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Pegadas e caminhos

Cresci pendurado na fronteira. Era difícil não ouvir Juan Manuel Serrat. Natural de Barcelona, os seus primeiros discos (1967 a 1969) continham canções em catalão. Em 1968, é convidado para interpretar a canção espanhola “La, la ,la” no Festival da Eurovisão. Insiste que só interpretará a canção se esta for em catalão. É substituído por Massiel que ganha o Eurofestival. Consta que o governo de Franco proibiu a emissão das canções de Joan Manuel Serrat na televisão e na rádio.

Anacronismo à parte, nas viagens ao passado esbarro com o presente! Em 1969, Joan Manuel Serrat publica um disco dedicado a Antonio Machado (Figura 1). As letras combinam versos do poeta. Pertence a este disco a canção Cantares. No presente vídeo, Juan Manuel Serrat interpreta-a ao vivo, 47 anos depois da primeira edição. A canção mais célebre resgata o seguinte poema de Antonio Machado:

“Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar”.
Antonio Machado. Proverbios y Cantares (XXIX). Campos de Castilla. 1912.

Joan Manuel Serrat. Cantares.1969. Ao vivo em 2016.

Este poema é o lema de uma das obras mais notáveis da sociologia: O Método, de Edgar Morin. O autor demarca-se da epistemologia que me habituei a chamar, nas horas azedas, esquelética da razão, uma espécie de esquemática apostada em antecipar destinos e mapear percursos. Na capa da primeira edição de O Método figura a gravura Drawing Hands (1948) de M.C. Escher. Falta apenas uma leve aragem barroca para dispor as mãos em espiral. Antonio Machado, M.C. Escher, Joan Manuel Serrat e Edgar Morin compõem um quarteto significativo. Não compõem?

“Na origem, a palavra «método» significava caminho. Aqui temos de aceitar caminhar sem caminho, fazer o caminho no caminhar. O que dizia Machado: Caminante no hay camino, se hace camino al andar. O método só pode formar-se durante a investigação; só pode desprender-se e formular-se depois, no momento em que o termo se torna um novo ponto de partida, desta vez dotado de método. Nietzsche sabia-o: «Os métodos vêm no fim» (O Anticristo). O regresso ao começo não é um círculo vicioso se a viagem, como hoje a palavra trip indica, significa experiência, donde se volta mudado. Então, talvez tenhamos podido aprender a aprender a aprender aprendendo. Então, o círculo terá podido transformar-se numa espiral onde o regresso ao começo é, precisamente, aquilo que afasta do começo. Foi precisamente isto que nos disseram os romances de aprendizagem de Wilhelm Meister a Siddharta” (Edgar Morin, La Méthode, 1977. Trad. portuguesa: Publicações Europa-América, p.25).

Carta aos mortos

Vinicius Show de Moraes. 2012, com Ricardo Kelmer e Felipe Breier (à direita)

Vinicius Show de Moraes. 2012, com Ricardo Kelmer e Felipe Breier (à direita)

“Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs
É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir.

(Excerto de Tocando em frente. Composição de Almir Sater e Renato Teixeira)

Death_of_Marat_by_jacques Louis David. 1793.

Jacques-Louis David. Morte de Marat. 1793.

 

 

Felipe Breier é aluno do curso de mestrado em Comunicação, Arte e Cultura. Participou em vários eventos que organizei. É um excelente músico. Juntos, o violão e a voz encantam. Não é propenso a artificialismos. Quando diz que dói é porque dói mesmo. Este vídeo contém um poema e uma canção. São seis minutos de melancolia lúcida. Quando o Felipe dá, é um gosto receber.

Carta os mortos (poema) e Tocando em frente (canção). Interpretação de Felipe Breier.

À espera de São Valentim

the-climate-coalition

O anúncio A love song, da The Climate Coalition, é soberbo. Graças à imagem, à música e à palavra. A música é um original dos Elbow e o poema, um original (I’ve Heard Talk) de Anthony Anaxagorou. As primeiras imagens desfilam com o Blade Runner no retrovisor, nomeadamente, a inesquecível sequência final. Um relance à ficha técnica do anúncio suporta o déjà vu. A agência que produziu o anúncio,  uma curta-metragem, é a Ridley Scott Associates Films. Ridley Scott foi o realizador, entre outros, de Alien (1979), 1492 – A Conquista do Paraíso (1992), Gladiador (2000), Prometheus (2012) e, naturalmente, Blade Runner (1982).

Este ano, sugeri aos alunos de Sociologia da Arte um trabalho inovador: escolher, analisar e comparar, seja para aproximar, seja para contrastar, duas obras de géneros distintos, por exemplo pintura e publicidade. Não é difícil, basta estar atento. Neste anúncio temos, pelo menos, duas obras de géneros distintos passíveis de diálogo: a sequência final do filme Blade Runner e a sequência inicial do anúncio A Love Song. Este anúncio, um poema audiovisual, convoca, certamente, outras obras de outros géneros. A intertextualidade é profusa e vadia.

Anunciante: Climate Coalition. Título: A love song. Agência: Ridley Scott Associates Films. Direcção: Stuart Rideout. Reino Unido, Fevereiro 2017.

