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A Dança da Vida

Um + Um = Quatro ou cinco. “O amor é quando o silêncio não pesa” (Fernando Namora). “O amor é quando a gente mora um no outro” (Mário Quintana). O amor são vinte e tantos anos de estar juntos.

Marc Chagall. Over the town. 1918

Marc Chagall. Over the town. 1918

Marc Chagall. Le Champs de Mars. 1954.

Marc Chagall. Le Champs de Mars. 1954.

O Encanto do Feio

01. Quentin Massys. Duquesa Feia, c. 1513.

01. Quentin Massys. Duquesa Feia, c. 1513.

Quentin Massys (1466-1530) foi um pintor flamengo fundador da Escola de Antuérpia. Com ele trabalhou o pintor Eduardo, o Português (ver Museu Nacional de Arte Antiga). Para além dos temas religiosos, dedicou vários quadros a ofícios relacionados com o dinheiro, bem como a situações e personagens caricatos, ao jeito do realismo grotesco de que fala Mikhail Bakhtin. Na obra de Quentin Massys, destacam-se dois quadros: O Cambista e a sua Mulher, uma obra-prima universal (Figura 2) e a Duquesa Feia (Figura 1), a quintessência da “estética do feio”. Quentin Massys antecipa, deste modo, pintores tais como Diego Velasquez, Adriaen Browver, William Hogarth ou Francisco de Goya.

02. Quentin Massys. The Moneylender and his Wife. 1514.

02. Quentin Massys. The Moneylender and his Wife. 1514.

Segue uma galeria com algumas obras de Quentin Massys. Para acompanhar, um excerto com danças do Renascimento interpretadas pelo Clementic Consort.

Clementic Consort. Danses. Danses de la Renaissance. 1992.

Fazer anos num único dia

Anónimo. Le cours de la vie de l'homme. Séc. XIX.

Anónimo. Le cours de la vie de l’homme. Séc. XIX.

Faço anos. Aproveito, nos intervalos da festa, para ruminar. Como um burro, naturalmente. Quem não faz anos? Até os mortos, sobretudo quando são célebres.

Para os pré-modernos, chegar aos trinta e cinco era uma bênção, que importava celebrar com uma acção de graças. E os pós-modernos, que festejam? Mais um passo rumo ao indizível? Hoje, o interesse do aniversário reside na sua comemoração.

Hans Baldung. Grien Die sieben Lebensalter des Weibes. 1544

Hans Baldung. Grien Die sieben Lebensalter des Weibes. 1544

A gravura anónima do séc. XIX arruma os anos por dezenas. Até aos trinta, tudo é aceleração e ascensão; aos cinquenta, tudo é curva e inflexão. Acena-se à juventude e abre-se a porta à velhice. É a hora de investir no envelhecimento activo e nas clínicas anti-ageing.

Estou empenado das costas. Mal me consigo mexer. Como diria Paul Watzlawick, o corpo fala. Inconveniente, não se cansa de lembrar a idade. É de bom-tom gostar daquilo que somos. O espelho, pelos vistos, partiu. Sem alternativa, não há como escolher o destino.

Os amigos têm-me mimado. Para além do razoável. A todos agradeço. Um abraço.

A roseira dos cravos

Mestre do Alto Reno. O Jardim do Paraíso. 1410-1420.

Mestre do Alto Reno. O Jardim do Paraíso. 1410-1420.

Concluído cerca de 1410, de autor anónimo, posteriormente conhecido por Mestre do Alto Reno, este Jardim do Paraíso, pintado sobre madeira, com uma dimensão de 26 por 33 cm, irradia uma beleza apaziguadora.

Que enxerga neste pequeno quadro um leigo do terceiro milénio?

Um ambiente de harmonia e sossego. As personagens dedicam-se à leitura, à música, à conversa e à natureza. A mulher que mais atrai o olhar lê, outra segura um psaltério tocado por um menino, uma terceira colhe cerejas e a quarta mergulha uma colher na água. Um anjo conversa com dois homens. Também se bebe e também se come. Sobre a mesa, um copo e cascas de fruta. Neste pequeno jardim do Paraíso abundam as plantas e os pássaros: 27 variedades de plantas e 12 espécies de pássaros.

