Anúncio português vintage 4. Quanto mais cópias, menos originais
Folha a folha, apaga-se a floresta. O anúncio “Cópias”, do Observatório do Ambiente, não precisa nem mais tempo, nem mais imagens. “Quanto mais cópias, menos originais. Não desperdice papel”. Neste aspeto, bem-vindo o digital. [Carregar na imagem para aceder ao vídeo]

O papel como destino


Há imagens que valem mais do que mil palavras.
Consta que Prometeu trouxe o fogo e o progresso. Pois, parecem insinuar-se espectros de árvores em papel precoce.
Uma espécie de memento mori?
Acode-me um artigo publicado há dez anos, no dia 30 de agosto de 2015, O Abismo, que anexo.
Imagem: Jan Cossiers – Prometeo trayendo el fuego, 1636-1638. Museu do Prado
O abismo (30.08.2015)

Em 2012, participei num documentário dedicado a uma árvore de Guimarães. Competia-me cuidar do simbolismo. A árvore é um ser cósmico vivo que acolhe a vida. Agarra-se à terra, bebe água, eleva-se no ar e consume-se no fogo. É uma ponte vertical entre as profundezas da terra e as alturas do céu. Há quem associe a árvore ao sagrado. E ao demoníaco, também. A árvore ergue-se como um marco da memória individual e colectiva. Quando regresso às origens, visito as árvores: a pereira e a tangerineira partiram sem avisar. Menos dois troncos de memória, menos dois anjos da guarda. Valem-me, para compensar, as rotundas e os semáforos. O anúncio Farewell to the forest, da Unilever, sublinha que, no mundo, a cada minuto, é desarborizado o equivalente a 36 estádios de futebol. Um abismo!
O antropólogo George Condominas publicou, em 1957, o livro Nous avons mangé la forêt (Comemos a floresta; Paris, Mercure de France). Estuda os Mnong-Gar dos planaltos do Vietname. Tinham o seguinte costume: num ano, desbastam uma parte da floresta onde semeiam, por exemplo, arroz; no ano seguinte, cortam outra parte da floresta. Ano a ano repetem a proeza. Até que, volvidos vários anos, regressam ao início onde os espera uma floresta recomposta. E recomeçam “a comer a floresta”… É possível explorar a floresta sem a destruir.
Martirografia

Impressionou-me a aguarela “Os mártires da Líbia” (2018), da autoria de Nikola Saric, artista sérvio residente na Alemanha (ver Interview With Nikola Sarić). Foi concebida em memória dos 21 operários coptas assassinados pelo Daesh, na Líbia, em 15 de fevereiro de 2015. À primeira vez, pensei estar perante uma imagem medieval. Ocorreu-me, então, a palavra “martirografia” para aludir à análise das imagens respeitantes a mártires e martírios.

Não encontrei a palavra “martirografia” nos dicionários de língua portuguesa que consultei. Mas, como de costume, acabo por “inventar a pólvora”. Um vício entranhado que me dá um certo gozo.
Outros já tiveram a mesma inspiração, muito embora em italiano. Por exemplo, Roberta Denaro no subtítulo da obra Dal martire allo sahid: Fonti, problemi e confronti per una martirografia islamica, publicada em 2007.
“Os mártires da Líbia”, de Nikola Saric, foi recentemente incluída na coleção do Petit Palais, de Paris. Esta aquisição justifica uma notícia circunstanciada pela Aleteia, redigida por Caroline Becker, que entendo colocar. Para aceder ao artigo correspondente, carregar no seguinte endereço: https://fr.aleteia.org/2019/09/27/une-icone-sur-le-martyre-des-21-coptes-accrochee-au-petit-palais/. Acrescento a tradução simultânea do texto.
| “ O Petit Palais acaba de fazer uma aquisição verdadeiramente emocionante. O museu parisiense adquiriu uma enorme aquarela contemporânea pintada em memória dos 21 trabalhadores coptas assassinados pelo Daesh na praia de Sirte, Líbia, em 15 de fevereiro de 2015. Uma tragédia que muitos não esqueceram, incluindo o pintor Nikola Saric, autor desta obra inspirada na iconografia bizantina. Na parte superior, Cristo é cercado por uma suave luz rosa. Sua figura entronizada e hierática é contrabalançada pela bondade de seu rosto. Num gesto paternal, seus braços se estendem e abraçam seus filhos, os 21 mártires cristãos egípcios brutalmente assassinados pelo Daesh em 2015 em uma praia da Líbia. Um drama filmado, visto por milhões de internautas, que ninguém esqueceu. Nikola Saric, o artista cristão sérvio por trás desta obra, também não se esqueceu. Ansioso por transcender esse martírio coletivo, ele escolheu a pintura como válvula de escape. O resultado é um ícone fortemente inspirado na iconografia tradicional bizantina. Composta a partir do vídeo da execução, a obra sintetiza os diferentes elementos da encenação: os 21 reféns, alinhados de joelhos, vestem macacões laranja. Os carrascos, atrás deles, formam outra fila e estão escondidos sob trajes pretos com capuz. Eles seguram os condenados no chão, com facas na mão. O artista optou por incluir a figura de Cristo para recordar o sacrifício dos coptas que se recusaram a renunciar à sua fé. A sua presença realça, assim, que não se trata de uma simples execução, mas sim de um martírio. Cristo também está, simbolicamente, vestido com a mesma cor laranja. Uma iconografia que lembra o ícone dos Quarenta Mártires de Sebaste , um ícone do século XV que narra o martírio de 40 soldados cristãos durante o reinado do imperador romano Licínio, em 320. Outro martírio coletivo testemunhado por Cristo e do qual Nikola Saric se inspirou para criar o seu ícone. Com esta obra contemporânea, o artista sérvio coloca-se imediatamente na linhagem dos ícones hagiográficos. Com esta aquisição, o museu parisiense completa sua já impressionante coleção de ícones. No entanto, esta é a primeira vez que adquire um ícone contemporâneo, marcando uma virada na história de suas coleções. Com esta obra original, a instituição testemunha eventos recentes da história e revela o nascimento do culto aos santos contemporâneos. Os 21 coptas já estão, de fato, listados no Synaxarium , o equivalente ao Martirológio Romano para a Igreja Copta, o que significa que já estão canonizados.” |
| (Caroline Becker, ” Um ícone do martírio dos 21 coptas pendurado no Petit Palais”. Aleteia, publicado em 27/09/2019) |

