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A vara do noivo

01 Casamento da Virgem Maria. Livro de Horas de Giangaleazzo Visconti, c. 1380. Por Giovanni de’Grassi.

Casamento da Virgem Maria. Livro de Horas de Giangaleazzo Visconti, c. 1380. Por Giovanni de’Grassi.

Mal me sentei à secretária, uma voz interpela-me: – Está na hora de dedicares um artigo ao casamento.

A minha pesquisa de imagens tem três velocidades: rápida, lenta e ultralenta. A maioria quase nem as enquadro. Outras deixam-me, porém, congelado, pasmado, absorto em configurações e pormenores. Foi o caso desta iluminura do Casamento da Virgem Maria, incluída no magnífico Livro de Horas de Giangaleazzo Visconti (c. 1380).

Bernardo Daddi. Casamento da Virgem. Políptico de San Pancrazio. 1335-40.

Bernardo Daddi. Casamento da Virgem. Políptico de San Pancrazio. 1335-40.

José e Maria casam-se à moda medieval. A cerimónia culmina no momento em que os noivos se dão a mão direita. Os homens, à direita, estão separados das mulheres, à esquerda. Esta segregação por género nos ofícios religiosos ainda era prática corrente na minha infância. O que me intriga é que cada homem segure uma vara, e que alguns se empenhem em a partir. A vara de José tem uma pomba.

Como entender este protagonismo das varas? Esta iluminura é um caso isolado? Corresponde a um ritual ou a uma crença? Nada como procurar, navegando entre  textos e imagens.

Casamento de Maria. Notre Dame des Fontaines. França. Fim séc. XV.

Casamento de Maria. Notre Dame des Fontaines. França. Fim séc. XV.

As varas aparecem em várias pinturas, todas alusivas ao casamento da Virgem.

No Políptico de San Pancrazio (Uffizi, 1335-40) e na Igreja de Notre Dame des Fontaines (França, fim do séc. XV) os homens, pouco atentos à cerimónia, canalizam ostensivamente o descontentamento para as varas. No quadro de Rafael (1504), o ambiente é mais sereno. As varas estão, agora, bem alinhadas. Apenas um homem parte, compenetrado, a sua vara.

Rafael. Casamento da Virgem. 1504.

Rafael. Casamento da Virgem. 1504.

Foi fácil encontrar imagens, respeitantes ao casamento da Virgem, com homens munidos com varas. A iluminura do Livro de Horas de Visconti não é, portanto, um caso isolado. Captar o significado do conteúdo dessas imagens foi mais difícil. Nos rituais matrimoniais da Idade Média, nem um suspiro de indício. Estive para desistir. Como a raposa das uvas, perguntava-me: que te interessam as varas do casamento da Virgem? Mas lá acabei por atracar em porto abençoado: uma página da internet do Centre de Recherche sur la Canne et le Bâton.

Em artigo intitulado A Vara anuncia casamento de José e Maria, Laurent Bastard escreve (minha tradução):

“Até ao Concílio de Trento, no século XVI, circulavam na Cristandade os Evangelhos apócrifos, ou seja, não oficiais, para além dos de Mateus, Lucas, Marco e João. Os artistas da Idade Média foram aí buscar muitos dos detalhes reproduzidos na pedra. Naquele que é conhecido por “Proto-evangelho de Tiago” (porque relata acontecimentos anteriores aos dos quatro evangelhos), datado do século II, descobre-se um rito associado às varas e à intervenção divina.

Giotto di Bondone. Capela Scrovegni . Pádua. A entrega das varas no templo. 1305.

Giotto di Bondone. Capela Scrovegni . Pádua. A entrega das varas no templo. 1305.