Um olhar mais atento fica, contudo, perturbado com alguns pormenores. À esquerda, a meia altura, uma roseira parece dar cravos. No canto inferior direito, surge um animal esquisito, que mais parece um pato com quatro patas depenado. Lembra os monstros alienígenas pintados, em pleno século XX, por HR Giger (ver em baixo). Por último, não longe do “pato depenado”, aos pés do anjo, um demónio escuro! Ora, segundo a catequese, o Paraíso não é sítio destinado a demónios. Perplexidades de um ignorante em hagiografia medieval.

No pequeno mas aconchegado Jardim do Paraíso, a Virgem Maria lê um livro, Santa Doroteia colhe cerejas, Santa Bárbara retira água com uma colher e Santa Cecília segura um instrumento musical, um psaltério, que é tocado pelo Menino Jesus. Em amena conversa, encontram-se São Jorge, com o dragão (o tal pato de quatro patas), o Arcanjo São Miguel, com o demónio, subjugado aos pés (faz parte da imagem do arcanjo) e Santo Osvaldo. Sobra o pormenor da roseira que dá cravos, que se resolve facilmente com um par de óculos ou, melhor ainda, contemplando-a, como advoga o Principezinho, com o coração.

HR Giger. Alien. 1978.

HR Giger. Alien. 1978.

O milagre da queda

Simone Martini. The Miracle of the child falling from the balcony. Church of St. Augustine Novello, Siena, Italy. ca 1328.

Simone Martini. The Miracle of the child falling from the balcony. Church of St. Augustine Novello, Siena, Italy. ca 1328.

Hoje, deu-me, por razão insuspeita, para me fixar no tema da queda. Num quadro do séc. XIV, Simone Martini celebra o milagre em que Santo Agostinho salva uma criança da queda de uma varanda. À esquerda, o santo em levitação, ao centro, a criança em queda e, à direita, a criança salva, de pé, rodeada por testemunhas estupefactas. Este milagre tem mais de mil anos. Mudam-se os tempos, mudam-se os milagres. Há comunidades em queda prolongada e não há quem que lhes deite a mão! Só sermões. O miraculoso assume novas artes. A quem cai, tira-se-lhe o chão. Cai sem acabar de cair. A levitação é substituída pela palavra, de preferência, bendita pelos media. No tempo de Simone Martini, a queda era aos infernos; agora, é ao infinito, com coro fininho.

A Donzela e o Unicórnio

Livro de Horas de Engelbert de Nassau. Flandres, ca. 1470-1490.

Livro de Horas de Engelbert de Nassau. Flandres, ca. 1470-1490.

Nem sempre é fácil encontrar uma imagem que condiga com uma música. Nessas circunstâncias, nada como esquecer a música e optar por uma imagem que nos agrade, se possível com um grão de exotismo. A música “In The Beginning Was The Word”, de Lisa Gerrard e Marcello de Francisci (Departum, 2010), segue, desta sorte, rodeada por unicórnios medievais: uma iluminura do Livro de Horas de Nassau (ca. 1470-1490) e uma galeria com as seis tapeçarias de La Dame à la Licorne, uma para cada sentido, mais a que sobra para o desejo (finais do séc. XV: Museu de Cluny, Paris).

Lisa Gerrard e Marcello De Francisci. In the beginning was the word. Departum. 2010.

Macabro

Dança macabra de Clusone. 1485.

Dança macabra de Clusone. 1485.

Não gosto de dançar com cadáveres. Não é que sejam cadáveres; estão vivos. Mas, pelo sim, pelo não, já os depositaram na morgue.

Seguem duas canções dos Agua Viva (Apocalipsis, 1971). A primeira porque “me queda la palabra”, a segunda porque “los niños muertos no crecen”. Nunca imaginei, 43 anos depois, ouvi-los com os mesmos ouvidos.

Agua Viva. Me Queda la Palabra. Apocalipsis. 1971.

Agua Viva. La Niña de Hiroshima. Apocalipsis. 1971.

