de 2023, escrevi:
Há anos que não me expunha assim, tão fora de casa e tão fora de mim. Deixei o mundo penetrar até aos ossos e a expressão soltar-se. Como desfecho, sinto-me massajado, amassado e moído. Surpreendo-me, por drástica que tenha sido a vacina, a desejar o torpor cálido da caverna. Com a visita desta frente nórdica, frio apenas tolero o da música, compassada, suave, minimalista… Etérea!
Por exemplo, a trompete do norueguês Nils Peter Molvær.” (A Caverna dos Fantasmas de Estimação. The Cinematic Orchestra. 17.01.2023)
Apesar desta menção, o Tendências do Imaginário ainda não contempla nenhuma obra do trompetista norueguês Nils Petter Molvær, pioneiro da fusão do jazz com a música eletrónica. Aproveito esta vaga gélida para reparar o esquecimento.
Nils Petter Molvaer soa diferente, mas ser diferente, mormente pioneiro na diferença, merece apreço. Nada como ensaiar entranhar, de preferência com a ajuda do crepitar da lenha na lareira.
Começo com o belíssimo vídeo oficial de “Nearly Invisible Stitches”, do álbum de estúdio mais recente Stitches (2021). Prossigo com “Mercury Heart”, do álbum Baboon Moon (2011). Por último, regresso a duas músicas do primeiro álbum, o meu preferido, Khmer (1996): “Song of Sand II” (ao vivo em 2001) e “Khmer”.
Sem limite de idade

Escrevi pelo menos sete artigos dedicados à estratégia publicitária da Dove (para aceder aos artigos, carregar no título):
- A beleza que toca o coração
- A mulher real
- Beleza real
- A beleza da coragem
- Estética de género
- A beleza como obrigação
- Publicidade simpática
Confunde-se muitas vezes envelhecimento com desvitalização. Mas a vida não tem idade — apenas a morte traça um fim. Parece ser este o mote do anúncio “Beauty has no age limit”, da Dove. O que vale para as pessoas vale para as comunidades: uma comunidade envelhecida não é uma comunidade sem vida.
Adaptação

O anúncio indiano “Har Koi Peera Lahori Zeera 2.0”, da Lahori Zeera, aproxima-se mais da teoria da evolução de Lamarck do que da de Darwin: os seres humanos adaptam-se em vida aos novos requisitos ambientais, inclusivamente decorrentes das suas próprias inovações, tais como a bebida direta pela garrafa em todas as circunstâncias.
Múm. A música que vem do frio