Jogar às cartas com o Diabo 3. E a vida sorri! Rejuvenescimento tardio

O alívio não basta! Não move moinhos. Importa restaurar. Inverter, na medida do possível, o prolongado envelhecimento precoce. Arregaçar a vontade e pôr a alma a pedalar. Os artigos Reincidência (06.08.2021) e Aleijados (07.08.2021) expressam este sonho de rejuvenescimento tardio.
No mesmo dia, 15 de julho de 2021, os astros sintonizaram-se numa constelação estelar ímpar. Apareceram anjos em dois hospitais. Em Braga, a neurologista Margarida Rodrigues desmascarou o Mal, abrindo, a porta à cura; em Antuérpia, nasceu a neta Sara, um passarinho acabado de sair do ovo. Uma deu vida, a outra fôlego. Ambas as graças merecem um cântico de natividade especial: “Sã qui turo zente pleta” (Sara, 05.08.2021). Estou a incorrer em pensamento mágico? Certamente, mas a fé e a magia são performativas. Não movem só moinhos, mas até montanhas. Assim iniciou uma nova maratona. Com os restos do corpo que sobraram….
Seguem os artigos Sara (05.08.2021), Reincidência. O híbrido e o ciclista (06.08.2021) e Aleijados (07.08.2021).
Sara
Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo (Miguel Torga).

E a vida sorri! A Sara nasceu no dia 15 de Julho de 2021.
Reincidência. O híbrido e o ciclista

Sem descurar a pedalada belga, holandesa e chinesa, a França é, em termos míticos, o país do ciclismo. Retenha-se, por exemplo, o filme As Bicicletas de Belleville (ver anexo 2) ou o álbum Tour de France, dos Kraftwerk (anexo 3). O protagonista do anúncio Unstoppable, da Renault, é um veterano ciclista que regressa à estrada. Barroco, o argumento não é original (anexo 1). Um sucedâneo da lenda da fonte da juventude, neste caso, a prenda.. Empolgante, o anúncio é extenso, sinuoso, invertido e retorcido. Ironicamente, vejo e revejo este anúncio sentado numa cadeira de rodas.
Anexo 1: Anúncio Dream Rangers.
Anexo 2: Trailer do filme Les Triplettes de Belleville.
Anexo 3: Tour de France, dos Kraftwerk.
Aleijados
Oscilamos entre o gesto da compaixão, que sofre com o outro, e o olhar à distância que se deleita com ao espetáculo da miséria do mundo (inspirado em Hannah Arendt e Luc Boltanski).

Acorda devagar! Humano. Não te importes de perder tempo. Ganhas seiva e vida! O anúncio tailandês Beautiful Run é magnífico. Um épico do sofrimento e da solidariedade. Excessivo, lento e repetitivo. Diria, “maneirista”. Uma jovem inválida participa numa maratona para curar o pai. Não há maior competição do que aquela que mobiliza as pernas da alma.
A minha escrita foi-se tornando minimalista. Com a recente abstinência forçada, o vício agravou-se. Não escrevo textos. Escrevo esqueletos de palavras.
Jogar às cartas com o Diabo 2. Chove no inferno
No dia 3 de agosto de 2021, após três semanas de internamento, tive, enfim, alta. Pouco são, mas salvo [aguardava-me cerca de um ano de cadeira de rodas e ainda não dispenso a bengala]. Espreitava, porém, a esperança. A tendência desenhava-se auspiciosa: de mal para melhor. Chegado a casa, logo acudi ao Tendências do Imaginário. Era o reencontro com uma componente pessoal de que sentia saudades.

