Alusões
A publicidade tem especial apetência pela intertextualidade. Espera beneficiar da aura alheia.
O anúncio Who says we can’t, da Mitsubishi, convoca as bailarinas de Edgar Degas (1834-1917) e o anúncio Odyssey (2002) da Levi’s (ver http://tendimag.com/2011/09/16/libertacao/). Estas fontes de influência podem funcionar de vários modos. O destinatário pode ignorá-las por completo. Citações sem referência, nem, por isso, perdem o efeito próprio. Trata-se, apesar de tudo, de uma cena à Degas ou de uma libertação à Odyssey.
O destinatário pode não identificar a citação, mas esta pode não lhe ser estranha. Cruzou-se algures com ela, por exemplo, estampada numa caixa de chocolates. Neste caso, ao efeito de uma citação sem referência, acrescenta-se o efeito de familiaridade.
Muitos espectadores conhecem, mesmo assim, o anúncio Odyssey e a pintura de Degas. Agora, o confronto intertextual presta-se à especificação e à contextualização, dando azo a uma pluralidade de leituras dialógicas. Na citação com referência, a aura assemelha-se a um chapéu mexicano: tem outro alcance e ajusta-se aos objectivos. Principalmente, quando o anúncio se apresenta particularmente bem conseguido.
Marca: Mitsubishi. Título: Who says we can´t. Agência: MK Norway, Bergen, Norway. Direcção: Jacob Strom. Noruega, Março 2014.
- 01. Edgar Degas. Dancing examination. 1874.
- 02. Edgar Degas. Ballet Rehearsal on Stage. 1874
- 03. Edgar Degas. A aula de dança, Museu d’Orsay. 1875.
- 04, Edgar Degas. Dancers Practicing at the Bar. 1876-77
- 05. Edgar Degas. Two Dancers Entering the Stage. c.1877.
- 06. Edgar Degas. Balançant danseurs. 1877-79
- 07. Edgar Degas. Prima Ballerina, cerca de 1878, Museu de Orsay.
- 08. Edgar Degas. Dancers Climbing a Stair. c.1886-1890
- 09. Edgar Degas. Ensaio de Ballet, 1879. Mussée d’Orsay
- 10. Edgar Degas. ballet class the dance. Hall. 1880
- 11. Edgar Degas. L’Atteinte. 1882.
- 12. Edgar Degas. The pink dancers before the ballet. 1884
- 13. Edgar Degas. Dancer Adjusting Her Shoe . 1885.
- 14. Edgar Degas. Blue dancers. 1898-99.
- 15. Edgar Degas. Dançarinas atando as sapatilhas, cerca de 1893-1898, Museu de Arte de Clevland, Ohio.
A técnica e a ciência como ideologia
Técnica e ciência como “ideologia” (1968) é uma das primeiras obras de Jürgen Habermas. Se bem me lembro, sustenta que, nas sociedades modernas, a ciência e a técnica funcionam como uma forma que disciplina o olhar. A ciência e a técnica compõem, de algum modo, a nova grande linguagem do poder. Neste anúncio da L&M, de 1949, os atributos da ciência (a medicina, as sondagens e as estatísticas) são mobilizados para promover o consumo do tabaco, nomeadamente da marca L&M. Ontem, como hoje, a tendência aponta para o abuso das capacidades da ciência e da técnica e para a ultrapassagem dos seus limites.
Marca: L&M. Título: Doctor’s day. USA, 1949.
Santo Cão
Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto do meu cão. “Plus je vois les hommes, plus j’aime mon chien” (pensamento atribuído a Blaise Pascal). Este é o lema do anúncio Unloved, da Mayhew Animal Hole.
Anunciante: Mayhew Animal Home. Título: Unloved. Agência: Direct. Direcção: Dominic Goldman. UK, Março 2014.
Saint Christopher. The icon from Assumption Church from Bogorodskoe village (Lyubimov uyezd of Yaroslav province). First half of XVII century.