I’ve Heard Talk – By Anthony Anaxagorou

I’ve heard talk of a quiet violence
waiting at the water’s edge
where children learn the earth by golden shores
and gulls decorate shadows with all their height.

I’ve heard the mountains speak of their agony
a gripping smog hurting their stone –
the sparrow and the wren salvage hope from the wind
casting their song over the ears of morning,

I’ve seen the mountaineer conquer
the obstinacy of rock with the smallest
of hands, breath leaving his mouth
like an eruption of ampersands.

I’ve heard the forest’s thin call
as it’s left to shudder under its heavy load,
I remember a time it would climb
to paint the world with its green

where now will the lovers go to know each other’s palms?
How will kisses announce themselves to lips
if the path we’ve walked for so long
becomes lost to the noise we share?

I’ve seen how the willow holds its perennial lean
while cliffs frail as deceit drop to the sea.
A rainbow bought and sold for its skin
is worn like victory by another skyscraper.

Lakes still embrace shoals of fish
while icebergs melt like snow on lips.
Seasons start to run from each other
while love’s left to shiver on the edge of a leaf.

But there’s still time to rescue the tranquillity
the fragile space between parks, pitches and sea –
the cosmos in all its wonderment and us,
a blink in its starry eye.

I’ve heard of this kind of dying before
slow, white and expansive. I’ve followed
the groan and made my lungs from the trail.

We are building new rain,
We are harbouring less sight
an infant tilts his head skywards
and asks his mother what’s beyond
she takes him by the hand and says

we will shape the brilliant and new
I very much like you have been saved so many times by a view
yesterday the sun whispered into the moon’s ear
and the moon trembled, turning white with fear.

Anthony Anaxagorou

Atração fatal

A quem mais me atura.

Este anúncio da Toyota é, todo ele, delirante. Concebido e produzido primorosamente, assume-se absurdo e politicamente incorrecto. Uma ode ao grotesco. Animais deixam-se aprisionar e morrer, com um poema nos lábios, deslumbrados por uma carrinha Hilux, o transporte para o paraíso zoológico.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Toyota Hilux

Marca: Toyota Hilux. Título: The Benchmark. Rebuilt. Agência: Saatchi & Saatchi. Nova Zelândia.

O anúncio da Hilux lembra-me a canção Mad World (2001), de Gary Jules e Michael Andrews, um cover dos Tears for Fears (1982). A associação de ideias e de imagens encanta-me, especialmente quando resistem à explicação. Uma vez explicadas, o que ganham em razão, perdem em mistério. Prefiro acreditar que é carnaval no mundo dos neurónios.
Carregar na imagem para aceder ao vídeo musical.

Mad world

Gary Jules & Michael Andrews. Mad World. Dirigido por Michel Gondry. 2001.

Semear seixos na areia

Fig 1. Claude Monet, Marine, Pourville, 1881

Fig 1. Claude Monet, Marine, Pourville, 1881

Aproxima-se a praia, a nossa utopia de estimação! Após trezentos e trinta dias encavalitados, podemos, enfim, pasmar o presente e ler o futuro na meteorologia. É tão bom sentir o vento nos pêlos, a água nos calcanhares e um par de mãos a besuntar-nos as costas. E escurecer o mundo com óculos de sol! Se mandasse, decretava obrigatório o uso de óculos de sol. Há pessoas que adoram este enterro da agenda e esta ressurreição dos corpos. Nada se compara a este mergulho imaculado no caldeirão do pecado. A gula, a luxúria, a inveja, a preguiça e o orgulho tostam ao sol. A gente sente-se tão bem! A vida e a alma remam ao sabor da maré. A vida vai a banhos!

Fig 2. Claude Monet. Beach at Pourville, 1882.

Fig 2. Claude Monet. Beach at Pourville, 1882.

Não gosto da praia. Do mesmo modo que a raposa rejeita as uvas. Não me dou com aquele ar molhado e empoeirado, com tempero a sal. Não há momento da praia que não pague com tosse. Por mês, condescendo três idas à areia e uma dúzia à esplanada. É quanto baste! Se, por penitência, desço à praia, entretenho-me a ver a minha sombra a escrever poemas na areia. Guardo estes versos com sete camadas de pudor. Não são poemas. São escapatórias de quem seca sem se ter molhado. Tenho algum carinho por esta Antecipação da praia. Pelos últimos versos:  “semear seixos na areia à espera que cresçam árvores de pedra”. Reconheço-me, a mim e ao meu País.

“Que tenho a força de sumir também”
(Mário de Sá-Carneiro)

Fig3. Pornic. Reflet de plage. 2012

Fig3. Pornic. Reflet de plage. 2012

Antecipação da praia

Na orla salgada
Um pêndulo pasmado
Sem voo, nem asa
Apenas ar trovoado

Desfio nos dedos
O sargaço do tempo
Acendo um cigarro
Nas barbas do sol

Com a alma a tossir
Deixo-me afundar

Fig 4.  Pornic. Sommeil de plage. 2010.

Fig 4. Pornic. Sommeil de plage. 2010.

Num caldo de cinzas
Com búzios de luto

Vultos sem sombra
Passeiam nuvens de pó
Com óculos escuros
E mamilos estrávicos

Corpo dobrado
Semeio seixos na areia
À espera que cresçam
Árvores de pedra