O milagre da queda

Simone Martini. The Miracle of the child falling from the balcony. Church of St. Augustine Novello, Siena, Italy. ca 1328.
Hoje, deu-me, por razão insuspeita, para me fixar no tema da queda. Num quadro do séc. XIV, Simone Martini celebra o milagre em que Santo Agostinho salva uma criança da queda de uma varanda. À esquerda, o santo em levitação, ao centro, a criança em queda e, à direita, a criança salva, de pé, rodeada por testemunhas estupefactas. Este milagre tem mais de mil anos. Mudam-se os tempos, mudam-se os milagres. Há comunidades em queda prolongada e não há quem que lhes deite a mão! Só sermões. O miraculoso assume novas artes. A quem cai, tira-se-lhe o chão. Cai sem acabar de cair. A levitação é substituída pela palavra, de preferência, bendita pelos media. No tempo de Simone Martini, a queda era aos infernos; agora, é ao infinito, com coro fininho.
A Donzela e o Unicórnio
Nem sempre é fácil encontrar uma imagem que condiga com uma música. Nessas circunstâncias, nada como esquecer a música e optar por uma imagem que nos agrade, se possível com um grão de exotismo. A música “In The Beginning Was The Word”, de Lisa Gerrard e Marcello de Francisci (Departum, 2010), segue, desta sorte, rodeada por unicórnios medievais: uma iluminura do Livro de Horas de Nassau (ca. 1470-1490) e uma galeria com as seis tapeçarias de La Dame à la Licorne, uma para cada sentido, mais a que sobra para o desejo (finais do séc. XV: Museu de Cluny, Paris).
Lisa Gerrard e Marcello De Francisci. In the beginning was the word. Departum. 2010.
- 01. Dame à la licorne. Le goût. Cluny. Paris. Fim séc. XV.
- 02. Dame à la licorne. L’ouie. Cluny. Paris. Fim séc. XV.
- 03. La dame à la Licorne. La vue. Cluny. Paris. Fim séc. XV.
- 04. Dame à la licorne. L’odorat. Cluny. Paris. Fim séc. XV.
- 05. Dame à la licorne. Le toucher. Cluny. Paris. Fim séc. XV.
- 06. Dame à la licorne. À mon seul désir. Cluny. Paris. Fim séc. XV,
Macabro
Não gosto de dançar com cadáveres. Não é que sejam cadáveres; estão vivos. Mas, pelo sim, pelo não, já os depositaram na morgue.
Seguem duas canções dos Agua Viva (Apocalipsis, 1971). A primeira porque “me queda la palabra”, a segunda porque “los niños muertos no crecen”. Nunca imaginei, 43 anos depois, ouvi-los com os mesmos ouvidos.
Agua Viva. Me Queda la Palabra. Apocalipsis. 1971.
Agua Viva. La Niña de Hiroshima. Apocalipsis. 1971.
A Criança e a Mãe
O homem é uma criança: um “eterno bambino”, como dizem os italianos. Um Peter Pan. E a mulher, o que é a mulher? Uma “eterna mamma”? Desde a primeira boneca? Com “música no coração”? Ou talvez não… Vem esta provocação a propósito do anúncio Little Boy, da Volkswagen.
Marca: Volkswagen. Título: Little Boy. Agência: DDB & Tribal Amsterdam. Direção: Vincent Lobelle. Holanda, Maio 2014.
Semear seixos na areia
Aproxima-se a praia, a nossa utopia de estimação! Após trezentos e trinta dias encavalitados, podemos, enfim, pasmar o presente e ler o futuro na meteorologia. É tão bom sentir o vento nos pêlos, a água nos calcanhares e um par de mãos a besuntar-nos as costas. E escurecer o mundo com óculos de sol! Se mandasse, decretava obrigatório o uso de óculos de sol. Há pessoas que adoram este enterro da agenda e esta ressurreição dos corpos. Nada se compara a este mergulho imaculado no caldeirão do pecado. A gula, a luxúria, a inveja, a preguiça e o orgulho tostam ao sol. A gente sente-se tão bem! A vida e a alma remam ao sabor da maré. A vida vai a banhos!
Não gosto da praia. Do mesmo modo que a raposa rejeita as uvas. Não me dou com aquele ar molhado e empoeirado, com tempero a sal. Não há momento da praia que não pague com tosse. Por mês, condescendo três idas à areia e uma dúzia à esplanada. É quanto baste! Se, por penitência, desço à praia, entretenho-me a ver a minha sombra a escrever poemas na areia. Guardo estes versos com sete camadas de pudor. Não são poemas. São escapatórias de quem seca sem se ter molhado. Tenho algum carinho por esta Antecipação da praia. Pelos últimos versos: “semear seixos na areia à espera que cresçam árvores de pedra”. Reconheço-me, a mim e ao meu País.
“Que tenho a força de sumir também”
(Mário de Sá-Carneiro)
Antecipação da praia
Na orla salgada
Um pêndulo pasmado
Sem voo, nem asa
Apenas ar trovoado
Desfio nos dedos
O sargaço do tempo
Acendo um cigarro
Nas barbas do sol
Com a alma a tossir
Deixo-me afundar
Num caldo de cinzas
Com búzios de luto
Vultos sem sombra
Passeiam nuvens de pó
Com óculos escuros
E mamilos estrávicos
Corpo dobrado
Semeio seixos na areia
À espera que cresçam
Árvores de pedra
Grotescamente
Vermibus é um artista de Berlim. Em Dissolving Europe, retira as imagens de outdoors, desfigura-as com dissolvente e recoloca-as, deformadas, no mesmo local. Assim sucedeu em Paris, Barcelona, Amsterdão, Viena, Londres e Berlim. Os cartazes apresentam modelos famosos, que irradiam beleza, classe e estilo. Vermibus torna-os irreconhecíveis. Estamos confrontados com um conto de fadas invertido. O belo dá lugar ao disforme e ao grotesco, lembrando a estética de Francis Bacon, bem como a técnica de restauro da espanhola Cecilia Giménez.