É uma tentação irresistível associar temas que nada aproxima, a não ser uma ponte perversa pendurada num pensamento vadio. Em séculos passados, havia quem acreditasse em santos cinocéfalos (com cabeça de cão), nomeadamente São Cristóvão e São Guinefort. Segue a lenda de São Guinefort tal com foi escrita por Etienne de Bourbon no século XIII.
Sobre a Adoração do Cachorro Guinefort
Em sexto lugar, devo falar de superstições ofensivas, algumas das quais ofensivas a Deus, outras a nossos semelhantes. Ofensivos a Deus são aqueles que honram demónios ou outras criaturas como se fossem divinos: é o que faz a idolatria, e é o que fazem as mulheres miseráveis que lançam sortes, que buscam a salvação adorando árvores de sabugueiro ou fazendo-lhes oferendas; desprezando igrejas e relíquias sagradas, levam seus filhos a essas árvores mais velhas, ou a formigueiros, ou a outras coisas, a fim de que a cura seja efetuada.
Isso aconteceu recentemente na diocese de Lyon, onde, quando eu pregava contra a consulta dos oráculos e ouvia confissões, muitas mulheres confessaram que haviam levado seus filhos para Saint Guinefort. Como pensei que se tratava de uma pessoa sagrada, continuei a minha investigação e finalmente descobri que se tratava de um galgo, que havia sido morto da seguinte maneira.
Na diocese de Lyon, perto do vilarejo das freiras chamado Villeneuve, na propriedade do Senhor de Villars-en-Dombe, havia um castelo, cujo senhor teve um bebé de sua esposa. Mas um dia, quando o senhor e a senhora, bem como a ama, saíram de casa, deixando o bebê sozinho no berço, uma enorme serpente entrou na casa e aproximou-se do berço do bebê. Vendo isso, o galgo, que tinha permanecido no local, perseguiu a serpente e, atacando-a por baixo do berço, desequilibrou o berço e mordeu a serpente toda, que se defendeu, mordendo o cão com igual severidade. Por fim, o cachorro matou-a e atirou-a para longe do berço. O berço, o chão, o cachorro, a sua boca e a sua cabeça, estavam todas encharcadas com o sangue da serpente. Apesar de gravemente ferido pela serpente, o cão permaneceu de guarda ao lado do berço. Quando a ama voltou e viu a situação, pensou que o cão tinha devorado a criança e soltou um grito de aflição. Ao ouvi-lo, a mãe da criança também acorreu, olhou, pensou o mesmo e também gritou. O cavaleiro, ao chegar, pensou a mesma coisa, desembainhou a espada e matou o cão. Só depois se aproximaram e encontraram o bebé são e salvo, dormindo pacificamente. Prosseguindo a investigação, descobriram a serpente, despedaçada pelas mordidas, jazendo morta. Percebendo, deste modo, a verdade dos factos, embaraçados por terem morto um cão tão dedicado, enterraram-no nu poço em frente à porta do castelo, e cobrindo-o com uma grande pilha de pedras, plantaram árvores ao lado, em memória do sucedido.
O castelo foi, contudo, destruído por vontade divina e a propriedade, reduzida a um deserto, foi abandonada pelos seus habitantes. Os camponeses, sabendo da nobre conduta do cachorro e da sua morte inocente, embora inocente, começaram a visitar o local, a venerar o cachorro como um mártir, rezando-lhe a pedir ajuda quando estavam doentes ou necessitados. Seduzidos e tentados pelo diabo, que costuma conduzir deste modo os homens ao erro. Foram principalmente as mulheres quem, com filhos doentes ou fracos, os levava para este lugar. Iam à procura de uma velha numa cidade fortificada a uma légua de distância que lhes ensinava os rituais que deviam cumprir para fazer oferendas aos demônios e para invocá-los e atraí-los ao local. Quando chegassem, fariam oferendas de sal e outras coisas; pendurariam as roupas das criancinhas nos arbustos circundantes fixando-as nos espinhos. Passavam, então, os bebés nus entre os troncos de duas árvores. A mãe segurava, de um lado, o bebé e atirava-o nove vezes para a velha, do outro lado, invocando, ao mesmo tempo, s demônios para conjurar os faunos da floresta de “Rimite” a levar a criança doente e fraca a quem acreditam pertencer e lhes devolver o seu próprio filho grande, gordo, vivo e saudável. Feito isso, as mães infanticidas pegaram seus filhos e colocaram-nos nus aos no chão ao pé da árvore sobre a palha de um berço; acenderam em cada lado da cabeça da criança duas velas com um polegar de espessura com o fogo que trouxeram com eles e fixaram-nas no tronco por cima dela. Em seguida, enquanto as velas se consumiam, afastaram-se o suficiente para não ver a criança nem a ouvir chorar. Várias pessoas nos contaram que enquanto as velas estavam acesas, queimaram e mataram vários bebés.
