Semear seixos na areia

Fig 1. Claude Monet, Marine, Pourville, 1881

Fig 1. Claude Monet, Marine, Pourville, 1881

Aproxima-se a praia, a nossa utopia de estimação! Após trezentos e trinta dias encavalitados, podemos, enfim, pasmar o presente e ler o futuro na meteorologia. É tão bom sentir o vento nos pêlos, a água nos calcanhares e um par de mãos a besuntar-nos as costas. E escurecer o mundo com óculos de sol! Se mandasse, decretava obrigatório o uso de óculos de sol. Há pessoas que adoram este enterro da agenda e esta ressurreição dos corpos. Nada se compara a este mergulho imaculado no caldeirão do pecado. A gula, a luxúria, a inveja, a preguiça e o orgulho tostam ao sol. A gente sente-se tão bem! A vida e a alma remam ao sabor da maré. A vida vai a banhos!

Fig 2. Claude Monet. Beach at Pourville, 1882.

Fig 2. Claude Monet. Beach at Pourville, 1882.

Não gosto da praia. Do mesmo modo que a raposa rejeita as uvas. Não me dou com aquele ar molhado e empoeirado, com tempero a sal. Não há momento da praia que não pague com tosse. Por mês, condescendo três idas à areia e uma dúzia à esplanada. É quanto baste! Se, por penitência, desço à praia, entretenho-me a ver a minha sombra a escrever poemas na areia. Guardo estes versos com sete camadas de pudor. Não são poemas. São escapatórias de quem seca sem se ter molhado. Tenho algum carinho por esta Antecipação da praia. Pelos últimos versos:  “semear seixos na areia à espera que cresçam árvores de pedra”. Reconheço-me, a mim e ao meu País.

“Que tenho a força de sumir também”
(Mário de Sá-Carneiro)

Fig3. Pornic. Reflet de plage. 2012

Fig3. Pornic. Reflet de plage. 2012

Antecipação da praia

Na orla salgada
Um pêndulo pasmado
Sem voo, nem asa
Apenas ar trovoado

Desfio nos dedos
O sargaço do tempo
Acendo um cigarro
Nas barbas do sol

Com a alma a tossir
Deixo-me afundar

Fig 4.  Pornic. Sommeil de plage. 2010.

Fig 4. Pornic. Sommeil de plage. 2010.

Num caldo de cinzas
Com búzios de luto

Vultos sem sombra
Passeiam nuvens de pó
Com óculos escuros
E mamilos estrávicos

Corpo dobrado
Semeio seixos na areia
À espera que cresçam
Árvores de pedra

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Sociólogo.

One response to “Semear seixos na areia”

  1. beatrizmartins.artes@gmail.com says :

    É dessa força que gosto!O mar!Não do espetáculo na areia!

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