Tive uma colega islandesa “bela de morrer”, com cabelos brancos impressionantes. Da Islândia, não vêm só alvuras, frentes frias e massas polares. Também distinta música, com vagas melódicas, arranjos boreais, ritmos quebra-gelo, músicos versáteis e vozes lde “sereia”. É o caso da banda Múm, fundada em Reykjavík em 1997; sonoridades etéreas, efeitos eletrónicos e instrumentos invulgares.
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Lindíssimo! É incrível como a geografia extrema, como no caso da Islândia, se traduz nos sons, nas vozes, e sobretudo no silêncio.
Quando comecei a ouvir a primeira música, senti vibrações do interior da terra gelada, onde depois a voz suave como que desliza suavemente sobre a superfície.
As vozes sempre contidas, alongadas, com essa lonjura por vezes, ou simultaneamente, cortada por batimentos rítmicos quase cíclicos. A excepção “A Little Bit, Sometimes”, onde a música cria um espaço de liberdade maior. Mas, como diz a letra,
“Você está diante dos meus olhos,
um pouquinho, um pouquinho às vezes. Às vezes. Às vezes.” Pergunto-me se esta frase não será dirigida à terra.
Adorei! Uma História do Silêncio, onde o longe e o tempo se interligam intimamente. (Almerinda Van Der Giezen, 11.01.2026)
A guitarra de jeff Beck e a voz de Imelda May
Ao escutar o álbum Emotion & Commotion, a guitarra do Jeff Beck voltou a lembrar-me, de algum modo, um violino. Pedi o parecer à IA, que anexo no fim. Selecionei 4 faixas: 1 – Corpus Christi Carol; 7 – Lilac Wine (ft. Imelda May); 8 – Nessun Dorma; e 10 – Elegy for Dunkirk (ft. Olivia Safe). Acrescento 2 canções ao vivo de Jeff Beck e Imelda May durante a homenagem a Les Paul (uma performance a não perder).
Jeff Beck e o Violino
“Dito por si:
Até que ponto se pode sugerir que a forma como Jeff Beck compõe e toca guitarra o aproxima frequentemente da sonoridade do violino?
Dito pelo ChatGPT:
Pode-se sugerir com bastante fundamento que Jeff Beck frequentemente aproxima a guitarra da sonoridade e da expressividade do violino, embora isso não seja um objetivo literal ou constante, mas sim uma consequência do modo como ele pensa a melodia, o fraseado e o timbre.
Essa aproximação acontece em vários níveis:
- Fraseado essencialmente “cantabile”
Beck raramente toca como um guitarrista “de notas”. Ele pensa em linhas melódicas contínuas, muito próximas da lógica de instrumentos de arco ou da voz humana.
Assim como um violinista:
• Ele evita ataques excessivamente percussivos
• Prioriza legato, frases longas e curvas melódicas
• Trabalha com respiração musical, deixando espaços expressivos
Isso fica muito claro em peças instrumentais como “Where Were You”, “Cause We’ve Ended as Lovers” ou “Brush with the Blues”.
- Uso extremo da alavanca como substituto do arco
A alavanca é talvez o elemento mais “violinístico” do Beck:
• Ele a usa constantemente, não apenas para efeitos
• Controla micro-variações de afinação, vibrato contínuo e portamentos
• Cria a sensação de nota sustentada e moldada no tempo, como um arco passando pela corda
Isso se aproxima muito da maneira como um violinista controla pressão e velocidade do arco para dar vida à nota.
- Vibrato orgânico e não padronizado
O vibrato de Jeff Beck não é:
• Regular
• Mecânico
• Sempre igual
Ele varia em:
• Largura
• Velocidade
• Intensidade emocional
Isso é típico de instrumentos de arco, nos quais o vibrato é expressivo, não decorativo. Muitas vezes, Beck inicia uma nota “reta” e só depois introduz o vibrato — exatamente como um violinista faria.
- Ataque suave e controle do timbre
Beck frequentemente:
• Usa os dedos em vez da palheta
• Controla o volume da guitarra o tempo todo
• Evita distorção excessiva
O resultado é um ataque menos abrupto, mais próximo da entrada gradual do som de um violino do que do ataque seco de uma palheta.
- Harmonia implícita em linhas simples
Assim como um violinista solista em música clássica ou jazz:
• Beck sugere a harmonia com uma única linha melódica
• Explora tensões, resoluções e cromatismos
• Não depende de acordes para criar contexto
Isso reforça a sensação de um instrumento melódico “líder”, não rítmico.
Limite da comparação
É importante dizer que:
• Beck não soa como um violino
• Ele não tenta imitar tecnicamente o instrumento
• A guitarra continua sendo claramente uma guitarra elétrica
A semelhança está no pensamento musical, não na imitação tímbrica literal.
Conclusão
Pode-se afirmar que Jeff Beck está entre os guitarristas que mais transcenderam a lógica tradicional da guitarra, aproximando-se da expressividade de instrumentos de arco — especialmente o violino — através de:
• Fraseado contínuo
• Controle microtonal
• Sustentação expressiva
• Uso da alavanca como “arco”
Mais do que tocar guitarra, Beck “esculpe” o som no tempo, o que é justamente o coração da linguagem violinística.” (IA, Chat-GPT).
Tudo bem?
Em Portugal, uma média de três pessoas morrem por suicídio todos os dias. No entanto, sendo um dos tabus mais profundos da sociedade, a morte (especialmente a autoinfligida) raramente é discutida. Não se fala sobre ela.
O suicídio existe na nossa realidade quotidiana, muitas vezes despercebido, enquanto nos esquecemos de que criar espaço, iniciar conversas e prestar atenção é uma responsabilidade partilhada.
Todos os dias, depois de um simples olá, perguntamos “Tudo bem?” – sem esperar pela resposta. É neste breve e quotidiano momento que devemos aprender a parar, a ouvir e, finalmente, a fazer as perguntas difíceis – aquelas que podem mudar vidas.
Este foi o ponto de partida da campanha: criar espaço para um tema fragmentado e desconfortável na conversa do dia a dia. Com o lançamento do 1411 (a primeira linha de apoio nacional de prevenção do suicídio em Portugal, disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana), a campanha reformulou a prevenção como uma responsabilidade social coletiva. (https://www.adsoftheworld.com/campaigns/esta-tudo-bem).
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