Perguntar não ofende

“O Tango é uma tradição que se desloca. Este estado deslocado diferencia-o dos folclores fazendo dele uma cultura de viagem. Viagem dos imigrantes que escrevem o seu próprio romance, passo a passo, na cidade de Buenos Aires. Este romance é um livro aberto à estrutura destroçada. Mesmo nesta cidade, os Argentinos vivem como gente de viagem. Com um instrumento sob o braço ou uma melodia assobiada no canto dos lábios, eles põem em prática a teoria da viagem” (Nathalie Clouet : http://francoisheim.com/arpaban-tango.html).
Passar, mentalmente, pelo Rio da Prata comporta riscos. Por exemplo, o risco de conjeturar. Se “perguntar não ofende”, permito-me perguntar: se o tango canta as pessoas que se deslocam, que viajam, o fado quem canta e o que canta? A viagem dos que ficam?
A harpa e a gaita de fole
A harpa é um instrumento musical antigo. Na Suméria, no início do segundo milénio antes de Cristo, já se tocava harpa (Figura 1). No imaginário medieval, a harpa era um instrumento celestial, tocado pelos anjos (Figura 2) e pelo rei David (Figura 3), muitas vezes pintado a afinar a harpa como quem harmoniza o mundo (Figura 4). Mas o diabo toca tudo, toca todos os instrumentos, incluindo a harpa. Quando não ele, uma criatura que lhe seja próxima. Por exemplo, o burro (Ver O Burro e Harpa: https://tendimag.com/2012/11/20/o-burro-e-a-harpa/). A própria harpa pode ser símbolo do mal, como na Mesa dos Pecados Capitais (1505-1510) ou no inferno do Jardim das Delícias Terrenas (1503-1515), ambos de Hieronymus Bosch (Figura 5 e 6). A iluminura do saltério de St. Rémy esboça uma topografia da música: nas alturas, destaca-se a harpa, nas baixezas, o tambor (Figura 7). Mas o instrumento mais característico do diabo é a gaita de fole. Atente-se na sereia de Beauvais (Figura 8), na dança da morte de Pinzolo (9) ou no demónio que transforma a cabeça de um monge numa gaita de fole (Figura 10).
Xavier de Maistre é um harpista francês. Segue a sua interpretação de Asturias (Leyenda), de Isaac Albéniz.
Dediquei o dia a este artigo. Não parece. Mas ainda bem! Não pensei em mais nada.
Um pouco de céu

A liberdade é poder escolher as suas cadeias (AG).
As cadeias são compostas por laços e acasos. Algumas são circulares: passam pelo ponto de partida, à semelhança de algumas gravuras de M.C. Escher. As cadeias, nem líquidas, nem sólidas, porventura moles, estão em voga. O anúncio The Red Ball, da Mastercard, é uma cadeia galáctica, com “um pouco de céu”: Ana Ivanovic, Annika Sorenstam, Bryan Habana, Dan Carter, Lionel Messi, Neymar Jr., Valeri Kamenskyco… Por mais estrelas que convoque, o esquema deste anúncio não é novo.
Nocturno: uma jangada no coração

Estranha-se o afastamento de um grupo que ajudámos a criar. Deslizam as sombras por carris distintos. Culpas? Responsabilidades? Apenas a bifurcação de vontades. E a náusea da viagem. Com as vértebras a tocar um nocturno.
Os dias correm para a sarjeta

Os dias correm para a sarjeta. Começamos com os outros e terminamos sem nós. Não sobra tempo, nem autoestima. A mesma borra, o mesmo esgoto. Tanto se faz e nada se colhe, a não ser adubo biológico. Nada como a música para nos animar: Black Velvet, da canadiana Alannah Myles.
Vítimas da culpa