Uma mulher também me disse que depois de ter invocado os faunos, e já se estava a retirar, viu um lobo (ou o diabo em forma de lobo, segundo ela) a sair da floresta em direção ao bebê. Tê-lo-ia devorado, caso, movida pelos seus sentimentos maternais, não o tivesse recuperado. Por outro lado, quando uma mãe voltou para seu filho e o encontrou ainda vivo, pegou nele, o levou para as águas de um rio próximo, chamado Chalaronne [um afluente do Saône], e o mergulhou nove vezes; se ele resistir sem morrer no local. ou logo depois, é sinal de que tinha uma constituição muito forte.
Fomos ao lugar e reunimos as pessoas e pregamos a prática. Em seguida, desenterramos o cachorro morto e cortámos e queimámos o bosque de árvores, junto com os ossos do cachorro. E eu obtive um édito promulgado pelos senhores da terra, ameaçando espoliação e multas de qualquer pessoa que, no futuro, ali se reunisse para tal fim.
Etienne de Bourbon (falecido por volta de 1262): De Supersticione. Fordham University: https://sourcebooks.fordham.edu/source/guinefort.asp).
Se alguém, porventura, te disser que tens cabeça de cão, pensa duas vezes. Pode ser um elogio ou não.
O Rei da Marcha
A equipa do Centro de Estudos Comunicação e Sociedade dedicada ao estudo dos postais ilustrados (http://postaisilustrados.blogspot.pt/) prepara uma nova publicação. Mais uma oportunidade para descobertas. À cata de postais sonoros do início do século XX, deparei com um postal com música de John Philip Sousa (1854-1935): The Corcoran Cadets March, 1890 (vídeo 2). “Rei das marchas”, filho de português, john Philip Sousa é o autor da marcha nacional dos Estados-Unidos (vídeo 1). Pelos vistos, tenho um espírito torto. À procura de alhos (postais sonoros), encontro bugalhos (um compositor). Como invejo aqueles que procurando alhos e encontram alhos. Estão sempre a ensacar alhos!
Vídeo 1. John Philip Sousa. Marcha The Stars and Stripes Forever. 1897.
Vídeo 2. John Philip Sousa. Marcha The Corcoran Cadets March, 1890.
Pintar o campesinato: Jean-François Millet.
Na disciplina de Sociologia da Arte, estamos a dar os impressionistas, com recurso a um docudrama da BBC (The Impressionists, 2006). Conjugar o passado no “futuro anterior” é uma tentação. Apostar no que interessa é outra. Ambas constituem uma forma de cegueira. A abertura e a dispersão são mais do que uma distracção. A focagem apaga mais do que ilumina. E, no entanto, cada momento histórico encerra uma riqueza inesgotável.
Para Ernst Bloch, a investigação não se pode cingir ao que existiu, importa convocar também o que poderia ter acontecido, embora não se tivesse concretizado. Se a história está repleta de impossíveis realizados, ainda mais apinhada está de possíveis por realizar. A floresta não tem só caminhos e clareiras. Mas a bússola tende a reter do passado apenas aquilo que desagua no presente, resumindo-o, de preferência, em poucas palavras. E, no entanto, para aprender a humanidade toda a humanidade é pouca. Pelos vistos, acabaram as grandes narrativas… Sobram as grandes palavras: pós-modernidade; hiper modernidade, pós-humanidade, hiper realidade, hiper pós… Uma procissão que teima em não se aventurar por entre as árvores da floresta. Esta pedagogia do caminho batido e do olhar filtrado conforta a ilusão de que o presente é uma espécie de bacia da história da humanidade.
