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Morte Social e Sorte Grande

A crença universalmente difundida segundo a qual o medo da morte física é o maior dos medos do homem é altamente contestável. Incomparavelmente mais mortal é o seu medo da morte social, isto é o medo de ser desacreditado, ignorado ou escarnecido” (Günther Anders. Sténogrammes philosophiques. Ed. orig. 1965).

A memória de Jeff Buckley conduziu-nos aos Estados Unidos onde, em termos musicais, nos vamos demorar. Entretanto, uma pausa para publicidade. Insatisfeito com os anúncios mais recentes, demandei os premiados na última década no Festival de Cannes.

“Justino”, estreado em 2015, proporcionou um reencontro encantador. Partilhado no Tendências do Imaginário em dezembro de 2018 (ver Justino e os manequins), não resisto a recolocá-lo. Continua a sensibilizar-me, embora de um modo distinto. Em 2018, ainda não detinha a mínima experiência de “morte social”.

Imagem: Jean-Joseph Perraud – Desespero. Musée d’Orsay

No anúncio, tudo parece suceder como se Justino, anestesiado em rotinas e sem convívio, não existisse para os outros. Mas não se senta ao lado de outros transeuntes nas deslocações para o trabalho? Não vive em função dos outros? Morte social significa a nossa ausência na sociedade, não a ausência da sociedade em nós. A presença da sociedade em nós pode até ser obsessiva. Esse é um dos dramas da morte social. Justino sobrevive num armazém humanizando manequins. Poderia ser numa paisagem hertziana animada por pixéis ou num retiro qualquer onde são esquecidas as figuras outrora célebres. Apagar pessoas pode ser desumano, nem por isso deixa de ser corriqueiro.

Marca: Lotería de Navidad. Título: Justino. Agência: Leo Burnett Madrid. Direcção: Juan García-Escudero. Espanha, 2015.

Na realidade, resulta complicado sair de um estado de morte social. Inclino-me a acreditar mais na ressurreição mística do que na social. Uma vez acabado, nem sequer “cevada ao rabo”!  Uma derradeira valsa sem parceiro. A não ser que sobrevenha algum “milagre” improvável: um bilhete de lotaria, uma fagulha de poder, um estranho reinteresse quase póstumo… Algo que desperte a atenção e a vontade alheias, que contrarie a sua inércia. Ámen!

Johannes Brahms – Waltz No. 15 in A-Flat Major, Op. 39 (Remastered). Piano: Philippe Entremont. Entremont Plays Best-Loved Piano Pieces, 2019

Frustrações e alívios

O triunfo da Internet comporta alguma desilusão e inquietação. Se o anúncio El Camino , da Fundación Contradicción chilena, alerta para a propagação dos jogos online e consequente ludomania, o anúncio “Social Off Socials”, da Heineken, prime uma tecla demasiado batida: os riscos de isolamento e solidão associados ao (sobre)envolvimento nas redes sociais, aproveitando para realçar a importância dos redutos de socialização presencial, tais como os bares.

A Internet não tem só inconvenientes. Graças a ela, saltamos, num ápice, do Chile para a Índia, e da Índia para a Itália. Mas sem bilhete da sorte para uma viagem afortunada (Lucky Yatra). Quem saltita e se dispersa multiplica e diversifica pontes e fontes.

Marca: Heineken. Título: Social Off Socials. Agência: LePub Milan. Direção: Bradley & Pablo. Itália, abril 2025

Fragâncias do Inferno

De Adriano Celentano para Sharon Kovacs. Do verso para o reverso, do segundo para o terceiro milénio, do luminoso para o sombrio, de Itália para Holanda. A música e as letras tornam-se mais tensas, pesadas e disfóricas. Estranha-se e custa a entranhar, mas acaba-se por saborear, senão venerar, como se aprecia o molho de alho ou o sumo de limão bem feitos.

Kovacs & Till Lindemann – Child Of Sin (Official Video). Child of Sin, 2023
Kovacs – My Love (Official Video). EP, 2014. Shades of Black, 2015
Kovacs – The Devil You Know (Official Video). Shades of Black, 2015
Kovacs & Metropole Orkest – Night of the Nights. Shades of Black, 2015. Metropole Session in Muziekcentrum van de Omroep, Hilversum, 2017
Kovacs – Cheap Smell (Live at Wisseloord). Cheap Smell, 2018

Nova arte pós-moderna

fahrenheit DDB Lima. Perú

A bricolagem caseira improvisada pode estar na origem de uma nova forma, imprevisível e efémera, de arte pós-moderna, eventualmente herdeira de um cruzamento de Magritte com Escher.

