Leveza sobre rodas

70 ans de légèreté é um anúncio de sonho, acelerado e vertiginoso, com recurso inspirado à banda desenhada. Condiz com o país, a França, e com a marca, a Alpine, um ícone do mundo automóvel que completa 70 anos de existência. [Artigo sugerido: A civilização da leveza].
Morte Social e Sorte Grande
A crença universalmente difundida segundo a qual o medo da morte física é o maior dos medos do homem é altamente contestável. Incomparavelmente mais mortal é o seu medo da morte social, isto é o medo de ser desacreditado, ignorado ou escarnecido” (Günther Anders. Sténogrammes philosophiques. Ed. orig. 1965).
A memória de Jeff Buckley conduziu-nos aos Estados Unidos onde, em termos musicais, nos vamos demorar. Entretanto, uma pausa para publicidade. Insatisfeito com os anúncios mais recentes, demandei os premiados na última década no Festival de Cannes.

“Justino”, estreado em 2015, proporcionou um reencontro encantador. Partilhado no Tendências do Imaginário em dezembro de 2018 (ver Justino e os manequins), não resisto a recolocá-lo. Continua a sensibilizar-me, embora de um modo distinto. Em 2018, ainda não detinha a mínima experiência de “morte social”.
Imagem: Jean-Joseph Perraud – Desespero. Musée d’Orsay
No anúncio, tudo parece suceder como se Justino, anestesiado em rotinas e sem convívio, não existisse para os outros. Mas não se senta ao lado de outros transeuntes nas deslocações para o trabalho? Não vive em função dos outros? Morte social significa a nossa ausência na sociedade, não a ausência da sociedade em nós. A presença da sociedade em nós pode até ser obsessiva. Esse é um dos dramas da morte social. Justino sobrevive num armazém humanizando manequins. Poderia ser numa paisagem hertziana animada por pixéis ou num retiro qualquer onde são esquecidas as figuras outrora célebres. Apagar pessoas pode ser desumano, nem por isso deixa de ser corriqueiro.
Na realidade, resulta complicado sair de um estado de morte social. Inclino-me a acreditar mais na ressurreição mística do que na social. Uma vez acabado, nem sequer “cevada ao rabo”! Uma derradeira valsa sem parceiro. A não ser que sobrevenha algum “milagre” improvável: um bilhete de lotaria, uma fagulha de poder, um estranho reinteresse quase póstumo… Algo que desperte a atenção e a vontade alheias, que contrarie a sua inércia. Ámen!
As almas têm ossos?

Tendemos a adotar uma relação complicada com o interior do corpo, incluindo os ossos. Temos. aliás, propensão a “ter um certo respeito” por quase tudo que é interioridade, com o corpo (e, por extensão, a terra) a assumir-se como uma espécie de matriz simbólica.
Regra geral, o que está sob a pele ou se exterioriza constrange: órgãos, nervos, cartilagens, ossos, carne, tumores, calos, verrugas, acne, borbulhas, sangue, pus, urina, fezes, transpiração, bafo, hálito, flatulência, rugidos gástricos, arroto, ronco…
Denegamos, combatemos e disfarçamos os conteúdos e as manifestações desta natureza invisível, mas congénita, procurando preservá-la secreta ou, pelo menos, discreta. Sabemo-lo, a Chichen Licken, também!
Os pés

Et puis je jouais avec mes pieds
C’est très intelligent les pieds
Ils vous emmènent très loin
Quand vous voulez aller très loin
Et puis quand vous ne voulez pas sortir
Ils restent là ils vous tiennent compagnie
Et quand il y a de la musique ils dansent
On ne peut pas danser sans eux
Il faut être bête comme l’homme l’est souvent
Pour dire des choses aussi bêtes
Que bête comme ses pied gai comme un pinson
Le pinson n’est pas gai
Il est seulement gai quand il est gai
Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste
(Excerto do poema Dans ma maison de Jacques Prévert. Paroles. 1946)
O Êxtase de Santo Horácio Jogador

Horácio, transformado em rato, recupera a humanidade graças ao prazer do jogo (gaming). Seguimo-lo na azáfama quotidiana como rato: ambiente sobrepovoado, tédio laboral, almoço apressado na secretária. A rotina é interrompida por aparições breves de jogadores misteriosos — os únicos humanos entre os ratos. Findo mais um dia interminável, Horácio liga o Xbox na TV OLED Samsung e conecta-se com os amigos. Uma dose de diversão imprescindível que o converte no ser humano que sempre foi (Tradução muito livre).
“Deus criou três inimigos por causa dos nossos pecados: o rato nas nossas casas, a raposa na montanha e o cura na nossa paróquia” (provérbio da América Latina)”. Que fazer contra o estigma, a obsessão profundamente enraizada? Pobres ratos, associados ao mal, calhou-lhes o lado noturno do imaginário.
Às voltas. O Ouroboros

A propósito da folia, música e dança de origem portuguesa (ver A folia portuguesa), comentou-se que continuava a inspirar novas versões, aludindo a Rita Ribeiro a um grupo célebre, sem, contudo, se lembrar do nome. Tão pouco consigo adivinhar.
Posteriormente, acudiu-me que a Rita talvez estivesse a pensar nos britânicos Penguin Cafe Orchestra. Por acaso, dias antes, ao escutar o álbum Ummagumma (1969), dos Pink Floyd ,tinha-me ocorrido que a música “The Narrow Way, Part I” prenunciava um pouco o estilo dos Penguin, cujo primeiro álbum, Music from the Penguin Cafe, foi lançado em 1976.
Às voltas com a noção de circularidade na teoria do imaginário do Gilbert Durand, a música Perpetuum Mobile, dos Penguin, acabou, também, por ressoar nos meus ouvidos.
Enfim, penso ilustrar, numa próxima comunicação, a referida noção de circularidade com a gravura do M. C. Escher “Um Encontro” (1944), que, por sinal, é capa do livro da Rita As lições dos aprendizes (2001)…

Tantas voltas que a serpente, o Ouroboros, dá! Até acaba por morder a própria cauda, renovando o ciclo.
Origami mágico

Ontem, tive um momento de glória. Consegui a façanha de mostrar ao Fernando um vídeo japonês que ele ainda não conhecia. E adorou! Uma lança em África. Sinto uma ponta de orgulho. Convenha-se que o vídeo Origami, realizado pelo jovem japonês Kei Kanamori, é fantástico. Curto, com menos de três minutos, nele cabe um vendaval de arte e sonhos.
Cativa-me a palavra origami. Há quase vinte anos, ilustrei uma conversa em Viana do Castelo com uma compilação de anúncios publicitários batizada Origami Mágico (ver Lição Imaterial: https://tendimag.com/2020/03/13/licao-imaterial/).
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É realmente belíssimo, veloz, imaginativo, ritmado, e pensar que tudo cabe numa folha de papel. A palavra origami também me fascina, e o origami em si mesmo ainda mais. Sem perder uma única dobra, tudo é possível neste imaginário. E remontando às vertigens do barroco e às suas dobraduras, diria que o origami representa a precisa vertigem do efémero. Tudo se resume à mudança e à capacidade de se reinventar. Dispersa-se com o vento, consome-se no fogo e dissolve-se na água. É um ritual da alma e celebra o espírito na sua magia de renovação. Sem amarras. Preces e oferendas, dobras infinitas. (Almerinda Van Der Giezen, 25.03.2023)



