Onde quer que exijam responsabilidades, o instinto de julgar e de castigar anda, geralmente, mesclado na tarefa (…) Os homens foram considerados livres para se poder julgá-los e castigá-los, para se poder declará-los culpados (…) O cristianismo é uma metafísica de verdugos.
Friedich Nietzsche (1888), O crepúsculo dos ídolos, Hemus S.A., 2001, p. 41)
Diz-se que a civilização judaico-cristã carrega a cruz da culpa. Como sugere Nietzsche, somos responsáveis logo culpabilizáveis O cristianismo, “uma metafísica do carrasco”, extremou o dispositivo de culpa durante a Idade Média. Atente-se nas imagens da crucificação. Deus feito homem sofre e sangra para expiar os nossos pecados. Na pós-modernidade, continuamos a carregar, monte acima, monte abaixo, a culpa. Somos culpados de tudo e de nada. O papel higiénico e a floresta amazónica, o preservativo e os peixes de Madagáscar, o desodorizante e o clima… Somos vulneráveis à culpabilização. Distribuidores de culpas não faltam. Pagamos-lhes para nos culpar de tudo e absolver de nada. Muitos anúncios enveredam pelo confronto da culpa e da vítima. Especialmente, os anúncios de sensibilização. O anúncio português Karma, da Animalife, está bem concebido e bem realizado. Aposta na sensibilização pela culpabilização. Não advém nenhum mal.
A salvação e o vício

Fumar mata, deixar de fumar é uma tortura, não fumar é uma salvação. Um mês sem cigarros e uma pessoa sente-se “mais zen, mais forte, mais livre”. Não há salvação sem sacrifício, sem alteração. O tabaco é a incarnação contemporânea do mal. Desde o fumo até à cinza. A profecia da desgraça é uma profecia da salvação, assente na conversão dos ímpios. Os ex-fumadores lembram os mouriscos, os cristãos novos ou, por exemplo, Madelena, a pecadora bem-aventurada. Assim reza a palavra refastelada no trono da verdade.
Atendendo à vulgata antitabaco, o anúncio #MoiSansTabac, da Santé Publique de France, revela-se interessante. Não promete a morte, mas uma vida melhor. Não mente com a verdade mas empenha-se na partilha da experiência. Tem, sobretudo, a vantagem de alertar os fumadores para a dificuldade de deixar de fumar. Visa o abandono do tabaco, sem incriminar os fumadores. Abre janelas de esperança, onde lavrava a retórica da condenação. Justifica, no entanto, uma reserva: o anúncio envereda pela metáfora do jogo, mas a vida não é um jogo, tem carne e osso. Oxalá esta nova sensibilização pegue! A anterior tornou-se enfadonha e sinistra. Afirmar que os fumadores vão morrer de alguma doença é pouca comunicação para tanto altifalante, tanta verdade decretada.
O paradoxo da relação com o mundo
“No suor do teu rosto comerás o teu pão”; e pensarás com a cabeça dos outros.

Não estrague o futuro, cuide dele no presente. Perca-se na televisão, no telemóvel e na Internet, mas não esteja sempre absorto e distraído. Também existe o mundo, perto e longe. Os distraídos são, neste mundo, abençoados com o lixo.
Perspetiva-se a mineração de lítio e outros minerais no território do Fojo, junto ao Parque da Peneda-Gerês, nos concelhos de Melgaço, Monção e Arcos de Valdevez. O Fojo é uma extensa área natural “milagrosamente” preservada. A mineração pode ter um efeito ambiental devastador.
Quando focamos imagens como as do anúncio da WWF, concluímos com os nossos botões: isso é no mundo, não é aqui. E “sofremos à distância” com um mundo que, pelos vistos, não é o nosso. A nossa propensão para o simulacro de generosidade não tem limites. Há desflorestação, poluição química, esventramento do solo e outras desgraças, mas não neste “cantinho do céu” que pisamos todos os dias. O mundo está, assim, sempre longe; é um dos paradoxos da humanidade e um dos problemas da cidadania.