Em França, na segunda metade do século XIX, para além dos academistas e dos impressionistas, houve outros artistas envolvidos na disputa em torno do que devia ser a arte. Dentro e fora da Académie Royale de Peinture et de Sculpture. Fora, abriram caminho, entre outros, o realismo (e.g. Jean-François Millet e Gustave Courbet) e o simbolismo (e.g. Gustave Moreau e Odilon Redon).
Jean-François Millet (1814-1875), francês, filho de camponeses, precursor e referência do realismo, fundador da Escola de Barbizon, frequenta vários cursos de pintura graças a uma sucessão de bolsas. Ao dedicar-se, com estilo próprio, à pintura de camponeses humildes, afasta-se claramente do estilo académico: “Le style académique ne pousse pas tant les artistes à trouver leur propre style qu’à se rapprocher d’un idéal qui repose sur quelques principes; simplicité, grandeur, harmonie et pureté” (http://www.mutinerie.org/les-lieux-de-travail-qui-ont-change-lhistoire-3-les-ateliers-dartistes/#.Uwfb4fl_tih). No quadro As Espigadoras, 1857, retrata as camadas mais baixas da sociedade: três mulheres camponesas rebuscam grãos de trigo após a colheita.
Millet teve influência nos pintores impressionistas, nomeadamente Van Gogh, que retoma algumas cenas. Por outro lado, Salvador Dali não só retoma O Angelus (1857–59), como lhe dedica um livro: Le Mythe Tragique de l’Angélus de Millet, 1ª ed. 1938, Paris, Allia Editions, 2011.
Na sociologia, Pierre Bourdieu faz várias alusões a Millet e Jean-Claude Chamboredon, co-autor de Le Métier de Sociologue, escreveu um artigo sobre Millet: “Peinture des rapports sociaux et l’invention de l’éternel paysan: les deux manières de Jean-François Millet”, Actes de la Recherche en Sciences Sociales, nº17-18, 1977, pp. 6-29.
- Jean-Françlois Millet. L’église de Gréville (Manche). 1871-74
- Jean-François Millet. A Fiandeira. 1868-69.
- Jean-François Millet. As Respigadoras. 1857.
- Jean-François Millet. Buckwheat Harvest Summer. 1868-74.
- Jean-François Millet. Ceifeiros Descansando. 1853
- Jean-Francois Millet. Dandelions. 1867-68.
- ean-François Millet. Descanço ao meio dia. 1866.
- Van Gogh. A Sesta. 1890
- Jean-François Millet. Duas banhistas. 1848.
- Jean-François Millet. Fisherman. 1869-1870.
- Jean-François Millet. Haystacks-Autumn. 1874.
- Jean-François Millet. Hunting Birds at Night. 1874.
- Jean-Francois Millet. La Mort et le bûcheron. 1859
- Jean-François Millet. Man with a hoe. 1860-62
- Jean-François Millet. Prieuré de Vauville, Normandie. 1873
- Jean-François Millet. Reclining Female Nude. 1844-45
- Jean-François Millet. the gust of wind. 1871-73
- Jean-François Millet. The Temptation of St Anthony. 1846
- Jean-François Millet. The Winnower. 1866-68.
- Jean-François Millet. The Angelus, 1857-1859.
- Salvador Dali.The Angelus. 1935.
- Jean-François Millet. O Semeador. 1850.
- Jean-François Millet. O Semeador. 1850. Pormenor
- O Semeador. Millet. Van Gogh
- Millet. Two Men Turning Over the Soil 1866. Van Gogh. Two Peasants Digging. 1889.
- Jean-François Millet. The Winnower. 1866-68.
O bom e o mau ladrão
Os discursos do poder sobre a ciência lembram-me duas passagens da Bíblia; o bom e o mau ladrão no Calvário e a parábola do trigo e do joio.