 

A Criança e a Mãe

Pablo Picasso. Retrato de Mulher. 1936

Pablo Picasso. Retrato de Mulher. 1936

O homem é uma criança: um “eterno bambino”, como dizem os italianos. Um Peter Pan. E a mulher, o que é a mulher? Uma “eterna mamma”? Desde a primeira boneca? Com “música no coração”? Ou talvez não… Vem esta provocação a propósito do anúncio Little Boy, da Volkswagen.

Marca: Volkswagen. Título: Little Boy. Agência: DDB & Tribal Amsterdam. Direção: Vincent Lobelle. Holanda, Maio 2014.

Semear seixos na areia

Fig 1. Claude Monet, Marine, Pourville, 1881

Fig 1. Claude Monet, Marine, Pourville, 1881

Aproxima-se a praia, a nossa utopia de estimação! Após trezentos e trinta dias encavalitados, podemos, enfim, pasmar o presente e ler o futuro na meteorologia. É tão bom sentir o vento nos pêlos, a água nos calcanhares e um par de mãos a besuntar-nos as costas. E escurecer o mundo com óculos de sol! Se mandasse, decretava obrigatório o uso de óculos de sol. Há pessoas que adoram este enterro da agenda e esta ressurreição dos corpos. Nada se compara a este mergulho imaculado no caldeirão do pecado. A gula, a luxúria, a inveja, a preguiça e o orgulho tostam ao sol. A gente sente-se tão bem! A vida e a alma remam ao sabor da maré. A vida vai a banhos!

Fig 2. Claude Monet. Beach at Pourville, 1882.

Fig 2. Claude Monet. Beach at Pourville, 1882.

Não gosto da praia. Do mesmo modo que a raposa rejeita as uvas. Não me dou com aquele ar molhado e empoeirado, com tempero a sal. Não há momento da praia que não pague com tosse. Por mês, condescendo três idas à areia e uma dúzia à esplanada. É quanto baste! Se, por penitência, desço à praia, entretenho-me a ver a minha sombra a escrever poemas na areia. Guardo estes versos com sete camadas de pudor. Não são poemas. São escapatórias de quem seca sem se ter molhado. Tenho algum carinho por esta Antecipação da praia. Pelos últimos versos:  “semear seixos na areia à espera que cresçam árvores de pedra”. Reconheço-me, a mim e ao meu País.

“Que tenho a força de sumir também”
(Mário de Sá-Carneiro)

Fig3. Pornic. Reflet de plage. 2012

Fig3. Pornic. Reflet de plage. 2012

Antecipação da praia

Na orla salgada
Um pêndulo pasmado
Sem voo, nem asa
Apenas ar trovoado

Desfio nos dedos
O sargaço do tempo
Acendo um cigarro
Nas barbas do sol

Com a alma a tossir
Deixo-me afundar

Fig 4.  Pornic. Sommeil de plage. 2010.

Fig 4. Pornic. Sommeil de plage. 2010.

Num caldo de cinzas
Com búzios de luto

Vultos sem sombra
Passeiam nuvens de pó
Com óculos escuros
E mamilos estrávicos

Corpo dobrado
Semeio seixos na areia
À espera que cresçam
Árvores de pedra

Grotescamente

Ecce Homo. Santuário de Nossa Senhora da Misericórdia de Borjia. Zaragoza. Espanha.

Ecce Homo. Santuário de Nossa Senhora da Misericórdia de Borja. Zaragoza. Espanha.

Vermibus é um artista de Berlim. Em Dissolving Europe, retira as imagens de outdoors, desfigura-as com dissolvente e recoloca-as, deformadas, no mesmo local. Assim sucedeu em Paris, Barcelona, Amsterdão, Viena, Londres e Berlim. Os cartazes apresentam modelos famosos, que irradiam beleza, classe e estilo. Vermibus torna-os irreconhecíveis. Estamos confrontados com um conto de fadas invertido. O belo dá lugar ao disforme e ao grotesco, lembrando a estética de Francis Bacon, bem como a técnica de restauro da espanhola Cecilia Giménez.

Vermibus. Dissolving Europe. 2013.