Marca: Promart. Título: Postmodern Homelistic Art. Agência: Fahrenheit DDB Lima. Perú. Seleção Cannes Lions 2015

A criatividade não costuma ser um ato isolado. Quando deparo com algo que me surpreende, disponho-me a procurar mais, a desfiar o novelo. No que respeita à publicidade, sigo normalmente três fios: a marca, a agência e o diretor. Desta vez, começo a busca pelo próprio Tendências do Imaginário. Conta 4 314 artigos (posts) que contemplam muitas centenas de anúncios, por acréscimo filtrados pelo meu radar e pelo meu sistema de relevâncias. Convenha-se que este blogue, ativo desde 2011, se tornou um arquivo apreciável.

Descobri cinco anúncios criados pela agência Fahrenheit DDB Lima, entre os quais este Postmodern Homelistic Art. Três para marca Promart. Em suma, graças a uma memória preguiçosa, constato que não me surpreende apenas o novo mas também o repetido, aliás já retido.

Os demais quatro anúncios, apostados na ironia e na provocação, manifestam-se primorosamente concebidos e apresentados. Recomendo a visualização. Segue a indicação do título, da marca, do ano e do artigo/link em que está acessível.

É a escala, estúpido!

Reparei hoje, não me lembra onde (Facebook, e-mail ou jornal), que está aberto o sétimo concurso do Programa Promove, destinado à dinamização das regiões do interior de Portugal, lançado pela Fundação “la Caixa” em parceria com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Passo a transcrever:

Objetivos
O Programa Promove tem por objetivo apoiar iniciativas inovadoras em domínios estratégicos para o desenvolvimento das regiões do interior com dinâmicas fronteiriças e que sejam replicáveis para outras regiões com características semelhantes.
A edição 2025 apoia três tipos de iniciativas:
Projetos-piloto inovadores;
Projetos de I&D mobilizadores;
Ideias com potencial para se tornarem projetos-piloto inovadores. (…)
Áreas geográficas
O presente Programa está aberto a entidades que pretendam desenvolver projetos apoiados localizados nas áreas geográficas seguintes:
Norte: municípios das NUTS III Alto Tâmega, Terras de Trás-os-Montes e Douro.
Centro: municípios das NUTS III Beiras e Serra da Estrela, e Beira Baixa.
Sul: municípios das NUTS III Alto Alentejo, Alentejo Central e Baixo Alentejo, e ainda municípios de Alcoutim, Castro Marim e Monchique, bem como as freguesias de São Marques da Serra do município de Silves, Alte, Ameixial, Salir e Querença / Benfim / Tôr do município de Loulé, e Cachopo e Santa Catarina de Fonte do Bispo do município de Tavira, da NUTS III Algarve.
Mapa [pdf]

Observando o mapa, não consigo evitar a uma pergunta:

Que motivos, substantivos, justificam que municípios como Chaves, Lamego, Vila Real, Bragança, Mirandela e Miranda do Douro se possam candidatar ao contrário de outros como Paredes de Coura, Ponte da Barca, Terras de Bouro, Cabeceiras de Basto, Mondim de Basto ou Vieira do Minho? No primeiro grupo, o rendimento bruto declarado médio por sujeito passivo era, em 2022, superior a 11400 euros; no segundo, inferior a 9600 (ver mapa 1 e tabela 1).

Mapa 1: Valor mediano do rendimento bruto declarado por agregado fiscal. Municípios. 2022

Fonte: Estatísticas do rendimento ao nível local – 2022. INE, 2024

Não consegui aceder a nenhum índice sintético de desenvolvimento desagregado por municípios. Recorro, como complemento, ao índice de envelhecimento, habitualmente associado às realidades, tendências e dificuldades da interioridade. Na tabela 1, não se observam diferenças significativas entre os municípios dos grupos acima referidos.