Habituámo-nos a diversas classificações das ciências: nomotéticas e ideográficas; dedutivas e indutivas; duras e moles; experimentais e não experimentais; cosmológicas e noológicas; formais e factuais… Confrontamo-nos agora com um mandamento novo: produtivas e não produtivas. São prestáveis as ciências com impacto no crescimento económico. As demais são imprestáveis. As primeiras merecem investimento público adicional. As demais, nem uma esmola. Não é fácil discernir a fronteira entre as duas ciências. Recorro, por isso, à catequese pela imagem.
Desde Aristóteles, não se vislumbra distinção tão profunda e orgânica como esta entre cientistas produtivos e cientistas não produtivos. Como se pode comprovar na figura 1, a diferença radica no próprio cérebro: uns são produtivos, outros não. Uma tumografia pode ajudar a identificar um cientista produtivo.
Os efeitos das ciências produtivas são observáveis na própria fisionomia do cientista (ver figura 2). Existem sinais exteriores de cientificidade produtiva. A antropologia Física pode ajudar a classificar os cientistas
O cientista imprestável desperdiça, em contrapartida, o dinheiro público, que tanto custa a sacar aos cidadãos, em investigação inútil do ponto de vista do crescimento económico (ver figura 3). As Ciências do Espírito podem ajudar a caracterizar o perfil comportamental das diversas figuras de cientistas.
OVMI (Objecto Voador Mal Identificado)
À memória de Raphael Pividal
Por estranho que pareça, na Idade Média a sexualidade era mais liberta, menos inibida e menos censurada do que nos nossos dias.
“Entre a maneira de falar sobre relações sexuais representada por Erasmo e a representada aqui por Von Raumer, é visível uma curva de civilização semelhante à mostrada em mais detalhe na manifestação de outros impulsos. No processo civilizador, a sexualidade, também, é cada vez mais transferida para trás de cena da vida social e isolada em um enclave particular, a família nuclear. De maneira idêntica, as relações entre os sexos são segregadas, colocadas atrás de paredes da consciência. Uma aura de embaraço, a manifestação de um medo sociogenético, cerca essa esfera da vida. Mesmo entre adultos é referida apenas com cautela e circunlóquios” (Norbert Elias, O processo civilizador, vol. I, Rio de Janheiro, Zahard Ed., 1994, p. 180).
Os manuscritos e as imagens medievais evidenciam esta “curva civilizacional” ao nível do controlo e da expressão da sexualidade. As aventuras de Panurgo no Pantagruel, de François Rabelais, fornecem uma amostra. Nas iluminuras, multiplicam-se, explícitas, as cenas de sexualidade, ora realistas, ora caricatas: árvores que dão falos, coitos, exibicionismos, sodomia… Não as mostro porque estamos no século XXI e este blogue é para todas as idades. A maioria pertence a cópias do Romance da Rosa (1230-1280). Subsiste, no entanto, uma imagem que não resisto a partilhar. Considero-a a mais extraordinária. Pintada entre 1340 e 1345, representa um objeto voador mal identificado (OVMI).
Será um peixe voador como aqueles que Hieronymus Bosch pintou 150 anos mais tarde no tríptico de Lisboa (As Tentações de Santo Antão, entre 1495 e 1500)? Ambos transportam pessoas, mas ao OVMI, o que falta em barbatanas sobra em orelhas. Ressalve-se a existência de uma associação simbólica entre o peixe e o OVMI, por exemplo, na mitologia maia (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982).
Será o OVMI uma vassoura montada por uma bruxa? A nudez confere, mas o dispositivo voador pode ter cabo, mas não tem feixe para varrer. Ora, as bruxas eram muito ciosas das suas vassouras… Não varriam e ainda menos voavam em vassouras amputadas.
Será um pão, um cacete, como o “pão catalão” de Salvador Dali (1932)? Um pão voador? Nada de pasmar, há vários registos do fenómeno. Um restaurante em Singapura chama-se The Flying Bread. Tratar-se-ia, neste caso, de um OVMI pasteleiro surrealista.