Eis o texto em que é questão encontrar um esposo para Maria: “O padre vestiu o hábito com doze pequenas campainhas, penetrou no Santo dos Santos e pôs-se a rezar. Eis que um anjo do Senhor apareceu dizendo: “Zacarias, Zacarias, sai e convoca os viúvos do povo. Que cada um traga uma vara. E aquele a quem o Senhor mostrar um sinal a tomará como esposa.” (…) José pousou o seu machado e foi juntar-se ao grupo. Aproximaram-se, em conjunto, com as respectivas varas, do padre. O padre pegou nas varas, entrou no templo e rezou. Acabada a oração, retomou as varas, saiu e devolveu-as. Nenhuma apresentava qualquer sinal. Ora, José recebeu a sua em último lugar. E eis que uma pomba levanta voo da sua vara e pousa na sua cabeça. Então o padre: “José, José, disse, tu és o eleito, és tu quem tomará conta da virgem do Senhor” (http://www.crcb.org/la-baguette-annonce-le-mariage-de-joseph-et-marie/.html).

Giotto di Bondone. Capela Scrovegni . Pádua. Casamento da Virgem. 1305.

Giotto di Bondone. Capela Scrovegni . Pádua. Casamento da Virgem. 1305.

Dois quadros de Giotto ilustram perfeitamente esta passagem do evangelho apócrifo de Tiago. No primeiro, um grupo de homens, cada um com sua vara, entra no templo. No segundo, José e Maria casam-se. Os homens preteridos não escondem a desilusão. Na vara de José, a pomba está prestes a levantar voo. Missão cumprida.

Chuteiras bestiais

Tudo me lembra alguma coisa. Idade a mais, criatividade a menos. Sintonizo-me com a sociedade em que dizem que vivo. Nenhuma outra a sucede. É a última; e não avança. É tão “após”; e tão pouco “antes”! Pós-industrial, pós-colonial, pós-moderna, pós 11 de Setembro… Os milenaristas, os iluministas, os modernos e os marxistas erguiam a cabeça e viam a ponta do nariz. Entretanto, acabaram-se as grandes narrativas, a prevalência dos projectos e, até, a própria história. Somos a primeira sociedade orgulhosamente órfã do futuro! Consta que agarramos o presente… O presente não se agarra, vive-se. Faz-se. Para além da idade e da falta de criatividade, vivo nesta sociedade da repetição. Nestes moldes, recordar pode parecer  um desperdício. Quem não espera o futuro não tem por que se sentar no passado.


Marca: Adidas. Título: Instinct takes over. Internacional, Agosto 2014.

Vêm estes depautérios a propósito do último anúncio da Adidas: Instinct Takes Over. Em sequência acelerada e sincopada, o futebolista turco Mesut Özil é associado a diversos animais, cuja potência simbólica reverte para as chuteiras Predator. Pois, o anúncio lembra-me coisas antigas. Lembra-me as gravuras de quatro artistas, todos com um artigo no Tendências do Imaginário:

Giambattista della Porta (1535-1615): http://tendimag.com/2012/08/26/homens-e-bestas/
Ticiano Vecellio (c. 1485-1576): http://tendimag.com/2012/08/27/homens-e-bestas-2/
Peter Paul Rubens (1577-1640): http://tendimag.com/2012/08/29/homens-e-bestas-3/
Charles Le Brun (1619-1690): http://tendimag.com/2012/09/03/homens-e-bestas-4-charles-le-brun/.

Por estranho que pareça, recordar também pode ser uma forma de tomar balanço.

Os Olhos de Santa Luzia

Hoje é dia bem aventurado. Não me perguntem a razão. Dedico-o a Santa Luzia, “a Santa Luzia dos meus amores” (Conjunto Maria Albertina).

Francesco del Cossa , Santa Luzia, c. 1472. Detalhe

01 Francesco del Cossa, Santa Luzia, c. 1472. Detalhe

Santa Luzia (ou Lúcia) é uma virgem mártir cristã do séc. III. Por ordem do Imperador Diocleciano, um soldado arrancou-lhe os olhos e entregou-lhos numa bandeja. Nesse momento, surgem-lhe novos olhos, ainda mais bonitos. A santa foi decapitada.

