A roseira dos cravos

Mestre do Alto Reno. O Jardim do Paraíso. 1410-1420.

Mestre do Alto Reno. O Jardim do Paraíso. 1410-1420.

Concluído cerca de 1410, de autor anónimo, posteriormente conhecido por Mestre do Alto Reno, este Jardim do Paraíso, pintado sobre madeira, com uma dimensão de 26 por 33 cm, irradia uma beleza apaziguadora.

Que enxerga neste pequeno quadro um leigo do terceiro milénio?

Um ambiente de harmonia e sossego. As personagens dedicam-se à leitura, à música, à conversa e à natureza. A mulher que mais atrai o olhar lê, outra segura um psaltério tocado por um menino, uma terceira colhe cerejas e a quarta mergulha uma colher na água. Um anjo conversa com dois homens. Também se bebe e também se come. Sobre a mesa, um copo e cascas de fruta. Neste pequeno jardim do Paraíso abundam as plantas e os pássaros: 27 variedades de plantas e 12 espécies de pássaros.

Um olhar mais atento fica, contudo, perturbado com alguns pormenores. À esquerda, a meia altura, uma roseira parece dar cravos. No canto inferior direito, surge um animal esquisito, que mais parece um pato com quatro patas depenado. Lembra os monstros alienígenas pintados, em pleno século XX, por HR Giger (ver em baixo). Por último, não longe do “pato depenado”, aos pés do anjo, um demónio escuro! Ora, segundo a catequese, o Paraíso não é sítio destinado a demónios. Perplexidades de um ignorante em hagiografia medieval.

No pequeno mas aconchegado Jardim do Paraíso, a Virgem Maria lê um livro, Santa Doroteia colhe cerejas, Santa Bárbara retira água com uma colher e Santa Cecília segura um instrumento musical, um psaltério, que é tocado pelo Menino Jesus. Em amena conversa, encontram-se São Jorge, com o dragão (o tal pato de quatro patas), o Arcanjo São Miguel, com o demónio, subjugado aos pés (faz parte da imagem do arcanjo) e Santo Osvaldo. Sobra o pormenor da roseira que dá cravos, que se resolve facilmente com um par de óculos ou, melhor ainda, contemplando-a, como advoga o Principezinho, com o coração.

HR Giger. Alien. 1978.

HR Giger. Alien. 1978.

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One response to “A roseira dos cravos”

  1. beatrizmartins.artes@gmail.com says :

    Paraíso complexo!

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