Poderia convocar outras variáveis, de índole económica, demográfica ou sociológica, mas não desejo demorar-me sobre o assunto. Não é água que me mova o moinho.

Então? Então, o busílis pode residir na escala e na demarcação. Já antes de Galileu se sabia que consoante a escala muda a realidade e Pierre Bourdieu enfatizou que dividir era decidir e dominar. Em suma, o território, com a exceção do Algarve, foi repartido por NUTS 3 e não por municípios.

Em Portugal, existem NUTS 3 que são mais heterogéneas dentro de si do que entre si. No Alto Minho, no Cávado e no Ave são enormes as disparidades entre os municípios do litoral e dos vales e os municípios do interior e de montanha. Por outro lado, não é menosprezável a proximidade destes últimos com, por exemplo, o Alto Tâmega e o Barroso e dos primeiros com a Área Metropolitana do Porto. A divisão por NUTS 3 tem destas artes!

Mapa 2: Índices de envelhecimento. Municípios. 2023

Fonte: PORDATA/INE

O problema da escala cruza-se com o da demarcação, da di-visão do território. Como se pode comprovar nos mapas 1 e 2, no Norte, a linha de clivagem ou a transição, entre o litoral e o interior não coincidem com as fronteiras entre as NUTS 3, por exemplo, do Alto Minho e do Cávado, por um lado, e, por outro, do Alto Tâmega e Barroso. Desenham-se, antes, no próprio seio das NUTS 3 do Alto Minho e do Cávado.

No Noroeste de Portugal, a divisão por NUTS 3 pouco se afasta da distribuição por distritos. A NUT 3 do Alto Minho corresponde ao distrito de Viana do Castelo e as NUTS 3 do Cávado e do Ave, com a ressalva da troca entre Mondim e Celorico de Basto, correspondem ao distrito de Braga. Formalizada há quase dois séculos, em 1835, a divisão do território nacional por distritos constitui uma relíquia do património histórico, ver arqueológico. Em princípio, nada a obstar. Uma unidade administrativa não precisa ser homogénea. Convém, todavia, precaver que, como diria Karl Marx, “o morto não se apodere do vivo”.

A adoção de um ponto de vista parcial, tendencioso, costuma tornar a leitura mais fácil, mas menos lúcida. Importa fazer um esforço de descentramento no sentido de partilhar o outro lado da questão.

Qualquer divisão do território nacional tem que adotar uma escala ou engenhar uma partição que coteje, cole, várias. Para o objetivo do referido concurso/programa (“o desenvolvimento das regiões do interior), a repartição por NUTS 3 não é de desconsiderar, antes pelo contrário. Resulta mais fina do que por NUTS 2. Por seu turno, a desagregação por municípios, além da difícil construção, complicaria a cartografia complicada e comprometeria a operacionalidade. Acresce que o principal argumento esgrimido contra a divisão por NUTS 3, a heterogeneidade interna, também vale para os municípios, com assimetrias internas apreciáveis, por exemplo, entre freguesias da montanha e do vale ou urbanas e rurais.

Nesta ótica, o que pode suscitar reservas? A ponderação da inclusão/exclusão de determinadas NUTS 3 e e a estranheza de não se ter feito para o Minho o que se fez para o Algarve.

Sobra, mesmo assim, a impressão de que, sem ofensa, no caso de alguns municípios, “andam os rotos a ver passar os esfarrapados”. Particularizando, os municípios do arco interior do Minho [ ver pdf anexo: As gentes do Minho] debatem-se, nesta como noutras iniciativas e circunstâncias, com uma situação desconfortável de “duplo vínculo”: “presos [excluídos] por ter cão e presos [excluídos] por não ter”.

Incomoda-me ter desperdiçado algum tempo com este arrazoado. Nada ganho pessoalmente, a não ser mais uma inconveniência. Aliás, até perco: ao fazer download de um pdf, avariei uma pen, por sinal, com muita informação exclusiva.

Sôfregos e insensatos

Three great forces rule the world: stupidity, fear and greed  /Três grandes coisas governam o mundo: a estupidez, o medo e a ganância (Albert Einstein)

Uma pesquisa no Tendências do Imaginário a partir da palavra “amamentação” conduziu-me ao artigo Born to be wild, de 2013. Um vídeo perdera a fonte e a resolução de outro deixava a desejar. Entendi recauchutá-lo. Acrescentei a canção The Pusher, dos Steppenwolf, que, tal como Born to be wild, integra a banda sonora do filme Easy Rider. Creio que mais que selvagens ou traficantes, tornámo-nos uns sôfregos insensatos.