Francesco del Cossa. Santa Luzia, Após 1470.

02 Francesco del Cossa. Santa Luzia, Após 1470.

Nos séculos XV e XVI, era costume pintar Santa Luzia a segurar uma bandeja com dois olhos pousados (ver, por exemplo, figuras 3 a 7).

Master of the Legend of Saint Lucy. The Virgin Mary Among the Virgins. Last quarter of the 15th century.

03 Master of the Legend of Saint Lucy. The Virgin Mary Among the Virgins. Last quarter of the 15th century.

Master of the Legend of Saint Lucy, The Virgin Mary Among the Virgins (detail), last quarter of the 15th century,

04 Master of the Legend of Saint Lucy, The Virgin Mary Among the Virgins (detail), last quarter of the 15th century,

Domenico Beccafumi. Santa Luzia. 1521.

05 Domenico Beccafumi. Santa Luzia. 1521.

Palma il Giovane (1544-1628). Santa Luzia.

06 Palma il Giovane (1544-1628). Santa Luzia.

Francesco del Cossa  (c. 1430 – c. 1477) dispensa a bandeja; a Santa segura com a mão esquerda os dois olhos, como se estes fossem uma flor. Um efeito de mestre. Não estivessem os nossos olhos habituados ao surrealismo, e o espanto seria outro. Os olhos vêem consoante viram.

Com a devida contrição, a propósito de Santa Luzia, permito-me convocar o Conjunto Maria Albertina. Não é por nada, mas estou convencido que, a seu tempo, venderam, em Portugal, mais discos do que os Pink Floyd.

Conjunto Maria Albertina. Santa Luzia.

 

 

Paródia disparatada

Há dias, fiz um apelo para a interpretação de uma gárgula do Mosteiro da Batalha. Apetece-me, agora, alinhar alguns disparates.

Grotescas, as gárgulas incarnam o pecado, em acto ou em expiação. Constituem exemplos a evitar. Muitas gárgulas com figuras humanas são frades ou freiras que caíram na tentação da carne, da luxúria e da gula. Várias freiras têm manto, mas subido ou aberto, exibindo os peitos e as partes genitais. Umas estão com as mãos juntas, em sinal de arrependimento, outras com as mãos em partes impróprias. Por vezes, aparece uma criança, de corpo inteiro ou só a cabeça (no peito, no ventre…). Há quem associe estas figuras de mulheres devassas com criança a freiras que tiveram filhos, nomeadamente com autoridades da comunidade eclesiástica. Que motiva a Igreja a esculpir estes desmandos? Há quem assegure que a Igreja estava mais empenhada em combater, do que em encobrir, os pecados internos.

Projecto Golum. Réplicas de gárgulas do Mosteiro da Batalha.

Projecto Golum. Réplicas de gárgulas do Mosteiro da Batalha.

A gárgula pode corresponder a uma freira que teve um filho através de uma relação inaceitável. E a criança? Por que está assim representada? A mulher engole, vomita ou engasga? Nada inibe o escultor grotesco de colocar uma cabeça nos locais mais inconcebíveis: no peito, na barriga, no rabo, na perna… E na boca. Mas não me parece que seja ao acaso.

Continuando a fabular, mas de outro jeito.

Gárgula do Mosteiro da Batalha. Geolocation.

Gárgula do Mosteiro da Batalha. Geolocation.

As bruxas também tinham mantos e cobriam a cabeça. Na Idade Média, havia muitas bruxas na cabeça das pessoas. No ranking da luxúria, estavam no topo. E constava que comiam crianças, incluindo os filhos. Figura próxima do diabo, a bruxa tinha lugar cativo na tribuna das gárgulas.

A figura desta gárgula com uma criança na boca traz à memória o parto do gigante Gargântua pela orelha da mãe, Gargamelle (ver http://tendimag.com/?s=partos+extravagantes). As letras francesas e a escultura portuguesa a aproximar-se! Era lindo, não era?