Vermibus. Dissolving Europe. 2013.
Agonia
Luis de Morales. Piedad (c. 1560).
Imagens de impotência em situação de emergência. Aflitivas. A realidade e a ficção combinam-se para aumentar o efeito de verdade. Um efeito mais real do que o real. Uma criança brinca na companhia da mãe num espaço doméstico: amor, prazer, segurança. Um acidente, altamente improvável, ocorre: a criança salta para a piscina, escorrega numa prancha de surf e bate com a nuca no rebordo. Toda esta acção ocupa os 10 primeiros segundos do anúncio, montados com minucioso realismo. Segue-se o desespero e a agonia da mãe: 50 segundos, agora, de hiper-realidade. A agonia da mãe perante a perda do filho actualiza uma figura matricial do imaginário cristão. Impotente, a mãe, impotente, o espectador. Não há modo de ultrapassar a barreira. Tal como existem pecados por omissão, também existe impotência por omissão: incapacitação imprevidente. Um curso de primeiros socorros, eis a falha! Bastante cru, quase cruel, eventualmente chocante.
Anunciante: St John Ambulance Foundation. Título: Break the barrier. Agência: The Brand Agency. Direção: Grant Sputore. Austrália, Abril 2014.
PS. A tradição judaico-cristã ainda está para dar e para durar. Os mestres da palavra continuam a pensar que a consciencialização carece ser regada com uma boa dose de sentimento de culpa
Três faces e um pescoço
Para além do Cristo da Trindade (http://tendimag.com/2014/04/10/as-tres-faces-de-cristo/), cabeças com três faces aparecem em máscaras pré-colombianas, mexicanas, africanas, venezianas e orientais, em esculturas de shiva e na arte contemporânea. Há quem represente o tempo com três faces: o passado, o presente e o futuro (ver galeria). Esta pequena digressão à volta do mundo serve para encalhar na capa do primeiro cd dos Goldfrapp: dois rostos femininos laterais simétricos; na parte frontal, o capricho dos cabelos esboça a carranca de um monstro. É difícil escolher uma música do álbum Felt Mountain (2000). Segue a faixa Utopia, com a capa.
Goldfrapp. Utopia. Felt Mountain. 2000
- Fig 01. Máscara précolombiana. México
- Fig 02. Três faces do Rei. Museu Cultural de Izamal. México
- Fig 03. Máscara. Lega. Zaire.
- Fig 04. Máscara de Veneza
- Fig 05. Deus Shiva. Índia
- Fig 06. As três faces de shiva
- Fig 07. Pai Tempo
- Fig 08. Leyton Franklin. Mask with three faces in one.
- Fig 09. Karan A L (hester). Three Faces of Art. 2005.
- Fig 10. Goldfrapp. Felt Mountain. Frontal. 2000.
As Três Faces de Cristo
Produzi, há tempos, um protodocumentário intitulado As Duas Faces, Imagens de Cristo (http://tendimag.com/2011/12/11/as-duas-faces-imagens-de-cristo-2/). Hoje, não vão ser duas mas três as faces de Cristo.
Para representar a Trindade, alguns artistas retratam Cristo com três faces: uma frontal e duas laterais. A imagem mais antiga que conheço remonta a cerca de 1410: o fresco Trinità con tre volti, no Duomo de Atri (Itália) assinado por Antonio Martini de Atri.
Impressionante é também o Cristo Com Três Faces. A Trindade, da Escola Holandesa, pintado cerca de 1500.
Resulta estranho o quadro Trinity Jesus (cerca de 1610) exposto em Schloss Hellbrunn, num castelo do séc. XVII situado em Salzburg. Um Cristo com três caras e quatro olhos, nem mais, nem menos!
Esta representação da Trindade é bastante rara. A Igreja optou por outras soluções. Nem toda a Igreja tolerou sempre esta imagem de Cristo com três faces, com particular incidência no cristianismo colonial, da América Latina.
Lorpalândia
Este anúncio espanhol, Fotografias Perfeitas para um Mundo Imperfeito, mostra como para criar uma ilusão não é preciso muito. Bastam alguns enxertos à realidade para encobrir as nódoas indesejáveis. O ilusionismo na sociedade é, no entanto, mais abrangente. Dissimula relações de poder, privação e alienação.
Uma ilusão desmascarada deixa de ser uma ilusão. Ficamos, assim, alertas para as ilusões que já não o são. As demais compõem o nosso carnaval quotidiano. A Lorpalândia. A “desilusão” não é o fim do poder, este é capaz de impor a vontade por outros meios, embora com menos legitimidade, autoridade e eficácia simbólica.
Este anúncio da Fotoprix, estreado em 2002, obteve vários prémios, incluindo o Leão de Cannes. Com um bom conceito, é criterioso nos casos escolhidos e comedido nos efeitos.
Marca: Fotoprix. Título: Fotografias Perfeitas para um Mundo Imperfeito. Agência: The Farm. Direcção: Xavier Rosello. Espanha, 2002.
