Os primeiros artigos suspiravam alívio. Recomeçava o alfabeto [Vangelis- Alpha]. “Sobrevivente do desespero (…) estava de volta” (Regresso, 03.08.2025); escapara graças a um fenómeno contranatura: “choveu no inferno” (Alívio, 04.08.2025). A terra ainda ressumava um cheiro abençoado a fumo molhado.
Seguem os artigos Regresso (03.08.2021) e Alívio (04.08.2021)
Regresso
Uma coisa é escrever sobre a morte, outra privar com ela. Durante um ano, fui vítima de intoxicação severa não diagnosticada. Uma degradação galopante interminável. Para fumar, tinham que me segurar no cigarro. Sobrevivente do desespero. Acabei internado, uma semana nos cuidados intensivos. Cruzei-me com a morte e não dei por ela. Nem sombra de memória. Espero estar de volta. Obrigado!
Alívio
Chove no inferno!
Trans. Antony e Anohni
A neta já partiu e os dois textos agendados, um prefácio e uma recensão, já saíram da forja. Solitário, como quase sempre, e com tempo disponível, regresso ao vício, ao Tendências do Imaginário [por exemplo, ler artigos de história da arte seria mais edificante].
Escrevo este post a pensar em amigas que lamentam ter perdido o rasto do Antony, leader da banda Antony and the Johnsons.

Por volta de 2015, Antony assume-se transgénero, muda o nome para Anohni e pede para ser tratada no feminino, como mulher.
Antony, publicou quatro álbuns: Antony and the Johnsons (2000), I Am a Bird Now (2005), The Crying Light (2009) e Swanlights (2010). A Anohni, que tenha conhecimento, três: Hopelessness (2016), Paradise (2017) e My Back Was A Bridge For You To Cross (2023).
“Anohni e a sua banda são uma presença assídua em Portugal, onde já atuaram em Lisboa, Porto e em Braga. Anohni considerou o Theatro Circo um “local mágico” e um dos mais belos teatros onde já havia tocado.” (Wikipedia, Anohni, consultado 30.07.2025).
Segue uma mão cheia de canções do último mais recente da Anohni (My Back Was A Bridge For You To Cross, 2023): “Sliver of Ice”; “Spacegoat”; “Rest”, “You Be Free”; e “It Must Change”.
Cosmética pomífera. Maçãs, ideias e ilusões

“Se tens uma maçã [um dólar] e eu tenho outra; e trocamos as maçãs [os dólares], então cada um ficará com uma maçã [um dólar]. Mas se tens uma ideia e eu tenho outra, que partilhamos; então cada um terá duas ideias.” (A partir de George Bernard Shaw)
Imagem: George Bernard Shaw
Numa série de anúncios provenientes da Arábia Saudita, a Apple propôe-se contribuir para a (re)composição dos retratos e dos laços de família, designadamente no que respeita ao protagonismo e ao encanto dos membros atuais e futuros. Trata-se de uma gestão da imagem capaz de potenciar o desígnio de ilusionismo almejado, sobretudo, por tantas figuras públicas, ver políticas.
A Nova Arca de Noé
A nova Arca, com asas, ou o novo Noé, do Extremo Oriente?
Preguiças, flamingos, alpacas, pinguins e outras criaturas adoráveis são as estrelas da mais recente campanha da Cathay Cargo, que realça a atenção e a zelo meticulosos que cada animal desfruta ao viajar com os serviços de Animais Vivos da Cathay Cargo. Concebida com a ajuda da agência criativa Leo Hong Kong, a campanha reinventa uma “arca” moderna – só que com asas, sem velas – para mostrar a espetacular diversidade de animais que podem viajar com a companhia aérea, bem como o cuidado personalizado que recebem em cada voo. (https://www.bestadsontv.com/ad/179410/Cathay-Live-Animal-We-Carry-Them-All-Big-And-Small).
Inicia no dia 28 de julho, até 3 de agosto, a 11ª edição do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço, uma iniciativa a vários títulos única e notável. Acerca do programa deste ano, João Martinho publicou no jornal Voz de Melgaço uma apresentação ao mesmo tempo atenta e concisa: “MDOC 2025: Novos olhares e reflexões sobre o território regressam de 28 de julho a 3 de agosto”.