Complicando, mas estamos a lidar com reportórios simbólicos muito sensíveis, já tinha ouvido falar em espécies de rã que têm os filhos pela boca. Segundo o jornal ABC News, de 20 de Março de 2013, uma equipa de cientistas australianos recuperou uma estirpe de rã “que dá à luz pela boca” (http://abcnews.go.com/blogs/technology/2013/03/frog-that-gives-birth-through-mouth-to-be-brought-back-from-extinction/). Ora o sapo é dos animais mais ligados à bruxaria e ao próprio diabo.

CBA News. Rã que dá à luz pela boca

ABC News. Rã que dá à luz pela boca

Sabe bem fabular, delirar, parodiar a argumentação científica. Será que se esconde em cada um de nós um Jonathan Swift ou um Carlo Cippola?

Gárgulas impúdicas

01 Gárgula. Sé Catedral de Braga.

Gárgula. Sé de Braga.

02 Gárgula. Igreja Matriz de Caminha. Localização.

02 Gárgula. Igreja Matriz de Caminha.

03 Gárgula. Igreja Matriz de Caminha. Foto de Manuel Passos.

03 Gárgula. Igreja Matriz de Caminha. Foto de Manuel Passos.

Olhar para cima e deparar-se com um rabo prestes a defecar representa uma experiência estranha mas possível. Em Portugal, existem gárgulas impúdicas na Sé de Braga (figura 1), na Igreja Matriz de Caminha (figuras 2 e 3) e na Sé da Guarda (figura 4). Vigiam-nos um pouco por toda Europa: Espanha, França, Inglaterra, Alemanha… Algumas, além do rabo, exibem os genitais. Por exemplo, na Matriz de Caminha, numa casa do século XV em Bruniquel (figura 5) e na Igreja de St Pierre de Dreux (figura 6).

04 Gárgula. Sé da Guarda.

04 Gárgula. Sé da Guarda.

Estas gárgulas de rabo ao léu têm ar de se borrifar para o comum dos mortais. A fazer fé na alquimia grotesca, fertilizam-nos. A cartografia simbólica do corpo humano desvaloriza o baixo (os pés), o posterior (as costas) e o interior (as entranhas). Estas gárgulas perfazem um cúmulo grotesco: baixeza traseira incontinente.

05 Gárgula. Casa do séc. XV. Bruniquel. França

05 Gárgula. Casa do séc. XV. Bruniquel. França

06 Gárgula. Igreja de St Pierre de Dreux. França

06 Gárgula. Igreja de St Pierre de Dreux. França

07 Gárgula. Catedral de Amiens. França.

07 Gárgula. Catedral de Amiens. França.

O que significa tamanha vulgaridade numa igreja? O fenómeno não é inédito. As danças macabras atemorizam tanto as igrejas como os cemitérios dos sécs. XV e XVI. Nos  edifícios beneditinas, multiplicam-se os sátiros e as carrancas. O próprio diabo é presença habitual na casa do Senhor.

08 Gárgula. Catedral de Fribourg, Brisbau. Alemanha.

08 Gárgula. Catedral de Fribourg, Brisbau. Alemanha.

Michel Maffesoli fala em homeopatia do mal, senão da morte. Mikhail Bakhtin, convoca os interstícios do lado sombrio da criação, o da potência dionisíaca. Entretanto, imunes a hermenêuticas, as gárgulas defecam chuva, a fonte da vida, a seiva do húmus.

 

Boba

Boba? Pensava que os bobos eram como os padres: só no masculino. Não é que me preocupe com bobos, a não ser os bobos da corte que se riem de nós, bobos de terceira classe. Afinal, há bobas! Aparecem em gravuras e pinturas (figuras 1 e 2). Algumas bobas  ficaram célebres.