O peixe, a vassoura e o pão constituem três hipóteses plausíveis. Acrescento uma quarta: o OVMI é o fruto de uma faleira que tem como propriedade levar o homem e a mulher a cavalgar um peixe voador.
Subsistem, contudo, muitas dúvidas e algumas insuficiências metodológicas. Quer-me parecer que tamanho enigma só pode ser resolvido mediante uma investigação sistemática e aprofundada, conduzida por uma equipa interdisciplinar internacional, com acesso a alta tecnologia, apoiada por uma ou várias fundações mecenas, com publicação dos resultados numa revista estrangeira com factor de impacto.
Todos os caminhos vão dar a Babel
Devia ter-me inscrito num congresso da minha área de investigação e não o fiz. Cheguei a uma idade em que, em matéria de ciência, não pago para falar, nem pago para ouvir. Autismo? Com certeza! Ou talvez não, nunca partilhei tanto e tão depressa os resultados da investigação como nos últimos anos. Deparei com uma ficha relativa à actividade científica do ano 2013, onde só são contempladas as comunicações em congressos! Parte da minha actividade profissional resvala para a insignificância. Conferências não servem? O mundo dá cada cambalhota! As conferências foram destronadas pelos “papers”. Sexta, apresento, por convite, uma comunicação nas 1.as Jornadas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Região Norte (ver cartaz). Pelos vistos, atendendo aos rankings profissionais em circulação, não vou fazer nada. Ainda por cima, fora do tempo da cereja. Vou sentir-me pura transparência a pender para a nulidade.
À focalização nas revistas com fator de impacto, acrescenta-se a focalização nos congressos. Eis uma nova culinária: todos os caminhos da ciência vão dar a Babel, a torre da ambição desmedida e do colossal desperdício. O triunfo da Bimby!
Nas aulas de Matemática e de Estatística cunhavam-se algumas anedotas do tipo: um homem que tem a cabeça no congelador e as pernas no forno, do ponto de vista da média, está a uma boa temperatura. Outra sentença para rir consistia no seguinte: o que não é quantificável não existe! Eram piadas, mas já preocupavam C. Wright Mills (Sociological Imagination, 1959) e Pitirim Sorokin (Fads and foibles in modern sociology and related sciences, 1956), que alertavam para o risco de quantofrenia. Nunca pensei que a piada se tornasse realidade. Tudo indica, aliás, que temos uma nova versão: só existe o que é facilmente quantificável.
Gatos Músicos
À minha gata, que tem quatro patas e um rabo.
Esfíngico, o gato é um misto de sabedoria, astúcia e mistério. A exemplo de Garfield, é um especialista em sonho e hedonismo. Mascote predilecta do poder, o gato é associado ao oculto, à bruxaria e à superstição. Maléfico, chega a ser temível (e.g. “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe). Do ponto de vista simbólico, o gato é complexo e ambivalente. Acrescente-se, para complicar, a figura do gato músico, tão comum e apreciada nas iluminuras medievais. Tendências do Imaginário já contemplou o burro músico (http://tendimag.com/2012/11/20/o-burro-e-a-harpa/). É a vez do gato!

06. Book of Hours, Cat beating cymbal, from a marginal cycle of images of the funeral of Renard the Fox, Walters Manuscript W.102, fol. 78v detail.
Estrelas medievais
As iluminuras medievais são uma floresta onde nos perdemos com prazer. O manuscrito do séc. IX com a Aratea, de Murcus Tullius Cícero, é um bom exemplo. Inclui uma vintena de desenhos de constelações. A astronomia era, então, um assunto sério; as figuras ainda agora nos tocam, falando uma linguagem que não nos é estranha. Uma boa inspiração para um designer…
Marcus Tullius Cicero, Aratea, illustrated with 22 constellation figures containing extracts from Hyginus, Astronomica. Reims, ca 820-850, The British Library, Manuscrito Harley MS 647.



































































