*****

BORN TO BE WILD (Revisão do artigo de 6 de janeiro de 2013)

Steppenwolf. Born to be wild – A retrospective -1966-1990. 1991. Capa

Born to be wild. As árvores, naturalmente! Crescem na vertical e morrem de pé. Nós crescemos domesticados e com uma coluna vertebral muito flexível. Começámos logo na primeira amamentação a beber cultura. Para ser selvagem, é preciso renascer sem cordão umbilical. As feras que compunham o público deste tipo de música, podemos observá-las no concerto dos Focus, em 1973. Filho às cavalitas, cabelos l’orealizados, o futuro entalado nas calças e camisolinhas justas, curtas e sem mangas. Uma selvajaria muito mimosa!

Born to be wild, de 1968, foi o maior sucesso da banda canadiana Steppenwolf. Readquiriu notoriedade com o filme Easy Rider (1969). Este concerto é de 1969.

Steppenwolf – Born To Be Wild. Single, 1968. Ao vivo em 1969

Hocus Pocus, de 1971, foi o maior sucesso da banda alemã Focus. Este concerto é de 1972. A qualidade do vídeo não é a melhor, mas o conteúdo compensa.

Focus – Hocus Pocus. Moving Waves, 1970. (Live At Pinkpop Festival 1972
Steppenwolf – The Pusher (cover de Hoyt Axton, 1963). Single, 1967

Crescer em ambiente hostil

A indústria musical australiana atravessa um momento difícil: festivais cancelados e salas de espetáculo encerradas. Segundo a Australian Recording Industry Association (ARIA), a Austrália é o décimo mercado musical do mundo, mas apenas quatro álbuns e três singles de artistas australianos alcançaram o top 100 em 2023.

Imagem: Briggs

Para contrariar esta situação, a Sprout, marca de acessórios musicais, concebeu a plataforma criativa Homegrown Sound, cuja campanha de lançamento estreia “Munarra”, o novo single de Briggs, artista indígena que funde hip-hop e heavy metal. Inspirado no seu próprio percurso de vida, Briggs pretende “ultrapassar os limites (…) contar uma história sobre o que significa crescer em ambiente hostil e emergir disso com força”. O resultado é brutal, insólito e visceral. Um dos vídeos musicais mais impressionantes de que guardo memória.

Marca: Sprout. Artista: Briggs. Título: Munarra. Agência: +61 / Bear Meets Eagle On Fire. Direção: Tom Noakes. Austrália, novembro 2024

Distância social. A cerca

Muros e barreiras representam um tema que afeta particularmente a memória de alguns povos. Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo do anúncio Der Zaun.

Marca: Kaufland. Título: Der Zaun. Agência: Kaufland In House. Direção: Thomas Garber. Alemanha, dezembro 2022

Barreiras e erupções

Je prends mes désirs pour des réalités car je crois à la réalité de mes désirs / Tomo os meus desejos por realidade porque acredito na realidade dos meus desejos (slogan de Maio 68)

Marca: Deutsch Telekom. Título: Bubbles. Agência: MUW Saatchi & Saatchi (Bratislava). Direção: Alex Feil. Alemanha, novembro 2024

Diga-o com robots!

Trauma, garra, amor, frustração, engano… diga-o com máquinas, de preferência com robots! Resulta mais eloquente.

Anunciante: War Child. Título: Escape Robot. Produção: Raw London. Direção: Thomas Martin. Reino Unido, janeiro 2018
Marca: Oxford. Título: Cool Robot – Never Give Up. Agência: gyro:paris. Direção: Drake Doremus. França, agosto 2016
Anunciante: Cinemark & Hoyts. Título: Robot. Agência: Geometry. Direção: CLAN. Argentina, 2019
Marca: Carl’s Jr. Título: Robot. Agência: David&Goliath (Los Angeles). Direção: Rocky Morton. Estados Unidos, 2011
Marca: Hamlet. Título: Robots. Agência: Cdp. Reino Unido, 1977