Hans Sebald Beham. The Fool and the Lady Fool. c. 1540

Hans Sebald Beham. The Fool and the Lady Fool. c. 1540

A gravura de Hans Sebald Beham, The Fool and the Lady Fool (c. 1540), com um casal de bobos, despoletou esta indagação. Para quem não é como São Tomé, eis uma evidência a considerar. Mas, pelos vistos, bobas não faltam. Jane Foole, também conhecida com The Queen’s Fool, foi boba da corte inglesa, nomeadamente das rainhas Catherine Parr e Maria I de Inglaterra. Em França, a boba mais famosa foi Mathurine, ao serviço, no séc. XVII, dos reis Henrique III, Henrique IV e Luís XIII.

Família de Henrique VIII, c. 1545.

Família de Henrique VIII, c. 1545.

No retrato da família de Henrique VIII (c. 1545), pode-se ver, no lado direito, o bobo e, no lado esquerdo, a boba.

A Fuga dos Demónios

01 Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV.

01 Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV.

Há uns anos, fiz uma comunicação sobre São Bento, no Mosteiro de Tibães. Djævleuddrivelse.Sublinhei que São Bento era exigente: por um lado, as promessas, como se sabe, são para cumprir, por outro lado, tem fama de expulsar os demónios à paulada e à chapada. As pessoas ouviram, e deram-me um desconto.
No imaginário medieval, os demónios eram expulsos pela boca. Pareciam morcegos ou répteis voadores envoltos em fumo.

02 Julgamento de uma bruxa. 1598.

02 Julgamento de uma bruxa. 1598.

03 Jesus expulsa um demónio de um homem mudo. (De T. Troels Lund. A vida quotidiana na região nórdica VI, p 30).

03 Jesus expulsa um demónio de um homem mudo. (De T. Troels Lund. A vida quotidiana na região nórdica VI, p 30).

Entre os santos exorcistas, dois sobressaem: São Bento e São Francisco. São Bento não era meigo com os endemoninhados. Arreava-lhes umas bofetadas (figura 4) e umas pauladas (figuras 5 e 6).

04 Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio., 1637-1714

04 Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio., 1637-1714

05  Spinello Aretino, O Santo Liberta um monge possuído.  Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença.  1387

05 Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído. Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387

06 Spinello Aretino, O Santo Liberta um monge possuído. Pormenor.

06 Spinello Aretino. São Bento Liberta um monge possuído. Pormenor.

Mil anos depois, São Francisco retoma o exorcismo colectivo característico de São Bartolomeu. Cidade onde este santo entrasse, não demorava demónio (figura 8).

07 Giotto Arezzo.  Lenda de São Francisco. Exorcismo dos Demónios em Arezzo Entre 1297 e 1299

07 Giotto Arezzo. Lenda de São Francisco. Exorcismo dos Demónios em Arezzo. Entre 1297 e 1299.

Não é só o demónio que sai pela boca, a alma também. No último sopro, a alma liberta-se do corpo. Incapazes de captar o momento da morte, muitos pintores optaram por figurar a alma a despedir-se do corpo. Engendraram diversas soluções: na figura 9, a alma transita sob a forma de uma criança que é acolhida por um anjo.

08 The Angel of Death, taking the soul, in the form of a child, from a dying man. From Reiter's Mortilogus, printed by Oegelin and Nadler, Augsburg, 1508.

08 The Angel of Death, taking the soul, in the form of a child, from a dying man. From Reiter’s Mortilogus, printed by Oegelin and Nadler, Augsburg, 1508.

Pela boca quase tudo entra e pela boca nunca se sabe o que pode sair. Alguma razão tinha François Rabelais ao sugerir que a boca é a parte mais cósmica do corpo humano. A este propósito, ouvi falar de um país que alberga demónios tão graúdos que não há boca nem orifício por onde consigam passar. Só de cesariana.

Esqueletos vampiros

Na Polónia, na Bulgária, na Irlanda e na Itália foram descobertos túmulos medievais com esqueletos de corpos brutalizados: pedras e tijolos enfiados na boca, cabeça entre as pernas, corpos cravados com estacas… São “esqueletos de vampiros”. Pertenciam a cadáveres passíveis de se tornar vampiros. Impunha-se evitar a saída do túmulo. Macabro? Sem dúvida, mas “somos homens: nada do que é humano nos é estranho” (Terêncio). Aliás, esqueletos vampiros soa-me algo familiar, soa-me a vampiros sem esqueleto. Seguem o documentário Vampire Skeletons Mystery, da National Geographic, mais os “Vampiros” de José Afonso.

National Geographic. Vampire Skeletons Mystery. Documentário. 2012.

José Afonso. Vampiros. Álbum República. 1975.

A Pedra Filosofal na Era Electrónica

apple

Acaba de sair um anúncio da Apple, Dreams, centrado na versatilidade e nas potencialidades do iPhone 5s. Trata-se de uma opção clássica. Pelos vistos, o iPhone 5s é mais do que um canivete suíço; é um canivete suíço electrónico. Se o MacGyver possuísse um iPhone 5s, os episódios da série seriam mais curtos. O anúncio culmina, porém, com uma frase banal que é um golpe de mestre: “You are more powerful than you think”!

Um capítulo do livro Vertigens (download em pdf: Dobras e Fragmentos) releva que muitos anúncios ganham em ser encarados como alegorias. Por outro lado, um artigo deste blogue (http://tendimag.com/2014/06/14/todos-tugas-chamamento/) chama a atenção para uma tendência recente na publicidade: o anúncio como chamamento. Mais do que o produto ou do que a marca, o anúncio pretende caracterizar o consumidor. “O anúncio não é teu, tu és o anúncio, mais precisamente, tu és o anunciado.”

Neste novo anúncio da Apple, o essencial não é, afinal, o canivete suíço versão iPhone 5s. O anúncio tem ares de pedra filosofal da idade electrónica. O anúncio é, mas não é, uma descrição do produto. O anúncio é, mas não é, uma alegoria da marca. O conteúdo é uma alegoria do consumidor. A marca é uma alegoria do consumidor. Ambos profetizam o que ele é e o que ele pode. O anúncio é, assim, uma alegoria do consumidor. A aura do produto e da marca adere à pele do consumidor, “mais poderoso do que imagina”.

Marca: Apple – iPhone 5s. Título: Dreams. Agência: TBWA / Media Arts Lab (Los Angeles). USA, Agosto 2014.

A Parte e o Corpo

The Hands of Orlac . 1924.

The Hands of Orlac . 1924.

Realidade ou fantasia, a personalidade dupla é um tópico comum. Mais insólito é o tópico da corporalidade dupla. Mais prótese, menos prótese, o corpo pode prescindir de uma parte. A ficção científica vai mais longe: no romance Não Temerei Nenhum Mal, de Robert Heinlein (I Will Fear No Evil,1970), Johann Sebastian Bach Smith enxerta o seu cérebro no corpo de uma funcionária. O problema resume-se em saber a que parte vai sair o híbrido: ao patrão ou à funcionária? O dilema é antigo. No filme mudo The Hands of Orlac (1924), um pianista sofre um acidente que lhe destroça as mãos. Recorre a um transplante. Mas o pianista começa a adoptar comportamentos criminosos. As mãos transplantadas pertenciam a um assassino!

Marca: Cervejaria Nacional. Título: Bike & Beer Belgium 2014. Agência: Brancozulu. Brasil,  Julho 2014.

Este comentário sofre de um vício de interpretação. O anúncio é uma comédia e o comentário enreda-se em tragédias. Como redimir esta perversidade? Neste blogue, analisam-se  muitos anúncios, o que não quer dizer que seja essa a sua vocação. O blogue é um grande “desvocacionado”. Os anúncios são, frequentemente, tomados como pretexto. Neste caso, a aura cultural, e civilizacional, do romance I Will Fear No Evil e do filme The Hands of Orlac é de tal ordem que, proporcionando-se, ignorá-los seria uma falha. No blogue Tendências do Imaginário, os dedos correm sobre as teclas como se fossem cabras.